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  OS GÊNEROS TEXTUAIS NO LIVRO DIDÁTICO: ARGUMENTAÇÃO E ENSINO

Renata Maria Barros Lessa de Andrade - Universidade Federal de Pernambuco - UFPE
Telma Ferraz Leal - Universidade Federal de Pernambuco - UFPE
Ana Carolina Perrusi Brandão - Universidade Federal de Pernambuco - UFPE

A pesquisa identificou os gêneros textuais presentes em três coleções de livros didáticos de 1ª a 4ª series. Concedemos atenção especial aos gêneros da ordem do argumentar, indicando a freqüência com que tais gêneros aparecem por série e coleção. Constatamos que apenas 7,3% do total dos textos analisados são da ordem do argumentar, enquanto que os demais gêneros estão distribuídos entre os outros quatro agrupamentos de textos propostos por Dolz e Schneuwly: textos da ordem do narrar, do relatar, do expor e do descrever ações. Um dado revelado na pesquisa foi que gêneros textuais que, em princípio, não são tomados como argumentativos (um poema, por exemplo), são por vezes usados pelos autores para defender pontos de vista.

1. Justificativa
Os documentos oficiais, como os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), vêm propondo que o objetivo do ensino da Língua Portuguesa seria o de desenvolver habilidades e capacidades de interação por meio da linguagem oral e escrita. Em outras palavras, deveríamos ajudar os alunos a desenvolver “a competência comunicativa dos usuários de empregar adequadamente a língua nas diversas situações de comunicação” (Travaglia, 1996, pp. 17-18).
Nesse sentido, destaca-se o princípio pedagógico de que devem ser garantidas condições para que as crianças, os jovens e os adultos entrem em contato com variados gêneros textuais que circulam na sociedade, para que desenvolvam capacidades comunicativas, buscando os efeitos de sentido pretendidos. No entanto, no âmbito da pesquisa há ainda poucos estudos, sobretudo no que tange à didática dos conteúdos específicos, que ofereçam suporte de trabalho aos professores que lidam com o ensino da Língua Portuguesa.
Quanto ao ensino e aprendizagem dos gêneros textuais, existem também algumas questões que estão em aberto, tais como: Quais são os critérios de escolha dos gêneros textuais que estão presentes nos livros didáticos analisados? Existe uma seqüência quanto aos gêneros ou tipos de textos a serem trabalhados (e, portanto, níveis de complexidade diferentes atribuídos a gêneros diferentes)?
Alguns autores, como Vinson e Privat (1994), por exemplo, defendem que a aprendizagem sobre os textos ocorre por meio da interação entre o aluno e as propriedades culturais do gênero, ou seja, propiciando situações de uso da linguagem, a apropriação dos diferentes gêneros textuais ocorreria, naturalmente.
Em oposição a essa perspectiva, Dolz (1994) defende que a intervenção sistemática do professor, levando o aluno a refletir sobre as características dos textos e seus contextos de uso, é indispensável para que a capacidade de produzir diferentes gêneros textuais se desenvolva. A esse respeito, também afirma Schneuwly (1988) que não há texto propedêutico que prepare o indivíduo para dominar todos os outros gêneros textuais. Decorre dessa concepção a idéia de que é necessário um contato efetivo com a variedade de gêneros e tipos textuais.
Em nossa pesquisa, objetivamos discutir os gêneros textuais inseridos nos livros didáticos de Língua Portuguesa destinados aos anos iniciais do Ensino Fundamental. Para tal, investigamos quais gêneros textuais em que se defendem pontos de vista estão presentes nesses livros (textos da ordem do argumentar) e em que freqüência eles aparecem em três coleções de livros de Língua Portuguesa que foram aprovadas pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD, 2004).
Consideramos que argumentar, ou seja, utilizar recursos lingüísticos para apresentar e defender nossas concepções sobre o mundo e sobre a vida é uma atividade social essencial para o nosso dia-a-dia. Por isso, é imprescindível que os alunos possam aprender, na escola, a defender idéias e também a contra-argumentar, isto é, elaborar argumentos a possíveis objeções que possam vir a aparecer em relação à proposição defendida.
A presente pesquisa vem ainda preencher uma lacuna no campo de estudos sobre livros didáticos produzidos no Brasil, já que a maior parte das investigações realizadas se concentra nos anos finais do Ensino Fundamental ou no Ensino Médio (ver, por exemplo, Bonini, 1998).

