Bianca Bellini Emmanoelli - Escola de Educação
Infantil Casa da Gente
Um Relato de Experiência
O INÍCIO DO CAMINHO
“É, principalmente, do zero aos seis anos
que o Ego e a personalidade são formados.” Quando isso me
foi dito no curso de Educação Transpessoal , (exigindo uma
reflexão profunda sobre o assunto) imediatamente pensei no valor
e no poder (indicando possibilidades) que um educador tem. Cheguei à
conclusão que, na condição de educadora consciente
do valor pessoal de cada indivíduo (aos quais prefiro me referir
como Ser) posso ajudá-los a despertar seus talentos e qualidades
oferecendo possibilidades para a criança se descobrir como um Ser
único e especial, expressando assim suas potencialidades e as desenvolvendo
cada vez mais.
No entanto, penso que antes de contribuir para uma mudança social
e individual eram necessários minha percepção e desenvolvimento
pessoal. Iniciei então um processo de auto conhecimento. Revi anotações
pessoais, refleti sobre minhas conquistas e sobre situações
cotidianas que eu enfrentava, reconhecendo minhas habilidades e minhas
dificuldades. Confesso que não foi um processo simples, mas sim
um tanto frustrante, afinal quando lidamos com crianças lidamos
com reações e falas espontâneas que muitas vezes nos
levam a situações que não sabemos como agir.
Certo dia, durante este processo, eu estava cansada, me questionando sobre
atitudes e pensamentos. Inconscientemente, isso causou certa irritação
em mim. Sem perceber este movimento interno resolvi continuar minha rotina
normalmente e, qual não foi minha surpresa, ao ouvir de uma criança
(enquanto eu cantava com eles uma música lhes dando uma boa tarde)
que eu estava muito maluca naquele dia, com o cabelo todo despenteado
e errando seus nomes. Imaginem! Uma pessoa em um dia “daqueles”
ouvir de uma criança de três anos uma colocação
dessas. Minha reação foi imediata: coloquei a mão
nos cabelos ajeitando-os como podia, expliquei a eles que eu também
achava que estava meio maluca e que nem tinha percebido todas minhas “maluquices”
daquele início de tarde. Pedi licença, fui ao banheiro joguei
uma água no rosto, arrumei o cabelo e voltei para a sala iniciando
novamente a canção lhes oferecendo boa tarde (desta vez
mais consciente e conectada com a realidade).
A partir deste dia entendi que a auto percepção e o auto
conhecimento era um exercício diário e real, não
precisa necessariamente ser filosófico. Lembrei-me então
de uma das aulas do curso na DEP - Dinâmica Energética do
Psiquismo - onde me foi oferecido um baralho para que eu tirasse uma carta.
Ela dizia assim:
“Consciência:
... É quando a gente fica triste e às vezes fica alegre.
A gente não fica fingindo que nunca fica bravo e não tem
vergonha de mostrar quando está feliz.”
Este era meu maior desafio, ser autentica, reconhecendo
minhas limitações, erros e vibrando com meus acertos. Continuo
neste exercício diário embora reconheça que estou
muito mais “Consciente” que antes. Através das aulas
de Conscientização Corporal percebi que a chave de todo
processo estava em minha ansiedade e em meu medo da grande (e real) responsabilidades
de oferecer possibilidades a Seres ainda tão pequenos e ajudá-los
a se descobrirem como únicos. Foi quando me lembrei de quão
calma, serena e centrada eu ficava quando fazia uso das imagens mentais.
Decidi utilizá-las em meu cotidiano. E fui me dando conta de que,
algo tão bom para mim, poderia ser bom para as crianças
também. Alguns livros como “Giro Interior” e “Educar
com o Coração” me “caíram às mãos”,
neles encontrei a teoria que precisava. Pesquisei os objetivos do uso
de imagens mentais, no cotidiano escolar e o resultado da pesquisa foi
enriquecedor. Dentre os objetivos principais estão o exercício
da concentração, memória, o estímulo na expressão
verbal e da imaginação da criança, repercutindo diretamente
no cotidiano escolar.
Comecei introduzindo músicas instrumentais no final do período
acalmando as crianças, colocando um pouco de creme (corporal) em
suas mãos e pedindo para que eles as massageassem sentindo o perfume
estimulando-as a atentar para a respiração proporcionando
momentos de introspecção. Este momento era (e ainda é)
denominado pelas crianças como “relaxamento”.
