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CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DE VYGOTSKY PARA A ALFABETIZAÇÃO DE ADULTOS


Conceição de Souza Licurgo Soares - UNIOESTE/Foz

 

O Brasil ainda apresenta um altíssimo número de cidadãos não alfabetizados ou analfabetos funcionais (16% da população, totalizando 24 milhões, em 2003, segundo o IBGE). Paradoxalmente, vivem em uma sociedade letrada, que os obriga a ler o tempo todo, e motiva complexas necessidades: adquirir novos conhecimentos, se comunicar, ocupar determinado papel na sociedade, ser coerente com seus princípios e valores, etc., que por não serem resolvidas geram discriminação e marginalização social. O indivíduo que não se apropria do saber sistematizado veiculado na escola não constrói nem as funções psicológicas superiores, nem os instrumentos de atuação e transformação de seu meio social e nem as condições para a construção de novos conhecimentos. Portanto, uma pesquisa que conceba a educação de adultos a partir dos estudos de Vygotsky quanto às funções psicológicas superiores, entendidas numa abordagem sócio-histórica, e que concorde com Rego (2002-25)

“É importante ressaltar que a preocupação principal de Vygotsky não era a de elaborar uma teoria do desenvolvimento infantil. Ele recorre à infância como forma de poder explicar o comportamento humano no geral, justificando que a necessidade do estudo da criança reside no fato de ela estar no centro da pré-história do desenvolvimento cultural devido ao surgimento do uso dos instrumentos e da fala humana.”

muito tem a contribuir para as reflexões e nas ações que permearão a prática educativa e a formulação de projetos.

Na formulação de sua teoria, Vygotsky propõe novo método de análise, porque o objeto de estudo está sendo visto a partir de outra perspectiva: a abordagem sócio-histórica, isto é, as funções psicológicas superiores são construídas na interação do indivíduo com outros indivíduos e com o meio.

São propostos três princípios básicos norteadores do novo método:

1- As pesquisas deveriam centrar-se no processo de desenvolvimento e não no objeto final;
2- Buscava, principalmente, explicar mais os fenômenos psicológicos do que descrever suas características, buscando-lhes a essência;
3- No estudo do comportamento, retorna à sua origem para compreendê-lo.

Fundamentado neste novo método, Vygotsky (1998) afirma que as funções psicológicas superiores (pensamento abstrato, raciocínio dedutivo, capacidade de planejamento, atenção, lembrança voluntária, memorização ativa, controle consciente do comportamento) são desenvolvidas na relação entre os indivíduos em um contexto sócio-histórico, mediatizados por instrumentos e signos.

O conceito de mediação, fundamental na teoria de Vygotsky, constitui-se em um processo de intervenção de um elemento intermediário na relação homem/mundo. Adultos não alfabetizados ou pouco escolarizados já construíram uma gramática interna, isto é, já conhecem o funcionamento da língua materna. Este conhecimento, construído nas relações sociais, será sistematizado na escola pela intervenção dos companheiros de classe ou dos educadores.

Os instrumentos (chaves, baldes, escadas, carrinhos de mão, etc.) exercem a função social de mediador entre o homem e o meio. Já os signos (valores, cultura, crenças, conhecimentos) são instrumentos psicológicos, marcas externas, símbolos, representações, que auxiliam os processos internos de desenvolvimento.

Portanto, as funções psicológicas superiores não são inatas como já se acreditou em outros momentos da Psicologia. Desta forma, percebe-se que a aquisição da linguagem, alfabetização e letramento, se dão em qualquer momento da vida dos indivíduos, inclusive na fase adulta. Tal afirmação encontra fundamentação na proposta de Vygotsky que nos permite compreender a idade adulta como um momento passível de mudanças e processos de adaptação, descartando o conceito de que seja uma fase estável e fechada ao aprendizado e ao desenvolvimento.

Apesar de existirem estudiosos que desconsideram os efeitos da escolarização no desenvolvimento cognitivo, encontram-se na investigação de Luria, colaborador de Vygotsky, conclusões comprobatórias destes efeitos.

