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CONSTITUIÇÃO
DO PROFESSOR LEITOR E SEUS ITINERÁRIOS DE FORMAÇÃO
Eliana Silva Felipe - Universidade Federal do
Pará (UFPA)
“Não, não tenho caminho novo. O que
tenho de novo é o jeito de caminhar”. Thiago de Melo
O convite que faço aos prováveis leitores
deste texto, professores, alunos em formação inicial, formadores,
enfim, sujeitos da educação, é de serem interlocutores
de uma instigante trajetória de formação, como a
que foi construída pelo Prosei – Projeto Sócio-educacional
Integrado.
Gostaria, no entanto, de escrever os seus itinerários no sentido
mais amplo dessa palavra, que comporta a idéia de caminho, de movimento,
isso porque nenhum projeto de formação é linear,
desprovido de conflitos, inquietações, (des)construções
e aprendizados.
Em seus cinco anos de existência, o Projeto Sócio Educacional
Integrado defendeu junto ao seu principal financiador a idéia de
que a formação continuada de professores, isoladamente,
era insuficiente para enfrentar os problemas sócio-ambientais da
área que elegeu como lócus da sua atuação:
a bacia do Tucunduba, uma grande área de ocupação
urbana em torno da Universidade Federal do Pará. Por isso, se afirmou
como um projeto integrado em torno de quatro grandes linhas de ação:
formação continuada, formação profissional,
educação de jovens e adultos e educação ambiental,
tomando a escola como espaço articulador dessas ações.
Dada a amplitude do Projeto, é impossível abarcá-lo
em todo o seu movimento e complexidade. Por isso, me proponho analisar
e refletir os itinerários da Formação Continuada,
da qual participei como coordenadora durante quatro anos. Para esse propósito,
tomo como referência um projeto que nos mobilizou nos anos de 2002,
2003 e 2004, denominado de projeto Letramento na Escola, a partir do qual
penso ser possível indagar e problematizar as opções
teóricas e epistemológicas de formação de
professores na sua perspectiva mais ampla, e em particular, nas suas influências
na constituição do professor como leitor.
Formação continuada: percursos iniciais
A concretização de um programa de formação
envolve um longo processo de construção, que exige uma enorme
capacidade de dialogar com a própria experiência e com as
inquietações e expectativas dos sujeitos envolvidos. A Formação
Continuada, quando concebida em 1999, elegeu alguns aspectos que deram
uma dimensão inovadora ao Projeto, tomando como referência
as experiências já em curso nas escolas: a participação
deveria acontecer por adesão; as atividades não se restringiriam
aos professores, mas a todos os segmentos da escola; as escolas envolvidas
deveriam apresentar as suas pautas de formação, considerando
as suas características e necessidades. Naquele momento, a decisão
de realizar a formação na Universidade, contribuiu para
que as atividades assumissem a forma de cursos, oficinas, seminários
etc.
Já em 2000, com a decisão de fortalecer as escolas, valorizando
os seus contextos e trajetórias, fomos ampliando os espaços
de formação e introduzindo novas estratégias metodológicas.
Os seminários temáticos representaram o primeiro contato
do Projeto com a idéia de uma formação centrada na
escola, mas que por serem atividades pontuais, traziam consigo o limite
da falta de continuidade dos debates e reflexões que eles suscitavam.
De toda forma, eles representaram oportunidades importantes para todas
as escolas, na medida em que pautaram temas e problemas que tinham interesse
em discutir, a partir dos seus próprios horizontes de mudança.
Desde a sua gênese, as preocupações que as escolas
foram apontando para o Prosei, precisavam, a nosso ver, ser incorporadas,
porque a participação dos sujeitos (professores, coordenadores,
técnicos) no processo de construção das grandes linhas
da formação fortaleceria o sentimento de pertencimento ao
Projeto e de responsabilidade com o seu próprio processo de formação.
A construção co-participativa dos planos anuais de formação
foi sempre uma preocupação constante do Projeto, o que permitiu
às escolas indicar o que elas gostariam de pautar como prioridade
no processo de formação. Nas pautas apresentadas pelas escolas,
desde 1999, a alfabetização foi uma preocupação
recorrente, o que demandou um investimento permanente do Projeto nessa
área.
Entre 1999 e 2001, o Prosei promoveu dois cursos de alfabetização,
dois de língua portuguesa e um curso de alfabetização
de jovens e adultos. As atividades relacionadas a esses cursos eram desenvolvidas
na Universidade Federal do Pará, com um quadro de professores formado
principalmente por profissionais da área de Letras, tanto da Universidade
Federal do Pará quanto da Secretaria Municipal de Educação.
No campo dos conhecimentos pedagógicos desenvolvemos cursos voltados
para o estudo da relação entre currículo, cultura,
ensino e sociedade, práticas avaliativas, teorias da aprendizagem
etc.
Pode-se dizer que essas atividades representaram a ampliação
dos conhecimentos dos professores em relação ao processo
de alfabetização e ao ensino da língua portuguesa.
Contudo, se os professores reconheciam que a sua participação
nas atividades de formação contribuía para o seu
crescimento pessoal, as escolas, por outro lado, apresentavam poucos avanços
em relação à prática pedagógica, em
particular naquilo que constituía um dos seus grandes papéis
nos primeiros anos de escolarização, qual seja, o de promover
o acesso à linguagem escrita.
Nos seus dois primeiros anos de existência podíamos dizer
que o Prosei tinha mérito e significado, mas não tinha resultados
de impacto. Os resultados de aquisição/apropriação
da leitura e da escrita nas séries iniciais ou nos primeiros ciclos
do Ensino Fundamental, diagnosticados no início do projeto, mostravam-se
quase inalterados.
