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  PARATEXTOS CÍVICOS: LIVROS ESCOLARES E A FORMAÇÃO DO CIDADÃO NO BRASIL (1889-1930)

Cleber Santos Vieira - FE-USP / Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo

Os anos 20 são freqüentemente apresentados como o momento de inserção do Brasil na modernidade. Aos profundos impactos da primeira guerra mundial (1914-1918) fenômeno responsável por revigorar o ânimo nacionalista por todas as partes, soma-se questões de ordem interna como a semana da arte moderna, o desenvolvimento urbano-industrial, a fundação do partido comunista, as lutas tenentistas e operárias, entre outros. O momento também foi de conversão dos intelectuais à ação política. Na década de 20 a intervenção dos intelectuais na vida pública ressurgiu manifestando-se por várias correntes de pensamento, porém, sempre no intuito de refundar a república. Foi um contexto de afirmação da brasilidade, do caráter nacional e do redescobrimento do Brasil de onde surgiriam representações da nação que permaneceriam latentes na história republicana por várias décadas.
De acordo com Daniel Pécaut este engajamento intelectual tinha uma razão de ser: a lacuna existente entre povo e nação, “convidava” os intelectuais a ocuparem as instituições públicas representando a soberania popular junto ao Estado. Por esta lógica, os intelectuais produziram representações sobre o moderno associando política e cultura. O surgimento de uma nova nação dependeria, de acordo com o arcabouço analítico traçado por Pécault, da vocação política dos intelectuais. Essa guinada passava pela intervenção articulada e simultânea na política e na cultura. Assim, “Aspirando a renovar as formas de expressão da arte brasileira, definiu conteúdo da modernidade cultural: contemporaneidade ao lado das vanguardas européias futuristas e surrealistas, sensibilidade à descoberta psicanalítica e, simultaneamente, exploração dos alicerces da nacionalidade brasileira na busca de suas maneiras de ser, seus falares, sua diversidade étnica e cultural, e das definições que estão na raiz da sua inventividade.” (PÉCAULT, 1990. p. 26-27)
O conteúdo da modernidade cultural apontado por Pécaut nutriu um amplo leque de movimentos podendo ser arrolados grupos antagônicos na perspectiva, mas compromissados em operar uma nova leitura da realidade brasileira. Pau-Brasil e Antropofagia, Anta e o Verde – Amarelo podem ser citados entre os mais importantes. Nos primeiros militou Oswald de Andrade, os dois últimos contaram com Plínio Salgado entre seus quadros. Divergências de conteúdo político marcariam a trajetória posteriormente seguida pelos protagonistas, alguns com inclinações ao PC, outros ao fascismo tupiniquim em torno da AIB, outros cooptando e sendo cooptados pelo regime varguista, inclusive com muita autonomia até certa altura do Estado Novo. Mas, em comum tinham a crítica ao liberalismo, a visão elitista da política e o projeto de civilizar através do Estado. Compartilhavam ainda a concepção tão disseminada no inicio do século XX da política como saber científico, portanto, nas mãos dos homens de letras. A sociologia, em particular, foi tomada como a ciência que abriria as portas da realidade a partir de procedimentos racionais que postulavam rupturas com o romantismo e o idealismo de outrora.
A produção cultural deste período significou a tentativa de se apropriar do nacional dando-lhe novo sentido. A comunidade política imaginada, para se valer do conceito de nação proposto por Benedict Anderson (ANDERSON, 1989. p.14), seria revisitada a partir de um amplo movimento cultural que visava refundar a nação colocando-a nos trilhos da modernidade. Síntese desse processo,
o vocábulo “moderno” vai condensando assim conotações que se sobrepõem em camadas sucessivas e cumulativas, as quais lhe dão uma força expressiva ímpar, muito intensificada por esses três amplos contextos: a revolução tecnológica, a passagem do século e o pós-guerra (...) Ela introduz um novo sentido à história, alterando o vetor dinâmico do tempo que revela sua índole não a partir de algum ponto remoto no passado, mas de algum lugar no futuro. O passado é, aliás, revisitado e revisto para autorizar a originalidade absoluta do futuro. (SEVCENKO, 1992, p.228)

