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  LINGUAGEM CORPORAL NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Eliana Ayoub - Faculdade de Educação/Unicamp

Resumo: Este trabalho objetiva refletir sobre o espaço da linguagem corporal no âmbito da educação infantil, focalizando as possíveis contribuições que a área da educação física pode trazer para a educação de crianças de 4 a 6 anos de idade. Tomando como referência a abordagem crítico-superadora da educação física, este estudo defende a idéia de que a expressão corporal caracteriza-se como uma das linguagens fundamentais a ser trabalhada na infância e relata algumas experiências com a educação física na educação infantil.

Introdução
As discussões acerca do espaço da linguagem corporal no âmbito da educação infantil vêm se intensificando nos últimos anos e, com certeza, ainda está muito longe de ser esgotada.
Neste trabalho, pretendo refletir sobre esse tema, focalizando as possíveis contribuições que a área da educação física pode trazer para a educação de crianças de 4 a 6 anos de idade, e apresentar algumas experiências desenvolvidas no contexto das disciplinas de “Prática de Ensino de Educação Física e Estágio Supervisionado I e II”, do Curso de Licenciatura em Educação Física da FEF/Unicamp.
As idéias que serão aqui apresentadas já foram por mim publicadas em dois periódicos específicos da área de educação física com os seguintes títulos: “Reflexões sobre a educação física na educação infantil” (Ayoub, 2001) e “Narrando experiências com a educação física na educação infantil” (Ayoub, 2005).
Partindo dos princípios que as crianças são seres históricos que se constituem nas relações sociais e a dimensão sócio-histórica dos conhecimentos precisa ser considerada nas práticas educativas, vários questionamentos podem ser feitos em relação ao tema em discussão:
- Como podemos trabalhar com a linguagem corporal no âmbito da educação infantil?
- Quais caminhos podemos percorrer para trazer às crianças as práticas culturais relacionadas ao campo da educação física?
- Como abordar os conhecimentos relativos à área da educação física de modo a considerar a sua dimensão sócio-histórica?
- É possível desenvolvermos um trabalho com a linguagem corporal na educação infantil que não esteja voltado para o desenvolvimento de habilidades motoras, que pode diferenciar-se da psicomotricidade e buscar outros enfoques?
- É possível construirmos um trabalho que não reforce a idéia bastante corrente de educação física como sinônimo de recreação?
- É possível nos diferenciarmos do discurso que pensa o trabalho corporal na educação infantil como acessório para o desenvolvimento da cognição, tal como ocorre enfaticamente nas primeiras séries do ensino fundamental, em que a educação física é considerada relevante quando dá suporte ao desenvolvimento da leitura e escrita e do pensamento lógico-matemático, ou ainda quando se configura como um espaço para compensar as “duras atividades” da sala de aula, como um espaço para extravasamento e/ou reconstituição de energias?