Esse distanciamento entre objetivos e resultados, no entanto, não
indicava ausência de legitimidade do Projeto nas escolas. Em avaliação
realizada no início de 2001, solicitamos aos professores que indicassem
os principais fatores que os levaram a participar da formação
continuada, e os fatores predominantes foram ampliar/atualizar/adquirir
novos conhecimentos, trocar experiências com outros colegas de profissão,
melhorar o relacionamento com a comunidade e melhorar a sua qualificação
profissional, nessa ordem de importância. Perguntados sobre os fatores
que haviam sido contemplados pela formação continuada, até
aquele momento, os professores assinalaram a aquisição de
novos conhecimentos e a troca de experiência entre as escolas. Os
fatores de sucesso, na visão dos professores, estavam relacionados
com os seguintes aspectos: 1) formadores qualificados e competentes; 2)
temas de interesse dos professores; 3) presença de monitores que
permitia a liberação dos professores para participar das
atividades de formação; 4) fornecimento, pelo Projeto, de
kit de material didático para cada professor e 5) conteúdos
atualizados.
Por que então as condições objetivas proporcionadas
pelo Projeto, ao lado do alcance de expectativas dos professores não
se revestiam na superação dos índices de desempenho
escolar das crianças das escolas envolvidas no Projeto?
Entre tantas reflexões, optamos por uma nova aposta. Na fase de
construção do plano de formação para o período
2001-2002 (que iniciaria, pela forma de organização do Projeto,
no 2º semestre de 2001), apesar da alfabetização continuar
fazendo parte da pauta de formação apresentada pelas escolas,
optamos por redirecionar a sua abordagem. A alfabetização,
resignificada a luz dos estudos e pesquisas do letramento, se constitui,
a partir daí, uma nova aposta no sentido de aproximar os méritos
do Projeto com a produção de resultados positivos nas escolas.
Uma questão nova com a qual precisamos nos defrontar nessa etapa
da formação, o próprio letramento do professor, nos
fez foi reconhecer que professores não leitores, não escritores,
não poderiam mediar o processo de letramento das crianças,
por não serem partícipes das práticas culturais que
a escola deveria promover.
Nessa perspectiva, no decorrer do curso “alfabetização
e letramento” , práticas de leitura e escrita foram introduzidas
como componentes da própria formação, privilegiando-se
aquelas já incorporadas na prática social dos professores.
No início, a pretensão era que os professores pudessem vivenciar
situações em que ler e escrever assume uma função
sociocultural. Como a troca de experiência era um dos aspectos apontados
como positivos no processo de formação, convidamos os professores
a escreverem cartas para os participantes do curso, contando experiências
bem sucedidas, acontecimentos interessantes que gostariam de socializar
com professores de outras escolas e outros temas, cartas que denominamos
de Cartas Pedagógicas.
As cartas pedagógicas se revelaram muito mais do que uma forma
particular de fazer uso social da escrita. Elas passaram a constituir
um denso material de reflexão do modo de pensar e operar dos professores
em relação a inúmeros objetos dos quais se ocupavam
no seu trabalho docente, especialmente a leitura e a escrita, para a qual,
naquele momento, o curso se voltava.
Nessa perspectiva, o ato de contar se revestiu da produção
de narrativas que para além da mera transmissão de conhecimentos
derivados das práticas cotidianas, expressavam as representações
da realidade dos professores.
Segundo LARROSA (1999, p. 22),
o sentido do que somos depende das histórias que contamos a nós
mesmos [...], em particular das construções narrativas nas
quais cada um de nós é, ao mesmo tempo, o autor, o narrador
e o personagem principal [...] Talvez os homens não sejamos outra
coisa que um modo particular de contarmos o que somos.
No processo de análise das cartas dos professores, algumas interrogações
foram se delineando: quais as principais preocupações dos
professores em relação ao aprendizado da leitura e da escrita?
Como eles enfrentavam as dificuldades que percebiam? Quando e de formas
a leitura e a escrita aconteciam na vida das crianças? O que significava
ler e escrever?
As cartas pedagógicas nos permitiram formular algumas sínteses
provisórias. As preocupações dos professores em torno
do aprendizado da leitura e da escrita escolar mantinham válidas
concepções consagradas pela tradição cultural,
que ao longo do tempo foram definindo opções pedagógicas
acerca do que deveria ser ensinado e do tempo-espaço de fazê-lo.
A concepção funcionalista que influenciou fortemente a alfabetização
escolar podia ser percebida na ênfase dada aos elementos lingüísticos,
em detrimento da própria linguagem. Copiar do quadro era a primeira
grande exigência que se apresentava às crianças. Nesse
percurso, a habilidade motora necessária à reprodução
gráfica das palavras ganhava centralidade, de forma que mais tardiamente
surgia a preocupação com a identificação das
letras, combinação de sílabas e formação
de palavras.
“Foi difícil para mim, mas aos poucos eu
conseguindo o objetivo que era fazer com que eles aprendessem a copiar
do quadro direitinho, porém eu quero mais. Quero ainda que eles
aprendam a ler”.
“O maior problema é a leitura, a escrita
nem tanto porque a maioria já copia do quadro”.
Para superar essas dificuldades, os professores recorrem
freqüentemente a procedimentos saturados na prática pedagógica
escolar.
“Tenho o hábito de todos os dias passar para
os meus alunos ditado em torno de 15 a 20 palavras”.
“Na sala de aula eu faço mais atividades
de português, leitura e escrita, joguinhos, brincadeira com silabas,
formação de palavras”.
