Voltar    
  MULHERES VIRTUOSAS, FORTES E CRISTÃS: A LEITURA NA FORMAÇÃO DAS MOÇAS EM UM COLÉGIO CATÓLICO

Suzana Brunet Camacho* - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ

Ao folhear o diário de uma jovem que na década de 1960 estudou na Escola Normal do Colégio Santo Antonio, em Duque de Caxias, deparei-me com uma prática de leitura formadora do perfil da mulher católica em uma instituição religiosa fundada e dirigida pela Congregação das Franciscanas de Dillingem, religiosas que vieram da Alemanha em 1937.

Seguindo as pistas deixadas em sua escrita, este trabalho pretende analisar de que forma a leitura atuou na formação moral e religiosa das alunas dessa instituição. É importante levar em conta que a Igreja Católica – que visava manter os ideais do cristianismo – sempre controlou a leitura das moças, utilizando-a como um dos mecanismos modeladores da moral feminina.

Eloísa registrava em seu diário os múltiplos acontecimentos cotidianos. Reveladores de uma determinada realidade social, eles proporcionam o conhecimento dos modos de ser e de agir da juventude em sua vida escolar, familiar e social. A diarista vai tecendo em seu diário – escrito no período em que contava com 14 a 18 anos de idade – o contexto da época em que cursava o ginásio no Colégio Santo Antônio e depois a Escola Normal do Colégio Santo Antônio.

Como nos mostra Alberca (2000), os diários, por serem, na maioria das vezes, escritos na adolescência, contêm uma forte presença da escolarização em suas páginas. Este estudo privilegia as vozes anônimas das alunas que integraram o cenário educacional do período, abordando, conforme nos diz Cunha (2001), um produto da cultura feminina de um determinado tempo, como um dispositivo educativo e pedagógico que permite apreender os espaços discursivos, as representações sociais de cada época e o imaginário dos atores sociais.

Por serem consideradas extremamente atrativas e prazerosas, algumas leituras foram relatadas pela diarista, o que permite apreender um tipo de literatura destinado aos jovens, em que os romances ocupavam um lugar significativo na formação dessas moças. Entre os livros que aparecem em seus registros, como Angélica, O pequeno príncipe, A maravilhosa vida de George Washington, Coração de mulher, Construir o homem e o mundo, A alma ardente das moças, O romance de Tereza Bernard, Rosinha, minha canoa, Tessa, a gata, O profeta, utilizo neste trabalho O diário de Dany , Música ao longe, Pollyanna menina e também Formação da donzela, O diário de Ana Maria e Formação do caráter, encontrados na biblioteca da escola.

I. Romances para as boas moças católicas

Em 1954, ao iniciar a primeira turma da Escola Normal do Colégio Santo Antônio, as freiras franciscanas pretendiam, segundo as Crônicas da Província, levar, silenciosamente, por intermédio das futuras professoras, o cristianismo para o povo. As Escolas Normais sempre se preocuparam com a educação moral das moças, visando estipular um modelo de conduta, de pensamento e de modo de ser.

Da mesma forma, na sociedade alemã, de onde vieram as franciscanas daquela congregação, percebia-se, segundo Haas (2000), no final do século XIX e no início do século XX, cada vez mais a necessidade de formar a mulher, considerada membro importante na construção de uma nação. Na Alemanha, surgiam as Escolas Domésticas, que se dedicavam à formação das moças do meio rural e da classe burguesa, para lhes oferecer o conhecimento e o treinamento necessários à manutenção de uma casa limpa, saudável e em ordem, bem como voltados à formação da alma e do espírito nos princípios éticos e da santa religião, visando introduzi-las nas teorias e nas práticas básicas de enfermagem.

A literatura proposta pela escola na década de 1960 reflete a preocupação ainda vigente com a formação da mulher e da futura professora. Dessa forma, assim como em outras escolas católicas, privilegiava-se uma literatura feminina que tinha por objetivo moldar as moças de acordo com os padrões do cristianismo. A literatura refletia ainda a concepção franciscana, voltada à formação dos professores, para que tivessem uma vida de acordo com os valores a serem repassados a seus alunos:

Deve haver uma coerência com o que se aprende e, poderíamos dizer, no caso do educador, com o que se ensina. Não aprendemos apenas para passar aos outros algo que não faz parte da nossa experiência de vida. O professor não deve ser simplesmente alguém que “dá exemplo” de estudo e de vida. Ele precisa viver o que ensina (Küllkamp, 2000, p. 54).

