Dulciana de Carvalho Lopes Dantas
Denise Maria de Carvalho Lopes
O presente trabalho contém uma síntese
de estudo desenvolvido no período de junho de 2002 a novembro de
2004 em Natal/RN, que consistiu na sistematização de uma
intervenção pedagógica envolvendo a aprendizagem
da leitura e da escrita junto a uma jovem de 21 anos, portadora de síndrome
de Down.
O processo foi vivenciado entre professora e aluna, na forma de um estudo
de caso, pautando-se em uma concepção de ensino-aprendizagem
construtivista e sócio-interacionista, considerando-se a importância
de se estabelecer vínculos significativos entre os sujeitos - professora
e aluna - e entre estes e o objeto de conhecimento – a linguagem
escrita, buscando-se uma construção do saber mediada pelas
interações com os outros e pela linguagem e ainda pelo prazer
que pode - e precisa - estar contido nos atos de ler e escrever.
Em uma prática na qual a intervenção buscava resgatar
na aluna o interesse pelas atividades de leitura e escrita perdido ao
longo do seu processo de escolarização, bem como desenvolver
habilidades necessárias às práticas textuais de escrita,
o trabalho partiu da análise da questão da deficiência
mental não como um fator impeditivo dessa construção
e sim como uma condição de aprendizagem diferenciada e específica,
que pode perfeitamente acontecer, partindo-se do princípio de que
a condição biológica não é por si só
fator determinante na possibilidade de avanços nas interações
psicosociais que o sujeito constrói e reconstrói ao longo
da vida.
Na verdade, esse movimento intenso acontece como resultante também,
e fundamentalmente, dos aspectos orgânicos, sócio-culturais
e emocionais que vão se constituindo mediados pelas relações
sociais que permeiam e dão sentido à vida de cada sujeito
em uma condição de ser humano, biológico, psicológico
e, primordialmente, social.
Tendo a clareza de que na realização do trabalho havia um
sujeito aprendiz e que o objeto em questão seriam suas dificuldades
em relação à leitura e à escrita, partimos
do princípio de que seria fundamental a nossa participação
ativa na condição de, igualmente sujeitos do processo, o
que nos daria subsídios para responder às indagações
que inicialmente formulamos e para as quais deveriam existir respostas
ao final do trabalho, quais sejam: como desenvolver o projeto de trabalho?
Como envolver a aluna nas atividades? Como despertar o seu interesse e
sua vontade de ler, interpretar, escrever e ao mesmo tempo aprender a
norma culta da linguagem oral e escrita, desenvolvendo estratégias
de ler-compreender e produzir textos e ainda desenvolver novas concepções
de mundo e de si mesma?
Os caminhos percorridos por nós na experiência aqui relatada,
passaram por diversos momentos, tais como: apresentação
e discussão da proposta de trabalho; avaliação da
escolha dos recursos a serem utilizados como objetos de leitura e escrita;
estratégias utilizadas para o sucesso do trabalho, tendo a certeza
do desafio de trabalhar numa perspectiva voltada para uma construção
de conhecimento crítica e reflexiva, pautada num processo contínuo
de interações e mediações, onde a diversidade
de experiências vivenciadas resulta no aprendizado e no crescimento
pessoal.
O trabalho de pesquisa realizado, à medida que o projeto foi sendo
desenvolvido junto à aluna, foi fundamentado no modelo de pesquisa
qualitativa, tendo em vista que:
A abordagem qualitativa parte do fundamento de que há uma relação
dinâmica entre o mundo real e o sujeito, uma interdependência
viva entre o sujeito e o objeto, um vínculo indissociável
entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito. O conhecimento não
se reduz a um rol de dados isolados, conectados por uma teoria explicativa;
o sujeito-observador é parte integrante do processo de conhecimento
e interpreta os fenômenos, atribuindo-lhes um significado. O objeto
não é um dado inerte e neutro; está possuído
de significados e relações que sujeitos concretos criam
em suas ações (CHIZZOTTI, 1995, p. 79).
Nessa perspectiva estabelecemos que o projeto de trabalho seria desenvolvido
a partir da apresentação à aluna, de uma proposta
na qual ela teria participação ativa quanto à escolha
do material literário e dos recursos a serem utilizados em nossas
construções, considerando que a partir de seu interesse,
a necessidade de ler e escrever seria gerada, impulsionando-a a vivenciar
um processo rico que poderia trazer resultados positivos para o domínio
da linguagem escrita e falada, através de atividades envolvendo
leitura e construção de textos que falassem de sua realidade
vivida, sentida ou sonhada.