2. Fundamentação teórica

O livro didático é considerado com um importante suporte para o trabalho do professor. Oliveira, Guimarães e Momény (1994) definem o livro didático como um material impresso, estruturado, destinado ou adequado a ser utilizado em um processo de aprendizagem ou formação.
Segundo o MEC, os livros didáticos devem:

Cumprir tanto a função de um compêndio quanto as de um livro de exercícios, devem conter todos os tipos de saberes envolvidos no ensino da disciplina e não se dedicar, com maior profundidade, a um dos saberes que a constituem; devem ser acompanhadas pelo livro do professor, que não deve conter apenas as respostas às atividades do livro do aluno, mas também uma fundamentação teórico-metodológica e assim por diante. (Batista, 2000; pp.568).

A escolha do livro didático como objeto de estudo decorreu da posição de destaque que ele vem ocupando no cenário educacional. De fato, nas últimas décadas, o acesso a esse material, nas escolas públicas brasileiras, tem sido crescente. Considerando que o livro didático é um dos recursos mais usados na sala de aula, tomaremos a presença de textos da ordem do argumentar nestes portadores como medida do quanto esses textos são lidos pelas crianças nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Pesquisas realizadas por Bezerra (2001), Lopes (1998) e Bonini (1998) indicam que a argumentação tem aparecido com pouca freqüência nos livros didáticos em todos os níveis de ensino.
Bonini (1998) analisou oito coleções de livros didáticos de Língua Portuguesa dirigidos ao Ensino Médio. Nesse estudo, foi detectada uma grande variedade de gêneros textuais em tais coleções, tais como cartas, anúncios e notícias. No entanto, não havia uma explicação sobre esses gêneros, ou havia apenas uma breve conceituação, sem exploração de suas características lingüísticas.
Bezerra (2001), que analisou a tendência dos livros didáticos de Língua Portuguesa no Brasil quanto à seleção de textos principais e complementares, informa que os livros de 1a à 8a série são compostos por textos predominantemente do tipo narrativo. Os gêneros textuais mais freqüentes nos volumes 1 a 4 são, segundo esse estudo, os contos infantis, e nos volumes 5 à 8, as crônicas e contos. A autora indica, ainda, que dentre os textos não-literários, são mais freqüentes os jornalísticos (notícias, reportagens, anúncios, entrevistas) e os instrucionais (regras de jogo, receitas culinárias, manual de instruções). Em relação aos textos argumentativos, Bezerra (2001) afirma que são encontrados com maior freqüência os textos de opinião e as redações, que são gêneros tipicamente escolares. Como podemos perceber, tal pesquisa não enfoca, em profundidade, a dimensão argumentativa. Nesta pesquisa, aprofundaremos essas análises, por meio da identificação dos gêneros que estão sendo mais inseridos nos livros.
Para a condução dessa identificação/ categorização dos textos que compõem os livros das coleções, torna-se necessário explicitar a concepção que se tem acerca de texto da ordem do argumentar.
O termo argumentação vem sendo utilizado com diferentes sentidos, possibilitando, assim, a construção de diferentes concepções, muitas vezes conciliáveis. Para Koch (1987) e Pécora (1999), qualquer uso de linguagem, desde que se efetive um vínculo intersubjetivo, e que se possa reconhecer um efeito de sentido, constitui uma argumentação. Apesar de reconhecermos essa base argumentativa da linguagem, acreditamos que alguns textos apresentam de forma mais explicita o objetivo de defender idéias.
Utilizamos, portanto, a classificação proposta por Dolz e Schneuwly (1996), que consideram os contextos de uso, as finalidades e os tipos textuais dominantes em cada texto e classificam os gêneros textuais em cinco agrupamentos. São eles: textos da ordem do relatar, textos da ordem do narrar, textos da ordem do expor, textos da ordem do descrever ações e textos da ordem do argumentar. Os gêneros da ordem do argumentar são os que têm finalidades direcionadas à defesa de pontos de vista, tais como: textos de opinião, diálogos argumentativos, cartas ao leitor, cartas de reclamação, cartas de solicitação, debates, editoriais, requerimentos, ensaios, resenhas críticas, artigos de opinião, monografias, dissertações, entre outros.
Com relação aos gêneros textuais, o conceito adotado na presente investigação está apoiado na teoria dos gêneros textuais de Bakhtin (2000). Esse autor parte do princípio de que “cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados” (Bakhtin, 2000, p. 279). Nessa perspectiva, a comunicação verbal só é possível por meio de algum gênero textual.
Com base nesse conceito, Marcuschi (2002), afirma que gênero textual é:

Uma noção propositadamente vaga para referir os textos materializados que encontramos em nossa vida diária e que apresentam características sócio-comunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição característica. Se os tipos textuais são apenas meia dúzia, os gêneros são inúmeros. Alguns exemplos de gêneros textuais seriam: telefonema, sermão, carta comercial, carta pessoal (...). (p. 22-23)

Buscando evitar a confusão entre os conceitos de gênero e tipo textual, Marcuschi (2002) salienta que tipos textuais são, por sua vez:

Uma espécie de construção teórica definida pela natureza lingüística de sua composição (aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas). Em geral os tipos textuais abrangem cerca de meia dúzia de categorias conhecidas como narração, argumentação, exposição, descrição, injunção. (p. 22).

Partindo dos princípios acima expostos, adotamos pressupostos sócio-interacionistas de que o contato com diferentes gêneros textuais possibilita ao aluno desenvolver capacidades textuais que o auxiliam a melhor conduzir os processos de interlocução, seja por meio de textos orais, seja por meio de textos escritos. No entanto, alertamos para a necessidade de garantir que essa diversificação leve em conta os diversos contextos de interação e aspectos formais dos textos. O contato com textos da ordem do argumentar familiariza os estudantes com situações em que indivíduos ou grupos de indivíduos se engajam em tarefas de convencer “outras pessoas” a adotarem os seus pontos de vista.
Saber introduzir um ponto de vista, defender tal ponto de vista por inserção de justificativas, justificativas das justificativas e contra-argumentação, utilizar articuladores lógicos em atividades de produção de textos; saber identificar pontos de vista, analisar a consistência argumentativa de textos em atividades de leitura são aprendizagens possíveis apenas se forem proporcionadas situações de produção, leitura e reflexão sobre textos da ordem do argumentar.

3. Metodologia

Foram analisadas três coleções de livros didáticos de Língua Portuguesa, aprovados pelo PNLD/ 2004. São elas: coleção A – Português: uma proposta para o letramento, da autora Magda Becker Soares, (recomendada com distinção); coleção B - Análise, Linguagem e Pensamento – ALP novo, dos autores Marco Antonio de A. Hailer e Maria Fernández Cocco (recomendada); e coleção C - Com texto e trama, das autoras Maria Mello Garcia e Dília Maria A. Glória (recomendada).
Inicialmente buscou-se identificar todos os gêneros textuais presentes nos livros didáticos, nas três coleções, em cada uma das séries. Em seguida, foram selecionados os gêneros textuais da ordem do argumentar. Desta forma, foram identificados os títulos dos textos, sua classificação quanto ao gênero textual e as respectivas páginas em cada volume das três coleções. Todos os livros foram analisados por dois juizes independentes e os casos discordantes foram discutidos no grupo de pesquisa.


4. Apresentação e discussão dos resultados

Na análise das três coleções, foram computados 739 textos. Para uma melhor apresentação dos resultados, faremos a exposição dos dados de cada coleção separadamente. É importante esclarecer que na apresentação das tabelas de gêneros textuais utilizados com maior freqüência em cada coleção, há uma quantidade registrada como “outros”. Nesta categoria foram reunidos todos os gêneros textuais encontrados numa quantidade igual ou inferior a dois.