“Um dia, entrei na sala para dar aula de construção
de texto [...] Com esse texto, [produzido a partir de uma conversa sobre
o rótulo de uma garrafa de guaraná] trabalhei várias
atividades. Primeiramente mandei que circulassem as vogais. Depois que
circulassem a letra b, e daí por diante trabalhamos a separação
das sílabas, a descoberta de outras palavras com a consoante circulada
[...]”.
Esses relatos revelaram que as crianças eram apresentadas
a uma escrita mecânica, tendo que apreender o seu funcionamento,
do ponto de vista dos seus elementos lingüísticos, sem compreender
os motivos e os objetivos envolvidos no ato de ler e escrever.
Contudo, esse movimento não era homogêneo e linear, porque
em nenhum sentido os professores funcionam de maneira uniforme nas escolas.
Um outro significado que disputava lugar na escola estava fundado na compreensão,
resultado da própria experiência cultural dos professores,
que o ato de ler e escrever não se iniciava na escola nem tampouco
se confundia com ela.
“Quando eu escutava os discos, eu folheava os livrinhos,
fazendo uma leitura visual, e mostrava e explicava para todos que estavam
ao meu redor tudo do livro, como se realmente eu estivesse lendo [...]”.
“As crianças chegam cheias de sonhos, expectativas e conhecimentos,
inclusive sobre a linguagem escrita: contam histórias e fatos,
cantam músicas, recitam quadrinhas etc...”.
Nesses relatos encontramos indícios que a apropriação
da escrita não está somente vinculada à presença
da capacidade de ler e escrever, mas aos usos e práticas sociais
de leitura e escrita.
Segundo SOARES (2000, p. 39),
ter-se apropriado da escrita é diferente de ter aprendido a ler
e a escrever: aprender a ler e escrever significa adquirir uma tecnologia,
a de codificar em língua escrita e de decodificar em língua
escrita; apropriar-se da escrita é tornar a escrita ‘própria’,
ou seja, é assumi-la como sua ‘propriedade’.
Pode-se dizer que a escrita sem significado não pode se constituir
como forma de linguagem, se a concebermos como instrumento de comunicação,
informação, expressão do pensamento. A construção
do significado perpassa pela compreensão do ato de escrever como
ato de articulação do mundo vivido e imaginado, razão
pela qual ele não pode estar deslocado da experiência da
criança no mundo, dos seus valores culturais e dos entendimentos
que ela recebe, produz e intercambia. Nessa perspectiva, permitir à
criança descobrir de que forma a escrita podia participar da sua
experiência social e cultural, era uma das grandes tarefas educativas
que precisávamos desencadear nas escolas.
Letramento: das cartas a tarefa de reescrever a escola
Após a conclusão do curso “letramento
e alfabetização”, em abril de 2002, era preciso construir
os passos futuros da Formação Continuada, visto que a execução
do plano 2002-2003 iniciaria em agosto de 2002. Em avaliação
realizada com os professores, uma questão nova e inusitada foi
apresentada ao Projeto. Os professores reconheciam a importância
dos cursos, mas reconheciam também que sem interlocutores no cotidiano
das escolas a formação se restringia a ganhos individuais
(por acréscimo de elementos novos ao que eles já sabiam)
que não eram suficientes para alterar a dinâmica cultural
dessas escolas.
Os professores estavam indicando ao Projeto uma mudança de rota,
apostando numa proposta de formação centrada na escola,
por razões muito mais práticas que teóricas. A formação
centrada na escola ou formação-ação (Barroso,
1997) tem sido apontada como uma via para o desenvolvimento profissional
do professor, na medida em que ela capaz de lidar com as influências
objetivas e subjetivas que perpassam o trabalho docente. De toda forma,
o reclamo dos professores parecia muito mais denunciar condições
de trabalho e uma cultura institucional que não ofereciam oportunidades
de problematização/reflexão coletiva da tarefa de
ensinar e do processo de aprender, do que abrir um debate mais amplo do
próprio processo de formação.
As avaliações que fomos produzindo ao longo do trabalho
de formação nos fizeram compreender que existe nas escolas
uma dinâmica institucional que os programas de formação
não governam. Os professores, em muitos casos, são protagonistas
de um trabalho solitário, sem interlocutores, apesar da teoria
pedagógica insistir no entendimento da escola como espaço
coletivo, que tem se revelado muito mais como desejo que realidade.
É no bojo dessas demandas que surge o projeto Letramento na Escola.
Estávamos diante do desafio de criar novos processos de formação
que mantivessem acesos os desejos de mudança dos professores. Apesar
da escola parecer intocável nesses primeiros anos de formação,
havia nos professores o gérmen do inconformismo e da consciência
da mudança que desejavam promover.
Para participar do projeto Letramento, foram selecionadas cinco escolas
que estavam participando do Prosei desde 1999, a saber: Parque Amazônia,
Solerno Moreira, Stellina Valmont, Edson Luís e Associação
dos Moradores da Terra Firme. A primeira ação do projeto
Letramento se constituiu de um estudo exploratório das práticas
de leitura desenvolvidas pelas escolas. Para tal, contamos com a aquiescência
dos professores para que os monitores selecionados para participar do
projeto, em número de 20, pudessem observar a prática pedagógica
na sala de aula, bem como elaborar relatórios descritivos tendo
em vista orientar a construção do plano de trabalho. A participação
dos professores se deu por adesão, como já era de praxe
em todas as atividades da Formação Continuada.
