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  O ESTUDO DAS PERSONAGENS NA OBRA SENHORA DE JOSÉ DE ALENCAR.

Mariana Avona dos Santos – Universidade São Francisco - USF (Itatiba)

Esta comunicação é uma síntese de uma pesquisa em andamento, cujo objetivo é o estudo das personagens do romance Senhora, de José de Alencar. A história é narrada em terceira pessoa por um narrador onisciente e externo. Quanto ao autor, podemos considerar Alencar como uma pessoa conservadora, todavia o narrador, que não é uma personagem, não dá pistas para concluirmos que este também seria dotado de uma experiência de vida fundamentada em uma sociedade patriarcal. O romance situa-se em meados do século XIX, época que marcou o auge do Segundo Império e grande parte da trama narrativa retrata a vida na Corte fluminense.
José de Alencar foi um romancista que, afora ser considerado um clássico nos dias de hoje, conquistou um considerável número de leitores ao longo da sua carreira, dentre os quais destacamos Machado de Assis. As personagens femininas de Alencar comprovam a sensibilidade do escritor em criar seres marcantes, como Aurélia, Iracema e Lucíola; a crítica destaca a maturidade do ficcionista pela forma como elaborou as protagonistas de seus romances, em especial os ambientes situados no espaço urbano, como coloca Antonio Candido no estudo “Os três Alencares”, de Formação da literatura brasileira:

É o Alencar que se poderia chamar dos adultos, formado por uma série de elementos pouco heróicos e pouco elegantes, mas denotadores dum senso artístico e humano que dá contorno aquilino a alguns dos seus perfis de homem e de mulher. Este Alencar, difuso pelos outros livros, se contém mais visivelmente em Senhora e, sobretudo, em Lucíola, únicos livros em que a mulher e o homem se defrontam num plano de igualdade, dotados de peso específico e capazes daquele amadurecimento interior inexistente nos outros bonecos e bonecas. (CANDIDO, 1981, p. 225).

Aurélia confronta as qualidades convencionais de uma heroína romântica do século XIX, quando a conduta discreta e a subordinação da mulher eram louvadas; talvez por isso a condução da narrativa é feita por um narrador externo, que apresenta como as personagens, em especial Aurélia, relacionam-se com os costumes de uma sociedade patriarcal. Assim inferimos que as atitudes de Aurélia são dosadas pela visão masculina do autor pela escolha do tipo de narrador. Se a narradora fosse Aurélia, talvez poderíamos obter uma visão distinta do denominado “sexo frágil”, mas o narrador da obra apenas mostra que, apesar da atitude independente, Aurélia é parte de uma sociedade estanque, que apenas enaltecia a independência e o poder junto aos homens.
A obra de Flaubert, Madame Bovary, foi narrada por um narrador onisciente, externo e neutro, que retratou com precisão a vida da sociedade francesa, em especial a burguesia e seus costumes. Emma Bovary, a protagonista do romance não possui voz ativa na obra, isto é, todos os seus sentimentos, atitudes e ações são descritos pela agudeza em que o narrador transpõe nas impressões. Flaubert escolhe três formas aparentemente involuntárias no que diz respeito aos aspectos físico, espiritual e comportamental; e coloca-as assim como se fossem três choques que atingem Emma um após o outro. (AUERBACH, 1971). Entretanto, se Emma fosse a narradora, provavelmente a visão seria diferente, pois

[...] Emma sente muito mais, e de maneira muito mais confusa; vê também outras coisas, afora estas, no seu corpo, nos seus modos, nas suas vestimentas; misturam-se lembranças, entrementes ouve-o dizer alguma coisa, sente talvez sua mão, a sua respiração, vê-o andar de cá para lá, bonachão, limitado, insípido e despreocupado; é um sem-número de impressões confusas. A única coisa que aparece com contornos nítidos é a repugnância que sente por ele, e que deve ocultar. (AUERBACH, 1971, p. 434)

