Marinilce Oliveira Coelho - Universidade Federal
do Pará (UFPA)/ Núcleo Pedagógico Integrado (NPI)
“...havia vida literária, convívio espiritual pelos
cafés e nos teatros, nas nossas residências e até
nos bondes.”
Eustachio de Azevedo.
Quando Eustachio de Azevedo (1867-1943) escreveu o artigo
A Mina Literária em 1915, do qual inclui-se fragmento acima, publicado
inicialmente em capítulos na coluna Literatura Nortista do jornal
“Folha do Norte”, estava preste a sair a segunda edição
de Antologia Amazônica, organizada por ele. O artigo todo descreve
o surgimento de um dos primeiros movimentos de escritores da região
norte, chamado Mina Literária, ao mesmo tempo em que o autor apresenta
a existência em Belém de uma intensa vida cultural, com a
publicação de revistas e de livros impressos nas oficinas
tipográficas locais ou nas estrangeiras. Comentava Eustachio de
Azevedo: “O Pará tem tido épocas brilhantes em que
pelo jornal e pelo livro levantou bem altos os nossos fóros de
povo culto. Uma das mais belas remonta ao tempo em que figuravam como
pontífices das ciências e das letras, ao Norte, os vultos
desaparecidos de Domingos S. Ferreira Penna, Domingos Rayol (Barão
de Guajará), José da Gama Abreu (Barão de Marajó),
conselheiro Tito Franco de Almeida, José Veríssimo...”
Um tempo remoto e esquecido pelos estudos históricos e literários.
Como se pode observar entre os diversos eixos-temáticos do conteúdo
programático da disciplina de Literatura Portuguesa e Brasileira
do Ensino Médio no Pará, onde o estudo da literatura paraense
é reservado a leitura de obras de autores locais seguindo a obrigatoriedade
dos programas de seleção dos cursos superiores das universidades
públicas ou particulares. O que já representa, de certo
modo, um estudo sobre a literatura paraense.
O projeto de pesquisa Questões de linguagem da Amazônia do
século XIX: Literatura, História, Memória tem por
finalidade identificar momentos significativos da história literária
paraense de meados e fins do século XIX.
Este projeto pioneiro está em fase inicial de implantação
na escola de aplicação da Universidade Federal do Pará,
o Núcleo Pedagógico Integrado, fundado há 43 anos,
e corresponde a um novo modelo de ensino de literatura com base na informação
de dados coletados pela pesquisa em acervos públicos.
Para os objetivos da pesquisa proposta, foram selecionados dois movimentos
literários locais ocorridos em Belém nos últimos
decênios do século XIX, a saber: Revista Amazônica
(1883-1884) e Mina Literária (1895-1899).
A trajetória finissecular desses movimentos locais, como estamos
tentando construir nessa investigação, evidencia os problemas
e as limitações que envolvem a história da literatura.
Pascale Casanova, ao atentar sobre o espaço literário mundial
como história e como geografia, afirma que esse espaço encarnar-se
nos próprios escritores que “são” e “fazem”
a história literária, cuja fronteira e contorno jamais foram
traçados ou descritos.
Existiriam portanto territórios e fronteiras literárias
independentes dos traçados políticos, um mundo secreto e
contudo perceptível por todos, sobretudo pelo mais desfavorecidos.
Regiões em que o único valor e o único recurso seriam
a literatura; um espaço regido por relações de força
tácitas que comandariam a forma dos textos que se escrevem e circulam
por toda parte no mundo; um universo centralizado que constituiria sua
própria capital, suas províncias e seus confins e no qual
as línguas se tornariam instrumentos de poder.
Neste pensamento, a pesquisa busca considerar, nos dois
movimentos locais, o diálogo com a sociedade da época em
seu contexto nacional e estrangeiro, e, ao mesmo tempo, retirar do silêncio
histórico esses movimentos intelectuais e literários em
suas organizações, estilos, meios de divulgação
e de sociabilidade dos autores. Por se tratarem de movimentos de escritores
poucos conhecidos ou estudados, a análise dos dados leva a considerar
o aspecto local com o nacional, o lançamento de obras literárias
e de periódicos, as transformações culturais da cidade
e a biografia dos autores, no período delimitado pela pesquisa.