REFLETINDO SOBRE A EXPERIÊNCIA VIVIDA
Procuramos desde o início (em junho de 2002),
desenvolver um trabalho de leitura e construção de textos
relativos à letras de músicas, poesias, prosas, contos,
relatos de situações vividas no cotidiano da aluna, atendendo
às suas solicitações, quando consultada sobre o que
poderíamos trabalhar em nossos encontros. Tais construções
consistiriam em textos do tipo enumerativos, informativos, literários,
expositivos ou prescritivos, de acordo com a classificação
dada por Curto (et.al, 2000, p.188).
Na oportunidade, combinamos também, que trabalharíamos textos
relacionados a algumas das disciplinas que faziam parte do currículo
dos 3o. e 4o.ano do magistério cursados pela aluna à época
de desenvolvimento da presente proposta.
Buscamos fundamentar e desenvolver a prática dentro de uma perspectiva
construtivista sócio-interacionista, considerando-se que foi com
base nesse princípio que D. foi alfabetizada e viveu suas primeiras
experiências de aprendizagem de leitura e escrita, num processo
de interações grupais em uma escola de ensino regular, experiências
estas que a mesma esteve sempre trazendo, através de relações
feitas com as atividades realizadas durante nossos encontros.
Talvez pelas situações vividas em algumas das instituições
pelas quais a aluna passou em sua história de vida escolar e pelos
seus relatos acerca das últimas escolas, com uma proposta de ensino
tradicional, marcada pela figura do professor como detentor da palavra
e do controle sobre o aprendizado, observamos que D. havia perdido ao
longo de seu processo de aprendizagem, o gosto pela escrita de textos,
o que dificultava seriamente a efetivação da proposta do
trabalho, tendo em vista o desinteresse apresentado pela aluna.
D. estava muito voltada para atividades de “cópias e ditados”
que não exigiam da mesma o exercício da reflexão,
da organização de suas próprias idéias e da
construção de sua própria aprendizagem, a partir
da transformação de conhecimentos dos quais a mesma já
se apropriara, em novos conhecimentos. Dessa forma, nos primeiros encontros,
D. ficava à espera de direcionamentos prontos, que só lhe
dariam o trabalho de escrever, sem nenhuma prática reflexiva.
No âmbito da escrita, pudemos perceber que D. apresentava uma boa
fundamentação ortográfica, escrevendo a maioria das
palavras corretamente, tendo uma certa clareza da utilização
da linguagem escrita como meio de comunicação e de instrumento
do pensamento quando se encontrava desenvolvendo atividades desse tipo,
o que foi considerado um ponto positivo relevante para bons resultados
no trabalho.
Essa condição da aluna nos remeteu as análises de
Vigotsky acerca do significado das palavras, quando o autor considera
que “... o desenvolvimento do pensamento é determinado pela
linguagem, isto é, pelos instrumentos lingüísticos
do pensamento e pela experiência sócio-cultural da criança”
(VIGOTSKY, 1989. In: PINO, 1997, p.21) ou do adulto na nossa concepção,
quando nos reportamos ao caso de D..
Entretanto, percebemos de imediato uma dificuldade na elaboração
textual, decorrente da incompreensão da necessidade da existência
de organizadores textuais como sinais de pontuação, conectivos,
concordância nominal e verbal, o que nos fez refletir sobre a seguinte
questão: como fazer D. elaborar bons textos, sem transformar esse
aprendizado numa prática estéril, essencialmente informativa,
desprovida de entusiasmo e de interesse, com uma preocupação
centrada em uma boa caligrafia ou ortografia?
De imediato sentimos que precisávamos iniciar com D. um trabalho
que lhe proporcionasse antes de tudo prazer pela escrita e pela leitura
e isso só poderia acontecer se a aluna trabalhasse durante as aulas,
textos que tivessem significado, partindo-se do princípio de que
D. em sua condição de aprendiz
[...] é protagonista do seu próprio processo
de aprendizagem, alguém que vai produzir a transformação
que converte informação em conhecimento próprio.