Luria pesquisou, na década de 30, na Ásia Central, plantadores de algodão da aldeia do Uzbequistão e trabalhadores da pecuária da aldeia de Khirgisia, objetivando identificar as conseqüências da mudança social e tecnológica no processo de pensamento em adultos. Apesar de estarem vivendo sob grande influência da religião islâmica que determinava o isolamento das mulheres da vida social, o momento era de transição em função da Revolução de 1917. Havia mudanças sócio-econômicas, emancipação feminina e coletivização da agricultura. Luria trabalhou com as seguintes tarefas cognitivas:

1-utilizaram categorias abstratas, na resolução das tarefas, aqueles sujeitos que passaram por algum processo de instrução ou aqueles que estiveram envolvidos nas formas de trabalho das fazendas coletivas;

2-utilizaram relações concretas dos elementos usados na prática ou as experiências de vida, na resolução das tarefas, aqueles sujeitos não escolarizados ou que permaneciam na agricultura tradicional.

A conclusão é de que quando ocorrem, não só mudanças nas formas da atividade prática ou reorganização da atividade baseada na educação formal, mas também mudanças radicais nas circunstâncias sócio-históricas, ocorrem também mudanças qualitativas nos processos de pensamento dos indivíduos.

Estas mudanças qualitativas são possíveis graças ao processo de internalização, isto é, o indivíduo reconstrói, internamente, uma operação externa, elaborando uma série de transformações (Vygotsky, 1998-75):

1-Uma operação que inicialmente representa uma atividade externa é reconstruída e começa a ocorrer internamente;

2-Um processo interpessoal é transformado num processo intrapessoal;

3-A transformação de um processo interpessoal num processo intrapessoal é o resultado de uma longa série de eventos ocorridos ao longo do desenvolvimento.

O conceito de desenvolvimento e aprendizagem em Vygotsky é fundamental para a alfabetização de adultos porque deixa claro que a aquisição da escrita não se processa espontaneamente em ambientes culturais. Há necessidade da intervenção intencional, sistematizada, do profissional alfabetizador, em ambiente escolar.

O processo de desenvolvimento e o processo de aprendizagem, apesar de distintos, interagem na medida em que a aprendizagem, resultado da interação social, é internalizada e organizada, estimulando processos internos de desenvolvimento. Conseqüentemente, a aprendizagem é fundamental no desenvolvimento cognitivo.

Segundo Vygotsky, existem dois níveis de desenvolvimento: o nível de desenvolvimento real, que compreende as ações já internalizadas pelo alfabetizando, ou seja, é aquilo que ele já aprendeu ou já consegue fazer sozinho; e o nível de desenvolvimento potencial, que corresponde àquilo que o alfabetizando está em potencial de aprender no momento, ou melhor, àquilo que ele consegue aprender ou fazer com a ajuda de alguém. Entre estes dois níveis encontra-se a zona de desenvolvimento proximal, definidora daquelas “funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão, mas que estão presentemente em estado embrionário. Estas funções poderiam ser chamadas de “brotos” ou “flores” do desenvolvimento, ao invés de “frutos” do desenvolvimento” (Vygotsky, 1998-113) e é ali que o alfabetizador deve intervir, mediando o processo de aprendizagem, para que estas funções potenciais se tornem reais.

Vygotsky atribui à escola fundamental importância, bem como ao papel do professor no processo ensino-aprendizagem. A intervenção deliberada por parte do professor acelera o desenvolvimento de funções mentais, isto é, cria uma zona de desenvolvimento proximal. O desenvolvimento duma capacidade promove e auxilia o desenvolvimento de outra e isto ocorre através das interações no meio cultural em que vivem os indivíduos.

No estudo das relações entre pensamento e linguagem, Vygotsky (2000-133) afirma que “Para “descobrir” a linguagem é necessário pensar.” , isto é, porque o ser humano pensa, contrariamente aos animais que reagem instintivamente diante das situações, ele utiliza a linguagem como instrumento do pensamento. Durante a infância ou na idade adulta, os processos de internalização da linguagem se desenvolvem originando a fala interior e a fala egocêntrica como instrumentos de potencialização da fusão de pensamento e linguagem. É no campo do pensamento verbalizado que os adultos melhor planejam soluções diante de problemas, desenvolvendo a linguagem interior, “que é uma forma interna de linguagem, dirigida ao próprio sujeito e não a um interlocutor externo. É um discurso sem vocalização, voltado para o pensamento, com a função de auxiliar o indivíduo nas suas operações psicológicas.” OLIVEIRA (1997-51). Afirma Vygotsky que à atividade social interpsíquica, segue-se a atividade individualizada, intrapsíquica, ou seja, primeiro é desenvolvida a linguagem egocêntrica para depois desenvolver-se a linguagem interior. Embora este percurso tenha sido observado nas crianças, nosso acompanhamento a indivíduos adultos em fase de alfabetização, demonstrou o mesmo processo. A linguagem egocêntrica acompanha a atividade, indicando que os adultos, diante de dificuldades na aprendizagem, desenvolvem processos socializados consigo mesmos ou solicitando a mediação dos educadores. Até que, sentindo-se mais seguros nas atividades de oralidade, leitura e escrita, superavam as dificuldades utilizando-se da linguagem interior.