Aurélia realiza atitudes esperadas que se enquadram dentro do esperado comportamento feminino: quando de repente herda uma considerável soma, ela providencia a contratação de uma mãe-de-encomenda como companheira, pois ainda era menor de idade e não poderia morar sozinha. Lemos, seu tutor e tio, a pedido de Aurélia é quem realiza a transação matrimonial com Seixas. Durante esse período, Lemos foi importante para realizar o negócio do matrimônio, pois foi um porta-voz necessário para Aurélia, visto que foi elaborado pela mesma.
Quando era pobre, precisava costurar para manter-se na vida, o que exemplifica a profissão adequada para as mulheres daquela época. Após ter-se casado com Seixas, precisava fingir um relacionamento perfeito perante toda a sociedade e, até mesmo, dentro de sua própria casa, diante dos criados, parentes e vizinhos.
A conduta da protagonista exemplifica os moldes perfeitos para uma mulher do século XIX, ainda que nos bastidores da sua vida na sociedade, Aurélia tivesse um comportamento distinto das demais. Talvez o sucesso do romancista junto às leitoras do século XIX residia na mescla de ousadia das protagonistas com uma certa subordinação desejável das mulheres. É importante destacarmos que Senhora termina restabelecendo uma estrutura familiar patriarcal, na qual o homem é a principal figura, dotado de reconhecido papel de sustentáculo familiar. De acordo com esse posicionamento conservador, Aurélia no final do romance, após ter conseguido o resgate de seu marido como também o seu, implora a união eterna do casal prometendo cordialmente dedicar todo o seu amor e obediência para Seixas. Trata-se, certa forma de um desfecho romântico esperado para uma obra romântica de Alencar.
Como Aurélia comunica-se com o padrão social da alta burguesia do Segundo Império, Fernando Seixas é resultante do desejo de participar deste restrito círculo social. Veste-se de forma a valorizar “o produto”, visto que busca ascender socialmente por meio do matrimônio. Por esse motivo, seu romance com Aurélia, quando ela ainda era pobre, não prossegue: apesar de sua beleza e graça ela é preterida pelo dote de 30 contos de réis, que acompanham o enlace com Adelaide Amaral. O aprumo com que Fernando Seixas vestia-se é destacado na obra
... no recosto de uma das velhas cadeiras de jacarandá via-se neste momento uma casaca preta, que pela fazenda superior, mas sobretudo pelo corte elegante e esmero do trabalho, conhecia-se ter o chique da casa do Raunier, que já era naquele tempo o alfaiate da moda.
Ao lado da casaca estava o resto de um traje de baile, que todo ele saía daquela mesma tesoura em voga; finíssimo chapéu claque do melhor fabricante de Paris; luvas de jouvin cor de palha; e um par de botinas como o Campas só fazia para os seus fregueses prediletos. (ALENCAR, 1999, p. 35).

A descrição feita às características físicas e psicológicas de Fernando Seixas, também é muito minuciosa,

É um moço que ainda não chegou aos trinta anos. Tem uma fisionomia tão nobre, quanto sedutora; belos traços, tez finíssima, cuja alvura realça a macia barba castanha. Os olhos rasgados e luminosos às vezes coalham-se em um enlevo de ternura, mas natural e estreme de afetação, que há de torná-los irresistíveis quando o amor os acende. A boca revestida por um bigode elegante, mostra o seu molde gracioso, sem contudo perder a expressão grave e sóbria, que deve ter o órgão da palavra viril. (ALENCAR, 1999, p. 36)

