Renata Sieiro Fernandes
“Mas o que as crianças querem não
são as armas pelas armas.
Elas querem o poder que as armas imaginárias carregam”
(Jones, 2004, p. 53)
Neste artigo gostaria de abordar e explorar de forma
inicial três aspectos ligados a um tema controvertido trabalhado
com crianças de 9-10 anos, em uma instituição escolar.
Essa experiência lúdica e pedagógica será apresentada
e discutida tomando-se por referência para as reflexes, principalmente,
as idéias de Broug`ere (1995), Jones (2004) e Vygotsky (1988).
O tema escolhido para o trabalho do primeiro semestre de 2004 com uma
sala de 3a. série foi o da guerra-paz e os três aspectos
referem-se a: ousadia de se assumir um tratamento direto com o tema; os
desafios, dificuldades e acertos no trato dele (com relação
`as crianças e adultos – pais e professores) e, a necessidade
da expressão corporal sob a forma da brincadeira como meio para
se lidar com os sentimentos, sensações e emoções
provocados pelo assunto.
Como introdução ao artigo, convém contextualizar
a origem desse trabalho pedagógico.
Fazem parte das opções pedagógicas desta escola o
trabalho por projetos e a escolha de um objeto deflagrador que é
apresentado pelo professor no primeiro dia letivo com o intuito de despertar
possibilidades de trabalho ao longo do ano, que venham a constituir o
projeto coletivo, particular e singular de cada turma especificamente.
No início do ano de 2004, cativou-me a idéia de escolher
um armário pequeno, de parede para levar como objeto disparador.
Como essa escolha é pessoal e vai ao encontro dos desejos de cada
professor, procurei fazer um exercício sobre a sua simbologia,
formas de abordagem e de aproximação. Ele, por si só,
é carregado de simbologia pois envolve a idéia de algo em
que se guarda, que se fecha e se mostra, ao abrigo de uma escuridão,
esperando para vir à luz e tornar-se conhecido.
Seduzida e convencida da escolha, ofereci à turma tal objeto, “nu
e cru”, vazio e sem nenhuma intervenção de cor ou
textura (posteriormente ele viria a adquirir personalidade ao incorporar
o colorido, desenhos infantis e conteúdos materiais).
Minhas primeiras perguntas que serviram para orientar os caminhos que
pudéssemos tomar foram: “o que é isto?” e as
respostas foram: “uma estante, uma prateleira, uma gaiola, um porta-pratos,
um armário, um armarinho”. Ao pesquisar o significado de
tais palavras no dicionário, acabamos optando por identificá-lo
como armarinho pois ele se caracterizava por ser “um móvel
de madeira, com prateleiras, para guardar diferentes objetos, de tamanho
pequeno”. Fiz a segunda pergunta: “para que ele serve?”
e as respostas que obtive foram: “não é para esconder
coisas, é para mostrar porque as portas são de telinha,
é para guardar, para usar, para enfeitar”. A partir disso
centrei-me na idéia do que ele poderia conter, receber ou guardar
e ao socializar os resultados pedi à turma sugestões do
que se poderia colocar nele.
Conforme fui ouvindo os exemplos, percebi que eles apenas sugeriam objetos
concretos e de tamanho diminuto, miudezas. Provoquei-os pedindo que prestassem
atenção a tudo que havíamos listado e que tentassem
perceber essas duas características que apareciam. Feito isso,
perguntei se não poderíamos depositar nele coisas maiores
e, embora resistentes inicialmente, acabaram aceitando e propondo que
substituíssemos os objetos grandes por representações
deles, sob a forma de fotografia, desenho ou palavra. Desse modo, o que
começou pequeno já tinha possibilidades de se expandir.
Como ainda estávamos restritos aos objetos palpáveis e tocáveis,
fiz uma última intervenção, perguntando o que poderia
sair dele ao abrirem-se as portas. Neste momento, apareceram os sentimentos
e os seres imaginários! Ficamos satisfeitos com essa exploração
e então, cada criança escolheu algo ou palavra que gostaria
de colocar no armarinho. A partir do que levaram, substituímos
tudo por palavras e, por um processo de associação de idéias,
formamos grupos de palavras e procuramos seus sinônimos; por exemplo:
arcanjo = paz, anjo, amor, asas, guerreiro, cristão, chefe dos
anjos, céu, paraíso, Deus, alegria, Jesus, música.