Tratar a nação como um artefato cultural, passível de reelaborações, não foi tarefa exclusiva dos modernistas. A geração de intelectuais que nos anos 20 se arvoraram em produções culturais comprometidas com a redescoberta do Brasil, representava, isto sim, nacionalistas dotados de um programa de caracteres moderno. O ímpeto nacionalista dos modernistas não escaparia, assim, ao papel desempenhado por intelectuais e escritores na construção das representações nacionais. Sobre esse assunto, explicou Hobsbawm que, a título de análise o aparecimento dos nacionalistas sempre precede o surgimento das nações (HOBSBAWM, 2002. p.19). Não obstante, a comunidade imaginada pela geração modernista não seria forjada sem esbarrar, dialogar, confrontar e superar produções culturais dos nacionalistas de outras gerações como românticos e naturalistas. Tornou-se lugar comum afirmar que na passagem do século XIX ao XX muitos escritores, poetas e literatos já não acreditam nos rumos do republicanismo brasileiro e, decepcionados, amargariam o isolamento. O entusiasmo despertado pelo abolicionismo e pelo movimento republicano já não era o mesmo. A historiografia que cobre o período, porém, têm apresentado pesquisas que demonstra ser possível relativizar esse quadro.
Francisno Foot Hardman discute o tópico. O advento republicano, explica o autor, gerou enormes expectativas acerca do progresso, rota pela qual o Brasil deveria seguir no sentido de alcançar o status de nação moderna. As expectativas foram acompanhadas pelas representações que deveria caracterizar o país a partir daquele marco fundador. Desse modo, “entre projeções futuristas e revalorizações do passado, escritores do Brasil na passagem do século tentavam fazer o que o modernismo, depois, adotaria como programa: redescobrir o país. Confiança extrema no progresso técnico ou consciência das heranças que pesavam em nosso desconcerto nacional, eis as duas visões que conviviam num mesmo dilema.” (HARDMAN, 1988. p.289).
Nicolau Sevcenko, em “Orfeu extático na metrópole”, demonstrou como as representações política da Era Vargas produzidas por alguns de seus mais importantes protagonistas buscou associar o movimento de 1930 e seu desfecho, o Estado Novo, como expressão política da modernidade artística iniciada em 1922: “as forças coletivas que provocaram o movimento revolucionário do modernismo na literatura brasileira, que iniciou com a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, foram as mesmas que precipitaram, no campo social e político, a Revolução de 1930.” (Getúlio Vargas, O governo trabalhista no Brasil. In: Sevcenko, op.cit. p.306)
Ao apontar que a associação entre semana da arte moderna, modernismo e 1930 havia sido sugerida a Vargas por Cassiano Ricardo, proposta acatada prontamente pelo presidente, Sevcenko revela a troca de interesses entre o campo intelectual e o campo político enraizadas nas estruturas do Estado nacional brasileiro nos anos 30 e 40. Afirmar que a revolução de 30 representava a continuidade da modernidade iniciada na semana de arte em 1922 implicava, evidentemente, na seleção de elementos, temas e abordagens dentro do amplo repertório articulado em torno do modernismo. O autor de Marcha para Oeste, que tantas contribuições ofereceu à construção da identidade nacional no formato de patriotismo oficial durante o regime varguista, mitificando a paisagem o papel dos bandeirantes e explorando temas prediletos do nacionalismo romântico típico da geração de 1870.
Por outro lado, a interpretação de Sevcenko sugere pensar os sentidos do moderno, o modernismo e os modernistas como representações, cujos elementos culturais não nasceram com a geração dos anos 1920. Diante da explicação de Sevcenko talvez seja possível repor as assertivas de Hardmam e perguntar:

Modernismo, qual? Dos artistas de 1922 ou de 1900? Da geração de 1930 ou de 1870? Dos comunistas de 1922 ou do movimento operário socialista e libertário das décadas precedentes? Dos artistas de 1922 ou de 1900? Dos arquitetos acadêmicos ou dos engenheiros de obras públicas? Dos tenentes dos anos 20 ou dos abolicionistas e republicanos de meio século antes? Dos poetas metropolitanos ou dos seringueiros do Acre? Dos fios telegráficos da Comissão Rondon ou dos índios rebeldes? De Mário e Oswald de Andrade ou de Mário Pedrosa e Lívio Xavier? Da revolução “técnica” ou da revolução “social”? dos nacional-integralistas ou dos bolchevistas? Do manifesto Antropófago ou do primeiro de maio? (HARDMAN, 1988, p.303)

Na interpretação proposta por Francisco Foot Hardman, os elementos que caracterizam o modernismo dos anos 20, estruturados principalmente em torno da linguagem, já eram explicitadas nas projeções de literatos, engenheiros, anarquistas e artistas durante a belle époque (1870-1914). As linhas gerais do modernismo, portanto, já estavam no horizonte histórico do início do século XX. A primeira guerra aprofundou e viabilizou as possibilidades. Mesmo um dos traços mais característicos do modernismo, a consciência ambígua, expressão de uma permanente tensão entre o intuitivo e o racional, entre o saber via sentimento e o saber científico, entre o mecanicismo naturalista e a percepção como pontos de partida da interpretação da realidade já estavam esboçados no início do século XX. Ambigüidades que, em grande medida, derivaram das dicotomias em se (re)construir a nação em bases-racionais científicas ou intuitivas.
Esse fenômeno pode ser antevisto mesmo entre modernistas que não compartilhavam do viés elitista e intelectualista manifestado por expoentes de outras vertentes do modernismo. Este é o caso de Sérgio Buarque de Hollanda. Analisando o pensamento do historiador, Maria Odila da Silva Dias reconhece que os estudos empreendidos pelo autor, em particular Raízes do Brasil, “trata-se de um conhecimento polêmico e engajado pois chega a uma visão de conjunto por meio da percepção de fenômenos para os quais não formulou hipóteses iniciais.” (DIAS, 1974, p.13)
Tais questões acompanharam o redescobrimento do Brasil proposto na década de 20 em todas as esferas. Dentre a temáticas que perfilavam a reforma da sociedade a educação ocupava papel central. Organizar a nação através da organização da cultura passava pelo viés educacional (CARVALHO, 1998). Nesse sentido, interessa discutir as dimensões das temáticas modernistas nos manuais didáticos que anteciparam o programa modernista. Mais precisamente, pretende-se, nas páginas seguintes, discorrer sobre elementos inscritos em livros escolares de civismo nas primeiras décadas republicanas que confirmam, na esfera da produção didática, aquilo que Hardmam, Sevcenko e outros autores têm enfatizado sobre a questão do modernismo brasileiro na esfera cultural.
Nesse sentido, prólogos, introduções, apresentações, prefácios e outros gêneros de paratexto (GÉNNETE, 2001) revelam-se como objetos de estudos capazes de revelar o fluxo e o refluxo das temáticas modernistas. Os paratetxtos, inscrições que habitam o mundo do livro sem pertencerem ao corpo do texto, possuem características historicamente mais circunstanciais. Os paratextos, em particular a instância prefacial, estão profundamente articulados aos sentidos históricos e as representações que cada autor produziu sobre si e sua obra. Permitem, por isso, penetrar no mundo das prefigurações de cada autor sobre o público leitor, na intencionalidade e nas projeções da história articulada em torno do livro.
Um primeiro ponto a ressaltar refere-se às expectativas geradas pela república e o papel do processo educacional na consolidação dos princípios republicanos. Na introdução do texto A Educação Nacional, publicado pela primeira vez em 1890, o renomado escritor José Veríssimo reconhecia a necessidade da estruturação do sistema público de ensino para consolidar a república. Nas entrelinhas Veríssimo lançava luzes sobre a apatia do brasileiro contrastando com a euforia republicana, descaracterizava o nativismo e expunha alguns dos dilemas deterministas que buscavam classificar o caráter nacional:

Sem orgulho patriótico – que não merece ser assim chamada a nossa parvoinha vaidade nativista –, sem educação cívica, sem concorrência de espécie alguma, o caráter brasileiro, já de si indolente e mole, como que se deprimiu, e o sentimento nacional que luz pela primeira vez na luta com os holandeses e depois nos conflitos de nacionais e portugueses nas épocas que proximamente antecederam ou seguiram a independência, esmorece, diminui, quase desaparece. (VERÍSSIMO, 1890. p.45)

A atenção importância empenhada por José Veríssimo à formação cívica dos cidadãos expõe um traço que percorreu todo o início do período republicano até os anos 30, qual seja o engajamento direto dos intelectuais na produção didática. Outros nomes de peso no campo intelectual também projetaram o engajamento político na esfera didática. Sílvio Romero, conforme destacou Circe Bittencourt (BITENCOURT, 1993. p. 166.), também pode ser citado entre os autores que, na virada do século XIX para o XX, buscaram, através da educação, cativar o sentimento patriótico e o civismo na perspectiva da formação da cidadania e da participação política.
Embora com perspectivas diferentes sobre sentimento patriótico, civismo e participação política o engajamento de intelectuais na produção de livros escolares de civismo permaneceu consistente por toda primeira república. No prefácio do manual didático “Contos Cívicos e Patrióticos do Brasil”, publicado em novembro de 1915, seu autor, Carlos Góes, revelou as intenções, as linhas históricas e os marcos que nortearam a elaboração do livro. A biografia arrolada na capa do livro revela que Carlos Góes acumulava extensa atividade na vida literária e nas formulações históricas sobre o Brasil em instituições de São Paulo e Minas Gerais.

“Cathedrático (por concurso) do Gymninasio Official de Minas, Bacharel em sciencias jurídicas e sociaes, Membro da Academia Mineira de Letras e do I. H. Mineiro, Delegado do Estado de Minas ao 4º Congresso Brasileiro de Instrucção, Sócio Correspondente da S. B. de H. de L. do I. H e G. de São Paulo, do Centro de Sciencias e Letras de Campinas, Delegado da Liga Brasileira contra o Analphabetismo, etc.” (GÓES, 1919)