Com base na abordagem crítico-superadora da educação física, explicitada na obra “Metodologia do Ensino de Educação Física” (Coletivo de Autores, 1992), temos encontrado inspiração para enfrentarmos essas questões.
Segundo essa abordagem, a educação física escolar é compreendida na perspectiva da reflexão sobre a cultura corporal e pensada como
“(...) uma disciplina que trata, pedagogicamente, na escola, do conhecimento de uma área denominada aqui de cultura corporal. Ela será configurada com temas ou formas de atividades, particularmente corporais, como as nomeadas anteriormente: jogo, esporte, ginástica, dança ou outras, que constituirão seu conteúdo. O estudo desse conhecimento visa apreender a expressão corporal como linguagem” (Coletivo de Autores, 1992, p.61-62).
Podemos considerar que a proposta desse grupo trouxe um novo entendimento a respeito do papel da educação física na escola, especialmente por reconhecer a expressão corporal como linguagem e por propor uma organização dos conhecimentos que tem como eixo a sua dimensão sócio-histórica.
Reconhecendo a expressão corporal como linguagem, podemos defender a idéia de que a expressão corporal caracteriza-se como uma das linguagens fundamentais a ser trabalhada na infância. A riqueza de possibilidades da linguagem corporal revela um universo a ser vivenciado, conhecido, desfrutado, com prazer e alegria. A educação física na educação infantil pode configurar-se como um espaço em que a criança brinque com a linguagem corporal, com o corpo, com a gestualidade, alfabetizando-se nessa linguagem. Brincar com a linguagem corporal significa criar situações nas quais a criança entre em contato com diferentes manifestações da cultura corporal, sobretudo aquelas relacionadas aos jogos e brincadeiras, às ginásticas, às danças e às atividades circenses, sempre tendo em vista a dimensão lúdica como elemento essencial para a ação educativa na infância. Ação que se constrói na relação criança/adulto e criança/criança e que não pode prescindir da orientação do(a) professor(a).
É importante destacar que não consideramos a expressão corporal das crianças uma “propriedade” da educação física e, embora seja a sua especificidade, deve ser focalizada em vários momentos do cotidiano escolar, tendo a dimensão lúdica como princípio a ser seguido. Tomá-la como “propriedade” da educação física, seguramente reforça velhas dicotomias da nossa tradição racionalista ocidental.
Enfatizando a brincadeira, as interações e as diferentes linguagens como eixos do trabalho pedagógico na educação infantil, Sayão (2002, p.61) afirma que podemos planejar situações que levem as crianças a brincar, a interagir e a
“Manifestar-se através de diferentes linguagens, o que significa permitir e reconhecer que a oralidade, a escrita, o desenho, a dramatização, a música, o toque, a dança, a brincadeira, o jogo, os ritmos, as inúmeras formas de movimentos corporais, são todos eles expressões das crianças, que não podem ficar limitadas a um segundo plano. Em nossa cultura, a escrita tem ocupado um espaço considerável nas intervenções educativas em detrimento de outras linguagens que também são manifestações humanas. Descobrir junto com as crianças essas “outras” linguagens é um desafio a ser superado”.
Assim como é um desafio olharmos para nossas crianças inseridas na sociedade e na cultura, o que significa pensar numa organização do trabalho pedagógico que contemple essas diferentes linguagens em suas múltiplas formas de expressão (sem cair nas armadilhas das hierarquizações que insistem em valorizar algumas linguagens em detrimento de outras), sempre levando em consideração o papel dos adultos como mediadores no processo de apropriação do acervo de formas de representação do mundo. “É na sua relação com o outro que a criança vai se apropriando das significações socialmente construídas. Desse modo, é o grupo social que, por meio da linguagem e das significações, possibilita o acesso a formas culturais de perceber e estruturar a realidade” (Fontana, Cruz, 1997, p.61).

Compartilhando experiências
Um dos campos de estágio procurados pelos alunos do Curso de Licenciatura em Educação Física da FEF/Unicamp, futuros professores, tem sido a educação infantil. Dentre os diversos trabalhos realizados pelos estagiários, pretendo narrar algumas experiências que foram desenvolvidas numa escola municipal de educação infantil (EMEI) localizada na cidade de Campinas/SP, com base nos diários de campo, expressados nos relatórios de estágio dos alunos (Pinto e Carmona, 2001 e Silva, Menezes e Misuta, 2003).
Na rede municipal de ensino de Campinas as atividades relacionadas à linguagem corporal ficam a cargo das professoras “generalistas” ou “polivalentes”. Definiu-se, então, em comum acordo com a coordenadora pedagógica da escola, que os estagiários atuariam oferecendo aulas de educação física para as crianças, configurando-se, assim, um espaço próprio para a educação física na escola, porém como uma atividade com encontros semanais para as turmas de pré.
Mesmo correndo os riscos da “disciplinarização” na educação infantil, resolvemos aceitar a proposta por acreditarmos na possibilidade de realização de um trabalho diferente das abordagens predominantes na área da educação física para a educação infantil e, igualmente, por acreditarmos que, estando inseridos na EMEI, poderíamos tentar construir trabalhos coletivos com as professoras. E é com esse olhar que os alunos vêm desenvolvendo seus estágios até hoje.
Foi na abordagem crítico-superadora da educação física que os alunos estagiários (Pinto e Carmona, 2001 e Silva, Menezes e Misuta, 2003) encontraram inspiração para enfrentar o desafio de realizar as propostas de educação física na EMEI. Portanto, os planejamentos tiveram como eixo central os temas da cultura corporal, sempre tendo em vista a dimensão sócio-histórica desses conhecimentos e o papel dos estagiários/professores como mediadores no processo de apropriação do acervo de formas de representação do mundo exteriorizadas pela expressão corporal como linguagem.