Livros em que a escrita diária compõe a trama dos personagens aparecem em meio às leituras dessa jovem. Em Música ao longe, de Érico Veríssimo, a professora Clarissa relata suas experiências profissionais e pessoais nas páginas de seu diário. Clarissa vai tecendo também todo o contexto de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, por meio de hábitos e costumes expressos pelos vários personagens que integram o seu cotidiano.

Clarissa trata seus alunos de forma carinhosa, responde às suas indagações com doçura na voz, por isso representa o exemplo perfeito de uma professora da época. Em contrapartida, aparece a personagem Dolores, a professora feia que reclama por considerar seus alunos mal-educados. O autor a descreve como alguém que tem uma voz que dá a impressão de marteladas compassadas e energéticas, fala com um ar autoritário, típico de quem está sempre em aula, e anda eternamente com as meias de lã enrugadas nas pernas finas. O modelo de professora com uma conduta meiga e doce – representado por Clarissa – contrapõe-se à hostilidade da professora autoritária e feia.

Os papéis de cada sexo também são bem definidos. Enquanto os homens se preocupam com economia e finanças, as mulheres se ocupam com questões menos sérias. Veríssimo expressa muito bem essa divisão em uma conversa na hora do almoço, quando a família de Clarissa, reunida, discorre acerca de suas preocupações:

[...] E Clarissa sente que vão cair no assunto que as mulheres temem: negócios. Papai perdeu a estância com gado e tudo. [...] Só se fala em economia: gastar menos açúcar, comprar menos verdura, consumir menos luz. [...] Clarissa procura salvar a situação:

- Hoje mandei os meus alunos desenharem uma paisagem. Tinha uma casa [...]. Mas ninguém está ouvindo o que ela diz. Parece que papai só ouviu a palavra “casa”. Porque diz em seguida interrompendo a filha:

- Se no final de contas eu conseguir salvar o casarão, me dou por muito satisfeito (Veríssimo, 1960, p. 6).

O modelo construído para o sexo feminino, no qual a mulher é alienada das coisas tidas como sérias do mundo, reforça a condição do homem como o responsável pela tomada das decisões mais importantes e se verifica nitidamente na literatura, talvez como uma tentativa de manter a construção desse ideal. Segundo Louro (1992), as práticas sociais, de acordo com as concepções de cada sociedade, constroem o masculino e o feminino, e fazer-se homem ou mulher é um processo, e não algo que já esteja determinado desde o nascimento. Com isso, percebe-se que, por meio da leitura, as instituições educacionais, religiosas ou não, contribuíram para a construção da identidade feminina estabelecida em determinadas épocas ou estabelecimentos de ensino.

Outra leitura muito freqüente entre as jovens era O diário de Ana Maria. Literatura sempre presente nas escolas femininas, esse livro não podia deixar de compor o acervo da biblioteca dessa escola. Revela, ainda, a importância que esse tipo de leitura tinha na formação da juventude cristã da época, ao se basear em uma pesquisa feita pelo autor, que utilizou 17 diários verdadeiros, contatos pessoais, cartas e inquéritos com quatro mil rapazes e moças de colégios particulares da Bélgica, com idades entre 16 e 19 anos. Entre as perguntas, destacavam-se: Quais foram os dois ou três livros que tiveram mais influência em sua vida? E se um amigo ou amiga lhe pedisse para ajudá-lo em sua vida cristã, que livro você aconselharia? Segundo o autor, O diário de Dany vem em primeiro lugar entre os rapazes e, em terceiro, entre as moças:

Não havíamos previsto que as môças lessem O diário de Dany. Elas o fizeram e também nesse sentido centenas de depoimentos nos mostram que, com tal leitura, passaram a conhecer os rapazes de maneira mais sadia. Suspeitamos que, por sua vez, os rapazes venham a conhecer as môças graças a Ana Maria (Quoist, 1964, p.10).

Essa literatura, por se basear em problemas reais de muitos jovens, deveria ser, consoante seu autor, estimulada por pais e educadores como um guia que orientaria os jovens de ambos os sexos a conhecer o mundo e a enfrentar, de forma mais sadia, os problemas próprios da adolescência. Preocupava-se com uma educação positiva, que se centrava na entrega ao próximo, por um cristianismo baseado na vida da caridade, nutrida pelo contato com Cristo por meio dos Evangelhos e dos sacramentos:

Dizemos isso com simplicidade, apenas para tranqüilizar certos pais que talvez necessitam deste livro e que hesitaram em coloca-lo, ou o anterior, nas mãos das filhas. Certamente, pensarão alguns, eles dão sobre o mistério da vida explicações que as meninas ainda não têm necessidade de saber. Permitamos-nos dizer com fraqueza, pois é assunto sério: seja quem for sua filha, e qualquer ambiente em que viva, estejam certos de que ela fala, ou pelo menos ouve falar nesses assuntos e ansiosamente se preocupa com o problema (Quoist, 1964, p.10).