Observar a prática vivida na sala de aula, sem perder de vista
o contexto mais amplo da escola, nos permitiria, acreditávamos,
apreender o próprio movimento da escola, o qual deveria orientar
a forma de diálogo com os professores nesse novo percurso. Apreender
em que medida as ações de formação haviam
contribuído com o desenvolvimento profissional dos professores
e com a melhoria da qualidade de ensino nas escolas foi o que motivou
a adoção da observação como estratégia
inicial do projeto.
A continuidade da discussão da leitura e da escrita, agora a partir
da escola, exigia que pudéssemos conhecer quais eram os quadros
de referência dos professores em relação a esses processos
de conhecimento. Para tal, elegemos como estratégia inicial “garimpar”
evidências de práticas de letramento (formas sociais de uso
da escrita no cotidiano da escola) bem como modos de participação
das crianças nos contextos de uso da escrita, observando os modelos
de interação entre professores e alunos, assim como alunos
com os seus próprios pares. De formar a construir um quadro provisório
para orientar a observação nas escolas, elegemos três
objetivos: 1) identificar práticas de letramento, buscando as suas
manifestações na oralidade, leitura e escrita; 2) identificar
as tipologias textuais mais utilizadas na sala de aula e 3) descrever
as formas de uso das diferentes tipologias textuais.
A observação teve a duração de três
meses , período em que tanto os formadores como os monitores tiveram
uma presença constante no dia-a-dia das escolas, tendo em vista
estabelecer relações de proximidade com os professores e
com seus contextos de trabalho.
Na presença dos dados: o choque de realidade
“Tantas vezes pensamos ter chegado. Tantas vezes
é preciso ir além”. Fernando Pessoa
A observação da prática pedagógica
vivida na sala de aula revelou alguns rituais que nos permitiram formular
uma nova idéia: há uma ciência da alfabetização,
enunciada nos livros, professada pelos formadores e uma cultura da alfabetização,
vivida pelos professores nas salas de aula. Independentemente do nível
de formação (Médio ou Superior), ciclos de vida profissional
(início ou fim de carreira), os professores quase que invariavelmente
demonstravam partilhar procedimentos e condutas próprios desse
espaço historicamente organizado e culturalmente mediado.
Inicialmente nos propomos compreender como a oralidade participava do
processo de letramento das crianças. Paradoxalmente, o silêncio
se revelou permanentemente presente nas relações na sala
de aula. Não havia espaços para que as crianças pudessem
dizer alguma coisa: de si mesmas, do mundo. De certa maneira, cabia a
elas forjar espaços de produção da oralidade. Curiosidades,
estranhamentos, interrogações passavam a margem do currículo
formal. Assim é que aproveitando os intervalos entre uma atividade
e outra elas iam produzindo interações em torno de questões
que lhes despertavam interesse.
Talvez os sentimentos de Açucena, personagem de Lya Luft (2004,
p.22), sobre o seu mal estar na escola, sejam os mesmos sentimentos que
afetam as crianças sem lugar na sala de aula, sem lugar na escola.“Queriam
que fosse obediente e atenta, que não caísse na risada fora
da aula, que não devaneasse durante as aulas e finalmente domasse
a letra que cambaleava em garranchos pela folha de papel”. Mas o
que Açucena desejava era “[...] ler e sonhar sem nenhuma
voz impaciente chamando para cumprir tarefas desinteressantes. Depois,
que lhe aplacassem as curiosidades e lhe dessem algo para derrotar os
medos” (Idem).
Da oralidade à leitura muitas outras questões foram se colocando
a partir da interrogação dos dados: que relação
as crianças e os professores mantinham com a leitura? O que era
aceito como texto? Quais eram as situações de leitura? Quais
os objetivos da leitura?
Nas escolas onde o projeto Letramento estava sendo implantado, uma realidade
foi se desvelando: grande parte das crianças copiava do quadro,
mas não lia o que escrevia. Como aprendemos que crianças
que não sabem decodificar não compreendem o que lemos como
texto, via de regra, a leitura se constituía de escuta passiva
(às vezes nem escuta, porque as crianças se dispersavam,
e passavam a conversar de coisas de seu interesse) de um texto, muitas
vezes didático, ou de pequenas tarefas escritas no quadro, que
após a leitura da professora, deveriam ser copiados pelos alunos.
Alunos e professoras não se experimentavam na leitura como ato
de produção de sentido, não se deixavam penetrar
pela linguagem, que nos move no texto e para além dele.
A partir do que pudemos identificar, uma atividade de leitura partilhada
por muitas professoras se referia aquilo que a escola conhece como “ficha
de leitura”. Neste caso, a professora selecionava trechos de textos
didáticos, histórias em quadrinho, entre outros, e escrevia
numa ficha de cartolina. A atividade consiste em chamar à criança
à mesa da professora para a leitura das fichas.
Esse pareceria ser um momento promissor, mas neste ir e vir, a leitura
mais vez recapitulava um de seus ritos sagrados: ler para professora,
e não com ela ou com os colegas. Por isso esses momentos de ir
à mesa da professora, para algumas crianças, eram marcados
por angústia e ansiedade, principalmente porque aquelas consideradas
“mais fracas” eram as mais visadas para essa tarefa, e ainda
porque essas situações de leitura vinham acompanhadas de
algum tipo de comentário da professora.
Durante o período de observação, em uma única
situação, a leitura na sala de aula foi negociada com os
alunos, e foi movida, diferente do usualmente praticado, por um outro
objetivo: ler sem pedir nada. A atividade iniciou com a professora mostrando
às crianças diversos livros da literatura infantil. Em seguida,
ela perguntou às crianças que história gostariam
de ouvir. A professora leu a história escolhida pelas crianças
(Chapeuzinho Vermelho), e após a leitura, distribuiu outros livros
de literatura para que elas pudessem explorá-los: algumas leram;
outras folhearam.