A percepção, a atenção e a memória, temas clássicos dos estudos em psicologia, mereceram atenção de Vygotsky na medida em que se articulam com a questão da mediação, da internalização, do desenvolvimento, do pensamento e da linguagem.

A percepção, capacidade de captar o mundo via órgãos sensoriais, torna-se cada vez mais complexa, na mesma proporção em que ocorrem as intervenções (escola, família, trabalho). Assim, o trânsito entre percepção simples e percepção complexa, exige conhecimento de mundo e inferências para estabelecer distância entre possibilidades físicas e possibilidades mentais.

A atenção, capacidade de perceber pontualmente o mundo, isto é, capacidade de se concentrar nisto ou naquilo selecionado dentre a gama de informações do ambiente, divide-se em dois tipos: voluntária e involuntária. Involuntariamente o indivíduo dedica atenção a “estímulos muito intensos (como ruídos fortes), mudanças bruscas no ambiente, objetos em movimento” (OLIVEIRA,1997-75), mas, ao longo do desenvolvimento, seleciona e concentrar-se naquilo que sua interação com o meio apontou como relevantes, é a atenção voluntária. Apesar de todo desenvolvimento humano, da capacidade de concentração e de seleção, a atenção involuntária permanece durante toda a vida.

A memória, capacidade de recuperação de experiências anteriores, será natural ou mediada dependendo das interações estabelecidas com o meio. A memória natural, tão elementar quanto a atenção involuntária e a percepção sensorial, origina-se na influência direta dos estímulos externos sobre os indivíduos. “A memória natural, na espécie humana, é semelhante à memória existente nos outros animais: refere-se ao registro não voluntário de experiências, que permite o acúmulo de informações e o uso dessas informações em momentos posteriores, na ausência das situações vividas anteriormente.” (OLIVEIRA,1997-76).

Já a memória mediada manifesta-se pela ação do indivíduo na busca de conteúdos específicos por meio de instrumentos e signos. Desde calendários, agendas e listas até experiências dolorosas ou felizes e regras mnemônicas servem como elementos para recuperação da lembrança e controle do comportamento.

As implicações pedagógicas seguintes foram tratadas por Oliveira, 2001, que cuidadosamente estabelece duas questões:

1ª) há complexa relação entre propostas teóricas e prática pedagógica porque os teóricos buscam consistência interna de suas formulações investindo em seu poder explicativo e não em seu potencial de geração de propostas de ação. Enquanto os educadores desejam extrair das teorias um “como fazer” eficiente, o que gera tensão entre teoria e prática.

2ª) há peculiaridades no texto de Vygotsky que tornam seu trabalho uma inspiração à reflexão, à realização de pesquisa em educação e à prática pedagógica.

A Educação de Adultos assume significativa importância, tanto pelo seu cunho político e social, como pedagógico, garantindo condições de desenvolvimento e aprendizagem através de interações estabelecidas entre o indivíduo e o meio físico, cultural e social. Sendo assim, o trabalho pedagógico a ser desenvolvido na Educação de Adultos deve partir das experiências dos alunos e considerar a aquisição e sistematização de conhecimentos.

A instrução escolar cria novas zonas de possibilidades para seus beneficiados, porque já está objetivado na sua estrutura um conhecimento científico, padronizado, produzindo algo de novo no curso do desenvolvimento de indivíduos que, antes disso, manuseavam apenas conhecimentos espontâneos. Também os companheiros de classe contribuem para aquisição de novas aprendizagens. O meio ambiente, o conhecimento e outras pessoas subsidiam constantemente o desenvolvimento das mesmas.

A escola organiza, planeja de maneira formal, científica, relacional os conhecimentos acumulados histórico-culturalmente pela humanidade, chamados por Vygotsky de conceitos científicos. Primeiramente, a escola não pode negar ou desrespeitar os conceitos cotidianos, isto é, avançar direto nos científicos sem ter observado deliberadamente os espontâneos, caso o faça, prejudicará o desenvolvimento intelectual do aluno significativamente.