Essa construção pelo aprendiz não se dá por
si mesma e no vazio, mas a partir de situações nas quais
ele possa agir sobre o que é objeto de seu conhecimento, pensar
sobre ele, recebendo ajuda, sendo desafiado a refletir, interagindo com
outras pessoas (WEISZ, 1999. In: PROFA, 2001, p.4).
Sempre com a preocupação de proporcionar à aluna,
oportunidades de utilizar a escrita como recurso auxiliar de memória,
passamos a refletir com D. acerca da importância da construção
de textos, bem como os tipos que a mesma poderia produzir, a partir da
função social que cada um apresenta. Discutimos, por exemplo,
que poderíamos escrever cartas, bilhetes e cartões para
pessoas queridas, relatos de experiências vividas, resumos, artigos
para jornais e revistas, interpretação de letras de músicas
de seus cantores preferidos etc. Num segundo momento, mostramos a D. que
todos os textos não são escritos de uma mesma forma e que
cada tipo de texto tem suas próprias características. Assim,
uma carta, por exemplo, não pode ser escrita da mesma forma que
um resumo.
A princípio enfrentamos algumas dificuldades nas nossas sugestões,
até D. aceitar essas afirmativas e dar um novo direcionamento as
suas construções textuais. Em todos os momentos buscamos
manter o equilíbrio exigido para o nosso papel de mediadora sendo,
ao mesmo tempo, ensinante e aprendiz e tendo a clareza da responsabilidade
de organizar e conduzir o processo, impulsionando D. a refletir sobre
suas produções e intervindo sempre que necessário,
no sentido de fazer essa produção melhorar, principalmente
nos aspectos já mencionados anteriormente.
No posicionamento tomado foi necessária uma reflexão acerca
do papel que iríamos assumir, considerando que
[...] no processo de educação também
cabe ao mestre um papel ativo: o de cortar, talhar e esculpir os elementos
do meio, combiná-los pelos mais variados modos para que eles realizem
a tarefa de que ele, o mestre, necessita. Deste modo, o processo educativo
já se torna trilateralmente ativo: é ativo o aluno, é
ativo o mestre, é ativo o meio criado entre eles. Por isso, o menos
possível é interpretar esse processo como placidamente pacífico
e regular [...] (VIGOTSKY, 2001, p. 73).
Sob essa ótica, tornou-se relevante o nosso papel de mediadora
e ao mesmo tempo incentivadora de D. para que a mesma não sentisse
medo de cometer “erros” em suas falas ou em suas construções
textuais, o que certamente bloquearia o desenvolvimento do processo.
Foi de fundamental importância manter uma postura incentivadora,
encorajando D. a registrar seu discurso natural, singular, espontâneo,
pondo em jogo tudo o que sabia, assumindo os riscos de errar, para em
seguida observar os erros cometidos e transformá-los em instrumentos
de análise e de crítica por parte da própria aluna,
ocorrendo posteriormente uma apropriação da norma culta
da língua escrita. Nesse exercício observamos, inclusive,
que os erros cometidos por D. não aconteciam por acaso. Eles eram
fruto da interpretação que a mesma dava para determinadas
regras ortográficas, de pontuação, de presença
ou ausência de conectivos, o que dava um sentido ainda maior ao
processo de correção fundamentado numa aprendizagem construtiva.
Um ponto crucial no estabelecimento dessa estratégia consistiu
em valorizar as produções da aluna, motivando-a e propiciando
a melhoria de sua auto-estima e autoconfiança, cientificando-a
de sua capacidade. Tal conduta lhe induzia à receptividade de sugestões
de correções, como sendo orientações de caráter
positivo.
Combinamos traçar um direcionamento a ser observado por D. partindo
sempre do levantamento das idéias sobre o que queremos escrever,
para quem vamos escrever, porque queremos escrever e como vamos escrever,
ou seja, incentivamos D. a organizar seu pensamento acerca do que pretende
escrever e partir desses pontos sem que isso significasse que outros dados
não poderiam ser acrescidos. Em outras palavras, deixamos bem claro
para D. que todas as possibilidades estão disponíveis durante
o processo de construção de um texto.