Desse modo o 4º Livro de Leitura destinados aos Grupos Escolares e Escolas Isoladas expressa uma característica que marcava a produção didática nas primeiras décadas do período republicano. O manual aparece como expressão didática do autor que circulava por várias instâncias de produção intelectual. O prefácio, significativamente datado em 15 de novembro de 1915, revela a representação discursiva produzida pelo autor acerca da lógica social da obra, assim como, das questões históricas que definiram o contexto da primeira guerra mundial. Diz o autor “Parecece-nos é a primeira vez que no Brasil sae a lume obra neste gênero, e o momento é propício, por que coincide com o empenho, em que arde a nação de reerguer-se da apathia a que veiu a cahir” (GÓES, 1919). A apatia descrita pelo autor foi identificada e analisada sob diversos ângulos pela historiografia. Mas o fato é que a primeira guerra mundial significou o fim da belle époque. A carnificina em grande parte, viabilizada pelo progresso técnico científico que enunciava a ordem mundial civilizada. Carlos Góes enuncia também alguns dos mas importantes viesses pelos quais escritores, literatos e educadores buscariam republicanizar a república e formar o caráter nacional brasileiro: a busca da verdade.
A persistente e incisiva busca do conhecimento da realidade brasileira, enquanto categoria discursiva, relaciona-se como sinal da linguagem modernista da década de 1920, cujo marco é geralmente estabelecido a partir da Semana de Arte Moderna de 1922. Porém, tal qual notaremos na produção de Afrânio Peixoto e Manoel Bomfim, Carlos Góes também esboçou alguns dos temas transformado em programas pelos modernistas da década de 1920. Assim “Si a este livro faltassem todos os requisitos pedagógicos de uma obra destinada às escolas, - ainda um subsistiria que por si só resgataria a falta de todos os outros. A verdade. O que ahi vae são casos REAES, AUTHENTICOS, de existência comprovada por obras e documentos que compusáamos.; são attestados vivos da excelência do carácter brasileiro (Góes, 1915).
Os prefácios dos livros escolares apresentam a intensidade dos impactos provocados pela grande guerra . Em Instrução Moral e Cívica, ‘páginas cívicas’ publicadas em 1922, Ramon Roca Dordal, interpreta e apresenta a guerra na plenitude de seu alcance invadindo todos os lares. Na seção “À Guisa de Prólogo” o autor enuncia de forma significativa as rupturas provocadas pela Guerra. O despertar do nacionalismo sustentado por uma linguagem extremamente bélica acerca do civismo, temas amplamente destacados em outros autores e movimentos, em especial a produção de Olavo Bilac e a Liga de Defesa Nacional, foram plenamente esboçados por Dordal. Diz o autor:

“durante os quatro longos annos da Grande Guerra, só um pensamento poderia existir na mente de cada Latino – a guerra. Só um desejo poderia abrigar-se no peito de cada homem livre - a victoria.” E, aqueles que, pelo avançado da idade ou pelas condições especiaes em que achavam, não poderiam ir batalhar ou preparar elementos para a resistência, o que fariam?
Um dos meios possíveis, mesmo aos mais fracos, era escrever, era preparar algumas páginas que dissessem aos moços de hoje quanto trabalho, quanta dedicação, quanto civismo é necessário impor-se para corresponder aos sacrifícios sem conta realizado, então, nos campos de batalha. (DORDAL, 1922)

Neste prefácio, nota-se, explicitamente a prefiguração da obra como forma de ação no campo escolar em decorrência da não participação direta do autor na guerra. A ação pretendida sobre o público leitor remete à ação bélica no campo de batalha e pode ser interpretado como uma das dimensões do soldado-cidadão prefigurado e articulado em torno dos livros escolares de civismo.
Mas os livros destinados à formação cívica dos cidadãos permitem também discutir as formas concretas assumidas pela representação que interpretava a “revolução de 1930” como continuidade do modernismo iniciado em 1922. Neste sentido, é interessante comparar a produção de um mesmo autor em dois momentos, antes e depois de 1930, no sentido de apontar abordagens histórica e as representações da comunidade imaginada que perpassaram pela proclamação da república, pela guerra, pela semana de 1922, pela revolução de 30 e pelo golpe de 1937.
Em 1940, a Companhia Editora Nacional publicou “História do Brasil”, ensaio histórico produzido pelo escritor Afrânio Peixoto. O livro compunha a série ‘História e Biografia’ efetivada sob o sugestivo título “Biblioteca do Espírito Moderno”. Editada em pleno Estado Novo, a Biblioteca do Espírito Moderno pode ser considerada uma das expressões historiográficas do discurso moderno produzido na era Vargas. A obra traz as marcas da modernidade na história brasileira da época com traços explícitos do nacionalismo conservador e romântico. A questão pode ser antevista a partir dos elementos historiográficos postulados por Roberth Sothey no século XVIII e apropriados por Afrânio Peixoto, importante escritor nas primeiras décadas republicana. Peixoto inicia sua assim estampando a epígrafe “Suceda o que suceder, o Brasil será sempre uma herança de Portugal.” Para, no epílogo, reafirmar:

Portugal adivinhou, com Dom João II, o Brasil, em Tordesilhas. Descobriu-o, com Dom Manuel.Colonizou-o e defendeu-o contra intrusos, com Dom João III. Os Jesuítas foram moral e educação. A dominação espanhola, que foi castigo no reino, transformou-se, no Brasil, em comunidade para nos estender fronteiras até os Andes e o Rio da Prata. Com Dom João IV, o Reino ainda ocupado pelo inimigo, não nos desamparou por isso contra o Flamengo. Pombal foi comércio e progresso. Com Dom João VI, é Portugal, uma cultura européia, que se instala na América. Pedro I, um príncipe português, dá-nos a Independência e Pedro II, seu filho, meio século de respeito. Independentes politicamente, é entretanto a mesma língua, raça, fé, sentimento e inteligência, que nos fazem idênticos. Possamos nós dizer, como o Épico: “de tal pai tal filho se esperava”. O trabalhador português colabora ainda aqui com o nosso e quando, um em cem, torna a Portugal, os bens aqui ficam, e o que vai são títulos brasileiros, a confiança fiel dos portugueses.
Não quero, porém, que uma ternura suspeita, de português da América, remate este livro, que documenta, entretanto, tudo o que este epílogo resume. Dou a palavra a um insuspeito estrangeiro, que também documentou a sua, a Robert Southey, autor de uma História do Brasil: “Jamais houve nação que, na proporção dos seus meios, tanto fizesse como Portugal.” Para concluir, com a certeza da minha epígrafe: Suceda o que sucede, o Brasil será sempre uma herança de Portugal. E isto da fé. De tal pai, tal filho se há-de esperar.” (PEIXOTO, 1940, 329-330)
As matrizes ideológicas da historiografia e da consciência nacional na obra de Roberth Southey fora analisadas com bastante propriedade em “O fardo do homem branco, Southey historiador do Brasil”, por Maria Odila da Silva Dias. Muitos dos temas centrais do pensamento modernistas, como o problema da mestiçagem e outros assuntos tratados por mosqueteiros das primeiras décadas republicana - a integração com o meio e a expansão geográfica, por exemplo - conforme explicou Maria Odila, implicitamente antecipados por Southey. Mas não importa aqui discutir a obra e o balanço da obra de Southey por inteiro, mas apenas demonstrar que assim como certas noções típicas do nacionalismo romântico e conservador acenava para Gilberto Freyre, Oliveria Vianna, Silvio Romero Euclides da Cunha e Capistrano de Abreu, foram apropriadas pela literatura escolar pelas mãos de Afrânio Peixoto.
Desse modo, na tentativa de estabelecer relações entre Roberth Southey e Afrânio Peixoto, é importante lembrar que o historiador inglês “concebia o processo histórico, até a própria colonização, como etapa do aperfeiçoamento da razão no processo evolutivo e cíclico da moral humana”. (DIAS,1974, p.235.). Diria então que Afrânio Peixoto, apropriando-se do humanitarismo autoritário que caracterizou a política colonial inglesa, época na qual Southey viveu e escreveu sua versão da história do Brasil, transfere o aparato conceitual para interpretar a empresa colonizadora portuguesa na América. O tom civilizatório, o apelo a paisagem a integração do homem ao meio e mesmo a mestiçagem parecem ter encontrado espaço cativo no sentido da modernidadepretendidos por Cassiano Ricardo e outros intelectuais no poder. O próprio Afrânio Peixoto, apoiando-se em Benedito Croce, reconhecia que seu discurso histórico sobre a nação não era novo.

