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  O PAPEL DA BIBLIOTECA ESCOLAR NA FORMAÇÃO DO LEITOR

Severino Farias de Santana Filho - UFRN

Como principal veiculadora de informações e fonte de conhecimento, a leitura deve ocupar um espaço privilegiado dentro do contexto sócio-histórico-cultural no qual o homem está inserido. Por essa razão, ela tem sido alvo de estudos e pesquisas que retratam sua importância e indispensabilidade na vida do ser humano.

A partir da década de 1970, os estudos sobre leitura, no Brasil, tomaram o caráter de investigação científica, impulsionados pelos avanços teóricos da Psicologia Cognitiva e das Ciências da linguagem. Desvendar os processos subjacentes à leitura e à escrita, como também explicar as variáveis históricas, socioculturais e metodológicas que as cercam passou a ser o objeto de vários pesquisadores em diferentes áreas do conhecimento.

Em 1995, resultados obtidos em pesquisas realizadas pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica – SAEB (2002), mostram a baixa qualidade atingida no desempenho dos alunos do ensino fundamental em relação à leitura.

É papel da escola, que tem a função de formar cidadãos conscientes, reverter essa realidade. Para tanto precisa incentivar o aluno a assumir e valorizar a cultura da sua própria comunidade e, ao mesmo tempo, buscar ultrapassar seus limites.

Assim, estará propiciando às crianças dos diferentes grupos sociais o acesso ao saber (leitura / informação / conhecimento), historicamente construído pela humanidade.

Nessa direção, são significativas as palavras de Fonseca (1992) quando diz que as bibliotecas escolares são mantidas pela escola e têm por objetivo fornecer livros e materiais didáticos tanto aos estudantes como aos professores, oferecendo, portanto, a infra-estrutura bibliográfica e audiovisual da pré-escola ao ensino médio.

Observa-se, porém que a escola não pode mais contentar-se em ser apenas transmissora de conhecimentos que provavelmente estarão defasados antes mesmo que o aluno termine sua educação formal; ela tem de promover oportunidades de aprendizagem que dêem ao estudante condições de aprender a aprender, permitindo-lhe educar-se durante a vida inteira.

Portanto, convém dizer ainda que a biblioteca escolar deve ser usada como um apoio didático pedagógico, formando parcerias com a equipe docente a fim de acompanhar os conteúdos aplicados em sala de aula, objetivando fornecer um maior suporte informacional.

Na sociedade atual, a importância da biblioteca escolar no processo educacional é inquestionável.

A escola, enquanto instituição produtora de conhecimento, deve investir na leitura como um ato verdadeiramente cultural. Com isso, não pode ignorar a importância da biblioteca, uma vez que a educação proposta pelos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs (1997) exige que ela crie oportunidades para as crianças e jovens usarem a linguagem em suas diferentes modalidades.

A biblioteca escolar, enquanto espaço de aprendizagem e instrumentalizada com uma gama de recursos informacionais (livros, materiais especiais, computadores) e devidamente apropriada pela comunidade escolar (bibliotecários, professores, orientadores, pais, estudantes), poderá vir a ser um instrumento chave para o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e valores dos seus usuários a fim de torná-los aptos a viver, participar e desfrutar dos benefícios da sociedade da informação.

Como bem coloca Soares (2001, p.16) no Brasil, “quem aprende a ler e a escrever e passa a usar a leitura e a escrita, a envolver-se em práticas de leitura e de escrita, torna-se uma pessoa diferente, adquire um outro estado, uma outra condição”.

Observa-se que somente com a leitura efetiva, o aluno pode praticar o ato de ler de diferentes formas no seu cotidiano. No sentido de abordar questionamentos sobre a leitura, foram verificados algumas concepções. Kato (1985 apud CORACINI, 1995) entende a leitura como um processo de decodificação. A autora identifica duas formas de como se dá esse processo, baseando-se em duas posições teóricas de estudiosos das áreas de ciências da cognição e da inteligência artificial: a primeira estaria dependente do texto e a segunda do leitor. As ciências da cognição têm sua origem na visão estruturalista, enfatizando a sujeição do sentido à forma: palavras e frases. A construção do sentido se dá no texto e pelo texto, não considerando o sujeito e a situação de enunciação. A inteligência artificial, por sua vez, acredita que a fonte do sentido estaria no leitor, pois a partir dos dados do texto ele acionaria o seu conhecimento prévio. Kato (1985, op. cit) insere-se numa terceira posição, a interacionista, por acreditar que a leitura se processa na interação do texto-leitor ou autor-texto-leitor.