Podemos considerar, à luz dos estudos de Ouellet e Bourneuf (1976), que o romance contemporâneo mostra com freqüência o espaço ambiente a partir dos olhos de uma personagem ou do narrador, e que a descrição serve para comunicar uma informação do autor ao leitor, através de uma personagem informada a outra que não o está, uma vez que a descrição implica o olhar de uma personagem e o destaque em frente do objeto, já que a descrição condiciona o funcionamento da narrativa no seu conjunto.
O valor da caracterização do espaço nos grandes romances condiz com as afirmações: “[...] Uma descrição do espaço revela, pois, o grau de atenção que o romancista concede ao mundo e a qualidade dessa atenção: o olhar pode parar no objeto descrito ou ir mais além”. (OUELLET, R. & BOURNEUF, R., 1976, p.165).
A conduta de Seixas é explicada pela sociedade, que auxiliou a corrompê-lo, e, por isso, Alencar não o coloca como vilão na história, visto que seu comportamento é o esperado pela sociedade.
A sociedade no meio da qual me eduquei, fez de mim um homem à sua feição [...] Habituei-me a considerar a riqueza como a primeira força viva da existência, e os exemplos ensinavam-me que o casamento era meio tão legítimo de adquiri-la, como a herança e qualquer honesta especulação. (ALENCAR apud CANDIDO, 1981, p. 227).

O caráter moral é prestigiado ao longo do romance, uma vez que nele a imoralidade restringe-se por causa do dinheiro, que deturpa a dignidade da pessoa. Alencar consegue casar o ambiente do romance a partir das relações sociais estabelecidas pelas personagens; uma vez que há no romancista um sociólogo implícito, assim como em quase todo romancista. Na maioria dos seus livros, a narrativa assume um papel importante graças aos problemas de desnivelamento nas posições sociais, que por sua vez, estão ligadas ao fator econômico, que constitui preocupação central nos seus romances da cidade e da fazenda. (CANDIDO, 1981).
Ao longo da obra, Alencar relata os costumes burgueses da época, como os bailes pomposos, os trajes finíssimos, a arquitetura nas construções do Império, como casas, teatros, salões, etc., tudo de acordo com a influência européia tomada como referência da elegância. Ao contrário do que ocorre nos romances de Machado de Assis, o comportamento social das personagens é narrado através de uma ótica que não ironiza os costumes importados, mas apenas os descreve minuciosamente. Um exemplo a ser citado trata a conduta de Aurélia nos bailes, em que era muito visada pelas mães de algumas moças da sociedade, uma vez que estas desprestigiavam-na e preocupavam-se com o comportamento das filhas, de modo a torná-lo o mais refinado e elegante para moças de famílias distintas.
A rotina de Aurélia consistia em realizar piqueniques com algumas amigas, comandar a rotina da casa, estabelecer os cardápios do dia, os horários das refeições, a decoração, etc. Outras ações recomendáveis, a fim de estabelecer um bom convívio social, era o de visitar algumas amigas, passear de charrete com estas, bem como com D. Firmina, comprar novos vestidos, freqüentar bailes e festas, como também, oferecê-los com grande pompa. Tudo isso era descrito sem o mínimo intuito de ridicularizar os costumes burgueses da sociedade fluminense.
A obra é dividida em quatro partes nomeadas como: “O Preço”, “Quitação”, “Posse” e “Resgate”; a temporal ordem dos eventos da narrativa é apresentada de forma não-linear, pois a história é contada a partir do tempo presente. “O Preço”, mostra o tempo presente; logo após retoma o passado, em “Quitação” e volta novamente ao tempo presente, nas duas últimas partes, “Posse” e “Resgate”. Tudo isso se deve ao fato de termos em Senhora, um narrador onisciente que permite modificar a ordem de apresentação dos eventos da história.
Em “O Preço”, Aurélia nos é apresentada a partir da posição social elevada e nada se sabe sobre o seu passado, mas o leitor fica ciente de que o mesmo será divulgado mais tarde quando for necessário
Tinha ela dezoito anos quando apareceu a primeira vez na sociedade. Não a conheciam; e logo buscaram todos com avidez informações acerca da grande novidade do dia.
Dizia-se muita coisa que não repetirei agora, pois a seu tempo saberemos a verdade, sem os comentos malévolos de que usam vesti-la os noveleiros. (ALENCAR, 1999, p. 17)