Dentre as experiências vividas, serão destacadas as seguintes:
GRUPO A (Pinto e Carmona, 2001):
1. Tomando como referência a idéia do corpo como forma de linguagem, este grupo propôs algumas atividades nas quais as crianças foram se apropriando desse conceito:
- “Imitando o mundo”: imitação de objetos da sala, de objetos do parque, de objetos que têm em casa, de animais, de pessoas, de plantas etc.
- “Interpretando o mundo”: interpretação de uma história que foi narrada para a turma.
Após essas vivências, durante a roda de conversa, as estagiárias/professoras foram construindo com as crianças o conceito de corpo como forma de linguagem, trazendo a idéia de que o corpo “fala”; imitando ou interpretando o mundo à nossa volta podemos “dizer” muitas coisas. As estagiárias/professoras ressaltaram sua satisfação “[...] com a discussão e o retorno que as crianças deram, conseguindo entender muito bem aquilo que ensinamos. Com isso, percebemos o quanto é importante a discussão e que as crianças são capazes de opinar e chegar a ‘conclusões’” (Pinto e Carmona, 2001, p.8). A partir dessas vivências, outras propostas foram surgindo nessa mesma direção, agora com a realização de dinâmicas de interação grupal, procurando reforçar a seguinte idéia: “Descobri que também falo com gestos! Agora irei me expressar e explorá-los” (Pinto e Carmona, 2001, p.8).
2. Podemos destacar, ainda, um trabalho realizado no âmbito da ginástica que foi intitulado “Brincando de soldado: a missão”, com a idéia de se abordar a história da ginástica a partir dos métodos ginásticos europeus, focalizando os princípios de ordem e disciplina necessários para a formação do cidadão que deveria defender o seu país na guerra e na indústria. Com o objetivo de reconstruir a história da ginástica, as estagiárias/professoras organizaram essa atividade em que os alunos iriam representar uma história: elas eram as “comandantes” e as crianças eram os “soldados” e tinham a importante “missão de salvar o Mico Leão Dourado”. “Para isto, eles teriam de se preparar, ficar fortes, saudáveis e bastante obedientes para escutar e cumprir todas as instruções necessárias para salvar o animal” (Pinto e Carmona, 2001, p.19). Nesse jogo de “faz de conta”, as “comandantes” propuseram vários exercícios ginásticos (flexões de braço, polichinelos, marchas etc) para preparar os “soldados”, que receberam um “diploma de formatura” (chapéu de jornal) e partiram para a “missão”. Após passarem por vários “obstáculos”, eles completaram a “missão de salvar o Mico Leão Dourado”, que estava preso numa caixa de papelão (representado por uma foto). Ao final, cada criança recebeu uma foto do animal para levar para casa. Na roda de conversa, vários assuntos relacionados à ginástica de “antigamente” foram discutidos, além de outros relacionados às guerras, à extinção de espécies etc. De acordo com as estagiárias/professoras, a participação das crianças na atividade foi intensa; elas, de fato, mergulharam no “faz de conta” possibilitando que os objetivos da proposta fossem plenamente atingidos.
GRUPO B (Silva, Menezes e Misuta, 2003):
1. No contexto do tema jogo, esse grupo desenvolveu um trabalho com jogos e brincadeiras indígenas, aproveitando a sugestão das professoras que estavam trabalhando temas relacionados ao “Dia do Índio”. As atividades foram iniciadas com uma breve história sobre a formação do Brasil e sua relação com as três raças constituintes (índio, branco e negro). Em relação aos brancos, já haviam trabalhado com diversos jogos, inclusive com alguns retratados no quadro “Jogos Infantis”, pintado pelo holandês Pieter Bruegel, em 1560. E em relação aos negros, abordaram posteriormente, quando trabalharam com a capoeira. Partiram, então, para uma conversa específica sobre brincadeiras indígenas e vivenciaram o “jogo do leopardo” e o “jogo da sucuri”. Propuseram, ainda, a confecção de brinquedos (como por exemplo a peteca, feita com palha de milho, barbante e pena), a fim de estabelecer um paralelo com as culturas indígenas, nas quais as crianças constróem seus próprios brinquedos, geralmente na companhia dos adultos. Além das brincadeiras com a peteca, experimentaram brincadeiras com pião, utilizando sementes de eucalipto que podem ser transformadas em “piãozinho” e são fáceis de rodar. Segundo os estagiários/professores, o envolvimento dos alunos com as atividades foi bem grande, com a participação, inclusive, de alunos que nunca tinham feito as aulas (Silva, Menezes e Misuta, 2003, p.8-9).
Ao longo do processo, ambos os grupos constataram uma grande abertura dos alunos para experimentar propostas diferentes, chegando até a se surpreender em algumas ocasiões. Apesar de alguns pedidos insistentes pelo futebol, aos poucos os alunos foram gostando de aprender coisas novas. O gosto é socialmente construído; gosta-se, em princípio do que se conhece. Nas palavras de um dos grupos (Silva, Menezes e Misuta, 2003, p.12), “Foi um grande prazer trabalhar com essa faixa etária, principalmente pela facilidade com a qual atendiam às nossas propostas e por não terem muitos preconceitos arraigados em sua formação, estando as crianças abertas a múltiplas vivências”.
Embora o envolvimento dos estagiários e estagiárias com as professoras da EMEI e com a proposta pedagógica da escola tenha ocorrido de forma limitada, ficando a cargo de iniciativas pessoais, já que não existiu um projeto institucional que estimulasse efetivamente a integração, penso que as experiências vividas com as crianças foram significativas no sentido da apropriação do acervo das formas de representação do universo da cultura corporal, auxiliando na sua leitura de mundo.
Assim como o Grupo de Estudos Ampliado de Educação Física (1996, p.51) acreditamos que a contribuição da educação física na educação infantil, “[...] para ser relevante e justificada, precisa auxiliar na leitura do mundo, por parte das crianças com as quais trabalha, partindo do pressuposto da construção de si mesmo, no decorrer desse processo de ‘alfabetização’”.