O “bom leitor” é aquele que é capaz de seguir as marcas deixadas pelo autor para

chegar a uma formulação de suas idéias e intenções, parecendo ser um sujeito ativo, pois ainda não pode fugir à posição de autoridade de sentido assumida pelo texto.

Uma quarta concepção, defendida pelo autor do presente trabalho, é da Análise do Discurso, que considera a leitura como um processo discursivo em que os sujeitos produtores do sentido são sócio-historicamente determinados e ideologicamente constituídos. O sentido do texto é constituído numa situação enunciativa, cabendo ao sujeito determinar tal construção.

Para que esse processo se efetive, o aluno, na realidade, tem de aprender a ler profundamente, observando não só as informações explícitas, mas também aquelas que estão subjacentes. Para que isto ocorra o dialogismo e a interação verbal são indispensáveis, pois o diálogo, no sentido estrito do termo, não constitui, é claro, senão uma das formas, é verdade que das mais importantes, da interação verbal. Mas pode-se compreender a palavra “diálogo” num sentido amplo, isto é, não apenas como a comunicação em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação verbal, de qualquer tipo que seja. O livro, isto é, o ato de fala impresso, constitui igualmente um elemento de comunicação verbal. Ele é o objeto de discussões ativas sob a forma de diálogo e, além disso, é feito para ser apreendido de maneira ativa, para ser estudada a fundo, comentando e criticando (...).

(BAKHTIM, 1995, p. 123). O diálogo bakhtiniano acontece quando o leitor interage com a obra, com o texto, quebrando a idéia de leitor passivo, aquele que apenas

recebe e aceita informações sem refletir nem questionar.

Nesse sentido o papel da Biblioteca escolar é incentivar a leitura reflexiva, pois através dela o aluno terá outra concepção do texto, não como algo estático, desprovido de sentido e de valor, mas como algo vivo, repleto de significados e informações interessantes.

Enfatiza-se então que a biblioteca escolar pode, sim, ser o local onde se forma o leitor crítico, aquele que seguirá, vida afora, buscando ampliar suas experiências existenciais através da leitura.

Quando os PCNs propõem a criação da biblioteca escolar para servir de instrumento indispensável ao trabalho pedagógico na área de Língua Portuguesa (desenvolvimento da leitura e escrita), estão oficialmente colocando-a em uma posição privilegiada no contexto educacional. Ela deixará dessa forma de ser um local de castigo para o aluno infrator ou depósito de livros para tornar-se um ambiente interativo, ou, como coloca Perrotti (apud BAJARD, 2002, p.32):

A BI (Biblioteca Interativa) é instituída não apenas para difundir informações,mas sobretudo para, a partir delas, constituir-se em local de troca, deexpressão e de produção. Ela possibilitará não apenas estimular, respeitar,reconhecer a expressão cultural da infância, como instigar, provocar, alimentar de várias formas as relações de crianças e jovens com o

conhecimento, a cultura, a leitura, o mundo.

A escola que pretenda investir na leitura como ato verdadeiramente cultural

não pode ignorar a importância de uma biblioteca escolar aberta, interativa, espaço livre para a expressão genuína da criança e do jovem, biblioteca escolar esta que,por sua natureza interativa apresenta, como menciona (BAJARD, 2002, p. 41), as seguintes funções:

• colocar à disposição dos alunos a literatura infanto-juvenil de hoje,visando a desenvolver neles tanto a imaginação quanto o senso crítico;

• possibilitar o domínio da língua escrita em sua articulação com outras línguas, particularmente com a da imagem, através da familiaridade com a literatura infanto-juvenil;

• transformar a prática de alfabetização em prática de letramento permitindo a construção do sistema gráfico pela criança. Essa construção se opera inicialmente mediante a recepção; a produção de textos ocorre como resposta àquela recepção;

• possibilitar através da variedade de textos, documentos e meios, a conquista das diversas estratégias da escrita;

• oferecer aos alunos uma documentação que lhes permita encontrar a informação atualizada necessária a cada uma das disciplinas escolares;

• permitir aos jovens estabelecer conexões entre a leitura de textos e suas ‘leituras do mundo’;

• oferecer um espaço de troca, de crítica e de constituição da informação, para que os jovens vivam seu papel de cidadãos e de produtores de cultura;

• instaurar um local amistoso de encontro com colegas e professores de outras salas, pais e convidados.

Usando como parâmetros as funções citadas por Bajard, pode-se afirmar tranqüilamente que hoje já não cabe à biblioteca escolar ou a qualquer unidade de informação ser apenas armazenadora e difusora de informação, ela precisa participar ativamente do processo educativo brasileiro no que diz respeito a facilitar a educação e produção de cultura e conhecimento da comunidade a que serve e, desta forma, ajudar na formação de cidadãos críticos e participantes, tornando-os aptos a desfrutar dos benefícios proporcionados pela era do conhecimento.