Tal como a leitura, vivida sob a forma de ritual nos dias, semanas e meses
que se seguiam, a escrita também foi revelando as suas regularidades.
Se pudéssemos chamar o que se escrevia nas salas de aula de escrita,
diríamos que o tempo das cartilhas consagrou para as gerações
que vieram depois dela o que deveria ser as tarefas de escrita nos dois
primeiros anos de escolarização.
Da leitura atenta dos registros da prática pedagógica, inventaríamos
as tarefas de escrita, com as suas respectivas variações,
com as quais as crianças se ocupavam diariamente, variando apenas
os fonemas selecionados pelas professoras, cuja seqüência não
se mostrou a mesma para todas as turmas. Em cada aula, apenas três
tarefas eram realizadas, considerando o tempo adotado para cópia
do quadro e resolução, que variava de uma hora a uma hora
e meia.
|
Tarefas
com ilustração |
Tarefas
com letras e sílabas |
Tarefas
com frases |
| 1-
Desenhe (foca, fogo, fita etc).
2-
Leia e ilustre (zebra, macaco, pipa etc).
3-
Ligue o desenho ao nome. |
1-
Separe em sílabas.
2-
Copie e leia as famílias silábicas.
3-
Pesquise palavras iniciadas com a letra...
4-
Junte as sílabas.
5-
Copie palavras iniciadas por... |
1-
Ordene as frases (bola menino O joga no gato).
2-
Forme frases com as palavras... |
Nesse quadro
no qual a leitura e a escrita iam sendo produzidas na escola, as professoras
iam sendo consumidas por uma rotina desmobilizante, que as obrigava a
fazer a cada dia praticamente tudo igual: copiar as tarefas no quadro,
fazer a leitura para as crianças, esperar que elas copiassem e
resolvessem, para finalmente dar o visto.
Em algumas situações as tarefas não precisavam se
quer ser lidas nem explicadas pelas professoras. É como se pela
sua repetição, as crianças já soubessem o
que fazer, mesmo que em alguns momentos não o desejassem. Por isso
em algumas situações as crianças levavam todo o tempo
da aula na realização da tarefa, sem que elas fossem concluídas.
Preencher o tempo das crianças, ocupar as suas mãos, obrigando-as
a escrever horas a fio, foi a forma encontrada pelas professoras para
mantê-las sobre controle, sem que essas tarefas pudessem afetar
significativamente as suas vidas. Assim, para as crianças e para
os professores a sala de aula se revelou em um espaço de (des)conhecimento,
já que não havia o que aguçasse o poder de descoberta
desses sujeitos. No caso particular das crianças, elas iam encontrando
as suas formas de resistência, que em muitas situações,
ajudavam a aumentar o mal estar dos professores. Raríssimas vezes
as crianças estiveram todas presentes na sala de aula, assim como
era recorrente não trazerem cadernos e lápis, ou quebrarem
repetidas vezes a ponta do lápis durante a realização
de uma tarefa.
Havia um quadro de instabilidade na sala de aula que afetava as professoras,
e a forma como elas reagiam aos seus dissabores, em algumas ocasiões,
fortalecia as razões pelas quais as crianças se recusavam
a aprender: “você não sabe que o soldado quando vai
para a guerra tem que levar a arma” (referindo ao fato de um aluno
não ter trazido o lápis). Seria a escola a guerra e o lápis
a arma que os alunos decidem ou não usar?
As professoras e as crianças tinham em comum o fato de muitas das
suas disposições de fala não terem sido aproveitadas
ou nem se quer essas disposições tenham encontrado um ambiente
favorável para aflorar. Ambos foram perdendo a condição
de sujeitos de conhecimento, que só podem se constituir como tal
pela abertura a indagações e descobertas, curiosidade e
imaginação.
Por que a
Formação Continuada não afetou a escola?
“A
ciência pode classificar e nomear os órgãos de um
sabiá, mas não pode medir seus encantos”. Manoel de
Barros
As fontes
de acesso aos modos de pensar e fazer dos professores com as quais nos
defrontamos nos permitiram compreender que a pouca influência das
atividades de formação no cotidiano da escola refletia fundamentalmente
um distanciamento entre o que os formadores se propunham a “ensinar”
e os referenciais dos professores, construídos antes e durante
a carreira profissional, que lhes serviam de base nas suas escolhas e
tomadas de decisão em relação à atividade
de ensino. Ao centralizarmos a formação nos conteúdos
pedagógicos e disciplinares e na forma de ensiná-los, esquecemos
os sujeitos, que os acolhem ou os renegam, apesar de sabê-los.
O que podemos afirmar é que a apropriação do conhecimento
científico depende da sinergia que ele for capaz de manter com
aquilo que os professores já viveram ou vivem, e com as questões
que por eles mesmos já foram postas. O conhecimento precisa ascender
ao plano do saber, isto é, ao plano da experiência pessoal;
por sua vez, o saber pessoal, para não estagnar, prescinde de um
processo permanente de confronto com outros sujeitos, com outras idéias,
com outros conceitos e outras práticas. Na medida em que ciência
e experiência se interrogam, saber e conhecimento convergem, e é
somente neste estágio que a formação de professores
passa a ser fértil no sentido de ajudar a pensar a escola e suas
relações sob novas perspectivas.
Para que isso aconteça, é preciso criar oportunidades de
indagação e reflexão do trabalho docente, dos quadros
de referência que orientam os processos de tomada de decisão
dos professores, tendo em vista superar esse silenciamento da profissão,
para o qual Jackson (1985 apud GIMENO, 1991, p. 70) nos chama atenção:
“professores são tipos de pessoas que falam pouco do seu
ofício entre si e de como melhorar, que transmitem pouco a sua
experiência profissional”.