4.1. Análise da coleção A: Português uma proposta para o letramento

Na coleção A, foram identificados 313 textos, dos quais apenas 9,91% são da ordem do argumentar. Na tabela 1, pode ser visto o número total de textos que aparecem nos livros, por volume, bem como a freqüência dos gêneros textuais da ordem do argumentar presentes em cada exemplar.

Tabela 1: Freqüência de textos na “coleção A”

Textos

Volumes

Total

1

2

3

4

Textos da ordem do argumentar

5

7

4

15

31

Textos de outras categorias

67

82

66

67

282

Total

72

89

70

82

313

 

            Os gêneros textuais que aparecem com maior freqüência na coleção podem ser vistos na tabela 2 abaixo.

 

Tabela 2: Gêneros textuais mais freqüentes na “coleção A”

 

Gêneros textuais

1ª série

2ª série

3ª série

4ª série

Total

Poema

10

8

8

14

40 (12,78%)

Texto didático

8

4

6

12

30 (9,59%)

Conto

5

9

11

3

28 (8,95%)

Capa de livro

5

11

6

3

25 (8%)

Tira

7

7

2

4

20 (6,39%)

Verbete

2

7

3

7

19 (6,07%)

Referência bibliográfica

4

4

4

4

16 (5,11%)

Reportagem

-

2

3

7

12 (3,83%)

Nota informativa

2

2

3

-

7 (2,24%)

Anúncio publicitário

2

1

1

2

6 (1,92%)

Definição

2

4

-

-

6 (1,92%)

Legenda

1

2

-

3

6 (1,92%)

Título

-

3

2

-

5 (1,6%)

Anúncio classificado

-

3

-

1

4 (1,27%)

Cartaz educativo

2

-

-

2

4 (1,27%)

História em quadrinhos

-

2

2

-

4 (1,27%)

Instruções de montagem

-

3

-

1

4 (1,27%)

Instruções de saúde

2

1

1

-

4 (1,27%)

Apresentação pessoal

-

-

3

-

3 (0,96%)

Carta de solicitação

-

-

-

3

3 (0,96%)

Crônica

-

2

1

-

3 (0,96%)

Diário íntimo

1

1

1

-

3 (0,96%)

Notícia

1

-

-

2

3 (0,96%)

Obra teatral

-

1

2

-

3 (0,96%)

Trava-língua

-

3

-

-

3 (0,96%)

Outros

18

9

11

14

52 (16,61%)

Total

 

 

 

 

313 (100%)

Visivelmente, a tendência da coleção é trabalhar uma grande variedade de gêneros textuais em todas as séries. Apesar disso, alguns gêneros textuais, tais como poema, texto didático, conto e capa de livros aparecem em quantidade bem superior em relação a outros gêneros, como, por exemplo, receita culinária, que se faz presente apenas uma vez em toda coleção (sendo incluída na categoria de “Outros”).
A tabela 3 a seguir é um desdobramento da tabela 1, apresentando os exemplares dos gêneros textuais da ordem do argumentar encontrados na coleção A em cada série.

Tabela 3: Gêneros textuais da ordem do argumentar presentes na “coleção A”

Gênero textual

1ª série

2ª série

3ª série

4ª série

Total

Reportagem

-

2

3

7

12

Anúncio publicitário

2

1

1

2

6

Anúncio classificado

-

3

-

1

4

Cartaz educativo

2

-

-

2

4

Carta de solicitação

-

-

-

3

3

Artigo de opinião

1

-

-

-

1

Carta da redação

-

1

-

-

1

Total

5

7

4

15

31

Como foi visto, a coleção A apresenta uma grande variedade de textos, porém, os da ordem do argumentar aparecem com um pequeno percentual (apenas 9,91% do total dos textos presentes nos quatro volumes). Destes, a maioria se encontra no volume 4, sendo as reportagens e os anúncios, os gêneros textuais mais freqüentemente encontrados.
O gênero da ordem do argumentar mais presente nesta coleção foi a reportagem. Vejamos um exemplo de uma reportagem encontrada no volume 3 (pp. 100-101). Como pode ser visto, embora a jornalista não explicite seu ponto de vista claramente, ela, por meio de exemplos, defende a idéia de que crianças podem e devem ajudar a mãe nos trabalhos domésticos, especialmente quando ela está trabalhando fora de casa para garantir o sustento de sua família.