Depois, em outro exercício, procuramos pelos antônimos, formando
duplas de palavras opostas mas complementares; por exemplo: arcanjo –
diabo. As idéias que se atraíam por passar-nos uma mesma
impressão ou sensação foram aglutinadas, de acordo
com os critérios das crianças, em uma única dupla
de palavras; por exemplo: arcanjo – diabo; bem – mal; construção
– destruição; amor – ódio; tranquilidade
– intranquilidade; guerra – paz, todas essas duplas acabaram
sendo condensadas na idéia da guerra – paz.
Da exploração do que cabia e podia sair do armarinho, passando
por um estudo semântico, o projeto então, começou
a tomar forma. O eixo do trabalho seriam os sentimentos, sensações
e emoções, provocados, sentidos, expressos, manifestos,
latentes. O meio de se trabalhar com eles seria através das duplas
de palavras não dicotomizadas, em que uma contém e está
contida na outra e que nos forneceriam os temas de pesquisa e trabalho.
Sendo assim, chegamos ao seguinte conjunto de assuntos e temas: guerra
– paz; apagar coisas ruins – escrever coisas boas; diversão
– tédio; medo – coragem; morte –vida; ódio
– amor; poder – fraqueza; tristeza – felicidade; lembrança
– esquecimento; música – silêncio; quente –
frio; cheiro bom – cheiro ruim; união – separação;
riqueza – pobreza; claridade – escuridão; dureza –
moleza; orgulho – humildade; preciosidade – sem valor; conforto
– desconforto; saber – desconhecer; calma – intranquilidade;
amizade – inimizade.
Aos poucos o formato do projeto foi se delineando e se clarificando e
pude ir apontando-o para as crianças. Os assuntos, os temas nos
dariam motes para pesquisas, discussões, generalizações,
particularizações, ampliações, relações,
comparações e, no decorrer desse processo, poderíamos
criar situações imaginárias de vivências através
de jogos de faz-de-conta e da brincadeira e, por fim, representar tudo
isso sob a forma de uma miniatura – em desenho, em massinha de modelar,
em argila, em papel machê – a ser disposta em uma caixinha-armarinho
individual e particular.
Partindo de curiosidades – sob a forma de perguntas - que as crianças
manifestaram acerca das motivações para a guerra e para
a paz, os sentimentos envolvidos, as estratégias de negociação,
de dominação, de colonização, de resistência
etc… diferentes grupos se organizaram para a pesquisa e apresentação
de informações que sanassem as dúvidas e interesses
dos colegas sobre, por exemplo: os samurais, os soldados atuais, os piratas,
os cavaleiros medievais, os guerreiros do futuro, os soldados romanos,
os vikings, os cangaceiros, os quilombolas, as amazonas, os caubóis,
os árabes, os egípcios, os indígenas; ao lado disso,
detemo-nos mais especialmente no conhecimento, análise e discussão
da política de não-resistência ou de resistência
pacífica e não-violência, defendidas por exemplo,
pelo Dalai Lama e Gandhi e pelos monges tibetanos.
Para cada guerreiro estudado fomos localizando em mapas-mundi individuais
os locais de onde eles provinham. O objetivo implícito nisso era,
principalmente, que as crianças percebessem que as guerras existiram
e existem ao longo dos tempos e em grandes extensões geográficas,
sendo, portanto, algo que constitui o comportamento humano, cabendo aos
homens saberem administrar tanto suas motivações e atitudes
agressivas – bélicas e armamentistas, em muitos casos –
quanto as pacíficas.