Considerações finais
Para finalizar, gostaria de ressaltar que apesar das deficiências na formação do profissional da educação física para atuar no contexto da educação infantil, as quais têm favorecido posturas e ações equivocadas, penso que a presença do profissional da educação física na educação infantil pode colaborar muito positivamente na educação das crianças, desde que essa presença seja compreendida como uma possibilidade de desenvolvimento de trabalhos em conjunto, sem hierarquizações, de “mãos dadas”.

MÃOS DADAS
“Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
(...)
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente” (Carlos Drummond de Andrade, 1983, p.108; grifos meus).

De “mãos dadas” temos um longo caminho a construir em busca de centros de educação infantil nos quais o educar e o cuidar estejam sempre presentes nas relações com as crianças; centros de educação infantil nos quais as crianças sejam vistas no tempo presente, como seres humanos em constituição, e não como futuros alunos do ensino fundamental e/ou como futuros adultos no mercado de trabalho; centros de educação infantil nos quais as crianças possam descobrir-se, descobrir o outro, descobrir o mundo e suas múltiplas linguagens por meio do brincar; enfim, centros de educação infantil nos quais seja realizado um trabalho efetivamente em conjunto (entre os(as) profissionais, as crianças, os familiares e a comunidade) que contribua para uma educação verdadeiramente humana, na qual haja espaço para o diálogo, para o lúdico, para a vida.

Referências bibliográficas


ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. 18 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.

AYOUB, Eliana. Reflexões sobre a educação física na educação infantil. Revista Paulista de Educação Física, São Paulo, supl.4, p.53-60, 2001.

--------. Narrando experiências com a educação física na educação infantil. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v.26, n.3, p.143-158, maio/2005.

COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.

FONTANA, Roseli A. C. e CRUZ, Maria Nazaré da. Psicologia e trabalho pedagógico. São Paulo: Atual, 1997.

GRUPO DE ESTUDOS AMPLIADO DE EDUCAÇÃO FÍSICA. Diretrizes curriculares para a educação física no ensino fundamental e na educação infantil da rede municipal de Florianópolis-SC: registro da parceria NEPEF/UFSC-SME/Florianópolis, 1993 a 1996. Florianópolis: O Grupo, 1996.

PINTO, Larissa Graner e CARMONA, Tatiana Carvalhaes. Relatório de Estágio da disciplina Prática de Ensino de Educação Física e Estágio Supervisionado. Campinas, 2001. (Mimeo).

SAYÃO, Deborah Thomé. Infância, Prática de Ensino de Educação Física e Educação Infantil. In: VAZ, Alexandre Fernandez, SAYÃO, Deborah Thomé e PINTO, Fábio Machado (Orgs.). Educação do corpo e formação de professores: reflexões sobre a Prática de Ensino de Educação Física. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2002. p.45-64.

SILVA, Alan Marques da, MENEZES, Kamilla de Souza e MISUTA, Milton Shoiti. Relatório de Estágio da disciplina Prática de Ensino de Educação Física e Estágio Supervisionado. Campinas, 2003. (Mimeo).

 
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