ELES SÃO OS DONOS DA CASA
Lavínia Fávero

“Mãe é uma só”, diz o ditado. Ela faz a comida, ensina a fazer a lição de casa, cuida da gente. E quando ela precisa trabalhar fora? Ainda bem que existem os irmãos.
A Folhinha conta hoje algumas histórias de crianças que precisam substituir a mãe.
Elas aprenderam a se cuidar sozinhas, ajudam no serviço da casa e tomam conta dos irmãos menores, enquanto os pais dão duro fora de casa.
Na casa das trigêmeas Karen, Karina e Kátia de Aguiar, 8, quem manda depois da mãe é Kátia, a última das três a nascer. As meninas e o irmão Bismarck, 10, lavam a louça, varrem o chão, arrumam a cama, limpam o banheiro e até fazem comida.
“A Kátia dá mais bronca que minha mãe, mas só nas meninas, por que elas param de arrumar a casa para assistir televisão. Em mim, ela só dá bronca de vez em quando”, conta Bismarck.
A mãe deles, Maria Aparecida, 34, é diarista (faz limpeza cada dia para uma pessoa). Sai de manhã cedinho e só volta à noite. O pai delas mora em Altamira, no Pará.
As tarefas da casa são divididas entre os irmãos. Bismarck arruma a mesa. “De lavar a louça, gosto mais ou menos, Kátia é que lava. Secar, a gente não seca”, diz.
“Nosso quarto é organizado, pode olhar”, fala Kátia. “Mas a mãe precisa mandar a gente fazer isso”, conta Bismarck
Para ir à escola e fazer os deveres, não precisa mandar. Eles estudam à tarde e vão sozinhos, caminhando.
Folhinha, São Paulo, Folha de S. Paulo, 8 de maio 1999, p. 4.

4.2 Análise da coleção B: Análise, Linguagem e Pensamento – ALP novo

Na coleção B, foi identificado um número menor de textos em relação à coleção A (237 textos na coleção B vs. 313 na coleção A). Além disso, apenas 3,8% do total de textos da coleção B foram incluídos como da ordem do argumentar, ou seja, uma percentagem também mais reduzida do que a apresentada na coleção anterior.
Na tabela 4 pode ser vista a freqüência com que os textos aparecem na coleção B, por série, bem como os gêneros textuais da ordem do argumentar presentes em cada volume.

Tabela 4: Freqüência de textos na “coleção B”

Textos

Volumes

Total

1

2

3

4

Textos da ordem do argumentar

--

2

2

5

9

Textos de outras categorias

42

57

59

70

228

Total

42

59

61

75

237

 

                Os gêneros textuais identificados com mais freqüência na coleção podem ser vistos na tabela 5.

Tabela 5: Gêneros textuais mais freqüentes na “coleção B”

 

Gêneros textuais

1ª série

2ª série

3ª série

4ª série

Total

Conto

15

16

21

16

68 (28,69%)

Texto didático

5

7

10

6

29 (12,23%)

Poema

5

4

5

13

27 (11,39%)

Letra de música

2

3

3

5

13 (5,48%)

Notícia

1

1

3

2

7 (2,95%)

Relato

2

2

1

1

6 (2,52%)

Piada

1

2

1

1

5 (2,12%)

Conversa

-

1

-

3

4 (1,69%)

Tabela

1

2

-

1

4 (1,69%)

Anúncio publicitário

-

1

1

1

3 (1,27%)

Bilhete

1

-

-

2

3 (1,27%)

Capa de livro

1

1

1

-

3 (1,27%)

Carta pessoal

-

1

-

2

3 (1,27%)