Do choque
de realidade, o florescer de novas referências
O projeto
Letramento na Escola instaura um processo de formação radicalmente
diferente em relação ao modelo que vínhamos praticando
até então. Isso implicou num conjunto de novas exigências
para o Prosei, principalmente em relação ao grupo de formadores.
Nesse novo estágio, não era suficiente que os formadores
fossem qualificados e competentes, como mostravam as primeiras avaliações
dos professores em relação aos formadores do Projeto. Eles
deveriam ser ousados o suficiente para se permitir adentrar no sub-mundo
das periferias urbanas , no caso das escolas da bacia da Tucunduba, marcadas
pela violência e por uma instabilidade social permanente. Agora
além do conhecimento específico da sua área de atuação,
a própria dinâmica da escola exigiria adentrar em temáticas
pedagógicas mais amplas, daí a importância de uma
atitude interdisciplinar. Resguardada a importância desses aspectos,
o maior desafio dos formadores era despertar a confiança dos professores
e assumir papéis de liderança, sem os quais muito dificilmente
conseguiriam mobilizá-los para projetos capazes de desestabilizar
a cultura da escola.
No projeto Letramento na Escola, foram muitos os itinerários de
formação. No ponto de partida, cada formadora, em cada escola,
foi construindo uma dinâmica própria de formação
que procurava descobrir vias de diálogo que permitissem apreender
a vida dos professores, o sentido que davam aquilo que faziam, bem como
a dinâmica própria de cada escola. Algumas avançaram
mais rapidamente, outras menos, mas no ponto de chegada, quando da finalização
do Projeto, todas tinham conseguido fazer rupturas importantes na relação
dos professores consigo mesmo, com seus pares, com as crianças
e suas famílias.
A formação na escola foi revelando, muito mais do que uma
mudança de lugar, uma mudança epistemológica. Em
relação às nossas referências iniciais, moduladas
pela crença na racionalidade instrumental como solução
para os problemas das escolas (daí a ênfase nos fundamentos
teórico-metodológicos), a ruptura importante que a formação
na escola produziu residiu fundamentalmente no reconhecimento do professor
como sujeito de conhecimento, histórico e culturalmente datado.
Os estudos que tratam do desenvolvimento profissional docente (GIMENO,
1991; PERRENOUD, 1993; NÓVOA, 1995; GOODSON, 1995) apontam que
a atividade de ensinar é um processo que vai sendo aprendido ao
longo da carreira, e que traz as marcas dos ambientes formais, informais
e institucionais que fazem parte do percurso de vida dos professores.
Isso traz três grandes implicações para os processos
de formação: 1) “dar voz” aos professores, na
perspectiva de apreender os modos como eles viveram as situações
concretas do seu próprio percurso educativo; 2) como conseqüência
da primeira, compreender como o professor pensa, alcançar as suas
referências, porque elas têm impacto na prática educativa
e 3) tomar a própria prática docente como objeto de indagação
e reflexão, tendo em vista ampliar o conhecimento do professor
sobre seu trabalho e sua formação.
Segundo Goodson (1995, p. 71), “as experiências de vida e
o ambiente sociocultural são obviamente ingredientes-chave da pessoa
que somos, do nosso sentido do eu”. Dito isso, era importante apreender
os percursos de vida dos professores: os seus contextos de socialização,
o modo como foram introduzidos na profissão, enfim. De modo particular,
como exigência do projeto Letramento, era necessário reconstituir
os rastros das suas próprias trajetórias de alfabetização,
de inserção e participação no mundo da leitura
e da escrita, como forma de compreender as pessoas que eram hoje.
A imersão no cotidianamente comum da vida dos professores nos ajudou
a vê-los em relação com a história do seu tempo,
da escola e da própria profissão. Os professores não
são autores individuais das suas práticas e os seus percursos
não são apenas seus; eles estão intercruzados com
a história de muitos outros professores que foram se constituindo
em meio a condições materiais e simbólicas de um
espaço-tempo determinado.
Contudo, não cabe aos projetos de formação (em particular
aqueles centrados na formação-ação) apenas
esclarecer tais processos; é preciso atuar para que os professores,
como seres constituídos e inconclusos, possam se reconstituir,
proporcionando-lhes oportunidades de reinventar a cultura na qual foram
formados.
A reinvenção
da cultura da escola
A possibilidade
de alteração de saberes e práticas culturais está
diretamente relacionada às oportunidades de interação
que os professores vierem a ter, interação entendida como
“a relação que intervém, modifica ou perturba
de uma maneira unívoca ou biunívoca os elementos da vida
pessoal e suas diferentes dimensões” (MOITA, 1995, 116).
Numa primeira etapa, os projetos de letramento foram elaborados pelas
formadoras e pelos monitores. A intervenção em aspectos
de natureza didático-pedagógica não era, de antemão,
o que desejávamos. Temíamos que isso pudesse produzir a
dependência dos professores em relação aos monitores
e aos formadores, quando buscávamos autonomia e co-responsabilidade
para que eles pudessem papel de liderança quando o projeto fosse
encerrado.
Entretanto, em algumas escolas, não conseguimos evitar esse processo.
Isso porque a realidade foi apontando que os professores precisavam de
oportunidades de vivenciar situações diferentes daquelas
que já lhes eram habituais, participar de novas experiências
culturais tendo em vista ampliar os horizontes de possibilidade em relação
a si mesmos e ao trabalho que desenvolviam. Fazer com eles, e não
por eles, foi a preocupação que partilhamos permanentemente
com o grupo de formadores.