A documentação fragmentada e dispersa representa vestígios
do itinerário dos movimentos literários locais, conservada
na seção de obras raras do Pará da Biblioteca Pública
“Arthur Vianna”, por ora a principal fonte de pesquisa.
Revista Amazônica
Em Belém, seguia-se o ano de 1883 quando José
Veríssimo fundou e dirigiu a Revista Amazônica, com a finalidade
de tornar a região amazônica mais conhecida, tanto pelos
brasileiros quanto pelos estrangeiros, através do estudo dos múltiplos
campos do saber. Apesar da curta duração, até o ano
seguinte em 1884, a revista conseguiu reunir um significativo corpo de
colaboradores, residentes em Belém, entre os quais Joaquim Ignácio
Amazonas d’Almeida, João Afonso, Domingos Ferreira Penna,
Tito Franco d’ Almeida e outros. O primeiro número apresentava
a força dos escritores em “gerar idéias” em
contrapartida a uma sociedade local que se destacava pelo desenvolvimento
econômico, trazido pela produção da borracha.
O escritório da revista localizava-se na Estrada de S. Jeronymo,
em Belém. A cidade, por essa época, era uma das mais importantes
e modernas do país, devido ao auge da expansão gomífera.
Antônio Lemos, quando intendente municipal, estabeleceu uma política
de urbanismo para a capital paraense que incluiu desde calçamento
das vias públicas com pedras francesas até a construção
de asilo, hospital, escola e biblioteca. Enfim, Belém era uma das
mais notáveis cidades da América Latina, é claro
que com todos os problemas sociais pertinentes ao avanço do capitalismo.
Voltando ao assunto da Revista Amazônica, que foi publicada entre
março de 1883 e fevereiro de 1884, com dez fascículos mensais,
onde cada número era constituído de colaborações
de diferentes autores, pode-se ler no número 2, o artigo A linguagem
popular amazônica, assinado por José Veríssimo, do
qual extraímos os seguintes trechos:
É fato observado que quando dois povos ou duas
raças se encontram na concorrência pela vida n’um território
conquistado por uma delas, a civilizada, a mais forte, aniquila ou absorve
a mais fraca. Ou a reduz e dispersa pela força, ou assimila-a pelos
cruzamentos, o que é outra maneira de seleção. Em
geral, porém, dá-se simultaneidade no fenômeno, mas
raro com tal importância que prejudique a verdade daquela lei, da
qual parecem-me exemplos típicos os Estados Unidos e o Brasil.
(...) Além de milhares de expressões de origem estrangeira
(brasílico, guarani, africana, espanhola, francesa, etc...) que
fazem parte do vocabulário corrente do povo brasileiro, muitíssimas
palavras portuguesas mudaram de significação entre nós,
ou, conservando em parte o seu verdadeiro sentido, adquiriram novos. Aqui
no Amazonas temos: sítio, lugar, e pequeno estabelecimento agrícola;
queimada, particípio do verbo e substantivo significando roça
que se queimou para plantio; montaria, canoa (...).
O artigo continua no número seguinte e aprofunda
sobre algumas formas lingüísticas faladas na região
norte do país. Vê-se, assim, como o autor percebia o fenômeno
de cruzamento das raças como momento decisivo para a formação
da língua portuguesa no Brasil. Notemos, ainda, a novela A viúva
(cenas provincianas) de autoria de João Afonso, que narra de forma
lenta e minuciosa o velório do doutor Adelino Alfredo Tavares,
homem ilustre do lugar. A história se passa na província
do Maranhão, no ano de 1879. Não há grandes preocupações
em discutir dramas humanos, mas sim em detalhar cenas, costumes e atitudes
dos personagens frente ao acontecimento da morte, seguindo a linha do
Realismo.