Outro objetivo associado a esse foi de perceber que, quanto ao gênero
feminino, as mulheres muitas vezes também estiveram envolvidas
e participaram desses movimentos embora os relatos e as imagens refiram-se
a elas de forma mais dissimulada ou escamoteada, passando a idéia
de que as mulheres são mais condescendentes, afeitas ao bom convívio,
às negociações e aos consensos e que são mais
amistosas.
Ao lado disso, a partir de uma leitura de imagens que mostrava a “evolução”
das armas e de formas de combate, pudemos perceber que os homens passaram
de lutas e brigas corporais que exigiam embates físicos, para o
uso mediado de instrumentos de ataque e defesa que permitiam o distanciamento
entre os oponentes, passando para o uso da tecnologia que proporciona
a ausência de contato e presença física e, por fim,
o recurso verbal, da retórica para a busca de solução
dos conflitos, negociações e consensos. Entretanto, como
a linha de desenvolvimento do ser humano não acontece numa escala
retilínea e progressiva, muitos dos comportamentos anteriores permanecem
como ecos na atualidade, envolvendo tanto os adultos quanto as crianças.
O desafio no trato do assunto manteve-se nas buscas por abordá-lo
de forma integrada e complementar, algo oposto ao que nos é oferecido
por nossa cultura ocidental, maniqueísta e oposicionista. Pensar
a guerra contida na paz e vice-versa, ainda é difícil para
os nossos hábitos de olhares e compreensão, tanto por parte
dos adultos (professores e pais) quanto por parte das crianças.
Essas, em um exercício de representação tentaram,
exprimir através de um símbolo - uns com mais dificuldades
do que outros – a idéia da relação de complementariedade
dos sentimentos de guerra e paz, incluindo o significado das cores. Ao
lado das produções infantis duais, optando pela divisão
da folha ao meio para representar a guerra de um lado e a paz de outro,
afastados - (do lado verde uma pomba branca e do lado vermelho um revólver
apontado na direção da ave) -, houve quem optasse pela separação
sem incluir a fragmentação ou o afastamento, mantendo tanto
um quanto outro “colados pelas laterais”; foi o caso de quem
desenhou um ser metade anjo e metade demônio. Outras crianças
conseguiram representar uma idéia de integração ao
fazerem, por exemplo: um revólver que lança corações
amarelos e um pássaro que derruba ramos da paz (revendo a tradicional
imagem dos aviões de guerra lançando bombas aéreas).
O tema da paz não suscita dúvidas, ressalvas ou discordâncias.
O tema da guerra é delicado e provocador, mas acredito que a escola
também pode e deve ser o lugar em que possa aparecer – e
ele aparece sempre –, ser discutido e trabalhado. Mesmo reconhecendo
essa dimensão, sabendo e vendo as mobilizações que
ela provoca nas pessoas de todas as idades acredito no seu potencial de
promoção de auto-conhecimento, inclusive porque ao lidar
com os medos, com as limitações, com sensações
de covardia tocamos em todos os seus opostos, como a coragem, o romper
limites, alargar espaços. Afinal, são ambas as faces de
uma mesma moeda.
“Ver nossos filhos se divertindo com algo que desprezamos
nos incomoda. Nosso medo é que estejam comemorando ou reafirmando
um horror que nós queremos desesperadamente banir da realidade.
Queremos que reflitam nosso comedimento, seriedade, compaixão e
pacifismo adultos. Mas eles não são capazes – e não
devem ser – de imitar as reações adultas. Brincadeiras,
fantasia e imaginação emocional são ferramentas essenciais
para a tarefa da infância e da adolescência” (Jones,
2004, p. 13).
“Crianças têm a necessidade de se sentir fortes”
(Jones, op. cit, p. 12), e o centro do tema da guerra e paz é o
poder; dessa forma, ele oferece ajuda e não o medo. Assumir o controle
da agressividade a torna menos assustadora e, além do mais, o manuseio
de símbolos de poder vai ao encontro das necessidades psíquicas
e arquetípicas de poderio e heroísmo (p. 77 e 80). Alguns
comportamentos infantis podem ser despertados ou encontrar lugar ao se
tratar desse tema mas, da mesma forma, eles também poderiam ter
aparecido – mais cedo ou mais tarde – por serem próprios
da infância.