Portanto, o processo de ensino-aprendizagem, é para Vygotsky uma dimensão social de grande valia. A escola tem um papel ativo, imprescindível na sociedade. Há dinamicidade no caráter da aprendizagem, o aprender causa nos indivíduos significativos processos para seu desenvolvimento psíquico. No aprender, a criança se desenvolve, seja na escola, um ambiente social formalizado, ou mesmo com os outros, momento informal. O aprender-desenvolver, dá-se de maneira dialética, porque há um desenrolar de circunstâncias que perpassam o indivíduo e a sociedade na sua trajetória histórico-cultural.

Aprendizagem se dá por imersão em ambientes culturais ou por intervenção pedagógica. E a escola é o “locus” criado para a transmissão dos conhecimentos acumulados pela humanidade, didaticamente organizados, por um educador que dirige o processo.

Para dar direção ao processo de aprendizagem os conceitos de nível de desenvolvimento real, nível de desenvolvimento potencial e zona de desenvolvimento proximal propostos por Vygotsky são essenciais, porque permite a compreensão do aluno como sujeito detentor de conhecimentos prévios que servirão de ponto de partida. É a internalização de novos conhecimentos que acionam mecanismos de desenvolvimento. Assim a aprendizagem e o desenvolvimento ocorrerão de forma eficaz com a intervenção do educador porque o indivíduo isolado não será capaz de fazê-lo. Como afirma Oliveira (1997-63) “A escola é um lugar social, onde o contato com o sistema de escrita e com a ciência enquanto modalidade de construção de conhecimento se dá de forma sistemática e intensa, potencializando os efeitos dessas outras conquistas culturais sobre os modos de pensamento.”

O processo de alfabetização inicia com a imersão do indivíduo na sociedade letrada. Em interação com outros e submetido às suas intervenções, o indivíduo desenvolve conceitos sobre a língua escrita, este objeto cultural que permite registrar; transmitir e recuperar idéias; informar e informar-se. Quando o adulto, em fase de alfabetização, diz “eu fazerei” ou repousa o lápis, no alto, do lado esquerdo da página para iniciar sua escrita, está demonstrando conhecimentos de conjugação verbal no tempo futuro dos verbos regulares e conhecimento de que a escrita da língua portuguesa se processa da esquerda para a direita e de cima para baixo.

As várias fases de imitação do formato externo da escrita: rabiscos, marcas topográficas, e outras estão superadas pelo adulto que deseja e tem condição de se apropriar do sistema convencional de escrita. Neste caso, a intervenção pedagógica mais ativa é aquela que trata a escrita como uma atividade natural do desenvolvimento, relevante, significativa e necessária.

E, como as práticas sociais são determinadas pela sociedade, pela cultura e pelas estruturas de poder, não se pode consolidar o mito da alfabetização que afirma serem os indivíduos não alfabetizados incapazes de desenvolver formas elaboradas de pensamento, mas também não se pode afirmar que a alfabetização e o letramento tenham pouca influência no desenvolvimento cognitivo.

Pode-se perceber que o conceito de letramento enquanto processo que considera a dimensão social, o significado da escrita para determinado grupo e o tipo de instituição freqüentada pelo indivíduo dá conta da formação de um cidadão consciente, crítico e transformador, que compartilhe do poder da língua escrita na sociedade letrada.

Quando se pretende alfabetizar alunos adultos deve-se considerar que já possuem conhecimentos sobre a linguagem escrita como representação da língua, o que torna possível a produção e o reconhecimento do sistema de escrita e dos diferentes tipos de textos.

O processo de alfabetização enquanto decodificação hierarquizada, isto é, aprendiam-se as letras; juntavam-nas, formando as sílabas; juntavam-se as sílabas, formando as palavras e as palavras em frases, foi superado com o conceito de letramento.

Objetivando descrever e explicar as funções psicológicas superiores e identificar os mecanismos cerebrais subjacentes a uma determinada função, sua história e contexto social, Vygotsky enfatiza o processo que envolve o desenvolvimento, apontando a mediação como fator fundamental nas relações de aprendizagem.

Na escola ocorre a sistematização, que produz algo fundamentalmente novo para o desenvolvimento do alfabetizando. Esta afirmação provoca a necessidade do alfabetizador trabalhar a partir de um diagnóstico, que identificará o nível de conhecimento em que se encontra o alfabetizando.