Depois de uns meses, procurei introduzir a esses momentos o uso de imagens
mentais. Comecei pedindo que fechassem os olhos e que imaginassem a história
que eu iria contar. Eu também fechava os meus e começava
a descrever o local onde se passava a história. Pouco a pouco ia
descrevendo os personagens e inventando o enredo da mesma. Muitas vezes
um pássaro lindo e grande (que mudava de cor sempre que eles quisessem)
aparecia em minhas histórias. Ele passou a fazer parte do dia a
dia das crianças, ajudando-as quando estavam com medo, tristes...
Em alguns momentos descrevia o local de onde esse pássaro iria
buscá-los e pedia que imaginassem para onde as levaria. O resultado
foi delicioso! Alguns imaginaram lugares onde nunca tinham estado, outras
situações que ansiavam viver, ou ainda situações
já vividas, como a de uma criança que está se afogando
e o pássaro a salva. Isto havia acontecido há uns meses,
no entanto somente naquele momento conseguiu externalizar seu sentimento,
afirmando que o pássaro não iria abandoná-la.
Mesmo com todos os resultados obtidos com os exercícios, acreditava
poder ir além. Queria que as crianças se sentissem capazes
de identificar e de lidar com suas emoções e pensamentos.
Mais uma vez, iniciei uma busca, desta vez em minha sala de aula, a fim
de perceber e entender como o grupo poderia e queria tratar o assunto.
REFLETINDO NA PRÁTICA
Inicio este relato, descrevendo a história desta
turma. Este grupo é composto por doze crianças entre dois
anos e meio e três anos, juntas há dois anos. Em nossa escola,
decidimos com as crianças, no início do ano, o nome da Turma.
Esta turma, em especial, no ano anterior era denominada “Turma da
Música” e, logo nos primeiros dias de aula, expliquei a eles
a importância de alterarmos o nome, afinal havia uma nova integrante
no grupo: Eu! Pedi que as crianças sugerissem o nome que gostariam.
A criatividade foi a mil, tornando-se um momento muito prazeroso! Os nomes
sugeridos! Então a cada dia fazíamos uma votação,
selecionando alguns, até que restaram quatro: “Turma da Mônica”,
“Turma do Monstro do Mar”, “Turma dos Príncipes
e Princesas” e “Turma dos Amigos”. Quando chegamos neste
ponto da votação às crianças decidiram - por
dez votos contra dois - que seria “Turma dos Amigos”. As crianças
que optaram por outro nome, entrando na comemoração final.
Pelo nome escolhido, pode-se ter uma idéia do quão carinhosos
e unidos eles são. É comum os encontrarmos de mãos
dadas, dando beijos e abraços ajudando-se em tarefas simples (como
empurrar o balanço, colocar a camiseta, tirar o agasalho...).
Logo no primeiro mês de convivência minha primeira percepção
sobre o grupo mostrou-me crianças muito unidas e carinhosas entre
si. No entanto notei uma grande dificuldade em aceitar a opinião
de seus amigos sem que esta interferisse na deles – atitude muito
comum nesta faixa etária. No grupo também chamava a atenção
uma criança que não conseguia encontrar-se no grupo mantendo-se
afastada na maioria das brincadeiras.
Enquanto professora, passei a observar as brincadeiras e falas das crianças,
iniciando um projeto que pudesse levá-los a se descobrirem como
Seres únicos e especiais (com gostos, olhares, sensações
e pensamentos diferentes dos demais). Elaborei meu planejamento de acordo
com essas minhas percepções e falas das crianças
como:
“Ele me chamou de feio”
“Ele não quer brincar comigo”
“Ele falou que eu não gosto de miojo e eu gosto sim!”
O PLANEJAMENTO
É preciso dizer que na Escola Casa da Gente elaboramos
nosso planejamento em rede , nos amparando no nosso Planejamento Anual.
Após a seleção/ escolha do tema, levantamos, juntamente
com as crianças, perguntas que nortearão nosso trabalho.
Em cima delas, selecionamos os objetivos a serem trabalhados e pensamos
em diferentes metodologias para atingi-los.
Segue meu planejamento.
O passo seguinte foi debater com as crianças nosso
tema, pensando nas diferenças individuais para refletir sobre “identidades”.
Começamos então a falar sobre nossos gostos em comum. Percebemos
então que a “Turma dos Amigos” gosta de:
Pular, gritar, girar no gira-gira, fazer castelo, escorregar, brincar
com os amigos, abraçar, beijar (na boca não!), fazer trancinha,
fazer agrado no amigo, fazer carinho e passar creminho.