Relata Jones (op. cit) que
“Durante todas as décadas, a pesquisa em
psicologia havia tentado provar que a violência no entretenimento
deixa as crianças mais agressivas, ou as dessensibiliza, ou distorce
sua visão de realidade. Pouquíssimos estudos tinham perguntado
por que elas gostam disso, que benefícios lhes poderia trazer.
(…) descobri histórias de garotos que haviam usado todas
essas coisas (gibis, filmes de ação, desenhos animados,
games de matar, músicas raivosas de rock ou rap) de maneira nociva,
e de outros que precisavam do auxílio de adultos para usar esses
recursos de maneira benéfica. Mas, no geral, encontrei jovens que
usavam fantasias de combates para se sentirem mais fortes, para canalizarem
suas emoções, para controlarem sua ansiedade, para se acalmarem
diante da violência de verdade, para conseguirem abrir seu caminho
através de desafios emocionais e se elevarem a novos níveis
de desenvolvimento” (p. 7).
Com preocupação e cuidado com isso tudo,
eu e o grupo procuramos dar espaço para a ocorrência de sentimentos
e sensações ligados aos efeitos da guerra e da paz e dar
a garantia de que as coisas não perderiam a dimensão do
administrável, mesmo porque o espaço da escola não
é o terapêutico.
Algumas crianças passaram a sentir-se mais fortalecidas, mais seguras
de si, mostrando isso verbalmente e corporalmente o que é algo
altamente positivo por implicar em mudança de comportamento e postura
(por exemplo: enfrentavam crianças mais dominadoras, adultos, se
expunham mais na frente do grupo). Entretanto, algumas vezes as atitudes
ficaram desmesuradas ou exageradas por uma inabilidade, no momento, no
trato com conteúdos que não eram manifestos mas que estavam
latentes. O clima cotidiano não era de agressividade e rivalidade,
mas aconteceram animosidades entre algumas crianças e embates verbais
– mais do que físicos, fato que já prevalence no ambiente
escolar. Por outro lado, para uma grande parte das crianças, isso
tudo não provocou situações de conflito pessoal ou
de embate no grupo, sabendo lidar de forma tranquila e controlada consigo
e tolerante, muitas vezes, com o outro.
Alguns pais manifestaram incômodo e preocupação com
a presença do tema em sala de aula e com o novo e inesperado comportamento
de algumas crianças (assumindo um tom imperativo ou impositivo
na fala, oferecendo resistência e relutância em aceitar regras,
enfrentamento entre iguais) – fatos relatados e discutidos em reunião
coletiva -, outros elogiaram a ousadia e frisaram a importância
da sua abordagem e também contribuíram de outra forma, colaborando
com a construção de armas de brinquedo (lanças, espadas,
revólveres e espingardas) e com a invenção de figurinos
para os personagens das brincadeiras (quando não havia material
interessante ou apropriado na escola).
“Brincar com armas na infância é algo
universal. Etnologistas demonstraram que, em sociedades nas quais as armas
não fazem parte da simbologia local, as crianças brincam
de coisas parecidas, como arcos e flechas ou lanças. Em todas as
culturas, as crianças sempre desenvolvem algum tipo de fantasia
que projeta poder destrutivo através do espaço e derruba
algum enorme vilão com um gesto qualquer” (Jones, op. cit,
p. 52).
Os elementos da cultura infantil provêm da cultura
do adulto. São traços diversos da cultura da qual se faz
parte que transferem-se, por aceitação, mas que passam por
um processo de apropriação, por uma reelaboração
de significados e, portanto, reconstrução, porque ambos
os universos mantêm relacões mútuas e cambiáveis
(Fernandes, 2001, p. 83). Logo, não há assunto ou material
interdito ou impeditivo ao manuseio e `a ação imaginária
e criativa das crianças.
