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PROFESSOR E A FORMAÇÃO DE LEITORES CRÍTICOS: DIAGNÓSTICO
DE UMA ESCOLA DE ASSENTAMENTO*.
Jane Cristina Beltramini Berto - Universidade Estadual de Maringá-PR (UEM) 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A leitura, segundo Silva (1998:21), é “prática
social e, por isso mesmo, condicionada historicamente pelos modos da organização
e da produção da existência, pelos valores preponderantes
e pelas dinâmicas da circulação da cultura”.
É importante destacar que, quando falamos em leitura, conforme
Menegassi & Morais (2002:132) “[...] não estamos nos
restringindo ao código escrito, mas a toda espécie de linguagem
mediadora do processo de interação entre leitor e a realidade
social que o circunda, que lhe permite conviver socialmente. Os analfabetos
e mesmo alunos que freqüentam ou freqüentaram bancos escolares
estão impossibilitados de participar ativamente das decisões
sociais por não possuírem uma visão crítica
da realidade social”. 2 O LEITOR COMPETENTE E SUA FORMAÇÃO Para Brasil (1997: 54 ) “o leitor competente é
alguém que por iniciativa própria é capaz de selecionar,
dentre os trechos que circulam socialmente, aqueles que podem atender
a uma necessidade sua. Que consegue utilizar estratégias de leitura
adequada para abordá-los de forma a atender essa necessidade”.
Portanto para ler, o leitor deve estar imbuído de intenções
e constituir estratégias de leitura, o que é compartilhado
por Solé (1998:24) que postula que “para ler, é necessário
dominar as habilidades de decodificação e aprender as distintas
estratégias que levam à compreensão. Também
se supõe que o leitor seja um processador ativo do texto, e que
a leitura seja um processo constante de emissão e verificação
de hipóteses que levam à construção da compreensão
do texto e do controle desta compreensão – de comprovação
de que a compreensão realmente ocorre”. “ para que isso ocorra, impõem-se as seguintes
condições de trabalho: Percebe-se, esse modo, que formar leitores críticos na escola não é uma tarefa fácil, muitos são os fatores envolvidos, o que torna complexa a tarefa do professor. Verificar como se encontra esse profissional envolvido nas práticas de leitura nesse estabelecimento de ensino, é o que passamos a tratar a partir desse momento. 3 PROCEDIMENTOS DA PESQUISA Devido a perspectiva qualitativa-interpretativa, o procedimento
adotado para subsidiar este artigo parte de visitas ao estabelecimento
de ensino, no município já citado e coleta de dados através
de um questionário contendo dez questões sobre leitura,
aplicado aos professores em 31/08/2004, além da observação
e diálogo aberto com os mesmos, onde as questões foram as
seguintes:
4 ENCONTROS E CONFRONTOS ENTRE A TEORIA E PRÁTICA Sendo a escola uma instância da formação do leitor competente e o professor o principal mediador dessa prática, nossa pesquisa procurou diagnosticar as finalidades e os procedimentos pelos quais a leitura tem sido ensinada no estabelecimento de ensino e na localidade em questão. A partir das respostas dadas pelos professores, procuramos delinear as finalidades e os procedimentos de leitura por eles trabalhados e a visão do profissional docente quanto à recepção da leitura pelos alunos. 4.1 FINALIDADES No que se
refere ao diagnóstico das finalidades, essas encontram-se agrupadas
nas questões: 3, 6 , 7 e 8. (P.1) “...esta habilidade é primordial para o desenvolvimento e aproveitamento nas demais disciplinas, pois se o aluno não consegue ler com compreensão consequentemente não vai ter aproveitamento nenhum”. (P.3) “... a leitura é a base da boa informação. Para estarmos atualizados, para informar, para o aperfeiçoamento e para que possamos saber e conhecer as palavras com grafia correta, a leitura é essencial”. (P.4) “... a leitura leva o educando a obter uma visão crítica do mundo e também desenvolve a capacidade de interpretação”. (P.6) “Leva