O recurso empregado em muitos livros destinados ao público feminino que utilizam a escrita diária parece ser a inserção da leitora no texto, o qual se identifica com o cotidiano relatado e com sentimentos e acontecimentos que perpassam a sua realidade. Por isso, buscam fazer uma leitura considerada correta, sem saltar partes para conhecer logo o final da história, característica muito comum entre os jovens: “Adotamos, na verdade, o mesmo método, acentuando apenas as reflexões, certos de que as jovens o aceitariam mais facilmente, sem a tentação de ler por alto para ver o fim da história” (Quoist, 1964, p. 9).

Utilizar esse tipo de escrita proporciona uma sensação de realidade ao conteúdo da leitura. Com isso, os ensinamentos morais ou religiosos que o autor visa transmitir são apreendidos com maior facilidade. Como observa Chartier (1990), o leitor é sempre pensado pelo autor, pelo comentador e pelo editor como alguém submetido a um sentido único, a uma compreensão correta, a uma leitura autorizada e, para tanto, esses profissionais utilizam várias estratégias, umas explícitas – como prefácios, advertências, glosas e notas – e outras implícitas, fazendo do texto uma maquinaria que, necessariamente, deve impor uma justa compreensão. Assim, essa literatura, composta pelo diário de uma jovem, “põe em prática uma leitura plural que retém os sentidos morais de uma história capaz de orientar a existência individual, que sabe entender na primeira pessoa aquilo que é proposto a todos” (Chartier, 1988, p. 123).

Como toda adolescente, Ana Maria se aflige com os problemas relacionados a amizades, rapazes, sexualidade, puberdade e relações familiares. Uma estratégia desenvolvida pelo autor para dar resposta a essas aflições – compartilhadas pelas leitoras – é a freqüente troca de correspondência entre Ana Maria e uma amiga mais velha que mudara para um lugar distante. A amiga mais madura acalmava suas aflições e a aconselhava:

Ana Maria querida,

[...] Que você fique atraída pelos rapazes, é coisa absolutamente natural. Que você se fixe mais em alguns, do que em outros, e mesmo que um dentre eles lhe seja particularmente simpático a ponto de emocioná-la profundamente, a mesma coisa. Mas que você tome essa inclinação, essa preferência e sobretudo essa emoção, pelo amor, eu lhe repito, é grave erro. O resto daí decorre: se você se põe a sonhar com “ele”, você perde tempo e forças. Se procuras encontrar-se com ele a sós, se aceitas convites para encontros, se lhe dás provas de afeto etc., você está em caminho falso. Ao contrário, deve: dominar a imaginação, tratá-lo como a um colega e não provocar outros encontros que não os naturais. Além disso, concentre todas as suas forças naquilo que para você é atualmente o essencial: construir uma môça equilibrada e rica, fisicamente, sensivelmente, intelectualmente e espiritualmente [...].

Abraço-a de todo coração: Nicole (Quoist, 1964, p.156).

A escrita diária compõe as páginas desses três livros. Neles, as diaristas desabafam seus sentimentos em relação aos acontecimentos do dia. Ao se referir ao livro Música ao longe de Érico Veríssimo em seus relatos, Eloisa diz ter-se identificado muito com o que a mocinha diz no livro:

No livro que estou lendo, a mocinha escreve um diário e o define como uma conversa consigo mesma. Quando a gente pensa, os pensamentos voam, e aqui no diário ficam gravados os nossos pensamentos (Eloísa, 1966).

Preciso ter um diário porque não tenho com quem conversar. [...] No diário é como se eu estivesse conversando comigo mesma. Assim, tenho a impressão de que não sou mesmo só (Veríssimo, 1962, p. 35).

Além de orientar as jovens a seguirem os valores do cristianismo, essas leituras, estimulavam uma prática muito comum entre as moças: a escrita diária. Eloisa também confidenciava sua vida cotidiana, seus medos, desejos, raiva e outros sentimentos que não podiam ser verbalizados. Por meio da escrita, seus sentimentos são compartilhados com o diário, amigo íntimo com quem ela parece estabelecer um diálogo de confiança: “E assim começo mais um diário. Mais um companheiro para as horas de saudade; mais um desabafo para as horas de solidão; mais um amigo para confidenciar” (Eloísa, 1968).

