Almir Correia - Centro Federal de Educação
Tecnológica (CEFET – PR)
A Poesia Infantil navega no mar da fantasia, habitado
por monstros, fadas, dragões, gigantes, anões, seres estranhos,
objetos animados e “desanimados”, situações
geralmente diversas da realidade do dia-a-dia e ao mesmo tempo tão
próximas dela. Metáforas, Antíteses, Provérbios,
Rimas, Aliterações “et caetera” e tal funcionam
como leme do Navio (Pirata). O Poema com suas velas direcionadas ao vento
da inspiração/criação faz sua viagem com destino
ao prazer do leitor e sua compreensão do mundo e das coisas deste
mundo e de outros.
Por esses lugares, o escritor é o primeiro navegante. Na verdade
o escritor é primeiro leitor e assim o “texto-viagem”
existe a partir do momento em que é produzido.
Produzido, lido, relido, feito, desfeito...
O escritor faz a sua viagem ou será que é a viagem que faz
o escritor?
Imagine uma árvore com “frutos-histórias”.
Muitas vezes acho que o escritor não escreve realmente.
As histórias é que já estão prontas. Ou talvez
melhor dizendo, elas se contam, elas se fazem e pedem para serem colhidas
como frutos maduros.
E aí elas precisam de um escritor. Um escritor com capacidade para
tirá-las cuidadosamente do pé, sem machucá-las.
Alguns escritores esperam os furtos-histórias ficarem maduros e
caírem sozinhos.
Outros os colhem ainda verdes.
Na fluidez das coisas, as histórias ganham o sabor suculento do
prazer, mesmo num teclado/monitor frio de computador.
Na Literatura Infantil, o texto deve ser mágico como um brinquedo
brincado pela primeira vez e por outras vezes também. Os verdadeiros
e terríveis monstros do texto são os moralismos do escritor,
os didatismos, a artificialidade.
Acho que muitos escritores apenas escrevem sem nunca terem provado os
frutos-histórias. E aí as histórias são apenas
coisas capengas, feridas, sem alma, sem prazer.
O texto-história passa a ser arte quando liberta a alma dos preconceitos
impostos pelas correntes-dogmas da sociedade e busca no frescor da novidade
outras possibilidades de compreensão/provocação das
coisas do mundo.
Não é fácil em um texto o autor se colocar como autor.
Há a necessidade de tocar a campainha da porta do leitor (espero
que a sua casa tenha campainha). Então aqui vou eu: “TRIMMMM!!!”.
Olá, tudo bom? Ainda bem que você não demorou para
abrir a porta.
Você, leitor, é o meu amigo oculto. E todo autor gostaria
de ter milhões desses amigos ocultos. Leiam-me, pede o livro. Leiam-me,
pede o autor. Escrevo para ser querido, escrevo para colocar meus sonhos,
pesadelos, angústias, desejos.... Escrevo porque acho que tenho
alguma coisa a dizer. Ainda carrego comigo aquela visão romântica
de que um texto pode modificar alguma coisa. Escrevo também porque
quero ser reconhecido como escritor, escrevo porque quero ser um profissional
da escrita.
Com alguns livros publicados em literatura infanto-juvenil, vou começar
já “puxando brasa para a minha sardinha”. E por isso,
mesmo nada melhor do que um poema do Livro “Poemas Engraçadinhos”
(edição do autor) que realmente puxa brasa para a sardinha.
Naquela noite tão fria
Puxei uma brasa
Para a minha sardinha
Naquela noite tão fria
Puxei uma coberta
Para a minha sardinha
E então
A todo momento ela me dizia:
“Meu bem, como eu estou quentinha!”
No poema infantil, a rima conduz o poema, direciona-o,
mas não pode ser somente a razão de ser do poema. A musicalidade
existe na rima, mas o sentido vai além, precisa ir além.
Rimar tem que ser uma brincadeira de descobertas e não apenas uma
adequação do som com o som. O poema precisa dos versos,
das linhas e das entrelinhas. E o poema infantil precisa de leitores adultos
também.
Comecei a escrever poemas para crianças, inspirado em Mário
Quintana, mas acho que ele escreve principalmente para a criança
que ainda vive traquina e pendurada na árvore dos corações
adultos.
Meu primeiro poema para criança foi escrito há mais de 12
anos e está presente no meu primeiro livro “Poemas Engraçadinhos”
(Editoral Atual/Saraiva). É um poema com pena.
Fiz um poema com pena
E não sei se vale a pena
Poemar.
É um poema com pena
Pena do céu
Pena da terra
Pena do mar.
Não tem mais pena de índio
Porque índio já não se acha em nenhum lugar.
Mas ainda tem
Pena da arara azul
Pena da galinha sem cabeça
Pena do pato pateta.
Só não tem pena nenhum do burro
Porque burro não tem pena.
Se o texto infantil precisa funcionar para a criança como um brinquedo,
acho que o humor deve ser um de seus mais importantes componentes. O humor
pinta a poesia infantil com cores sorridentes. O humor pinta a alma dos
pequenos e grandes leitores com cores palhaças que não saem
com água e sabão.
O escritor precisa do mundo real para escrever. Esta é
a sua base, o seu porto seguro que será transformado, invertido,
desconstruído. O escritor precisa de outros escritores para escrever.
E o seu papel é também ser leitor. Um leitor que garimpa
as preciosidades que servirão como base para a sua própria
escrita.
Em meu segundo livro, “Poemas Sapecas – Rimas Traquinas”
(Editora Formato/Saraiva), há um poema que é a cara da poesia
de Mário Quintana. Gosto muito dele, porque me lembra este grande
poeta brasileiro que só conheci pelos textos. É bom sabermos
que podemos ser influenciados por outros autores, é bom termos
amigos.
Poeminha da Manhã
Poeminha da manhã
Que voa pelos quintais
E descansa sobre a hortelã
E dorme nos varais
Tenha cuidado com os passarinhos-poetas
Eles andam famintos por uma inspiração
Atrás de um poeminha-mosquinha assim...
...Tão bão!
Quando o ato de escrever se torna um vício, acho
que aí descobrimos que somos realmente escritores. Queremos ser
lidos, queremos ser amados, queremos...
Não é fácil.
Publicar um livro envolve várias questões. E a qualidade
torna-se algo extremamente relativo num mundo de cifras e celebridades.
Mas escrever só depende de mim.
Então que esse vício nunca tenha fim!
AH! Já ia me esquecendo. Obrigado pela sua atenção,
leitor!
REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS:
BAKHTIN, M & VOLOCHINOV, V. (1929/1997). Marxismo
e Filosofia da Linguagem. 8º ed. São Paulo: Hucitec.
CORREIA, Almir. Poemas malandrinhos. 14º ed. São Paulo. Atual.
--------- . Poemas Sapecas, Rimas Traquinas. 5ºed. Belo Horizonte.
Formato.
--------- . Poemas Engraçadinhos. Curitiba. Edição
do Autor.