Houve o cuidado de não orientar as construções textuais
a D., oferecendo modelos a serem seguidos invariavelmente, com base nas
afirmações de Soares (1999, p.63) segundo a qual os textos,
além de determinados culturalmente, representam, também,
a natureza da situação de interação entre
o autor e o leitor, o que determina o como escrever, ou seja, um texto
pode ser marcado pelo grau de intimidade, de afetividade ou de neutralidade
e indiferença do autor com relação ao seu destinatário.
A preocupação sempre foi deixar bem claro para D. que cada
gênero de texto tem suas normas e suas diferenças, que aparecem
até mesmo na disposição do mesmo na página
ou no próprio papel a ser utilizado. Assim, é diferente
quando se “... trata de uma narrativa, de uma dissertação,
de uma argumentação, de um editorial, de uma notícia
de jornal, de uma receita culinária, de uma bula de remédio,
de um texto publicitário” (SOARES, 1999, p.64), sem deixar
de evidenciar a importância do sentimento e da afetividade que podem
estar presentes numa carta, num bilhete ou num cartão que escrevemos
para alguém de quem gostamos. D. manifestava muito bem essa percepção
quando escrevia carta a uma amiga ou um cartão para o pai.
Após a construção do texto nossa mediação
tornava-se ainda mais valiosa, quando iniciávamos com D. o processo
de releitura, revisão, avaliação do que pode ser
modificado e uma conseqüente reescrita, sem que isso significasse
para a aluna uma negação ou reprovação do
seu trabalho e sim uma possibilidade de tornar seu texto mais “rico”
e mais fácil de ser entendido por leitores que dele fariam uso.
A revisão do texto sempre era realizada a partir de questionamentos
que resultavam em soluções satisfatórias, processadas
numa relação de interação entre professora
e aluna, sendo a segunda motivada a pensar se não existia uma outra
possibilidade de escrita que transformasse seu texto numa obra melhor,
de mais fácil entendimento, mais bonita e agradável.
Viabilizamos situações para que D. identificasse os problemas
e buscasse soluções pensadas, além de ser incentivada
a melhorar sua caligrafia, a respeitar espaços estabelecidos ortograficamente
(a aluna relutava em separar palavras com hífen ao final da linha,
em usar o parágrafo, além de querer deixar o espaço
de uma linha “em branco” entre um parágrafo e outro,
etc.) e a repensar a questão da pontuação e da ortografia.
Percebemos durante o trabalho, que D. sentia-se mais à vontade
na elaboração de textos livres e espontâneos, o que
reforçava nossa intenção de propiciar ao máximo,
situações para tal atividade, com base no que afirma Cacliari
(1990):
É preciso deixar os alunos escreverem textos livres,
espontâneos, contarem histórias como quiserem. É nesse
tipo de material que vamos encontrar os elementos que mostram as reais
dificuldades e facilidades dos alunos no aprendizado da escrita (CACLIARI,
1990, p.146).
Já a elaboração de textos dirigidos, que tratam de
algo que D. não conhecia, como por exemplo “a questão
da guerra fria”, exigiam uma mediação mais apurada
acerca de conceitos como localização e divisão espacial
e temporal, bem como noções de questões políticas
e econômicas a nível global, o que reafirmava a concepção
teórica de que
[...] um processo de aprendizagem não supõe
que o aluno sabe apenas o que lhe é formalmente ensinado. Nela
o aprendiz é visto como um sujeito que tem um papel ativo em sua
aprendizagem. Um sujeito que pensa todo o tempo, que se coloca questões,
que estabelece relações. Elabora a informação
que o meio lhe oferece - o professor inclusive – para construir
esquemas representativos próprios (WEISZ, 1999, In: PROFA, 2001,
p. 12).
Nas atividades de leitura buscamos propiciar a D. a percepção
de que é fundamental saber para que lemos e as diversas formas
de leitura disponíveis, as quais podem ser utilizadas de acordo
com a situação vivenciada e com a qualidade do material
a ser lido.
Foi oportunizada a D. a vivência de experiências de leituras
com os mais diversos significados: divertimento, como piadas; que exigem
reflexões para interpretações, como letras de músicas;
que são meras informações, como anúncios de
revistas e jornais; que são conteúdos teóricos narrativos
exigidos em seu processo curricular, como textos de didática; que
são estimuladores da imaginação, como as obras literárias;
e, que são carregadas de significados não aparentes como
propagandas em outdoors, em revistas etc.