Ao se identificar com os problemas enfrentados pelas personagens dos livros, as moças que ainda não escreviam em diários eram estimuladas a desenvolver tal prática. O autor dos livros O diário de Dany e O diário de Ana Maria dá o seguinte conselho às jovens leitoras: “Permito-me enfim aconselhar-lhe um trabalho sério de reflexão após a leitura [...]. Tente, a exemplo da heroína, mas à sua própria maneira e guiada por aquêles que a amam, a grandiosa e apaixonante aventura do dom de si (Quiost, 1964, p. 14).

Estimular essa prática da escrita a partir da leitura integrava o projeto educacional e religioso das moças da época. Além da necessidade de um lugar para acalmar seus sentimentos e desejos, a escrita era valorizada pela escola como uma das práticas de interiorização que moldariam os modos de ser e de agir de acordo com os princípios do catolicismo. Mignot, Bastos e Cunha (2000) mostram que, desde o século XIX, a escrita era incentivada pelas famílias, confessores e educadores, os quais estimulavam a anotação dos acontecimentos mais importantes do dia, tanto em diários íntimos quanto na troca de correspondências entre amigas.

Assim como em muitas outras escolas católicas, na escola em questão encontravam-se espaços destinados a momentos de reflexão. Com isso, enfatiza-se a importância de práticas que conduzissem a momentos de silêncio e interiorização em instituições educacionais católicas, como missas, confissões, comunhão e retiros, onde as jovens pudessem refletir sobre sua vida e se aproximar dos princípios do cristianismo, muitas vezes já presentes nos discursos e nas práticas educacionais:

Alunas do 3º Normal e da 4ª série ginasial fizeram dias de interiorização no cenáculo em Rio. O bom Pe. Theobaldo se esforçou para que as meninas se aproximassem a Jesus eucarístico. [...] A atmosfera de oração e de silêncio fez bem a estes espíritos inquietos (Crônicas, 1966).

A escrita diária ajudaria a aproximar as alunas, por meio da reflexão sobre as próprias atitudes, das virtudes cristãs, adequando seu comportamento e seu pensamento às práticas cristãs. As próprias religiosas valorizam esse tipo de escrita como parte de sua rotina. A escola mantém, desde a sua fundação, registros em cadernos que são chamados de Crônicas da Província. Nelas, as religiosas não registram suas intimidades, mas sim acontecimentos coletivos da vida religiosa e escolar, revelando também aspectos marcantes da vida no Brasil e do cotidiano caxiense.

A leitura das religiosas também foi estimulada pelos bispos, que a aconselhavam às religiosas da Ordem das Franciscanas de Dillingen. Em uma carta intitulada Charta Reformationis, enviada ao convento em 1797 pelo Bispo Clemens Wenceslau, onze itens estipulavam de que forma as religiosas deveriam consolidar o temor a Deus e a verdadeira religiosidade. Nela, a leitura aparece como alimento da alma:

4. Quando o corpo recebe comida e bebida, a alma deve ser alimentada pela leitura espiritual. As muitas dispensas da leitura devem ser diminuídas e só devem ser concedidas por motivos justos. Mas, depois da mesa, deveis ter um tempo de recreação, como já é de costume num Convento bem organizado; (Schreyer apud Haas, p. 88).

Entre os relatos da diarista, aparece também a leitura do romance Pollyanna. Esse livro contribuiu para a formação das meninas, que, independentemente de se tornarem professoras, deveriam ter sua conduta e seus valores definidos, pois seriam mães, esposas e donas-de-casa. Pollyanna era uma menina alegre e meiga e, apesar de ter muitos motivos para ficar triste, por ter perdido sua mãe e seu pai ainda muito jovem, ela ensina a todos uma forma de tirar proveito das situações ruins, jogando o “Jogo do Contente”. Ela também era uma menina exemplar, mostrava-se sempre solidária, gostava de fazer as pessoas se sentirem contentes. Essa leitura, feita por milhares de meninas, era proposta em muitas escolas, como forma de incentivar a solidariedade e a compaixão, estimulando as moças a tirarem proveito e serem fortes diante dos acontecimentos ruins:

[...] Como é bom andar, andar sobre os próprios pés! Estou contente de tudo que há! Estou contente até de ter perdido minhas pernas por algum tempo, pois que só quem já perdeu as pernas pode dar valor a essas maravilhas. Quem nunca perdeu as pernas não avalia o que significa pernas. Pernas! Pernas! P-E-R-N-A-S...

Amanhã vou dar oito passos. Oito já, hein? (Porter, 1981, p. 181).