Broug`ere (1995), ao falar sobre as brincadeiras e brinquedos de guerra
diz:
“Sendo uma confrontação com a cultura,
a brincadeira é, também, confrontação com
a violência do mundo, é um encontro com essa violência
em nível simbólico. A criança deve dar sentido não
só a isso, como ao resto. De que modo a violência poderia
escapar dessa apropriação desde que compreendemos sua importância
cultural? A criança tem de conviver com isso. Talvez a brincadeira
seja o único meio de suportá-la, assim como as crianças
que brincam de guerra entre dois bombardeios, e que pudemos observar no
Tchad (cidade da África)” (p. 78).
A brincadeira no espaço da escola foi e tem sido
uma outra oportunidade lúdica para a re-elaboração
e a manifestação de repertórios, sensibilidades,
sensações e emoções do que está sendo
vivido e aprendido.
Nessa turma, o brincar com o tema da guerra começou com o jogo
War e com a brincadeira de Forte Apache e, ao longo de um semestre, a
cada fechamento do estudo sobre determinado guerreiro, passamos a brincar
com a miniatura confeccionada (o brinquedo) ou fazendo uso do próprio
corpo (o brincante).
A princípio, o que fizemos foi “respeitar” a temporalidade
e espacialidade relativa aos guerreiros estudados, procurando representá-los
em suas especificidades (de comportamentos, ações, roupas,
acessórios etc), tentando ser o mais fidedigno possível
em relação ao que havia sido pesquisado. Posteriormente,
optamos por fundir períodos e locais, brincando com os espaços-tempos.
Sendo assim, nesse segundo momento cada criança escolheu qual guerreiro
gostaria de ser e criou, juntamente com seu grupo, um universo imagético
próprio que congregasse e fornecesse material ficcional para a
narrativa lúdico-corporal – o brincar - acontecer.
Assim, os diferentes grupos, organizados por afinidade, puderam se colocar
diante de si e do outro de um outro modo, lidando com aquilo que traziam
dentro de si (motivações, desejos, sentimentos, emoções),
podendo, dessa forma abrir canais e oportunidades outras – por lidar
com essa linguagem específica que é a brincadeira de faz-de-conta
– para a sua colocação no mundo e o entendimento que
faz dele e das relações sociais.
Outras formas abordadas para a expressão do sentir, ver, olhar
podem ser: a verbalização (o uso da retórica, da
oratória) e a escrita, cada uma com sua lógica e armadilhas
inerentes ao discurso que proferem. Nesses quesitos, as crianças
escolares possuem uma habilidade que lhes permite manipular o discurso
e, muitas vezes, produzir relatos e opiniões que atendam aos resultados
esperados pelos adultos – no caso, o professor. A possibilidade
da brincandeira abre espaço para uma outra forma de se colocar
e de se expor, em que esses artifícios ficam suavizados porque
são relativizados e transpostos para uma outra linguagem que possui
outros atributos que a particularizam .
E dentro da esfera da brincadeira, as crianças colocaram-se, ainda,
de dois modos: ao manipularem os brinquedos – como se fossem títeres
-, no caso as miniaturas-brinquedos, e ao se colocarem no cenário
dramático, como personagens-brincantes. Em algumas ocasiões
apesar de haver miniaturas, apenas o corpo serviu como material de expressão
e representação.
“A guerra aparece como um tema essencial na brincadeira,
o que não quer dizer que ela seja violenta. A passagem para a ação
é, justamente, a destruição da brincadeira. Ela é,
antes de tudo, uma experiência com riscos controlados e limitados.
É passar, simbolicamente, pela experiência da violência
sem sofrer suas consequências. Eis aí todo o interesse da
experiência da brincadeira. Onde há violência real
(e não simples agressividade) não existe mais brincadeira.
As crianças sabem distinguir, perfeitamente, a verdadeira briga
da brincadeira” (Broug`ere, op. cit, p. 80).