Passamos, então, uma semana fazendo somente o que todos nós
gostávamos. Escolhíamos uma brincadeira a cada dia e nos
propúnhamos a compartilhá-la juntos. Foi delicioso! Na semana
seguinte fomos avaliar tudo o que fizemos e percebemos que havia opiniões
diferentes. Uns haviam gostado de determinadas atividades e outros não.
Partindo desta divergência iniciei a primeira parte do projeto,
denominada por mim “Eu Sou Assim”.
Nesta primeira etapa, tive como objetivo fazer com que as crianças
se descobrissem, olhando para si mesmas, para seus gostos, desejos, e
vivencias familiares expondo tudo isso para os amigos. Para organizar
estas atividades, pintamos muitas folhas utilizando várias técnicas
de pintura (a fim de explorarmos as diferentes marcas gráficas
produzidas pelo corpo: pintura com as mãos, pés, pincéis,
boca...) permitindo que as crianças expressassem-se por meio das
mesmas, estimulando sua linguagem artística. Em seguida desenhei
o contorno da figura humana em diferentes papéis (com texturas
e cores diferentes), colando-as sobre as pinturas (padronizando a folha
onde fizemos os registros dessa primeira parte do projeto).
A primeira atividade foi questionar os alunos sobre quem eles eram (colhendo
a primeira visão que eles tinham de si). Partindo da frase “Este
sou eu” as crianças falavam sobre si. Para estimulá-los
iniciei esta dinâmica descrevendo-me fisicamente e socialmente.
Dando voz aos alunos, as falas foram as mais diferenciadas, trazendo à
tona a discussão sobre as diferenças entre meninos e meninas:
“Eu sou Car, menina! Porque eu fazí balét.”
“Eu sou Lui, sou menina porque posso brincar com os meninos.”
“Eu sou Raf I. S., é meu sobrenome, mas eu sou Rafa e eu
sou menino porque eu uso boné.”
Enfim, cada um se descreveu afirmando seu sexo e explicando o porquê
se viam assim.
Na atividade seguinte descrevemos em grupo as diferenças entre
meninos e meninas. Para realizá-la sentamos em roda e pedi que
todos falassem sobre o tema. Foi divertido e muito enriquecedor. As crianças
começaram a verbalizar as diferenças entre meninos e meninas,
que não se apresentavam nas brincadeiras. O resultado da discussão
pode ser sintetizado dessa forma:
“Meninas:
Usam tiara, lacinho, brinco, roupa de bailarina, vestido, argolas no braço,
camiseta de menina. Menina faz xixi sentada e é princesa.”
“Menino:
Faz xixi de pé, menino só usa short e skate (porque menina
cai), cinto de menino pra sair e cueca. Menino é príncipe.”
Nas atividades seguintes observamos e registramos nosso tamanho, nos comparando
a algum objeto bicho ou pessoa. Falamos sobre o que nos deixa feliz e
o que nos deixa tristes. Aproveitei para ressaltar as crianças
a importância de respeitarmos nossos amigos para não os deixarmos
irritados ou tristes. Vivenciamos corporalmente como ficamos quando estamos
nestes estados de espírito, descrevendo nossas sensações
corporais.
Como nas outras atividades eu já havia os estimulado a se expressarem
verbalmente para o grupo muitas crianças conseguiram externalizar
sentimentos que antes não conseguiam.
Uma história em particular me chamou a atenção. FEL
é uma criança que sofreu um acidente há um ano atrás
no fogão de sua casa, tendo parte do seu corpo atingido por queimaduras
de terceiro grau. Felizmente ele se recuperou e hoje tem apenas algumas
cicatrizes pelo corpo. Sabemos, através da família, que
este processo de recuperação foi doloroso e traumático.
No entanto, desde o acidente ele não havia falado nada sobre o
mesmo. Nesta atividade em especial conseguiu, diante do grupo, verbalizar
esta situação dizendo “Eu fico triste porque eu machuquei
no forno e bati a cabeça.”. Coloquei minha mão sobre
a sua e perguntei se ele queria contar como foi. Sua reação
foi balançar negativamente a cabeça e respeitei sua decisão,
mantendo minha mão em contato com a sua buscando lhe passar segurança.
Mesmo ele não voltando mais ao assunto, eu acredito que este foi
um ponto de partida para que ele verbalizasse sua experiência (já
que desde o acidente não se sentia a vontade diante do grupo, tornado-se
agressivo e muito fechado).