Pollyana é também um modelo feminino que representa o romantismo. Nas cores suaves de sua capa, encontramos uma menina com vestido cor-de-rosa, rodeada de flores, e um pássaro que vem compor o tom angelical da paisagem, a qual demonstra ternura e doçura tipicamente femininas.

Segundo Cunha (1999), nas capas dos livros, as mulheres eram freqüentemente representadas com aquele límpido olhar de quem se hipnotizou para a obediência: passiva, recatada, indolente, olhar vago e sonhador, postura formal, sempre à espera. Em suma, imagens que evocavam símbolos li¬gados a uma atitude romântica. A capa pode anunciar também a que público e idade o conteúdo de cada livro é mais apropriado. A menina da capa de Pollyana convida jovens de sua idade a folhear o livro.

Capa de Pollyana menina

Além da capa, os títulos femininos também denotam a que leitores se destinam os livros e deixam claro que o alvo era o sexo feminino. Na coleção Biblioteca das moças, Cunha (1999) observa que os títulos dos romances, muitas vezes, anunciam e orientam a narração futura, ocupando uma posição estratégica e oferecendo pistas à leitura. Por se tratar do primeiro texto com que o leitor tem contato, o título, segundo a autora, fornece ao leitor a indicação de seu gênero, seu conteúdo, seu vir-a-ser, ou seja, pode ser considerado um indicador geralmente fiel de um determinado conteúdo.

Muitos livros utilizavam como títulos nomes próprios femininos e focalizavam a vida de uma jovem, seu cotidiano e seus amores. Parece tratar-se de uma estratégia para atrair os leitores. Da mesma forma, títulos como Coração de mulher e A alma ardente das moças, também relatados pela diarista, expressam romantismo por meio de palavras que estimulam a sensibilidade, a fantasia e o sonho, e se tornam atrativos para as moças da época. Cunha (1999) salienta que títulos como Sempre no meu coração, Meu vestido cor-do-céu, A querida do meu coração e Alma em flor favorecem mais o sonho do que, talvez, a própria leitura, dentro, é claro, de uma convenção literária.

A leitura desses e de outros romances considerados pela igreja católica como “romances honestos” deveria representar a preferência dos fiéis. Essas obras deveriam estar disponíveis nas bibliotecas paroquiais e nas escolas femininas mantidas pela Igreja. Tais romances colocavam em cena uma boa lição moral, favoreciam a edificação da alma e do caráter e definiam os papéis sociais de cada sexo.

A partir da segunda metade do século XIX, de acordo com Cunha (1999), a literatura romântica teve uma intensa produção e um elevado consumo. Nas décadas de 1930 e 1940, surgiram grandes coleções de literatura de entretenimento: a Biblioteca das moças, de romances sentimentais; as coleções Terramarear e Paratodos, de romances de aventura e de ficção científica. Os romances da coleção Biblioteca das moças passam a ser editados no Brasil, inin¬terruptamente, entre 1935 e 1963. Houve também o aparecimento de fotonovelas sentimentais, como Capricho, Ilusão e Noturno, que marcaram a década de 1950 e os inícios da década de 1960.

A leitura sempre constituiu um risco para a ordem do Estado e da Igreja. Até 1808, segundo Moraes (1999), era obstinada a perseguição a toda e qualquer atividade tipográfica. Evitava-se a produção de livros ofensivos à Monarquia, à moral e à religião. Por meio dessa prática, impedia-se a libertação do homem colonizado, fazendo-o permanecer submisso do ponto de vista cultural, econômico, social e político.

Na verdade, a leitura tem sido utilizada como mecanismo formador da moral, principalmente da mulher, por ser considerada mais vulnerável às suas influências. Paiva (1997), ao investigar a relação Igreja/Educação – mais especificamente as conseqüências dessa relação no processo educativo das mulheres –, percebe que era natural, nesse quadro de absoluto controle da mulheres, que as leituras por elas consumidas e/ou produzidas fossem censuradas com rigor.

Em 1923, segundo o autor, foi publicado pelo Frei Pedro Sinzig um Guia para as consciências, no qual são comentados, em pequenos verbetes, 21.500 livros condenados ou recomendados, baseando-se no critério moral da igreja católica.

Paiva (1997) também aponta que, ao longo da história, a igreja católica sempre considerou a leitura como uma prática perigosa e que um dos desdobramentos desse pressuposto foi sua constante advertência aos católicos quanto às poucas chances de salvação de suas almas, caso não se acautelassem diante das armadilhas do texto escrito. Sinzig, segundo esse autor, tinha como alvo principal a mulher: esteio moral do lar e guardiã da fé católica na família. Era preciso educá-la na religião e na doutrina cristã e não deixar que influências desagregadoras a desviassem de sua rota.