Outro elemento importante de ser apontado refere-se aos papéis
desempenhados por ambos os gêneros. Embora uma apreensão
de senso comum já mostre uma preferência tendencial pelo
tema para o lado masculino, as meninas participaram e muito das brincadeiras
de guerra-paz, o que lhes possibilitou, inclusive, uma maior ocupação
de espaço e uma maior visibilidade frente aos espaços de
poder assumidos e atribuídos aos meninos (tanto em momentos de
sala como de recreio e saída: ao retrucar, imprimir seus desejos
e vontades, reivindicar participação, reclamar de indiferenças).
Como nesta sala elas constituiam a minoria (7 meninas e 16 meninos), os
espaços de ocupação eram quase totalmente tomados
pelos meninos. A maior participação proporcionada pelo tema
e pelas brincadeiras deu a elas uma segurança maior para se colocarem
e um poder maior de visibilidade, confrontando-se com os meninos.
Mas, reforçando a relação entre o tema e um gênero,
Broug`ere (op. cit) confirma:
“Outro elemento importante nesse universo lúdico
é a divisão desigual do tema de guerra entre as brincadeiras
de meninos e as brincadeiras de meninas: é claro que as meninas
brincam de guerra e existem roteiros que prevêem papéis femininos.
Porém, a brincadeira de guerra é, predominantemente, masculina.
Encontramos, de novo, a imagem cultural que consagra o homem `a guerra”(p.
81).
Brincar com armas de brinquedo ou com varinhas de condão,
produz o mesmo efeito, segundo Jones (op. cit. p. 53) pois ambos os instrumentos
fornecem `a criança a sensação de serem fortes. Por
que, então, um deles perturba e preocupa e o outro acalma os adultos?
Em nosso imaginário as armas sempre evocam sinais de belicismo
e agressividade e as varinhas de condão sempre encontram-se em
mãos de fadas – boas – e não em mãos
de bruxas – más. Seria possível, então, como
alternativa ou contraponto `a brincadeira de guerra brincar de paz? Não
saberia dizer como isso poderia se dar, entretanto, se pensamos com a
idéia dos opostos-complementares, um não estaria contemplado
no outro? A brincadeira de guerra envolve e se alterna com momentos de
paz, de solução de conflitos, consensos, festas, comemorações,
junções de grupos, tranquilidade, conversas, negociações…
“Parece-me que a crítica subjacente ao brinquedo
de guerra seja, talvez, de uma outra natureza. Por um lado, pode parecer
chocante ver uma criança manipular com tanta despreocupação
a vida e a morte, os suportes de uma destruição em potencial
do homem. Há uma incompatibilidade entre nossa imagem da criança
e esses objetos. Porém, como fazer para a criança entrar
no nosso mundo tal como este é e não como ele deveria ser?
A brincadeira é, sem dúvida, um dos meios para situá-la
diante desse mundo” (Broug`ere, 1995, p. 87).
Vendo de perto a ocorrência das brincadeiras e assistindo-as
pelo vídeo , percebemos a presença tanto de uma agitação
inerente ao próprio movimento e circulação das crianças,
quanto uma calmaria e pacificidade, sem haver situações
belicistas ou inflamadas como se poderia imaginar encontrar. Mesmo com
situações de conflito, frustrações, embates,
choros, gritos, o clima reinante não foi de caos ou descontrole
mas, de divertimento, empolgação, simulação,
pois o que sustentava as relações era, principalmente, o
lúdico das brincadeiras.
Tanto a brincadeira como o espaço escolar apresentam regras de
sociabilidade e socialização e isso ajuda a manter delimitadas
as fronteiras e limites do permitido e do aceitável.
Segundo Vygotsky (1988),
“O que restaria se o brinquedo fosse estruturado
de tal maneira que não houvesse situações imaginárias?
Sempre que há uma situação imaginária no brinquedo,
há regras – não as regras previamente formuladas e
que mudam durante o jogo, mas aquelas que têm sua origem na própria
situação imaginária. Portanto, a noção
de que uma criança pode se comportar em uma situação
imaginária sem regras é simplesmente incorreta.
(…) O mais simples jogo com regras transforma-se imediatamente numa
situação imaginária, no sentido de que, assim que
o jogo é regulamentado por certas regras, várias possibilidades
de ação são eliminadas” (p. 108-109).