o educando a desenvolver seu vocabulário, se interando [sic] de
diversos temas, tornando um cidadão crítico”. (P.4) “ A compreensão do texto e a visão crítica do aluno”. (P.1) “ Ter um bom ambiente, tranqüilo e convidativo ao mundo da leitura”. (P.3) “ O silêncio, o livro, revista, jornal que você tenha escolhido. Pois se você tiver curiosidade, interesse pela leitura o prazer será intenso e assim a leitura será satisfatória. O local é um fator importante, por isso muitas vezes fazemos essa aula em contato com a natureza, percebo e tem muito progresso e que eles se sentem bem”. A questão 7 por sua vez trata explicitamente da finalidade da leitura nas aulas de Língua Portuguesa, em que os professores P.1 , P.2 e P.3 enxergam-na como diagnóstico ou saneamento de problemas gramaticais enquanto que P.5 e P.6 falam exclusivamente sobre a interação e P.4, apresenta uma visão mais ampla com alguns resquícios da gramática tradicional. (P.2) “... através da leitura os alunos possam a conhecer novas palavras, como são escritas e também a informação que é de suma importância”. (P.5) “ Ampliar e aperfeiçoar as possibilidades de comunicação oral, escrita e linguagem não verbal”. (P.4) “ Ajuda o educando a formar seu senso crítico, como também compreender melhor o mundo onde está inserido, desenvolver a capacidade de interpretação e produção de texto, ampliar o vocabulário.” Com relação
aos benefícios que a leitura pode trazer aos alunos, foco de interesse
da questão 8, podemos inferir que o P.1, P.2 e P.6 tecem considerações
genéricas sobre o assunto, enquanto que P.3 reafirma a leitura
como fonte de informação. Para o P.4, embora apresente considerações
sobre a interpretação do aluno, sua fala denota a reprodução
dos modelos textuais lidos pelo aluno, deixando-se levar pelas práticas
da pedagogia tradicional. O P.5 elenca todos os benefícios com
base nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), sem marcas de
originalidade. (P.3) “ A leitura só tem pontos positivos, mesmo que seja um texto pouco informativo, faz com que ele se sinta informado e assim útil para estar e sentir bem em qualquer ambiente”. (P.4) “ Melhora sua capacidade de interpretação em todas as disciplinas, o educando descreve melhor usando a estrutura correta, amplia o vocabulário”. (P.5) “Através da leitura o aluno pode desenvolver certas competências, analisar, interpretar, interagir e aplicar os recursos expressivos da linguagem em qualquer situação de uso real. Contribuindo dessa forma para a formação plena de sua cidadania”. Salvo algumas exceções, o dizer dos professores atesta que a criticidade não tem sido considerada a finalidade, nem o principal benefício advindo das aulas de leitura. Ao contrário, ao trabalhar com leitura, o professor tem em mente a implementação de atividades relacionadas a gramática ou a mera acumulação de informações. Isso confirma a afirmação de SILVA (1993:74), para quem a função da leitura é a “ de pretexto para o exercício de regras gramaticais e/ou de estímulo para diferentes tipos de redação”. E ainda “não mais se lê para melhor compreender a vida, mas para cumprir os artificialismos e pretextos impostos pela escola: treinamento da língua ‘culta’, análises gramaticais, inculcação de valores, respostas fechadas a exercícios de compreensão e interpretação, pesquisas vazias na biblioteca da cidade, horários, provas, notas, etc”. Portanto, ao priorizar a sistematização da língua em detrimento a construção de sentidos e ao necessário questionamento do material lido, afasta-se a possibilidade de formação de leitores competentes. 4.2 ENCAMINHAMENTOS Os encaminhamentos adotados pelo professor para o desenvolvimento das atividades de leitura no Colégio citado serão analisados em dois módulos, os relativos ao material, que são enfocados pelas questões 1, 2 e 9 e o encaminhamento direcionado a procedimentos que englobam as questões 4 e 5, conforme explicitaremos a seguir.