Nos dias atuais, a biblioteca é considerada como um centro socializador do conhecimento, responsável em levar à comunidade as informações contidas nos documentos, fazendo com que todos possam, a partir de seus estudos, adquirir e gerar novos conhecimentos.

Sobre a necessidade da biblioteca dentro do contexto escolar, encontra-se nos Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa (1997) que a biblioteca escolar deve colocar à disposição dos alunos textos dos mais variados gêneros: livros de contos, poesias, romances, enciclopédias, jornais, revistas (infantis, em quadrinhos, palavras cruzadas, jogos). Além dos materiais impressos, também aqueles que são produzidos pelos alunos que podem fazer parte do acervo. É preciso, por outro lado, que os recursos audiovisuais (gravadores, slides, retroprojetores, vídeos, computadores) façam parte desse acervo para, assim, possibilitar um trabalho com a aprendizagem sobretudo, com a leitura.

A biblioteca escolar tem ainda como objetivos desenvolver habilidades artísticas, incentivar a leitura, proporcionar o prazer de ler, estimular a criatividade, dar apoio ao estudo e à pesquisa e usar os recursos disponíveis para a obtenção da informação/conhecimento.

Assim sendo, como bem coloca Nascimento e Soligo (2001, p.1), a biblioteca escolar com tal reconhecimento, já terá cumprido um importante papel ao seduzir os alunos para os encantos da leitura. Esse papel, todavia, só será alcançado se houver uma infra-estrutura política, cultural e financeira, bem como uma consciência profissional, que estejam de acordo com os ideais educacionais. Pode-se então, afirmar, que as funções da biblioteca escolar estarão intimamente ligadas às funções da escola. Sem dúvida, esses aspectos se apresentam de forma a evidenciar a biblioteca escolar como sendo fundamental para desenvolver o trabalho com a leitura.

Em se tratando das funções da biblioteca escolar, pode-se caracterizar como sendo uma função primeira o fator social, onde a comunidade participa do processo de alfabetização e da promoção do gosto pela leitura; o fator cultural, onde a sociedade transmite suas experiências através dos indivíduos; e o fator educacional, que se dá na seleção e produção dos materiais educativos, no embasamento teórico dos programas de estudo dos profissionais, na promoção do desenvolvimento integral do aluno e, também, quando conduz o corpo docente e discente no fazer uso da coleção existente como forma de contribuição no processo ensino/aprendizagem. (PECEGUEIRO et al, 1998).

Assim, se o governo brasileiro pretende inserir todos os cidadãos na sociedade da informação, como coloca no “Livro Verde do SocInfo” (2002), documento que contém as metas de implementação do Programa Sociedade da Informação no Brasil, terá de investir maciçamente em instrumentos que facilitem a educação e, conseqüentemente, a produção de conhecimentos (escolas públicas, bibliotecas escolares, bibliotecas comunitárias, bibliotecas especializadas, universidades públicas, pesquisa, entre outros).

Como se vê, a escola e a biblioteca exercem papel fundamental, indispensável para o desenvolvimento de uma política de leitura.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAJARD, Élie. Caminhos da escrita: espaço de aprendizagem. 2a ed. São Paulo: Cortez Editora, 2002.

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem, São Paulo: Hucitec, 1995.

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Parâmetros Curriculares Nacionais (1. a 4. séries). Brasília: MEC/Secretaria de Educação Fundamental, 1997. 10 v.

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. SAEB 2005. Brasília: INEP. <

disponível em; < http://www.inep.gov.br/saeb/Default.htm > Acesso em: 12 de Junho de 2005.>

CORACINI, Maria José (org). O Jogo Discursivo na aula de Leitura: língua Materna e Língua Estrangeira, São Paulo: Pontes, 1995.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

NASCIMENTO, Célia Regina do; SOLIGO, Rosaura. Leitura e Leitores. Brasília: Secretaria de Ensino Fundamental, 2001. Modulo-3, Unidade-4, Texto-7.

PECEGUEIRO, Claudia Maria P. de Abreu...et al. A biblioteca escolar como um apoio didático-pedagógico. BIBLI pet, São Luis, v. 09, n.1, p. 19-24, jan/dez. 1998.

TAKAHASHI, Tadao (org.). Sociedade da informação no Brasil: livro verde. Brasília: Ministério da Ciência e Tecnologia, 2000.

 
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