O máximo de proveito e um conseqüente desenvolvimento procuramos
propiciar a D. durante as atividades de leitura, estimulando a aluna na
construção progressiva de significados para o que lemos,
observando que durante o ato de ler vivemos um intenso processo de descobertas
e de novos significados, pois como diz Curto (et.al, 2000, p.174) “enquanto
lemos, simultaneamente pensamos, avaliamos, criticamos, formulamos perguntas:
inclusive retrocedemos para esclarecer aspectos obscuros e duvidosos.”
Para garantir a compreensão do texto lido, procuramos estabelecer
com D. alguns critérios norteadores de um melhor entendimento,
tais como: identificar a finalidade do texto; identificar a idéia
principal; analisar o sentido maior do título; deduzir o significado
das palavras novas; interpretar e inferir sobre os registros, fazendo
deduções a partir dessas interpretações e
inferências.
Além dos aspectos de ordem técnica, buscamos despertar em
D. o prazer, a emoção, a curiosidade, a diversão
que uma boa leitura proporciona, assumindo uma postura de leitora junto
à aluna, dando-lhe oportunidade de se posicionar sobre o conteúdo
lido.
Um outro recurso utilizado foi o da leitura dos próprios textos
elaborados por D., o que se constituiu em momentos de muita reflexão
por parte da aluna, acerca de suas produções.
Em conjunto, realizamos as atividades de leitura, sempre com o objetivo
de transformar a experiência prazerosa, atraente, interessante e
instigante. Nesses momentos mostrávamos a D. o poder do qual nos
apropriamos quando mergulhamos numa aventura de leitura de um texto, na
qual viajamos, sonhamos, inferimos, idealizamos, sendo possível
realizarmos grandes feitos junto com os personagens dos textos ou com
personagens que nós mesmos nomeamos nos textos que lemos ou que
criamos.
É bem verdade que D. apresenta dificuldades de compreensão
daquilo que lê, em determinados momentos, não conseguindo
realizar uma construção representativa do texto. Entretanto,
sabemos que tal dificuldade é decorrente não da deficiência
de D. por si só, mas de questões que são comuns a
qualquer aluno que vivencie processos de leitura, tais como: o significado
das palavras que compõem o texto; o entendimento das relações
entre os elementos formadores; o conhecimento acerca do assunto mencionado,
etc.
Sempre procuramos iniciar as leituras com D. considerando o que, segundo
Fernandes (1991), Pain denomina de “momentos analogizáveis”
que acontecem durante um processo de aprendizagem de leitura: o inventário,
quando procuramos saber do que o livro trata e consultamos o índice
para nos apropriarmos dos temas discutidos; a organização,
quando procuramos estabelecer relações acerca do conteúdo
do livro e, por último, a apropriação, quando “...
conseguimos integrar essas relações e conceitos aos nossos
esquemas (conhecimentos anteriores e experiências)” (FERNANDES,
1991, p.171), o que permite que nos apropriemos do conhecimento.
Com o intuito de minimizar as dificuldades apresentadas por D., fundamentamos
o processo a partir de pontos básicos como: mediar sempre a realização
da leitura dos textos; buscar sempre identificar junto a D. a idéia
principal; buscar o significado de palavras a princípio desconhecidas;
buscar o significado e a importância do tema discutido; situar o
texto no tempo e no espaço geográfico; estabelecer as relações
culturais, sociais, econômicas e políticas que fundamentam
o texto e dão vida aos personagens; levantar hipóteses e
tentar construir uma opinião própria sobre o material lido.
D. ia se mostrando cada dia mais receptiva para atividades de leitura,
principalmente aquelas que atendiam seus interesses como: matérias
em revistas e jornais sobre artistas e cantores preferidos; sobre lugares
visitados anteriormente; sobre notícias de novelas ou outros programas
de televisão; sobre filmes, etc.
É fundamental registrar que na prática pedagógica
com D. procuramos não considerar o comprometimento de suas funções
mentais como um elemento, por si só, impeditivo do seu processo
de desenvolvimento e de aprendizagem, partindo sempre do princípio
de que se quiséssemos ajudar D. a avançar no seu processo
de leitura e escrita, não poderíamos considerar como uma
verdade, a idéia da “... deficiência mental como uma
condição definidora da incapacidade do indivíduo
frente às exigências de ordem cognitiva, emocional e social
no seu processo de desenvolvimento” (CARVALHO, 2003, s/p), que iria
certamente impossibilitar qualquer construção de conhecimento.