Do ponto de vista da leitura histórico-cultural, o contexto dos
indivíduos afeta os motivos e os objetivos imbricados na realização
de uma determinada atividade. Nessa perspectiva, a forma como são
organizadas as experiências de trabalho, os significados que os
sujeitos compartilham, as situações normatizadas e naturalizadas
fornecem o ambiente sobre o qual o pensamento se desenvolve. Quando o
projeto Letramento chegou às escolas, as situações
que deveriam promover a inserção das crianças ao
mundo da escrita, eram justamente aquelas que mais as distanciavam desse
objetivo. Por outro lado, essas mesmas situações conduziam
ao iletramento dos professores, na medida em que elas não os desafiavam,
no espaço da escola, a se experimentar na produção
de práticas culturais leitoras. Era preciso, então, atuar
sobre esses contextos.
Entre os projetos de letramento desenvolvidos com os professores, destacamos
a “Hora pedagógica: conversando, lendo e registrando nossas
histórias”; “Narrativas literárias: lendas,
visagens e assombrações no dia-a-dia”; “Mala
de textos” e “Memórias docentes”. Esse período
de intervenção foi muito rico pelos estranhamentos que ele
pode produzir na vida dos professores, pelo reencontro com a sua condição
aprendente e pela elevação da sua auto-estima na medida
em que o sucesso das crianças passou a fazer parte da realidade
da escola.
“[...]
para mim, tudo está sendo um grande desafio, ainda mais depois
que passei a discutir no grupo de formação do projeto letramento.
Lá passei a ter uma visão mais ampla de leitura, sobre leitor.
Passei a entender o que significa construir conhecimento considerando
o que pensam e dizem os diferentes sujeitos da escola, com destaque aos
meus alunos”.
“Para
mim, que trabalho com a primeira série do Ensino Fundamental, está
sendo muito válido esse projeto, pois sentia grande necessidade
o que acontecia com as crianças que não conseguiam ler e
escrever. Mas com as discussões e estudos ocorridos no grupo de
formação [...] aprendi a conviver melhor com as crianças
e suas diferenças e também comigo mesma, com as minhas limitações
e com os meus avanços”.
“O
tempo passou e todo aquele sacrifício não foi em vão.
Ao longo do ano percebi muitas mudanças em todos os aspectos gerais
da turma – interesse pelas atividades, solidariedade, amizade. E
hoje o que me deixa feliz é ver aquelas crianças que escreviam
com dificuldade, que não conheciam nenhuma letra, lendo [...] para
mim este desafio tem gosto de sucesso”.
A participação
efetiva das formadoras no cotidiano das escolas, introduzindo elementos
novos naqueles contextos para que as professoras pudessem posteriormente
ganhar autonomia para dirigir os seus projetos, foi decisivo para que
pudéssemos inverter os modos de relação com a leitura
e com a escrita consolidados na cultura alfabetizadora das escolas.
A autoria dos professores na formulação, no desenvolvimento
e na avaliação de experiências inovadoras de leitura
e escrita, foi o grande investimento do projeto Letramento na direção
da conquista da autonomia e da responsabilidade dos professores com as
mudanças que a escola precisava enfrentar.
Os projetos que os professores foram construindo, com a mediação
permanente dos formadores, ao longo de dois anos de inserção
na escola, representaram a inversão da relação cultural
com a escrita e da própria relação pedagógica
vivida na escola. Podemos dizer que os professores romperam com práticas
culturais intocáveis, e nesse processo, superam também a
si mesmos.
Entre os projetos de autoria, destacamos: “Releitura de filmes,
jornais e letras de música”; “Contando, cantando e
declamando; “Somos os escritores do livro de nossas vidas”;
“Ateliês de leitura” (espaços de exercício
de diferentes práticas sociais de leitura e escrita, como a elaboração
de receitas sobre alimentação alternativa, guias de aplicação
de ervas medicinais, textos literários e dicionários de
gírias; contação e dramatização de
histórias; círculo de leitura; declamação
de poesias) etc.
O que esses projetos inauguraram de radicalmente novo em relação
às práticas que encontramos nas escolas? Primeiro, porque
os professores passaram a considerar as expectativas das crianças
na escolha dos objetos de leitura, buscando identificar o que as inquietava
e as mobilizava. Segundo, porque eles passaram a compreender que um leitor
se constitui interagindo com múltiplas linguagens: com a linguagem
do cinema, da música, da poesia, de forma que o livro apesar da
sua centralidade na escola é apenas uma via entre outras possíveis,
a partir da qual as crianças podem vir a desenvolver o prazer de
ler. Terceiro, porque a leitura passou a assumir a forma de relação
com o mundo, a partir da qual as crianças puderam manifestar os
seus medos, as suas fantasias, as suas preocupações em relação
aquilo que viviam. Quarto, porque passaram a reconhecer que para além
de práticas de leitura que devem convergir para um único
sentido, um texto traz tantas leituras quantos forem os seus leitores.
Do ponto de vista pedagógico, os projetos revelaram uma outra travessia:
a importância que o professor tem como mediador da aprendizagem,
a quem não cabe apenas a tarefa de escrever no quadro e esperar
que as crianças copiem e resolvam os exercícios, mas de
atuar no contexto de aprendizagem das crianças. Isso rompe sobremaneira
com a cultura da resignação à situação
de pobreza das crianças, o que implica reconhecer o modelo de vida
social no qual a escola pública se inscreve, mas também
reconhecer as tarefas pedagógicas que ela pode cumprir.
