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  MATEMÁTICA: UM MEIO DE COMUNICAÇÃO

Pérola Cunha Bastos / Universidade do Estado da Bahia-UNEB CAMPUSII

A experiência relatada segui-se a seguinte provocação: onde localizamos a interseção entre a leitura e produção textual e a matemática?. Trabalhamos fundamentados nos princípios da etnomatemática discutida por D´ambrosio. Assim, desenvolvemos um programa em um curso piloto desenvolvido na disciplina Leitura e produção textual, tendo como colaboradores professores-estudantes do ensino fundamental em um Programa de Formação para Professores da Rede Estadual de Ensino. Ä luz conceitual da etnomatemática, aliado a dinâmicas aplicadas, como também, firmado em princípios que discutem: o matema ; a leitura de mundo e a produção textual, produzimos material resultante de uma produção intensa, pródiga e diversificada cuja autoria é dos professores-estudantes.

A partir da necessidade de buscar resposta à pergunta: onde estaria a interseção entre a leitura e produção textual e a matemática?. Surgiu então, a idéia de produção de um artigo, oriundo do programa de do curso piloto desenvolvido na disciplina Leitura e produção textual que foi oferecido aos professores de matemática do ensino fundamental do estado da Bahia, mais especificamente no PROESP , que atuaram como colaboradores da experiência que ora comunicamos e onde discutimos as linguagens: escrita e a matemática como meio de produção textual.

Trabalhamos fundamentados em princípios da etnomatemática, a partir da etnografia da palavra “Para compor a palavra etno matemática utilizei as raízes tica, matema e etno para significar que há várias maneiras, técnicas, habilidades(tica) de explicar, de entender, de lidar e de conviver(matema) com distintos contextos naturais e socioeconômicos da realidade(etno). (D´ambrosio, p.113). Encontramos nessa concepção amplo caminho de trabalho onde o contexto social, político, profissional dos colaboradores, foi um nicho pródigo de reflexões. “Eles se sentem valorizados quando seus registros são considerados importantes: é o reconhecimento de que cada um tem algo valiosos a dizer” (BRUSSTEIN,at all. p. 60). Este aspecto, em particular, aliando às dinâmicas aplicadas atuaram como favorecedores de uma produção textual intensa e diversificada.

Buscando reunir elementos no sentido de aproximar a disciplina matemática a uma concepção de linguagem, recorremos à proposta da atual educação matemática que consiste em desmistificar a característica que, recorrentemente, é atribuída à esta disciplina como: disciplina a parte; distanciada da realidade; estigmatizada como difícil. “Ao longo dos anos vemos como a disciplina de matemática foi e continua estigmatizada como disciplina difícil como se ela em si mesma carregasse conteúdos que gerissem essas dificuldades na aprendizagem,...” (BRAGA,7)”. Quando a ciência é na verdade é mais uma possibilidade de linguagem do mundo,” existe um paralelo entre a língua materna e língua matemática, ambas são sistemas de representação da realidade.” (BRAGA.,9). Logo, a matemática é mais uma possibilidade de interação com o meio, através da qual podemos traduzido-lo para a linguagem matemática, constituído-se em um meio de comunicação.

Considerando-se a disciplina como meio de comunicação reside aí a idéia de ação, logo “A ação gera conhecimento, gera a capacidade de explicar, de lidar, de manejar, de entender a realidade, gera o matema. Essa capacidade transmite-se e acumula-se horizontalmente, no convívio com outros, contemporâneos, por meio de comunicações, e verticalmente, de cada indivíduo para si mesmo (memória) e de cada geração para as próximas gerações (memória histórica)”. (D´AMBROSIO,p.23). Portanto, conhecer é um ato constante e infinito, e a matemática revela-se como mais uma possibilidade. Se entendida assim, a escola precisa dar conta de todos as implicações que essa postura propõe.