“Exíguo, limitado como ensaio confessado que é: apenas o Brasil vem de Portugal, que está no mundo: começo do começo, como deve ser. Por vezes raio pela moral e pela sociologoia: não innovo, se para os clássicos, as datas e factos faziam apenas documentos, para ser acreditada a história de “mestra da vida”. Isto é velho, mas é renovado, pela opinião de Benedeto Croce, quando diz que toda história é história contemporânea. A humanidade não é tão original que não se repita.” (PEIXOTO, 1940, p.06)

Afrânio Peixoto influenciaria ainda sucessivas gerações através da obra escolar “Minha terra minha gente”. No prefácio deste livro perfila uma tensa relação entre o diagnóstico e construção do caráter nacional brasileiro. O autor admite fatores deterministas, típicos das teorias psicológicas, sociológicas e antropológicas de viés naturalista muito presente na Europa e entre os escritores brasileiros em fins do século XIX até 1914. Diz o texto: “Os brasileiros oscilam, ordinariamente, entre um desenganado pessimismo e um optismo ridículo (...) Sempre andamos entre macambusios ou gabolas.” (PEIXOTO, 1916). Ao mesmo tempo aponta as verdades sobre a nacionalidade transmitidas pela educação como sendo o veículo de superação dos sentimentos em direção a atitudes mais produtivas: E nem lamúrias de uns, nem os êxtases dos outros, produzem nada. Pareceu, pois, ao autor novidade útil, escrever para as crianças, pequenas e grandes, de sua terra, um livro sincero, sem reservas nem vehemencias, no qual procurasse sobre os problemas essenciais da nossa nacionalidade dizer-lhes verdades necessárias. (PEIXOTO, 1916)
Às vésperas da ascensão de Vargas ao poder, o então deputado federal (1924 e 1930) Afrânio Peixoto, presenciava a Livraria Francisco Alves reeditar o manual didático pela 3ª vez. Na seção ‘Collaboração dos estrangeiros ao progresso do Brasil’, o ensaísta, médico legista, professor, político, romancista, historiador, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e da Academia Brasileira de Letras (ABL) mencionava o historiador Robert Southey – que nunca esteve no Brasil - entre os “nomes que o brasileiro agradecido deve conservar, de homens que honraram o Brasil com a sua visita, ás vezes convivência, e relevantes serviços lhe prestaram reclamando e conseguindo a attenção do mundo civilizado para uma terra e um povo ainda pouco conhecidos”. (PEIXOTO, 1916, p. 148.)
Outro expoente da historiografia do período, contrastando com a perspectiva de Afrânio Peixoto, manifesta de maneira ainda mais explícita o discurso moderno manifestando-se por meio de ferramentas lingüísticas típicas do naturalismo. Manoel Bonfim, em América Latina, males de origem, texto originalmente publicado em 1905, a redescoberta da nação consiste em identificar e de certa forma denunciar os fatores inerentes a formação social brasileira responsáveis pelo atraso no qual se encontrava o Brasil e demais nações latino-americanas. Em “ O Caráter Nacional Brasileiro”, Dante Moreira Leite situa as ambigüidades expressas no texto de Bonfim. Diz ele, ‘é um livro nascido do sentimento mas que expõe uma teoria”. Em Manoel Bonfim as marcas dos tempos novos e as amarras que impediam o progresso da nação apareciam formuladas já na virada do século XIX para o XX.

O regime sob o qual nasceram e viveram as colônias da América do Sul influiu naturalmente sobre o seu viver posterior, quando já emancipadas. Há no caráter das novas nacionalidades uma série de qualidades – vícios – que são o resultado imediato desse mesmo regime imposto pelas nações ibéricas. Essas qualidades traduzem a influência natural do parasita sobre o parasitado, influência constante, fatal mesmo, nos casos de parasitismo social, máxime quando o parasitado procede diretamente do parasita, quando é gerado e educado por ele. (BOMFIM, p.151, 1905)