Outra afirmação importante na teoria de Vygotsky se refere à dimensão social que consolida os pressupostos da teoria interacionista.

Tal entende que o que os indivíduos pensam e o que acontece na vida de cada um afeta como se aprende cognitivamente. Assim o processo de aquisição da linguagem (alfabetização/letramento) iniciará quando o alfabetizando estiver inserido socialmente. Até mesmo os portadores, ou não, de deficiências físicas, como a surdez, ou mentais e que estiverem rodeados de pessoas, objetos e ações estimulantes do contato social por intermédio da linguagem serão capazes de formular regras de funcionamento da linguagem.

Para a teoria interacionista, o processo de alfabetização, isto é, aprender a ler e escrever, ocorrerá da mesma forma como ocorreu a aquisição da linguagem oral: os alfabetizandos deverão ser expostos a muitas situações significativas de linguagem, a muitos textos orais ou escritos. Para que eles, em percebendo a previsibilidade do funcionamento da língua, possam formular hipóteses e aplicá-las na escrita e na busca de sentidos.

A formulação de hipóteses é definida pela consideração de vários aspectos: quem fala, para quem fala, de onde fala e baseado em que cultura. Este ambiente lingüístico modifica o ambiente mental, dando origem a diversas estratégias para ler e de escrever.

O alfabetizador que concorda que o alfabetizando, quando chega à escola para aprender a ler e escrever, já conhece o mundo e já possui informações que possibilitam o desenvolvimento de estratégias de leitura e escrita e que objetiva contribuir para a formação de leitores, desenvolverá em sua prática os pressupostos da teoria interacionista. Respeitando princípios desenvolvidos por Vygotsky: 1- a compreensão é um processo e não um produto (ênfase no processo); 2- a interação é elemento prioritário (primazia da interação); 3- as respostas dos alfabetizandos devem ser consideradas no seu conteúdo (a aceitabilidade de respostas variadas); 4- o contexto e o seu significado devem ser observados como elementos de valor (a centrabilidade do contexto e semântica).

A alfabetização não deverá começar por unidades mínimas, como letras, sons, sílabas, que nada significam para os alfabetizandos.

Deverá iniciar por leituras significativas extraídas da cultura popular (como receitas, trovas, provérbios, músicas, propagandas, entre outros). Deverão ser trabalhados: a compreensão dos textos, os sistemas grafofônicos e sintáticos. O trabalho com estes sistemas permitirá que sejam trabalhadas as partes, isto é, as palavras, sílabas e letras, sempre vinculadas a outros conhecimentos e experiências anteriores.

Desta forma, a alfabetização/letramento poderá ser um meio para a mudança da sociedade, o professor alfabetizador, aquele profissional responsável pela orientação do momento mais importante na vida escolar dos cidadãos; contribuirá neste processo. Porque, uma vez alfabetizado, dominando a escrita e a leitura será possível o exercício da cidadania. Não só no discurso, mas também, na prática, o cidadão alfabetizado exercita o direito de ir e vir, analisa o contexto em que está inserido, reconhecendo ali as limitações impostas e propõe formas de superação.

Paulo Freire (1987:08) afirma: “E aprender a ler, a escrever, alfabetizar-se é, antes de mais nada, aprender a ler o mundo, compreender o seu contexto, não numa manipulação mecânica de palavras mas numa relação dinâmica que vincula linguagem e realidade. Ademais, a aprendizagem da leitura e a alfabetização são atos de educação e educação é um ato fundamentalmente político”.

BIBLIOGRAFIA:
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 20ª ed., São Paulo: Cortez, 1987.
OLIVEIRA, Marta Kohl de. Pensar a Educação: Contribuições de Vygotsky. In: CASTORINA, José Antonio et al. Piaget – Vygotsky: Novas contribuições para o debate. 6ªed., São Paulo: Ática, 2001. Cap. 2, p.51-83.
OLIVEIRA, M. K. de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento, um processo sócio-histórico. 4ª ed., São Paulo: Scipione, 1997.
REGO, Teresa Cristina. Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. 14ª ed., Petrópolis,RJ:Vozes, 2002.
VYGOTSKY, Lev Semenovich. A formação social da mente. São Paulo:Martins Fontes, 1998.
VYGOTSKY, Lev Semenovich. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo:Martins Fontes, 2000.

 
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