As etapas que se seguiram foram pautadas na descrição dos
medos, comidas preferidas, e falas sobre o pai, mãe e irmãos.
Realidade e fantasia misturavam-se e muitas crianças “inventaram”
irmãos. Quando questionadas, ora afirmavam que eles iam chegar,
outras que era “só de mentirinha”. As que descreveram
seus irmãos “reais” conseguiam externalizar sentimentos
como carinho e ciúmes.
Os objetivos principais desta primeira etapa foram atingidos, as crianças
passaram a verbalizar e observar sentimentos, gostos, estruturas familiares
e características individuais buscando respeitar as diferenças.
Parti então para a segunda etapa do projeto, uma pesquisa com os
pais, denominada por mim de “Como meus pais me vêem”.
Foi pedido aos pais:
• Colar, registrar, anexar e escrever coisas que fossem significativas
para as crianças;
• Colar fotos das diferentes fases da criança (desde o nascimento);
• Escrever as comidas preferidas;
• Registrar como os pais vêem o (a) filho (a);
• Escrever a história da criança a notícia
da gravidez, a gestação em si, o nascimento, aniversários
e outros momentos importantes;
• Deixassem um recado para a criança possibilitando a participação
de outros familiares.
O resultado desta pesquisa foi enriquecedor. As crianças se encantaram
com a sua própria história e a de seus amigos.
A terceira etapa do projeto foi denominada: “Como meus amigos me
vêem e como eu os vejo”, tendo como objetivo principal compartilhar
com o grupo gostos e preferencias individuais, além de proporcionar
momentos de escuta e desenvolver atitudes de respeito às diferenças.
Sorteávamos a história de uma criança para que mostrasse
a pesquisa realizada com os pais. Eu a contava como se fosse um conto
de fada. Após essa leitura essa criança recontava sua própria
história aos seus amigos mostrando os detalhes de sua história.
Passado este momento, as folhas confeccionadas pelos pais eram colocadas
em um painel onde o trabalho ficava exposto por aproximadamente dois dias
para que as crianças pudessem visualizar e manusear este material.
Após estes momentos de escuta, cada uma das crianças, pensava
sobre sua relação com o amigo que havia exposto sua história.
Colávamos o xérox de uma foto 3x4 dessa criança em
uma folha (previamente pintada por eles) e era solicitado que completasse
o desenho pensando sobre as características e gostos pessoais (como
bonés, laços, roupas, fantasias, enfim, o que a criança
a ser desenhada escolhesse). E seguida sentávamos em roda, fazíamos
um exercício visando sentir nossa respiração (para
que as crianças se acalmassem) e solicitava que eles fossem descrevendo
o amigo.
O resultado foi surpreendente. Muitos conseguiram expressar sua insatisfação
com relação a algumas atitudes outros agradeciam pelo carinho...
Para fechar o Projeto “Eu, meus amigos e minha família”,
organizamos os livros elaborados nas etapas anteriores. Também
confeccionamos bonecos gigantes partindo da foto ampliada do rosto da
criança.
Avaliando este Projeto percebo grandes ganhos entre as crianças.
Aumentando a união e acolhimento entre o grupo. Outro grande ganho
foi o maior interesse e o aumento de tempo de concentração
diante de atividades que exigem ouvir e aceitar a opinião de seus
amigos não que isso se prolongue por um longo tempo, (afinal esta
não é uma característica da idade) mas um tempo suficiente
para ouvir e ser ouvido.
Especialmente com a criança citada anteriormente que tinha dificuldade
em se integrar-se ao grupo tornando-se agressiva com facilidade, foi possível
observar grandes mudanças. O carinho e a aceitação
do grupo para com ela aumentou, assim como o auto controle de FEL diante
de situações que o irritavam (ao invés de bater passou
a chutar o ar, gritar ou mesmo bater em um pneu ou almofada, dificilmente
agredindo seus amigos. Quando o faz é para se defender ou impor
limites).
FEL está mostrando-se cada vez mais carinhoso e muito mais concentrado
nas atividades, como se o que o incomodava antes fosse o fato de não
ter encontrado seu lugar no grupo e sentir muita dificuldade em se aceitar
com suas raivas e medos. Esta, para mim, foi a maior conquista deste projeto.
Espero, sinceramente, que este ganho seja cada vez mais enriquecido e
fortalecido pela auto confiança e auto conhecimento dessas crianças.
Continuo minha busca pelo meu auto conhecimento, buscando sempre ajudar
a criança a encontrar sua verdadeira identidade e se descobrir
como um Ser único e especial, como eu e você.