Para fundamentar tal reflexão, adotamos a concepção
de Vigotsky acerca do desenvolvimento humano vinculado à deficiência
mental, quando o mesmo considera, segundo Carvalho, que
[...] as relações sociais não apenas
influenciam ou determinam as nossas possibilidades mas são delas
constitutivas, num processo onde o sujeito não é moldado,
não se encontra assujeitado nem pelos seus determinados orgânicos
e nem pelos seus determinantes sociais, mas se constitui como sujeito
interativo nas relações que vive (CARVALHO, 2003, s/p).
Era perfeitamente visível a importância da relação
de confiança e da interação que se estabelecia no
nosso trabalho com D. e o quanto essa interação possibilitava
à aluna uma ação mais elaborada e cada vez mais intensa
e mais reflexiva. Percebíamos que quanto mais D. era impulsionada
para desenvolver atividades subjetivas, mais aumentava sua capacidade
de se apropriar dos significados sociais e culturais que permeiam a realidade
na qual estamos inseridas, reconstruindo-os, num movimento que nos remete
a Vigotsky (2001), segundo o qual:
Se interpretarmos o meio social convencionalmente como um conjunto de
relações humanas, fica perfeitamente compreensível
a excepcional plasticidade do meio social, que quase chega a fazer dele
o instrumento mais flexível da educação. (VIGOTSKY,
2001, p. 72).
Pensando-se no meio social educativo, ainda de acordo com o autor, sentimos
que nos cabia, como educadora, o papel de organizadora e administradora
desse meio, facilitando a própria experiência da aluna, evitando
a cristalização de um meio artificial, partindo do princípio
de que
O conhecimento das verdadeiras leis da educação
social independentes da vontade do mestre, de modo algum significa o reconhecimento
da nossa impotência diante do processo educacional, recusa a intervir
nele e entrega de toda a educação à força
espontânea do meio.
Ao contrário, como qualquer ampliação do nosso conhecimento,
esse conhecimento significa o aumento do nosso poder sobre esse processo,
as grandes possibilidades da nossa ativa intervenção nele
(VIGOTSKY, 2001, p.69/70).
Houve sempre uma incessante troca de informações durante
a realização dos trabalhos de leitura, partindo-se do princípio
de que “para construir um saber, para apropriar-se de um conhecimento
devemos jogar com a informação como se fosse certa e como
se não fosse certa” (FERNANDES, 1991, p.165), ocasionando
uma situação em que a partir dos questionamentos D. ia conseguindo
viver a experiência de construir o seu saber, jogando com o conhecimento
do outro, que lhe é apresentado no ato de ler.
Nessa espécie de “jogo” estabelecido durante as leituras,
buscamos no papel de mediadora, provocar em D. o desejo de refletir sobre
as idéias contidas nos textos trabalhados, criticando-as, reordenando-as,
reafirmando-as ou mesmo negando-as, sentindo o prazer de aprender e apreender
novos saberes, a partir de suas próprias deduções.
Para isso, fez-se necessária a manutenção do estado
de confiança estabelecido entre nós (mediadora e D.), transmitindo
à aluna a certeza da existência de seu espaço, em
sua condição de sujeito integrante e atuante do processo.
Em seus textos D. expôs muito bem esse processo. Quando a mesma
leu a respeito da filosofia da inclusão e escreveu sobre a forma
como vinha sendo tratada por algumas colegas de turma e falando de sua
indignação com a questão, revelou sua capacidade
de se apropriar e interpretar a sua realidade, sua capacidade de estabelecer
relações entre os sujeitos e criticar a forma como algumas
relações se estabelecem, ou seja, através do processo
de relações sociais que permeiam e dão sentido à
vida de D., é que ela vai construindo e reconstruindo, num processo
ininterrupto de encontros e desencontros, o seu “saber” e
o seu “viver”.
No processo de leitura e escrita de seus textos, a deficiência mental
de D. ao mesmo tempo em que não pôde ser esquecida ou negada,
não se constituiu num elemento impeditivo de avanços cognitivos
para a aluna, remetendo-nos a Salvador et.al (l999) quando o mesmo faz
referência ao entendimento de Vigotsky acerca do “... desenvolvimento
como um processo unitário e global, no qual confluem e se inter-relacionam
os processos associativos às duas linhas de desenvolvimento e no
qual os fatores biológicos e os sociais e culturais se encontram
articulados em uma relação complexa de autêntica interação
mútua” (SALVADOR et.al, 1999, p. 104).