Fábula

-

-

2

1

3 (1,27%)

Mapa

-

-

2

1

3 (1,27%)

Obra teatral

-

1

1

1

3 (1,27%)

Receita culinária

1

1

-

1

3 (1,27%)

Texto de opinião

-

-

-

3

3 (1,27%)

Outros

7

13

10

14

44 (18,56%)

Total

 

 

 

 

 237 (100%)

Como se pode ver, contos, textos didáticos e poemas, se somados, representam em torno de 50% do total de gêneros textuais presentes nessa coleção. Há, portanto, uma preferência nítida dos autores em relação a esses gêneros em detrimento de outros.
Com relação aos gêneros textuais da ordem do argumentar, foi observada, na coleção B, uma menor variedade de textos em relação à coleção A, como pode ser visto na tabela 6, abaixo.

Tabela 6: Gêneros textuais da ordem do argumentar presentes na “coleção B”

Gênero textual

1ª série

2ª série

3ª série

4ª série

Total

Anúncio publicitário

-

1

1

1

3

Texto de opinião

-

-

-

3

3

Cartaz educativo

-

-

1

1

2

Reportagem

-

1

-

-

1

Total

-

2

2

5

9

Observa-se que os textos argumentativos estão mais concentrados no volume 4, o que aparentemente sugere uma noção de que esses textos devem estar reservados para crianças mais velhas.
Ainda em relação aos dados da tabela 6, é importante esclarecer a distinção que fazemos entre texto de opinião e artigo de opinião, presentes na coleção B e A, respectivamente. Os aqui chamados “textos de opinião” apresentam-se como a expressão de uma opinião sobre um tema qualquer, seguida de uma breve justificativa para a posição colocada. São textos mais restritos à esfera escolar de interação e dado que não conseguimos incluí-lo em nenhum dos gêneros comumente adotados nas diversas situações do cotidiano, resolvemos nomeá-los desta forma. Ao contrário, os “artigos de opinião” são textos que circulam no mundo fora da escola, em revistas e jornais, por exemplo, e que a partir de um tema polêmico, assumem certo ponto de vista, de modo mais ou menos explícito. Vejamos os exemplos:

Artigo de opinião: identificado na coleção A, no livro da 1ª série (p. 35).

Quanto pesa sua mochila?
Ana Holanda


Você já parou para pensar quanto pesa sua mochila? Então, aproveite e pare em alguma farmácia do caminho para pesá-la. O material escolar que todos têm de levar para a escola diariamente muitas vezes supera os cinco quilos.
Pode ser pouco para um adulto, mas certamente mais do que muitas crianças poderiam carregar sem comprometer sua coluna.
Agora, imagine todo peso colocado em cima de suas costas. Ruim, né? E isso sem falar que você provavelmente costuma levar todo peso da mochila em um ombro só, o que pode ser mais prejudicial. A melhor forma de carregar a mochila é bem apoiada nas costas e presa nos dois ombros, pelas alças.

Revista Zá, ano I, n. 1, julho 1996, p.24. (Fragmento).

Texto de opinião: identificado na coleção B, no livro da 4ª série, na página 109.

Opinião 1

Eu acho que os trens são um meio de transporte de carga e de passageiros muito econômico e mais eficiente e seguro do que os carros, caminhões e ônibus. Eles não poluem porque não utilizam combustíveis derivados do petróleo. Penso que as ferrovias deveriam ser construídas por todo o país, facilitando o transporte.

Como pode ser observado, o artigo de opinião acima foi retirado de uma revista, tendo sido, portanto, um texto criado para um suporte textual autêntico. Já o texto de opinião não aparece com créditos que indiquem um portador textual, levando a crer que o texto foi criado para o próprio livro didático ou que é um fragmento de outro texto.

4.3. Análise da coleção C: Com texto e trama

Na terceira e última coleção analisada, foi encontrado um número ainda menor de textos em relação às demais coleções: apenas 189 textos. Do total desses textos, 7,41% são gêneros da ordem do argumentar. Na tabela 7 pode ser visto o número total de textos que aparecem nos livros, assim como os gêneros textuais da ordem do argumentar identificados em cada volume.

