Uirá Fernandes - FEUSP
A análise do discurso que aqui se pretende corresponde
a de um texto escrito pelo atual secretário da Educação
do Estado de São Paulo, Gabriel Chalita, publicado pelo Jornal
Folha de São Paulo no dia 15.10.04.
Antes de irmos à análise do discurso do texto, precisamos
de imediato, trazer à luz da reflexão, a própria
distinção que teóricos da linguagem fazem entre texto
e discurso. Ora, se nosso material de análise é o texto
– o conjunto de enunciados, o escrito, o dito – o que se busca
é ir além da materialidade das palavras, da superficialidade
dos enunciados e atingir a interlocução de tais enunciados
com a realidade interna e externa do texto. Pêcheux (In Gadet e
Hak, 1990) distingue texto de discurso ao afirmar que o primeiro é
uma seqüência de enunciados fechados em si mesmo e o discurso
é a soma das condições institucionais de produção
do texto.
Isso significa dizer que o texto não fala por si. É preciso
colocar o texto no contexto, analisar os elementos, que Pêcheux
chama de condições de produção e relações
de sentido, o que significa concordar com Ducrot (1977) quando diz que
o discurso está dentro de um lugar no interior de uma formação
social dada.
Nesse sentido, quando propomos analisar o objeto referido acima, percebemos
não ser possível destitui-lo das relações
e interconexões que se configuram entre os agentes da comunicação.
Cabe-nos, então, perguntar: quem são os agentes? De onde
falam? Por quais meios? Sobre quais assuntos? Sob quais pretextos (e pré-textos)?
Quando foi escrito? Quem é o leitor que o texto busca atingir?
Qual é o leitor que se constrói no próprio ato da
leitura? Por que tais enunciados e não outros (Foucault 1969) ?
Fazer uma análise do discurso significa assumir uma relação
entre os distintos interlocutores. Se tomarmos as perguntas acima como
impulso inicial de nossa reflexão, o primeiro ponto que precisa
ser posto em análise é a protagonização da
fala, o destinador da mensagem. Sabe-se de início que o texto foi
escrito (pelo menos assinado) por Gabriel Chalita, atual secretário
da Educação do Estado de São Paulo.
Entretanto, torna-se importante analisar o meio que o texto se utilizou
para atingir seus leitores. Sabermos que se trata de um Jornal requer
que questionemos “de quem é” o hipotético leitor:
do Jornal ou do Secretário de educação? Além
do momento em que foi escrito e da “razão objetiva”
pela qual foi escrita , vale considerar onde no jornal o texto foi publicado.
Comecemos, portanto, por deixar o destinador da mensagem, o secretário
da Educação do Estado de São Paulo, Gabriel Chalita,
para um segundo momento e iniciemos pelo outro, o Jornal Folha de São
Paulo. O texto foi publicado na seção conhecida como “Tendências
e Debates” localizada tradicionalmente na terceira página
do primeiro caderno. A primeira página do Jornal, como todos sabem
é a capa, trazendo as notícias, consideradas principais
pela equipe editorial, que se encontram dentro do periódico. A
segunda página é destinada aos textos editoriais, sendo
uma primeira coluna (da esquerda para a direita) três textos sem
assinatura de jornalistas, uma segunda coluna, também com três
textos assinados por jornalistas regulares e uma terceira coluna com um
só texto (mais longo) de um jornalista, filósofo, economista,
etc. No meio da página em cima, sempre uma charge política
sobre temas contemporâneos. Abaixo à direita, citações
de frases atuais do contexto nacional e internacional. Acima à
esquerda o quadro do conselho editorial. É com isto que se depara
o leitor assim que vira a primeira página e olha a sua esquerda.
À nossa direita, na terceira página do jornal, temos então
a seção onde foi publicado o texto (geralmente composta
de dois textos), uma outra coluna com as cartas enviadas pelo leitor,
chamada de “Painel do Leitor” e abaixo desta, uma seção
intitulada “Erramos”, na qual o Jornal “arruma”
os erros de ortográfica e de informações divulgadas
em publicações anteriores recentes.
Pensemos então num efeito possível a se dar ao leitor ao
abrir o Jornal pelo seu, vamos dizer, começo: primeira abertura
de página do primeiro caderno. Nestas duas páginas, está
escrito em cima “Opinião”. Agora, com as páginas
já abertas, o leitor se vê diante de um ideário democrático.
De um lado, a Opinião do Jornal, do outro, a Opinião da
Sociedade, do Leitor e as escusas pelos erros cometidos pelos primeiros
aos segundos. Ainda nessa perspectiva, levemos a diante a análise
desta seção “Tendências e Debates”. Este
título já traz consigo algo de interessante a ser analisado.
A utilização destes dois substantivos sugere que esta seção
está em consonância com a efervescência das reflexões
contemporâneas, com o que está se pensando atualmente, por
um lado, e de que é um espaço de diálogo, discussão,
uma “ágora contemporânea”, por outro. Logo abaixo
do título da seção está o seguinte informe:
Os artigos publicados com assinatura não traduzem
a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito
de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir
as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Aqui o Jornal procura se eximir da responsabilidade pelas
idéias veiculadas, ao mesmo tempo em que veicula o discurso contemporâneo
de “pluralidade de vozes” da sociedade se legitimando como
o próprio instrumento deste discurso. Podemos dizer, portanto,
que o Jornal se quer como um “facilitador” do debate social
contemporâneo.