(...) As senhoras carregaram-n’a desmaiada para
fora do aposento e os homens, cerrando as portas, ocuparam-se de vestir
o cadáver. Tiradas as roupas soadas da agonia da morte e impregnada
das últimas evacuações do corpo, dois suspenderam
o cadáver nu, que se dobrava todo numa inércia mole e pesada
e estralou num som cavernoso o ultimo ar que continha, em quanto que Manoel
Pereira religiosamente passava uma esponja embebida na água perfumada
que fizera vir numa grande bacia de banho pelo corpo coberto de uma tepidez
viscosa, repugnante ao tacto. Terminado o banho, Manoel Pereira mandou
buscar a melhor roupa do defunto, a sua camisa de peitilho bordado que
servira no ato do casamento, o fato preto, um par de sapatos de verniz
novos e que foi preciso cortar na entrada, por causa da intumescência
dos pés. (...) Manoel Pereira ainda se ocupou de acomodar bem o
corpo, de cerrar bem os olhos do morto, chamando-o três vezes em
voz alta: “- Adelino! Adelino! Adelino!” atando-lhe um lenço
por baixo do queixo para fechar melhor a boca. Assim, deitado no sofá,
os braços cruzados sobre o peito o cadáver do doutor tinha
um aspecto tristemente simpático(...).
Notemos, aliás, que a idéia principal era
desenvolver uma literatura que exigia do autor a objetividade, deixando
para trás o subjetivismo romântico. Toda a modificação
pelo qual passava a sociedade brasileira da época parecia proporcionar
aqueles intelectuais do norte do país um repertório importado
do cientificismo europeu, e que se desenvolvia em outros grupos de intelectuais
do Brasil. A revista publicou ainda artigos, tais como: O elemento servil
e sua extinção, de Joaquim Ignácio Amazonas d’
Almeida – que transcorre favorável ao fim da escravidão
- ; Explorações no Amazonas, de Domingos Soares Ferreira
Pena, que publica carta do botânico Gustavo Wallis, a respeito da
geografia das fronteiras brasileiras no extremo norte.
Mina Literária
Ainda naquele final do século XIX surgiu em Belém
o movimento literário e cultural chamado Mina Literária
(1895-1899), que revigorou a literatura paraense com a iniciativa de publicar
obras de autores locais. Entre os autores: Acrísio Mota , Eustachio
de Azevedo , Natividade Lima, Theodoro Rodrigues, Leopoldo Sousa, entre
outros.
O grupo dos mineiros – como eram chamados os integrantes dessa nova
associação – realizava conferências, saraus
literários, promovia concursos literários e publicava livros
com recursos próprios dos associados. Entre os livros de autores
locais publicados pela Mina Literária, vejamos Coisas profanas,
de Acrisio Motta, editado em 1895, pela Livraria Paraense, que funcionava
à rua de Santo Antônio, 23, em Belém. A carta-prefácio
é de Adherbal de Carvalho. A obra de Acrísio Motta revela
certa influência do “lirismo lamartineano até o decadismo
de Verlaine”. Eis alguns versos do poeta paraense a tocar a atmosfera
do abandono sentimental:
Consolo-me ao saber que, à noite quando
Em paz deixares o labor caseiro
Irás meus pobres versos decorando
À luz do candeeiro.
o meu livro terás o confidente
Das tuas noites ermas, mal dormidas
Que há de mostrar-te a página fulgente
Onde esqueci o bando penitente
Das minhas santas ilusões queidas .
(Acrísio Motta, Coisas profanas)
A poesia de alguns poetas mineiros teve uma apresentação
memorável feita por Eustachio de Azevedo, na Antologia Amazônica
(1904). O impulso “tenaz” das letras nortistas daquela mocidade
do final do século XIX construiu uma sociedade belenense para além
do câmbio e da borracha. Mesmo sem ser citada por José Veríssimo
em História da literatura brasileira: De Bento Teixeira (1601)
a Machado de Assis (1908), publicada em 1916, no Rio de Janeiro, pela
Francisco Alves. O que talvez já fosse o momento de se ocupar com
a representação de tais movimentos.
Desse modo, as propostas dos movimentos da Revista Amazônica e da
Mina Literária nos revelaram, até o momento, um processo
cultural da sociedade paraense das últimas décadas do século
XIX, que contribuiu para a formação do cenário nacional,
tanto no que diz respeito à produção e a edição
de livros e revistas, como pela tarefa de contestação da
atividade intelectual e literária que antecedeu àqueles
grupos. Proporcionando uma nova linguagem poética ou crítica
para a construção de uma sociedade inteligível em
nosso país.
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