E como fenômeno humano a comunicação, “Assim como acontece com todo o conhecimento, a Matemática é também um saber historicamente em construção que vem sendo produzido nas e pelas relações sociais e, como tal, tem seu pensamento e sua linguagem” FIORENTINI (1995:32). A ciência matemática se presta muito mais à comunicação do que a vemos concebida no ensino dela nas escolas, cursos e universidades.Talvez, aí resida a ´dificuldade´ tão relatada por aqueles que a estudam. Conclui-se então, que há necessidade de uma melhor abordagem da disciplina.

Encontramos razões históricas que podem justificar o fato. “...falar dessa matemática em ambientes culturais diversificados, sobretudo em se tratando de nativos ou afro-americanos ou outros não europeus, de trabalhadores oprimidos e de classes marginalizadas, além de trazer a lembrança do conquistador, do escravista, enfim do dominador, também se refere a uma forma de conhecimento que foi construída por ele, do dominador, e da qual ele se serviu e se serve para exercer seu domínio” (D´AMBROSIO,p.114). No mundo moderno as relações de poder continuam a existir, contudo existem também demandas pessoais e profissionais que a abordagem de ensino da matemática não contribui para a melhoria social.

Reiteramos que há demanda do ensino da matemática de uma maneira mais participada, contextualizada reconhecidamente viva. A este ensino deve-se acrescer o estudo da: representação e comunicação, investigação e compreensão. A disciplina deve ser vislumbrada a partir do meio, da intensidade e o fluxo de informações, seguramente um meio de interação. O fato tem instaurado demandas diversificadas, e assim, o conhecimento, de alguma forma, fica viabilizado a aqueles que investigam, a aqueles que estão atentos a buscar soluções locais, globais ou até universais. De alguma forma, democratizam-se as possibilidades no âmbito social.

À escola cabe assumir esse papel pois, ...é através do processo da leitura que a criança desenvolverá habilidades na compreensão de textos como, por exemplo, os enunciados dos problemas matemáticos, através da análise e reflexão sobre o que está sendo lido...”( BRAGA.p.13/4). Este curso, que ora apresentamos, concebe a leitura como leitura de mundo, onde exploramos aspectos relacionados à leitura do ´cotidiano do professor de matemática´. A escrita ou produção textual, torna-se resultante da primeira, ou seja da leitura. Assim como, o inverso: da leitura dos textos oriundos da produção de textos de autoria dos colaboradores, ou textos de outras fontes. Recorremos também à textos literários, musicados, provérbios, acrósticos, jogos de palavras, textos comerciais. Explorando, sempre, as variadas possibilidades de leituras, discutindo-as com colaboradores que atuam como professores de matemáticos. Uma vez que“...em todas as culturas e em todos os tempos, o conhecimento, que é gerado pela necessidade de uma resposta a situações e problemas distintos, está subordinado a um contexto natural, social e cultural.” (D´AMBROSIO,p.26).

Os colaboradores relataram a dificuldade dos alunos em entender, interpretar problemas matemáticos, fazendo-os improdutivos na resolução do Problema Matemático que é “qualquer situação que exija a maneira matemática de pensar e conhecimentos matemáticos para solucioná-los...”( BRAGA.p.15). Refletimos sobre este fato relatado pelos colaboradores, facultando também, serem os mesmos portadores dessa mesma dificuldade. Então, vale o questionamento: em que medida ele(s) estão ajudando, ou legitimando uma incapacidade que pode não ser, necessariamente, de seus alunos?. Assim, como “A matemática tem sido conceituada como a ciência dos números e das formas, das relações e das medidas, das referências, e suas características apontam para precisão, rigor e exatidão”. (D´Ambrosio,p.115), Entendemos que tratar a matemática sob outro olhar seria mais do que providencial perante ao cenário que se configura. Apostando que a matemática concebida como linguagem, revela-se como mais uma possibilidade de leitura do(s) contexto(s) natural, social e cultural segundo D´AMBROSIO.

O ementário deste curso piloto transitou em concepções de textos, leitura e escrita diferenciados. Exercício da construção do pensamento por meio de múltiplas linguagens. Assim, discutimos as relações entre a matemática e o cotidiano, ou a etnomatemática. E ainda, problematizamos o entendimento da matemática como linguagem. Oportunizamos práticas de leitura e escrita, elementos considerados desafios para alunos-professores do curso de matemática. Ele objetiva a desconstrução de conceitos que envolvem: a linguagem, conceituação de textos e a matemática como meio, instrumento, linguagem de “ tradução” do mundo.