Como diz Salvador et.al (1999), através das duas linhas de desenvolvimento
(natural e social), atuando conjuntamente no processo de desenvolvimento,
cada uma com suas forças em perfeita união, formariam uma
“... estrutura qualitativamente unitária, que comportaria
forçosamente diversos fatores explicativos (biológicos,
sociais e culturais)” (SALVADOR et.al, 1999, p. 104).
Pensando dessa forma, a deficiência mental de D. pode e deve ser
considerada, como uma “...condição de desenvolvimento
diferenciada, peculiar em sua organização sociopsicológica,
processo resultante da síntese entre os aspectos orgânicos,
sócio-culturais e emocionais constitutivos e constituídos
da/na vida...” (CARVALHO, 2003, s/p) de D., em sua condição
de pessoa com deficiência mental, mas em nenhum momento, como determinantes
de incapacidade de leitura de mundo e de interpretação dessa
leitura.
Por outro lado, tornou-se cada vez mais perceptível a importância
das mediações estabelecidas nas atividades e a relevância
que deve ser dada às potencialidades de D., sem perder de vista
que quanto mais a aluna for estimulada a refletir, mais significados ela
encontrará para o que acontece ao seu redor, em suas interações
culturais, sociais e afetivas com o mundo e mais possibilidades terá
de se posicionar na condição de sujeito participante e atuante
nesse mundo.
Nas mediações foi proporcionada a D. a experiência
de “... se mobilizar para preencher o espaço existente entre
o que já sabe e o que ainda precisa saber” (BARBOSA, 1998,
p.120) através de um movimento onde o desejo de buscar o que lhe
faltava, transformava frustrações imediatas em futuras satisfações
geradas por novas situações de aprendizagem.
É válido registrar neste momento, a relevância da
utilização do Projeto de Trabalho e da mediação
continuada e intensiva nas atividades, bem como a importância do
reconhecimento das potencialidades de D. durante todo o tempo em que vivenciamos
o estudo.
Um desafio sempre presente durante o trabalho foi o de dar a D. o seu
devido lugar de adulta, com uma história de vida própria
que não pode ser generalizada, principalmente em função
da deficiência que faz parte de sua constituição como
ser biológico, psicológico, social e cultural.
Acreditar nas possibilidades de D. significa acreditar que
[...] existe um desenvolvimento intelectual ao longo de
todo o ciclo vital; esse desenvolvimento não é uma continuação
linear da inteligência infantil, com seqüências universais
e bem estabelecidas, mas mostra características de multidimencionalidade,
grande plasticidade contextual e enormes diferenças interindividuais
(SALVADOR et. al, 1999, p.190).
O trabalho foi conduzido no sentido de desenvolver aquilo
que Vygotsky chama de educação racional, na qual “...
pode-se conservar para o deficiente toda a soma de seu valor social de
tal forma que a influência da sua deficiência possa ser quase
reduzida a zero” (VYGOTSKY, 2001, p. 381).
Quando, juntas, lemos ou escrevemos, ou mesmo quando fizemos as duas atividades,
buscamos incessantemente acolher o “saber” de D. propiciando
o espaço para que a mesma se sentisse à vontade e confiante
para expressar-se, comparar, relacionar, contextualizar, questionar, criticar,
acatar ou não novas idéias ou pontos de vista, assim como
buscamos instigar na aluna o desejo de descobrir o novo que poderia estar
contido em sua fala, em seu discurso, em suas construções
orais ou escritas.
O exercício maior, enquanto mediadora e ao mesmo tempo aprendiz
do processo, foi certamente o de ouvir mais do que falar, contendo o ímpeto
provocado pela aparente condição de detentora do saber,
permitindo a D. a oportunidade de ocupar o seu lugar no processo de interações
que vivenciamos.
Deixar D. ocupar seu espaço significou ouvi-la, buscar entender
seu discurso, interpretar a sua fala, seus movimentos e seus escritos,
o que em outras palavras quer dizer “... lidar com a necessidade
humana de dar vida ao reino dos símbolos, linguagem e gestos”
(MOTA, 2002, p. 21).