A questão 1, sobre o tipo de material utilizado para as aulas de leitura, obteve em unanimidade o livro didático como referencial, no entanto, pode-se perceber que, nas considerações dos professores P.1, P2 e P3, predomina o texto verbal enquanto que para os professores P.4, P.5 e P.6, há traços de trabalho que contempla o texto não-verbal. (P.3) “Primeiramente, utilizo o livro didático adotado pelo colégio, mas também livros, revistas, jornais, vídeo”. (P.5) “ Utilizo diversos materiais, desde o livro didático adotado como outras fontes: jornal, revista, livros e literatura, telas, vídeos, rádio, entre outros”. Com relação a tipologia textual, foco de interesse da questão 2, constatou-se o predomínio dos gêneros textuais presentes no livro didático, conforme dados dos professores P.1, P.2, P.6. Percebe-se também que os professores P.3, P.4 e P.5 destoam dos demais por apresentar concepções que denotam a expansão de horizontes, sendo citados textos do cotidiano e especificamente do campo. (P.2) “Como
trabalho com 5ª e 6ª série, o narrativo, o descritivo
e também textos informativos”. A questão 9 procura evidenciar quais assuntos estão mais presentes nos textos trabalhados, sendo observado o predomínio de assuntos variados nos textos utilizados pelo professor. Os professores P.1 e P.6, em suas respostas, procuraram não especificar os assuntos, deixando abertura para interpretação quando se referiram a textos próximos a realidade dos alunos, ou em alguns casos como os professores P.2, P.3, P.4 e P.5 que apresentaram preocupação quanto a temática “do campo”, através de assuntos como trabalho infantil, política, reforma agrária e meio ambiente, destacando-se o P.4 que salientou a importância de o aluno ter uma visão global do mundo e o P.6 que afirmou utilizar-se de assuntos diversos não somente referentes a realidade do campo. (P.1) “ Os que mais se aproximam da realidade deles até como forma de despertar o interesse do aluno”. (P.4) “Assuntos referentes a agricultura, política da Reforma Agrária, geralmente sobre o meio em que estão inseridos, não deixando de ter uma visão global do mundo”. Não
se pode negligenciar que o livro didático exerce uma grande influência
nas escolhas do professor nas práticas de leitura, o que pode ser
explicado pelo fato de muitas vezes ser o livro didático o material
e leitura mais acessível ao professor. Não se pretende aqui
fazer a condenação sumária do livro didático,
apesar de vários estudos já terem apontados os malefícios
que os mesmos podem trazer ao processo de ensino-aprendizagem. Entendemos
que o grande perigo ocorre quando o professor se deixa dominar pelo livro
didático, abandonando o caráter polissêmico da atividade
de leitura para legitimar a sua autoridade a partir dos modelos prontos
veiculados na material didático. “Se o livro didático é hoje o material autorizado para o trabalho em nossas salas de aula, o professor é apenas um intermediário entre a proposta do livro e seus alunos. Essa função de intermediário do professor leva-o à assunção de um pretenso ‘discurso científico’ que é didatizado: há um apagamento da historicidade constitutiva do conhecimento humano e do fazer científico”. Os professores em questão parecem ter por consenso a necessidade do uso de textos variados e relacionados a realidade do educando. Quando temos em mente que uma leitura crítica, deve além de gerar conhecimentos, propor atitudes e analisar valores, de forma a tornar mais aguçada a percepção do leitor diante da vida, devemos também ter claro que não basta ficarmos restritos à realidade local do educando. Sem sombra de dúvidas, esse é o primeiro passo para a produção de sentidos, porém a formação do leitor crítico pressupõe o acesso ao conhecimento de forma globalizada que permita ao leitor reorganizar o seu contexto imediato, mas também interagir com realidades mais amplas da sociedade organizada. 4.2.2 Procedimentos Os procedimentos
para desenvolver as atividades de leitura levam em conta o ambiente, conforme
questão 4, e também as etapas para desenvolvimento da aula