Não obstante, a perspectiva analítica adotada por Bomfim em “Os males de origem” não teve a mesma sorte que Afrânio Peixoto. A predileção por certas abordagens implicava, certamente, no abandono de outras: “Em 1905, Bomfim procurou, antes de tudo, dar uma resposta aos teóricos e publicistas europeus que, apoiados no cientificismo naturalista e no evolucionismo, chamavam indistintamente os povos do continente de inferiores, entregues ao mais puro barbarismo estéril.” (AGUIAR, 1986. p.25). Isso talvez explique porque a sutileza em relação ao livro Males de Origem e outros textos igualmente ácidos de Bomfim, texto pouco divulgado em sua época, contrasta com o sucesso alcançado por suas produção didática. “Muito mais sucesso fez “Através do Brasil”, livro de leitura produzido em parceria com Olavo Bilac destinados as escolas brasileiras. Apenas para dimensionar a configuração do mercado editorial e, ao mesmo tempo do público leitor brasileiro às vésperas da eclosão da primeira guerra mundial, os 4 mil exemplares vendidos por Através do Brasil em três anos foi considerado verdadeiro sucesso de vendas. A linguagem ficcional á apresentada como estratégia discursiva para tocar o sentimento e melhor expor a verdade sobre o Brasil. Temas integrantes do “espírito de época” que impulsionou o modernismo na década de 20 foram enunciados em 1910 por Bomfim e Bilac como estratégias discursivas de uma pedagogia da nação. A relação entre homem e meio ambiente, a integração das raças por meio da colonização, a dicotomia selvageria e civilização enunciam uma concepção histórica etapista, cujo progresso representado nas figuras da indústria e das instituições seriam frutos de uma evolução que ainda não atingira as extremidades do corpo social.

“Agora uma lição de história. É preciso principia explicando de um modo sensível as condições do Brasil antes da colonização. Fala por exemplo o livro de sertão bruto onde havia... índios...”. É um excelente pretexto para dizer quem são esses índios, que antigamente aqui viviam sozinhos: os brancos e pretos vieram depois, e com eles veio a colonização E então o professor apelará para a observação da criança, para que ela note a diferença entre o estado selvagem e as indústrias, instituições obras e costumes que distinguem a civilização; mostrará que essas instituições e indústrias faltam ainda em grande parte em algumas terras do interior, onde a civilização ainda não penetrou” (BILAC & BONFIM 2000, p.49)

“Através do Brasil” foi recentemente relançado na coleção Retratos do Brasil, publicada pela editora Companhia das Letras. Marisa Lajolo, no ato de apresentação do volume, aponta a simetria existente entre José de Alencar, a dupla Bomfim & Bilac e Mário de Andrade. É assim que, Através do Brasil, perpassa por uma longa viagem pela paisagem brasileira redescobrindo e ensinando o Brasil. Explica a autora que a simetria “permite inscrever Através do Brasil numa galeria por assim dizer mais canônica das letras brasileiras. Identificam-se projetos simétricos e recorrentes, que bem podem constituir a contraface estética de um projeto ideológico e político sempre inconcluso e recorrentemente iniciado.” (LAJOLO, 2000, p.29). Os protagonistas da ficção Carlos, Alfredo e Juvêncio viajam descobrindo o território brasileiro e os tipos sociais. A paisagem mística representa de certa forma a opção por metáforas quando a realidade histórica, particularmente o abismo entre as classes sociais, torna-se impermeável. Nesse sentido Através do Brasil antecipa alguns dos temas tratados em Macunaíma no final da década de 1920 e, ao mesmo tempo, recoloca tópicos do nacionalismo romântico comum à literatura de Alencar do século XIX.
Para lembrar a inquietação de Hardmam acerca dos antigos modernistas talvez possamos acrescentar: livros escolares com abordagens modernas, qual? Os do manifesto de 1932 ou os proclamados por José Veríssimo, Silvio Romero e Manoel Bomfim? Os defendidos por Olavo Bilac e a Liga de Defesa Nacional ou por Alberto Torres e Francisco Campos no Estado Novo? O Brasil representado por Afrânio Peixoto de 1916, autor de “Minha Terra, Minha Gente” ou o Afrânio Peixoto de 1940, autor da História do Brasil?

Referências bibliográficas

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Fontes

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