Muitas escolas católicas buscavam orientar suas alunas em boas leituras. Segundo Souza (1997), a revista Auxilium, do Colégio Santa Inês, inaugurou em 1946 uma seção para dirigir as alunas às boas leituras. A educação feminina se baseava em modelos de virtudes e de comportamentos que deviam ser construídos e preservados na prática cotidiana dos deveres da moça católica e para os quais concorriam os bons livros e as leituras piedosas, edificantes e formadoras do caráter. Nesse contexto, sugeriam-se livros como: Caminho da verdade, A mulher cristã e o sofrimento e Elevação da mulher.

II. Virtuosas donzelas refletidas nas leituras católicas

Por meio de romances, mas também de outras leituras como os livros religiosos destinados à juventude cristã, desejava-se moldar as jovens de acordo com os valores da educação feminina católica. O livro A formação da donzela, encontrado na biblioteca da escola, tinha extrema importância para a igreja na formação das moças. Na primeira página, observam-se uma carta da Santa Sé ao Autor e o prefácio da terceira edição feito pelo Bispo Carlos de Estrasburgo:

Vaticano, 27 de novembro de 1919,

Reverendíssimo Padre:

O santo padre teve por agradável a filial homenagem do livro que publicaste sob o título de A formação da donzela.

O acolhimento favorável que tem sido feito a essas páginas edificantes constitui um penhor do bem que, com a graça de Deus, elas contribuirão para operar na alma das donzelas, e particularmente das Filhas de Maria, a quem são destinadas, ajudando-as na prática da virtude, induzindo-as à piedade, à dedicação, ao apostolado no seio das famílias e da sociedade [...] (Cardeal Gasparri, 1958, p. 5).

[...] Como é confortador pensar que mais de cem mil donzelas já têm em mãos tão precioso breviário! Graças a V. Revma, as mulheres, as esposas, as mães serão mais fortes, mais virtuosas, mais cristãs, mais santas. Por meio delas, quanto bem se fará. Êste o melhor êxito com que pudesse sonhar um missionário como V. Reverendíssima (1958, p. 8)

A carta e o prefácio acima evidenciam que havia uma preocupação com a alma das donzelas, para que desenvolvessem a prática da virtude. Os prefácios referidos anteriormente direcionam a leitura a um determinado leitor e orientam o olhar para os valores que o autor deseja ressaltar: as moças, que seriam as futuras esposas e mães, seriam estimuladas, por meio desta e de outras leituras, a se mostrar mais fortes, virtuosas, cristãs e santas. A intenção do autor e da Igreja Católica era que este livro virasse um manual a ser utilizado pelas mulheres:

Mas, para sabê-lo e compreendê-lo, dever sair das banalidades ocas de uma vida egoísta e pessoal, sentir que tendes asas e não vos esquecer de servir-vos delas.

As “banais bonecas da moda que se depreciam no meio dos trapos” provavelmente não compreenderão este livro, se lhes cair nas mãos; porém as “Valentes”, as que lutam, as que rezam, as que se dedicam, as que salvam, oh! Estas lhe farão acolhida, quererão vivê-lo! (1958, p. 11).

Essa leitura também foi destinada às alunas do Colégio Nossa Senhora do Patrocínio no final da década de 1920 e, sobre a obra, uma aluna tece um comentário em um artigo no jornal da escola que reflete de que forma essa leitura influenciava as jovens da época:

O sol da família, o sorriso do lar, tendo por qualidades o exterior meigo, dócil, gracioso, com certa ligeireza no andar, dignidade no porte, beleza mais delicada e cheia de encantos do que o homem superior espiritualmente, capaz de se imolar no silencia, sorrir no sofrimento, esquecer sua dor pela felicidade dos que a rodeiam, conjurar a tempestade pela sua timidez e com seu doce olhar obrigar o homem a dominar a cólera (O Patrocínio, Itu, ano IV, nº 39, p. 3, maio 1927, apud Santos, 2004, p. 91).

O modelo definido pela Igreja Católica para as mulheres abomina as futilidades da vida material. De acordo com esse modelo proposto, as mulheres não deveriam ser bonecas enfeitadas, mas sim virtuosas e religiosas. A vaidade, condenada pela Igreja Católica, deve ser substituída pela dedicação e pelo amor ao próximo.