O trabalho realizado com D. foi um processo no qual a voz da aluna consistiu,
como diz Mota (2002, p.21), fazendo referência a Mclaren et. al
(1994), no seu desejo, nascido de sua biografia pessoal e das histórias
que aí se entrelaçam. Foi um processo que consistiu em ajudá-la
a satisfazer à [...] necessidade de construir-se e afirmar-se em
uma linguagem capaz de reconstruir a vida privada e conferir-lhe um significado,
assim como de legitimar e confirmar a própria existência
de mundo (MOTA, 2002, p.21).
Buscamos desenvolver com D. um trabalho que vivenciasse a linguagem oral
e escrita, ressaltando a importância das atividades como sendo impulsionadoras
do desenvolvimento da aluna, tornando-a capacitada a fazer correlações
entre a linguagem e o pensamento, reafirmando o caráter social
e cultural do processo, quando à mesma foi dada a oportunidade
de identificar, corrigir e enriquecer valores de seu próprio discurso,
resultando na realização de novas interações,
pois,
[...] ao identificar, monitorar e expandir elementos lingüísticos
do seu próprio discurso, o aluno elabora novas possibilidades de
interação verbal, novas posições políticas
no espaço social, novas expressões de afirmação
de cidadania (MOTA, 2002, p.25).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na condição de pesquisadora, consideramos
o caráter positivo dos resultados do trabalho, a partir de duas
deduções:
a) Mostramos a D. que através da leitura podemos ter uma dimensão
do imenso poder crítico do qual somos detentores, poder, aliás,
que deve ser utilizado em posicionamentos que tomamos em nossos processos
de interações sociais; que no ato de ler, “... produzimos
um texto dentro de um texto; ao interpretar, criamos um texto sobre um
texto; e, ao criticar, construímos um texto contra um texto”
(MCLAREN apud MOTA, 2002, p. 22), dimensão esta que a aluna demonstrou
ter internalizado em seus conceitos pessoais, o que foi possível
perceber ao longo do processo.
O seu envolvimento nas atividades começou a acontecer a partir
do espaço que lhe foi dado para escolher, também, o que
iríamos ler, demonstrando ter um vasto conhecimento cultural e
uma visão de mundo por muitos ignorados.
Procuramos reforçar e ampliar esse conhecimento fazendo D. compreender
que, como afirma Lerner (2001, p.01): “[...] ler é adentrar
outros mundos possíveis. É questionar a realidade para compreende-la
melhor; é distanciar-se do texto e assumir uma postura crítica
frente ao que de fato se diz e ao que se quer dizer, é assumir
a cidadania no mundo da cultura escrita”.
b) Com relação à escrita, os resultados se fizeram
cada vez mais presentes, à medida que aceitamos juntas, que escrever
não é tarefa fácil. No entanto, é imensurável
a satisfação de ver um texto produzido, tal como D. se sentiu
inúmeras vezes ao construir os textos apresentados neste trabalho
e muitos outros e tal como nos sentimos nesse instante, ao registrar nossa
experiência para que outros dela tomem conhecimento. Isso sem falar
que escrever significa uma explosão de energia, de desejos, de
sentimentos, de sonhos, de saber que se manifesta na vontade de transmitir
para um outro ou para o mundo tudo aquilo que queremos externar, compartilhar,
documentar, registrar, propagar, denunciar, criticar, afirmar, propor...
Ainda com relação ao ato de escrever, a satisfação
foi tomando dimensões cada vez maiores, enquanto nós duas
íamos reafirmando, no dia a dia de nossa experiência, a seguinte
conclusão feita um dia por uma amante das letras faladas e escritas:
Escrevo porque à medida que escrevo vou me entendendo e entendendo
o que quero dizer, entendo o que posso fazer.
Escrevo porque sinto necessidade de aprofundar as coisas, de vê-las
como realmente são... (LISPECTOR, 2001, p. 01).
Os resultados obtidos no presente trabalho ora relatado, certamente poderão
consistir numa contribuição àqueles que enveredam
pelas “teias” dos processos de ensino e aprendizagem, acreditando,
como Vygotsky, que é através das relações
sócio-culturais e da mediação com o “outro”
e pela linguagem que os sujeitos aprendem as práticas da cultura
e se desenvolvem.
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