Tabela 7: Freqüência de textos na “coleção C”

Textos/

Volumes

Total

1

2

3

4

Textos da ordem do argumentar

--

6

2

6

14

Textos de outras categorias

48

43

42

42

175

Total

48

49

44

48

189

 

            Na tabela 8 podem ser vistos os gêneros textuais apresentados com maior freqüência na coleção.

 

Tabela 8: Gêneros textuais mais freqüentes na “coleção C”

 

Gêneros textuais

1ª série

2ª série

3ª série

4ª série

Total

Poema

3

5

4

7

19 (10%)

Texto didático

4

6

6

3

19 (10%)

Conto

1

7

1

7

16 (8,47%)

História em quadrinhos

2

3

1

5

11 (5,82%)

Cabeçalho de jornal

7

1

1

-

9 (4,77%)

Capa de livro

6

1

2

-

9 (4,77%)

Lenda

-

-

-

6

6 (3,17%)

Receita culinária

4

2

-

-

6 (3,17%)

Tira

3

3

-

-

6 (3,17%)

Cartaz educativo

-

4

-

1

5 (2,65%)

Conto de fadas

-

-

4

1

5 (2,65%)

Fábula

-

2

3

-

5 (2,65%)

Reportagem

-

-

1

4

5 (2,65%)

Piada

-

1

-

3

4 (2,13%)

Verbete

1

2

1

-

4 (2,13%)

Cartão pessoal

-

-

3

-

3 (1,6%)

Crônica

-

1

-

2

3 (1,6%)

Nota de enciclopédia

3

-

-

-

3 (1,6%)

Rótulo

2

-

-

1

3 (1,6%)

Outros

12

11

17

8

48 (25,4%)

Total

 

 

 

 

189 (100%)

Note-se que poemas, textos didáticos e contos, seguindo a tendência das coleções analisadas anteriormente, são mais uma vez os gêneros textuais mais freqüentemente encontrados.

            Os gêneros textuais da ordem do argumentar encontrados na coleção C podem ser vistos na tabela 9.

 

Tabela 9: Gêneros textuais da ordem do argumentar presentes na “coleção C”

 

Gênero textual

1ª série

2ª série

3ª série

4ª série

Total

Anúncio classificado

-

2

-

-

2

Anúncio publicitário

-

-

-

1

1

Carta de solicitação

-

-

1

-

1

Cartaz educativo

-

4

-

1

5

Reportagem

-

-

1

4

5

Total

-

6

2

6

14

Assim como ocorreu na coleção B (ver tabela 6), no volume 1 não aparecem os gêneros textuais da ordem do argumentar, havendo uma maior freqüência desses textos nos volumes 2 e 4.

5. Síntese dos resultados das três coleções analisadas e considerações finais

Diante dos resultados das análises das três coleções de livros didáticos aprovados pelo Programa Nacional do Livro Didático (2004), pode-se afirmar que há uma maior oferta de textos em relação a certos gêneros, tais como: contos, poemas e textos didáticos. Apesar disso, também é evidente que em todos os volumes das três coleções aparecem variados gêneros textuais que circulam na sociedade, como, por exemplo, histórias em quadrinhos, carta pessoal, diário íntimo, receita culinária, anúncios publicitários, entre outros. Observa-se, portanto, uma preocupação dos autores em propiciar um universo variado de textos que circulam fora da escola, não se limitando a oferecer às crianças os tradicionais contos da literatura infantil, que embora continuem sempre a ter o seu papel para a formação de leitores, não devem ser os únicos textos a circularem na escola.
A grande variedade de gêneros textuais encontrados em todas as séries das coleções analisadas também parece indicar a inexistência de um planejamento por parte dos autores, em relação a exploração de certos gêneros por volume. Ao contrário, nas três coleções nota-se a presença de um grande número de gêneros textuais distintos em todos os volumes, indicando que a opção é de trabalhar “de tudo, um pouco” e não a de se concentrar em gêneros específicos que de acordo com algum critério seriam distribuídos ao longo das quatro volumes.
Com respeito aos gêneros da ordem do argumentar, estes aparecem em número reduzido nas três coleções, embora na coleção A os alunos tenham acesso a um número mais significativo, sobretudo no volume 4 (15 textos). Nos outros volumes, a quantidade de textos da ordem do argumentar foi tão baixo quanto nas outras coleções, conforme podemos verificar no gráfico 1, apresentado abaixo.