de leitura relatados nas respostas da questão 5: (P.2) “ Na sala de aula e algumas vezes fora, mas não temos uma boa biblioteca para desenvolver essas atividades”. (P.5) “ Em sala de aula, na biblioteca e fora da sala, ao ar livre, pois a escola possui ambiente amplo que contribui para esse fim”. Em relação à questão 5, que trata da forma como essas atividades são desenvolvidas, o que se observou foi a confusão nas etapas para o processamento da leitura por parte dos alunos e professores. Com exceção de P.4 e P.6 que preocupam-se com a preparação do aluno, os conhecimentos prévios e a discussão coletiva sobre os sentidos do texto, os demais (P.1, P.2, P.3, P.5) relataram atividades de leitura possíveis, o que não foge a regra do controle dos roteiros de livros didáticos. No entanto, o P.1 demonstrou preocupação com sentimento do aluno em relação ao texto, não com o sentido do mesmo, o que esteve presente de certa forma nas considerações de P.2, que relatou preocupar-se com o prazer que a leitura pode proporcionar no aluno. Já o P. 3 demonstrou em sua fala a leitura controlada e avaliativa, com fins propostos. (P.3) “Deixo que cada aluno escolha o que quer ler, claro que dou as informações necessárias para cada série. Depois peço a eles que façam um resumo e apresente aos colegas de sala, dando a liberdade para perguntas sobre o livro. Esse trabalho é feito individualmente”. (P.4) “
Antes de iniciar a atividade, faço um breve comentário sobre
o tema, faço perguntas para que eles apresentem o seu conhecimento
prévio sobre o assunto, depois os educando fazem a leitura e em
forma de seminário, vamos discutir o tema”. 4.3 VISÃO DO PROFESSOR QUANTO AO POSICIONAMENTO DO ALUNO DIANTE DA LEITURA Com referência
a questão 10, onde procuramos delinear a visão do professor
quanto ao posicionamento do aluno frente a leitura, optamos por analisar
as respostas elencando-as em duas categorias: atitudes e dificuldades. (P.1) “Os alunos em geral, com raras exceções não gostam de ler, pois não tem o hábito de leitura e conseqüentemente sentem-se desmotivados diante do ato de ler”. (P.3) “Quando há interesse pela leitura da parte do aluno, existe uma perfeita sintonia entre ele e o material que ele está usando. Ele questiona, dá sua opinião, pergunta e até muitas vezes se encaixa dentro do assunto”. (P.5) “[...apresentam grande interesse em relação `a leitura. São participativos, pois como pertencem a um grupo politizado já chegam à escola com um discurso bem desenvolvido, gostam de falar em público, possuem senso crítico...] Essa situação
coincide com a fala de Silva (1995:24): “A divergência, a
descoberta, a produção de sentidos inusitados e inesperados,
o relacionamento de uma leitura com outras experiências discursivas
do aluno, o conflito e a pluralidade de interpretações,
tudo isso é sacrificado em nome da reprodução de
significados petrificados no tempo e em nome de protocolos ou modelos
de leitura privilegiados pela escola”. (P.1) “Há uma grande dificuldade de ler com compreensão, o mais comum é o aluno fazer a decodificação do código escrito”. (P.3) “Os alunos trazem muitos problemas de casa, e isso dificulta o aprendizado. A realidade de uma escola do campo não se compara a de uma escola urbana. O difícil acesso por exemplo é um fator que atrapalha o desenvolvimento tanto do aluno quanto do planejamento. No que se refere às dificuldades, muitas vezes o professor exclui sua parcela de responsabilidade, como se tudo na sala de aula girasse em torno do leitor e do texto, sem que este tivesse sua parcela de participação no fracasso ou sucesso das práticas de leitura. Contraditória a essa perspectiva é a afirmação de Menegassi (2001:329) “a interação em leitura, na sala de aula, apóia-se nas personagens de um diálogo próprio, que são o leitor e o texto. A essas personagens agrega-se uma outra intermediária que conduz todo o processo a caminhos que levam à construção de sentidos do texto ou à destruição da leitura: o professor”. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Conforme
atesta a análise desenvolvida ao longo deste trabalho, os professores
da escola em questão, em grau maior ou menor, não têm
total conhecimento das práticas necessárias a formação
de leitores críticos. Embora essa urgência esteja marcada
em muitas de suas colocações, as ações pedagógicas
por eles desenvolvidas, segundo seus relatos, nos permitem afirmar que
não é possível alcançar plenamente a formação
desse tipo ideal de leitor. O professor vivencia o mesmo conflito de seus alunos, porque vem de classes dominadas, possuindo péssimas condições de trabalho e formação profissional repleta de lacunas (KLEIMAN, 1992b; MEIRELLES, 1990a), ou porque, como já foi dito, historicamente seu papel tem se voltado para a manutenção da face institucional em que prevalecem as determinações das classes dominantes. Percebe-se,
portanto, que é urgente a implementação de um processo
de formação continuada que assegure ao professor a reparação
das eventuais lacunas deixadas ao longo de seu processo de formação,
principalmente considerando o contexto específico e as peculiaridades
do estabelecimento em questão, que impõem desafios maiores
aos professores, enquanto mediadores do processo de leitura. BRASIL. Secretaria
de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais:
Língua Portuguesa. Brasília: Secretaria de Educação
Fundamental, 1997. |
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