Finalmente, um aspecto fundamental há de ser ressaltado nesse percurso:
a professora se percebendo e se constituindo leitora, modificando a sua
percepção sobre si mesma na medida em que o sucesso passou
a fazer parte da vida das crianças.
“Essa
é uma atividade que faz parte também do meu processo de
letramento, pois me incentiva à pesquisa, a realizar diagnósticos
na turma, aumenta a minha auto-estima uma vez que crianças que
encontravam muitas dificuldades na leitura agora lêem sem tantos
problemas [...]”.
A idéia
de itinerário de formação como uma viagem aberta,
comporta a idéia que os pontos de chegada podem ser diferentes
dos pontos de partida. Muitas rupturas vão sendo produzidas impulsionadas
pelo próprio movimento contraditório da realidade, que nos
empurra para rotas não previstas. A única condição
é não perder a predisposição para afrontar
a própria realidade e para se renovar.
Nenhum projeto de formação traz consigo o certificado de
garantia de sucesso, isso porque “a formação é
uma realidade que ‘escapa’ de certa maneira aos formadores,
porque é fundamentalmente introdeterminada” (MOITA, 1995,
p. 113). Ou seja, formação implica encontro de pessoas que
agem, reagem ao jogo das influências educativas de modos distintos
e singulares, daí a sua indeterminação. Contudo,
somos constituídos por uma história que também é
coletiva, o que nos permite aprender com a experiência histórica,
caso contrário, não teríamos passado e nem futuro,
apenas o presente, a nos exigir inventar a vida todos os dias. É
certo que não existem esquemas explicativos nos quais todas as
pessoas caibam, mas a propósito do que o projeto Letramento na
Escola nos permitiu aprender, diríamos que alguns aspectos concorreram
para alterar a rotina e a falta de entusiasmo que os mapas iniciais das
escolas nos apontavam: 1) a presença permanente do formador na
escola, acompanhando o professor nas horas pedagógicas semanais;
2) a presença dos monitores, professores em formação
inicial, que permitiu aos professores participar de muitas das discussões
acadêmicas, e aos monitores, vivenciar o “choque de realidade”
na medida em que foram adentrando na vida dos professores e na realidade
das escolas; 3) a relação afetiva que se construiu entre
as formadoras, os professores e os monitores; 4) a articulação
de diferentes procedimentos metodológicos: observação
da sala de aula, análise de documentos de trabalho dos professores,
encontros sistemáticos com pequenos grupos de professores, encontros
com todos os professores nas horas pedagógicas coletivas, relatos
de experiência, leitura de textos, construção de materiais
didáticos, elaboração e execução de
projetos didáticos e estudo de casos; 5) para além de dizer
como pode ser feito, fazer junto, e validar esse fazer na prática
concreta; 6) apoio material às iniciativas dos professores, sem
o qual os seus projetos não poderiam ser viabilizados; 7) adesão
de pessoas dentro e fora da escola, favorecendo a construção
de projetos coletivos e interdisciplinares, como síntese da soma
de inteligências e vontades; 8) responsabilidade dos professores
pelas mudanças que desejavam promover, fazendo-se protagonistas
dos projetos da escola; 9) criação de espaços de
expressão e manifestação dos professores, nos quais
eles pudessem falar dos seus projetos e de suas aprendizagens –
os seminários de integração entre as escolas denominados
“A escola fala”, foram fundamentais para elevar a auto-estima
dos professores e espraiar a esperança de uma escola melhor, com
professores e alunos mais felizes.
Notas conclusivas:
travessias e aprendizados
“Mude,
mas comece devagar, porque a direção é mais importante
que a velocidade. Tente o novo todo dia, o novo método, o novo
jeito de ser e fazer, o novo sonhar, o novo viver”. Clarice Lispector
No início
do Projeto Sócio-Educacional Integrado optamos por um modelo clássico
de formação continuada, centrado na universidade, com os
mesmos moldes da formação inicial (ementários prévios,
cadernos de textos, certezas de que o nosso conhecimento era o melhor
para todos).
Há de se reconhecer que cursos, oficinas, palestras etc. são
importantes como espaços de difusão do conhecimento científico
educacional, entretanto, essas formas não se mostraram válidas
para alterar a cultura da escola.
O vigor da formação centrada na escola não está
na mudança de lugar, mas na virada epistemológica que permita
acolher o professor como sujeito de história, cultura, conhecimento
e desejo. Como tal, cabe na universidade.
A luta por uma nova escola e pela formação de uma geração
leitora perpassa certamente pelo enfrentamento da pobreza e de todos os
fenômenos sociais que ela produz: violência, analfabetismo
etc. Faz parte dessa luta também construir programas sintonizados
com os problemas e com as exigências das escolas. Nisso, acertamos
desde o início. Contudo, há uma luta cultural que precisa
ser travada por dentro da escola: são valores, crenças,
concepções, rituais, escolhas epistemológicas que
vão tecendo a produção da escola. Foi isso que nos
permitiu redimensionar grande parte das nossas convicções
sobre formação de professores.
Situar a prática como elemento de análise e reflexão
do professor, tendo em vista promover mudanças no trabalho docente,
é muito mais do que uma exigência teórica contemporânea.
Do vigor desse processo depende a instauração de práticas
pedagógicas nas escolas, em particular, nas escolas localizadas
nas periferias urbanas, que permitam às crianças participar
da cultura escolar, e de modo especial, da cultura escrita, com condições
mais ampliadas de possibilidade de sucesso.
Constituir-se leitor é a condição para que os professores
sejam mediadores do letramento das crianças. Mas descobrir-se leitor
junto com elas, descobrir-se aprendente é a mais venturosa experiência
de formação.
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