Figura 1: Percentagem de textos da ordem do argumentar nas Coleções A, B e C em cada série

 


 

 

 

 

Como já comentamos, a percentagem de textos da ordem do argumentar foi bastante pequena nas três coleções analisadas. Embora nas coleções A e B os textos argumentativos sejam mais freqüentes no volume 4, não se observa uma progressão regular na oferta desses textos ao longo dos quatro anos. De fato, nas coleções A e C há, inclusive, mais textos da ordem do argumentar no volume 2 (e até no 1, no caso da coleção A) do que no 3. Na coleção B, por sua vez, a percentagem de textos nos volumes 2 e 3 é idêntica, ocorrendo o mesmo na coleção C em relação ao volume 2 e 4.
Considerando que a defesa de nossos pontos de vista é fundamental para que conquistemos espaço social e autonomia, é imprescindível que a escola estimule a competência argumentativa dos seus alunos tanto oralmente, como na leitura e escrita de textos. Se reconhecermos que em muitos casos o livro didático é a principal referência de leitura disponível para os alunos, pode-se inferir, com base nos resultados da presente investigação, que os textos argumentativos parecem ser pouco lidos e, conseqüentemente, pouco explorados em atividades de interpretação oral ou escrita. Tal resultado aponta para a necessidade de que professores das séries iniciais invistam mais no trabalho com textos dessa natureza.
Por fim, vale ressaltar um dado interessante revelado na pesquisa, que pode inclusive vir a ampliar o universo de exploração de argumentos para além dos gêneros mais comumente identificados como argumentativos nos livros didáticos. Observe, por exemplo, o texto abaixo, retirado da coleção A, no volume 1 (p.18).

Como se pode ver, gêneros textuais, tais como a tirinha apresentada acima, que, em princípio, são tomadas como narrativas, podem por vezes apresentar a defesa de pontos de vista, sendo, portanto, passíveis de ser explorados nessa perspectiva. É necessário, assim, que o professor fique atento não apenas para os textos comumente classificados como da ordem do argumentar, mas para outros gêneros textuais que também possam se prestar para reflexões sobre quais argumentos são defendidos por meio desses textos e de que forma isto ocorre.

6. Referências

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Batista, Antônio A.G. (2000). Um objeto variável e instável: textos, impressos e livros didáticos. In Abreu, Márcia (org.) Leitura, história e história da leitura. Campinas, SP: Mercado de Letras: ALB; São Paulo: Fapesp.

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Bonini, Adair (1998). O ensino de tipologia textual em manuais didáticos de 2o grau para a Língua Portuguesa. In Trabalhos em Lingüística Aplicada, 31. Campinas. 7-20.

Brasil, M.E.C. (1997). Parâmetros curriculares nacionais. Brasília, MEC.

Brasil, Ministério da Educação e Cultura (1998) Guia de livros didáticos - 1a a 4a séries. PNLD. Brasília, MEC.

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Koch, I. (1987). Argumentação e linguagem. São Paulo: Cortez.

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Lopes, S.F. (1998). Dissertar: uma perspectiva possível na alfabetização. Monografia de Finalização de Curso de Especialização. Recife: UFPE / Centro de Educação.

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Travaglia, L.C. (1996). Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática do 1o e 2o graus. São Paulo: Cortez.

Livros didáticos citados:

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2 Garcia, M. M. & Glória, D. M. A. (2001). Com Texto e Trama. Belo Horizonte: Expressão, v. 1-4 (livro didático).

3 Soares, Magda (2001). Português: Uma proposta pra o letramento. São Paulo: moderna, v. 1-4 (livro didático).

 
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