Partindo do pressuposto que os elementos conceituais não podem ser estranhos ao mundo profissional, social e pessoal do aprendiz tomamos alguns cuidados. Assim, contextualização dos conteúdos teve como base a realidade dos alunos-professores, para a seguinte seleção: Renovação da pedagogia de leitura na escola: professor leitor: Concepção escolar de leitura;Leitura na escola;Leitura e avaliação;A leitura e o livro didático; O ensino das estratégias de leitura: cognitivas e metacognitivas; Aquisição da leitura e resolução de problemas matemáticos;Matemática como linguagem: idéias matemáticas aplicadas ao cotidiano. “Assim um caminho bastante razoável é preparar o aluno para lidar com situações novas,....E, para isso, é fundamental desenvolver nele iniciativa, espírito explorador, criatividade e independência através da resolução de problemas.” (BRAGA.p.22). Utilizamos os problemas apontados pelos alunos-professores como desafios mobilizadores de ação.


O processo objetiva provocar a mobilização do pensamento a partir de propostas geradoras de ação, a fim de que a produção escrita fosse fruto natural de respostas aos questionamentos gerados em sala, fundamentados por sentimentos e dos conhecimentos trabalhados em sala. Norteados pelos temas como: Identidade (o nome próprio, quem sou eu, como me vejo, como me vejo como vejo o outro,auto estima, ser adulto); Integração (semelhanças e diferenças, proximidade e distância, afinidades, respeito e aceitação,confiança,tocar e ser tocado); comunicação (comunicação verbal e não-verbal, comunicação escrita, ruídos de comunicação, ouvir e falar, valores pessoais e familiares,leitura crítica e meios de comunicação).

No primeiro encontro realizamos um ´papo´ diagnóstico, a fim de discutir as expectativas dos alunos-professores, seu trabalho como professores de Matemática e as necessidades de vínculos teórico-práticos a serem desenvolvidos durante o curso.E ainda, foi apresentada a proposta de programa da disciplina, explicada a metodologia, recursos, dinâmicas, e discutida a avaliação.

Tivemos quinze encontros de quatro horas, quando tratamos das temáticas, ou temas geradores iniciadas com uma dinâmica de aquecimento e dinâmica principal, combinadas entre si, porém com características diferentes, mas direcionadas para o tema de trabalho. Antes de cada atividade foi esclarecida a utilização dos meios, objetivos, conteúdos envolvidos, seguido de exposição participada dirigida pelo professor. Mediante a um acerto, que chamamos de pacto verbal, os alunos e o professor estabeleceram normas a serem seguidas à bem do andamento do curso, como: assiduidade por disciplina, as regras de grupo, limite de faltas por disciplina e atividades será de apenas 25%; aproveitamento média 7(0-10), disciplina e participação qualificada em sala, racionalizar as saídas da sala, ou atitudes perturbadoras ao andamento dos trabalhos, cumprimento do horário do intervalo, início e fim das aulas e o intervalo. Como também, foi durante todo o curso que discutimos demais ajustes inerentes ao processo pedagógico.

A Avaliação foi concebida por meio de: Prova escrita, Seminários, Oficina de textos, Auto-avaliações. Ao final do curso, os alunos apresentaram relatos de situações-problemas e experiências positivas realizadas por eles que culminou no ´Seminários da Matemática no Cotidiano´. O que parece ter sido uma feliz idéia segundo a passagem “ A resolução de problemas matemáticos se constitui em um dos aspectos de maior relevância no processo de ensino-aprendizagem desta disciplina e na formação do aluno como um todo.”(BRAGA.p.35). No Seminário foram compartilhados relatos de experiências onde a matemática é um instrumento de resolução de problemas do cotidiano em situações e no contexto da sala de aula. Os colaboradores elaboraram e relataram os relatos de forma detalhada para todo o grupo.