Aurélia é conhecida por ter um encanto arrebatador, bem como uma fortuna invejada na Corte, atributos que a transformam numa moça cortejada por muitos que convivem ao seu redor. Todavia, como dissemos, ela possui autonomia e inteligência que a colocam no domínio de seus bens; seu tutor e tio Lemos, é apenas um instrumento necessário para que ela pudesse realizar seus planos.
A segunda parte, intitulada “Quitação”, revela ao leitor a origem pobre de Aurélia, como também relata o flerte e o namoro de Aurélia e Seixas, bem como o motivo do término do mesmo. É apresentada a família de Aurélia: seu pai, Pedro, que nunca assumiu seu casamento com Emília, a mãe. Emília, rejeitada pela família, luta sozinha junto com os filhos, uma vez que foi desprezada pelos parentes.
Nessa segunda parte, a narrativa acrescenta algo a mais para o conhecimento do leitor, pois é importante considerar o fato de que esse romance é narrado por um narrador onisciente e externo. Nos estudos de Ligia C. Moraes Leite (2002, p. 20.), o narrador escolhido por Alencar tem uma visão privilegiada, pois:

[...] Na visão por trás, o narrador domina todo um saber sobre a vida da personagem e sobre o seu destino. É onisciente, poderíamos dizer. Sabe de onde parte e para onde se dirige, na narração, o que pensam, fazem e dizem as personagens; uma espécie de deus, ou demiurgo que lhes tolhe a liberdade

Em Senhora, um narrador onisciente que fala em terceira pessoa, utiliza-se das cenas para os momentos de diálogo e ação, e também é freqüente realizar a caracterização das personagens, que as descreve e explica para o leitor. (LEITE, 2002). Segundo a autora, é possível analisar também uma visão por detrás do narrador em Senhora, pois este traduz a confiança burguesa na objetividade (mantendo-se em terceira pessoa), como expressa uma possibilidade de explicação racional e exaustiva dos fatos psicológicos e sociais, que por sua vez são principalmente centralizados no casal protagonista do romance: Aurélia e Seixas.
Bourneuf e Ouellet dizem que um emprego dum tempo em vez de outro corresponde a necessidades e objetivos particulares, nos quais o autor o definirá e explorará segundo suas intenções, da mesma forma que não devemos esquecer o fato de que “[...] o tempo marca a evolução duma sociedade” (BOURNEUF, R. & OUELLET, R. 1976, p. 178), e nela estarão contidos valores específicos dos mesmos.
As duas últimas partes: “Posse” e “Resgate” descrevem o tempo presente do cotidiano do casal, bem como a relação de conveniência que ambos vivenciaram, todavia no final da última parte “Resgate”, a história volta a atenção para a reconciliação dos amantes com um desfecho caracteristicamente romântico.
De acordo com Bourneuf e Ouellet, o tempo da escrita, não é um dado tão simples, visto que o momento da escrita registra o sentido menos o tempo da aventura que o autor representa a sua época, e sendo assim: “[...] o escritor é tributário de modas e de processos da sua época, ao imitá-los ou ao recusá-los” (BOURNEUF, R. & OUELLET, R. 1976, p. 190).
Por isso concluímos que o narrador que Alencar selecionou, optou por escolher no tempo da escrita, uma forma mais adequada para apresentação dos fatos que se sucedem na narrativa, sendo que neles estão contidos os valores da sociedade do século XIX, bem como seus costumes e tradições. Isso nos leva a crer que as quatro partes constituintes da obra Senhora, integram-se numa perspectiva de duração social, considerada do exterior por um narrador onisciente que zela por uma objetividade na narração dos fatos.

REFERÊNCIAS

ALENCAR, J. Senhora. 33. ed. São Paulo: Ática, 1999.

AUERBACH, E. Na mansão de la mole. In: __________. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Ed. Perspectiva S. A., 1971.

BOURNEUF, R. ; OUELLET, R. O espaço; O tempo e As personagens. In: ________. O universo do romance. Coimbra: Almedina, 1976. p. 131-277.

CANDIDO, A. Os três Alencares. In:________. Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos. 6. ed. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1981. p. 221-235.

LEITE, L. C. M. A tipologia de Norman Friedman. In: ________. O foco narrativo. São Paulo: Ed. Ática, 2002. p. 32-37.

 
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