Para ele, seguir a regra é o mais forte impulso
da criança e isso implica em autocontenção e autodeterminação,
aquisições que referendam as ações reais e
a moralidade (p. 114).
O espaço escolar também condiciona as atitudes e comportamentos
pois apresenta-se como um lugar regrado e disciplinador. Não se
brinca em casa, na rua ou em outros espaços da mesma forma pois
cada ambiente carrega e explicita seus limites e tolerâncias diferenciadas
(Fernandes, 2001, p. 82-83 e Fontana e Cruz, 1997, p. 136).
“Brincar é, sem dúvida, uma forma
de aprender, mas é muito mais que isso. Brincar é experimentar-se,
relacionar-se, imaginar-se, expressar-se, compreender-se, confrontar-se,
negociar, transformar-se, ser. Na escola, a despeito dos objetivos do
professor e de seu controle, a brincadeira não envolve apenas a
atividade cognitive da criança. Envolve a criança toda.
É prática social, atividade simbólica, forma de interação
com o outro. Acontece no âmago das disputas sociais, implica a constituição
do sentido. É criação, desejo, emoção,
ação voluntária” (Fontana e Cruz, 1997, p.
139).
Alguns comentários escritos pelas crianças
após a brincadeira de cangaceiros demonstram isso: “nós
fizemos perseguições, fomos feitos de reféns, fugimos
muito da polícia volante. Deu tudo certo, menos uma coisa: a gente
atirava mais de 20 vezes mas eles (os outros) ficavam de pé e a
gente é que tinha que morrer”, “primeiro nós
lutamos contra as meninas e depois com as meninas para matar o G. A brincadeira
deu certo mas eu morri mais ou menos 2 vezes. `As vezes eu matava alguém
e ele não morria, não sei porquê”, “as
pessoas que estavam no grupo de cangaceiros eram 10 ou 11. Nós
atacávamos tudo que vinha pela frente e também roubávamos
tudo o que vinha pela frente. Tudo o que a gente queria roubar a gente
conseguia. Bem, mas sempre em uma batalha alguém perde, ou pode
ser preso ou refém ou pode morrer. O bom dessa batalha foi que
a gente ganhou”, “eu brinquei com todo mundo de cangaceiro.
A gente fez festa, guerra, prendemos pessoas, etc. Tudo o que a gente
quis deu certo porque tudo que planejamos deu certo”e “eu
brinquei com a classe inteira. A gente brincou bastante, a gente festejou,
cantou… nós atiramos, matamos, morremos e corremos, nos ferimos
e muito mais. O que deu certo foi quando a gente se juntou e começou
a brincadeira”.
Meu intuito foi tentar apresentar através de trechos e recortes
extraídos do cotidiano, aliados a alguns pontos elegidos para reflexão,
que embora o assunto escolhido possa ser tabu pois alia duas sensações
de forte impacto, a de violência e a de morte, o espaço da
escola apresenta-se como oportuno e indicado para o trato dele por configurar-se
como um espaço regrado e controlado. Entretanto, os preconceitos
e medos adultos muitas vezes impedem que nos arrisquemos ou que busquemos
brechas para pequenas transgressões ou subversões para o
tacitamente estabelecido e para o que se mostra mais fácil de lidar,
por evitar o provocativo, os embates e os conflitos. Algumas formas de
manifestação e expressão ajudam a lidar com sentimentos
mais assustadores desde que abramos espaço para a sua manifestação,
conhecimento e enfrentamento. E a nós, adultos, cabe servirmos
de modelo e espelhamento positivo e como sujeito orientador (Jones, op.
cit, p. 204) para as crianças e jovens.
“O ensino da não-violência vai muito
bem, obrigado, e é preciso que continue. É preciso manter
o ideal da não-violência em mente. No caminho até
lá, também é preciso permitir a nossos filhos e a
nós mesmos viver fantasias que nos deem a oportunidade de ser exatamente
o oposto disso. Isso nos ajudará a ter coragem para mudar o mundo”
(Jones, 2004, p. 164).