A Auto-avaliação foi exercitada periodicamente com a aplicação da fichas cujo conteúdo consiste nas seguintes passagens... ; nesse encontro aprendi... ; o que aprendi serve para... ; participando desse(s) encontro(s), me senti... ; do que menos gostei...; do que mais gostei...; minha relação com as pessoas do grupo...; espero que ... .As respostas tabuladas às colocações acima são, em geral, de satisfação com o andamento do curso.

De um modo dominante os alunos relataram conteúdos trabalhados, relacionando-os ao cotidiano em sala de aula, fica claro nas seguintes respostas ao que aprendi serve para: “Meu desenvolvimento intelectual e auxílio na sala de aula”, “Minha vida cotidiana”, são algumas citações destacadas das auto-avaliações. O que os colaboradores(as) apontam como o que mais gostei são: “ Continuação da abordagem” , “Forma como fomos incentivados a escrever”,” Me aperfeiçoar mais na produção de textos” , “Da forma como é transmitido e das novidades que estou guardando para os meus alunos”. Do item “do que menos gostei”, a maioria das respostas estavam em branco. Já o item (7)” Minha relação com as pessoas do grupo”, encontra-se respostas do tipo: “...Muito boa mais ainda me acho muito tímida. “,”Algumas pessoas o mínimo, eu sinto muito dificuldade de me relacionar, pois como já disse algumas pessoas são grossas que infelizmente ou eu queira ou não queira tenho que permanecer junta“. Vemos então, denunciados alguns conflitos pessoais, que apesar de terem sido percebidos pela professora regente durante o andamento do curso não impediram o andamento do curso. E, na medida do possível, esses confrontos foram trabalhados e mediados, inclusive, pelo temas abordados em sala.

A Avaliação da final da disciplina teve nos seguintes itens maior relevância: “Você mudaria a abordagem por dinâmicas? Justifique e dê sugestões.”;” 3. A disciplina acrescentou, modificou agregou algo a você? O quê?”; “4. O que você mudaria na disciplina no que diz respeito à : prática pedagógica, avaliação, recursos didáticos? “;
5. Este espaço é seu para algo mais, algum comentário.” . Novamente, as respostas obtidas da avaliação final da disciplina são favoráveis ao curso em seu planejamento como um todo.

Partindo do princípio de que tanto a linguagem escrita como a linguagem matemática, ambas, tem como princípio a leitura do mundo. E segundo D´Ambrosio, “Contextualizar a matemática é essencial para todos”. Aprofundamos conceitos imprescindíveis, tais como: o caráter formador e instrumental que o ensino da matemática deve contemplar do não somente saber contar, calcular, medir, estabelecer relações proporcionais, reconhecer formas, ler gráficos e tabelas, mas também, das demandas sociais do mundo informatizado, compreender os mecanismos financeiros.

Para as novas demandas do mundo hoje então, “Essencial é a atenção que devemos dar ao desenvolvimento de valores, habilidades e atitudes (....) em relação ao conhecimento e às relações entre colegas e professor”( PCNEM,pg.254), objetivando a contextualização do ensino das disciplinas. A escolha de temas inseridos nas dinâmicas favoreceram bastante à interação, atenção, empenho e integração do grupo, que apesar de contar com casos isolados de relações fragilizadas, não impediram o desenvolvimento das atividades a contento.

Finalmente, os recursos didáticos utilizados foram textos, músicas e algumas letras, transparências, data-show, poemas, gravuras.Exploramos através de painéis, discussões de textos e situações problemas as relações curiosas, de regularidades, de coerências, capacidade de abstrair, de generalizar estão presentes no cotidiano da sala de aula desses colaboradores e constatamos que a disciplina matemática está reconhecidamente sendo tratada como linguagem. Concluímos que a abordagem empregada ao curso foi determinante para releituras dos conceitos de leitura, produção textual, linguagens e suas aplicações. Além de facilitar a compreensão da realidade, a Matemática, é também, a base para o desenvolvimento e conhecimento de outros campos do saber como a Física, a Química, a Biologia, a Genética .

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