O autor de Formação da donzela se preocupava, entre outras coisas, com as virtudes da donzela, que seriam a humildade, a pureza e a simplicidade; com as virtudes que tornam a alma boa: a caridade, a bondade, a alegria; com as virtudes que tornam a alma forte: a obediência aos olhos da razão e da fé, a generosidade e a ufania cristã. Preocupado ainda com os amigos e inimigos da donzela, o autor preconizava como amigos Jesus e Maria, enquanto os inimigos eram encontrados no mundo dos divertimentos: a dança, o teatro, o flagelo do luxo, a moda. O autor definia como virtudes teológicas: a fé, a esperança, o amor a Deus, a verdadeira piedade, a oração, a santa missa, a comunhão, a visita ao S Sacramento, o exame de consciência, a confissão, o retiro anual, a leitura meditada; a vocação; o casamento; a vocação religiosa e a virgindade no mundo.

O modelo da verdadeira donzela aparece também representado na capa do livro, que exibe uma jovem com um olhar distante e terno, traços suaves e delicados. Cunha (1999) considera esse tipo de imagem – presente em muitas capas – como um meio de expressar situações que povoaram a literatura romântica até pouco tempo atrás e que representavam circunstâncias típicas do feminino tradicional: paz, recato e ligação com o mundo privado. O contato com a capa dessas duas leituras revela que ambas se destinam ao sexo feminino, mas a leitoras de idades distintas, pois a capa de A formação da donzela exibe a figura feminina de uma jovem leitora.

Capa do livro Formação da donzela

Seguindo a mesma linha de pensamento, o livro Formação do Caráter, também adotado pela escola estudada, propôs-se, segundo sua apresentação, à formação das almas novas. O autor se propôs a falar sobre alguns assuntos que orientariam os jovens diante da vida, advertindo para a importância de valores que determinam se o homem viverá bem ou mal. Segundo o autor, viverá mal o homem que se encontra em desarmonia, que gera a morte, o ímpio, o perverso, o sem caráter. Nesse sentido, recomenda à mocidade:

Mas, jovem, nem todos vivem mal, tampouco, nem todos se contentam em ser medíocre. Existem alguns que procurando sempre viver bem, fazem a sua inteligência viver para a verdade, sua vontade viver para a virtude, sua existência viver para um ideal. E assim, no equilíbrio da inteligência com a verdade, na harmonia da bondade com a virtude, na proporção do homem com o ideal, procuram realizar a plenitude da vida! Pois nós sabemos que a verdade é luz para as inteligências, a virtude é força para a vontade, o ideal é vida para o homem (Monte, 1966, p.16).

Jovem, colhe na mocidade o néctar precioso que vai suavizar a tua velhice. É precioso que conheças o valor de tua juventude. Aprende com a pequenina abelha a aproveitar os dias cheios de luz e de abundância da primavera, para colher o mel de tuas grandes aspirações. Elas sabem que, mais tarde ou mais cedo, chegarão os dias frios, nevoentos do inverno! (Monte, 1964, p. 27).

Visando orientar os jovens, Dom Nivaldo Monte, autor de Formação do Caráter, define em seu livro que virtude quer dizer força, porque a virtude é uma fonte de energia e age sempre em relação a um ideal a conquistar na vida. Advertindo para a necessidade de aproveitar a mocidade, por ser uma idade decisiva na formação do caráter e na constituição de uma velhice tranqüila, ele aconselha a juventude a encontrar um ideal a alcançar, ou seja, a viver virtuosamente: “Jovem, como é belo teu ideal! Atrair almas a Cristo e Cristo às almas!” (Monte, 1964, p. 35). Exalta ainda a vida com Deus, abomina a vaidade, o impulso, a apatia, a preguiça, a volubilidade, a precipitação, as inconstâncias e invoca a necessidade do domínio das paixões e do ódio, entre outras coisas.

Privilegiando uma literatura produzida por religiosos católicos que escreviam para o público jovem, a Escola Normal do Colégio Santo Antônio desejava preparar almas fortes e boas por meio do cultivo de virtudes como a bondade, a fé e a pureza, visando à construção de um ideal em Cristo e aparelhando as moças para a construção do caráter e do futuro.

Na Escola Normal do Colégio Santo Antônio, assim como em muitas outras instituições católicas de ensino, havia uma grande preocupação com uma educação integral da juventude, motivo pelo qual se buscava, além de instruir, formar o espírito cristão. Grande destaque era dado ao ensino religioso e à formação do caráter dentro dos princípios católicos, já que os colégios religiosos se preocupam, segundo Garcia (2001), com a promoção do homem em sua integridade, consciente de que todos os valores humanos encontram a sua realização plena no cristianismo.

A partir da leitura do diário dessa jovem, observa-se que a preocupação com a leitura destinada à juventude feminina católica ainda se mantinha presente na década de 1960, na Escola Normal do Colégio Santo Antônio. Visando à formação integral da juventude e das futuras professoras, que seriam as responsáveis pela disseminação do cristianismo para o povo, as religiosas valorizavam momentos destinados à interiorização e ao silêncio, os quais, juntamente com a prática de escrita diária, buscavam desenvolver o autoconhecimento, a interiorização e o autocontrole.

Por meio de doutrinas religiosas e educativas, as educadoras incutiam normas, símbolos, modelos e papéis sociais na mentalidade das moças, construindo uma identidade feminina, sobretudo a de mulher católica. Mesmo na década de 1960, a educação feminina, voltada à formação do caráter dentro dos princípios católicos, encontrava-se arraigada no modelo feminino de anos atrás, em que as mulheres deveriam ser educadas para se mostrar virtuosas e dedicadas mães e esposas.

As leituras consideradas adequadas a uma jovem cristã convidavam as alunas da Escola Normal Santo Antônio a conhecer e incorporar alguns ensinamentos que promoveriam a educação integral, formando o espírito cristão. As moças deveriam abominar as futilidades da vida material e desenvolver as qualidades de uma verdadeira donzela. Virtudes que tornariam a alma forte e boa, imbuída de sentimentos como pureza, simplicidade, caridade, bondade e ufania cristã, proporcionariam a realização plena no cristianismo.

Referências bibliográficas:

ALBERCA, Manuel. La escritura invisible: testimonios sobre el diario íntimo. España: Sendoa, 2000.

BAETERMAN, C. M. José. Formação da donzela. Petrópolis: Editora Vozes, 1958

CHARTIER, R. A história cultural: entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Difel & Bertrand Brasil, 1988.

______. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVII. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.

CUNHA, Maria Teresa Santos. “Diários íntimos de professoras: letras que duram”. In: MIGNOT, Ana Chrystina, BASTOS, Maria Helena Camara e CUNHA, Maria Teresa Santos (orgs.). Refúgios do eu: educação, história, escrita autobiográfica. Florianópolis: Mulheres, 2000, pp.159-180.

______. Armadilhas da sedução: os romances de M. Delly. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

GARCIA, Jacinta Turono. Educação católica. São Paulo: Editora Universa, 2001.

HAAS, Michaela Ir. História das Irmãs Franciscanas de Dillingen. Rio de Janeiro: Província da Divina Providência no Brasil. 2000.

KÜLKAMP, César. Fraternidade em currículo: uma história do Colégio Bom Jesus Canarinhos em Petrópolis, RJ. Rio de Janeiro: UERJ, 2000. Dissertação de Mestrado.

LOURO. G. “Mulheres na sala de aula”. In: DEL PRIORI, M. (org.). Histórias das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1997, pp. 71-76.

MIGNOT, Ana Chrystina, BASTOS, Maria Helena Camara e CUNHA, Maria Teresa Santos. “Tecendo educação, história, escrita autobiográfica”. In: MIGNOT, Ana Chrystina, BASTOS, Maria Helena Camara e CUNHA, Maria Teresa Santos. (orgs.). Refúgios do eu: educação, história, escrita autobiográfica. Florianópolis: Mulheres, 2000, pp.17-27.

MONTE, Dom Nivaldo. Formação do caráter. Petrópolis: Editora Vozes, 1966.

MORAES, Ana Alcidia de araujo. As leituras da aluna de magistério: obrigação, vontade, possibilidade e escolha. Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 1999.

PAIVA, Aparecida. A voz do veto: a censura católica à leitura de romances. Belo Horizonte: Autêntica, 1997.

PORTER, Eleonor H. Pollyanna. São Paulo: Editora Nacional, 1981.

QUOIST, Michael. O diário de Ana Maria. São Paulo: Editora Agir, 1963.

SANTO, Cyntia Pereira. “A educação pelas revistas: registros de uma revista escolar”. In: BASTOS, Maria Helena Câmara e CATANI, Denise Bárbara. Educação em revista: a imprensa periódica e a história da educação. São Paulo: Escrituras, 1997, pp. 93-110.

SANTOS, Vera Lúcia dos. A revista do Patrocínio: textos e imagens de um período escolar dedicado à formação feminina (décadas de 20 e 30, século XX). São Paulo: USP, 2004. Dissertação de Mestrado.

VERÍSSIMO, Érico. Música ao longe. Porto Alegre: Editora Globo, 1960.


 
Voltar