Cabe observar que não podemos perder a criticidade diante do fenômeno,
o que significa considerar que o Jornal, embora tente assumir uma posição
de neutralidade diante do jogo das idéias, é por si um veículo,
um meio de comunicação. O que queremos dizer é que
o Jornal está aqui (e não só aqui) proferindo um
sistema de idéias, de representações que procura
dominar o espírito de um homem ou um grupo, ou seja, produzindo
aquilo que o marxismo veio a chamar de ideologia. E se formos mais longe,
em Althusser, temos que ela não só é uma posição
de classe, como, é através e para o sujeito.
Ora, não podemos também atribuir as idéias do texto
diretamente ao Jornal, na medida que esta seção é
rotativa e não há vínculos explícitos entre
os autores dos textos e o corpo editorial do Jornal (o que também
não quer dizer que o Jornal não publicaria idéias
que se distanciassem demasiado de seu ideário). Selecionar os que
ali escrevem já é por si uma forma de construir o sistema
de idéias dominantes do Jornal. Vale dizer por fim, que embora
tentaremos trazer algumas pistas da composição ideológica
do Jornal Folha de São Paulo, nosso objetivo maior é analisar
o discurso do texto de Chalita. É claro, entretanto, que não
será possível criar tamanha distinção separando
Jornal e autor de forma tão objetiva. Nesse sentido, é sintomático
apontar que o texto tenha sido escrito no (e para o) Dia do Professores.
Tanto o Secretário quanto o Jornal, não só tinham
isto claro, quanto se aproveitaram deste momento para legitimar, oficializar
um discurso. Foucault nos ajuda a pensar esta questão quando afirma:
“suponho que em toda sociedade a produção
do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada
e redistribuída por certo número de procedimentos que têm
por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu
acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade”
(1996:9).
Vamos ao texto. Ao que ele se refere? Com quem dialoga?
Sob quais recursos retóricos? Com que finalidades?
Se começarmos pelo título, “Mensagem a quem professa
o magistério” perceberemos a idéia de que há
uma objetivamente mensagem para um destinatário explícito:
quem professa o magistério. No entanto, seria somente o professor
da rede pública estadual o interlocutor do texto? Por que utilizar
um Jornal para com ele falar? Guardemos esta questão para mais
adiante.
A justificativa central do texto é de celebração!
Afinal, é o Dia dos Professores e este é um momento oportuno
para que seja reconhecido todo um trabalho, tanto dos professores quanto,
seguramente, da Secretaria Estadual de Educação. O discurso
sugere, portanto, que muito se conseguiu e que se chegou a um estágio
plenamente satisfatório da educação escolar paulista.
Na verdade, o texto assume um caráter extremamente panfletário
governamental de forma a saturar de informações sobre os
programas e iniciativas que Secretaria Estadual de Educação
diz estar realizando. Vamos então a eles.
Todo o “miolo” do texto – entende-se a exceção
dos primeiros e últimos parágrafos – é composto
pela divulgação das ações públicas
estaduais na área da educação. Começa-se por
dizer sobre o investimento no professorado: “A capacitação
é prioridade” e “não há sequer um (professor)
sem diploma universitário ou em vias de obtê-lo”. Aqui
já se inicia o caráter vago do discurso, pois o leitor fica
sem saber, não se explicita, qual o conteúdo efetivo do
programa de capacitação da rede estadual. Só se diz
que “ferramentas importantíssimas” foram disponibilizadas.
Nesse sentido se por um lado está a pressuposição
de que o leitor saiba de que ferramentas está se falando, por conseqüência
o leitor estaria familiarizado com o tema, por outro, evitar explicitar
quais são as “ferramentas” sugere aderir-se ao discurso
pela sua simples positividade.
A segunda menção aos fazeres da Secretaria se refere ao
seu engajamento, sua visão política da contemporaneidade,
quer dizer, do discurso que vincula a prática educacional à
tecnologia, à globalização e ao multiculturalismo.
Cita a “Rede do Saber”, totalmente sintonizada “com
a era informacional” e que a capacitação por videoconferências
impressiona pela “sua produtividade e modernidade” como forma
de ilustrar a sintonia da escola com a tecnologia de ponta. Em seguida,
se refere a uma parceira que tem levado “um grande grupo de professores”
(não menciona números) a estudar fora do país, ou
seja, de que o governo estadual já transpôs as barreiras
geográficas do conhecimento. Por fim, se beneficiam de que estas
iniciativas possibilitam aos professores entrar em contato, “com
outras culturas, tecnologias e métodos didáticos”.
Por fim, a escola estadual paulista chegou à era da globalização,
com todos os seus benefícios que ela proporciona. Aqui, nos termos
de Ducrot (1977) temos como pressuposto o caráter valorativo da
idéia de progresso, tecnologia e modernização, ou
seja, leva a escola estadual nesta direção significa implicitamente,
melhoria.
O tema seguinte corresponde a mudanças na política interna
da rede de ensino estadual. Seja contratando novos docentes, seja alterando
pontos da legislação, seja ainda reajustando salários
de funcionários ativos e inativos, a tônica é o “progresso”
das políticas públicas e a valorização profissional.
Até os aposentados foram lembrados e contemplados com o reajuste
- como se fosse uma concessão e não um direito. Aqui mostra-se
a eterna e arraigada mentalidade paternalista do Estado republicano brasileiro.
Na continuação do texto, a preocupação é
com a qualidade de vida do professor, sendo esta, sinônimo de seguranças
nas escolas “com o programa de segurança nas escolas”.
O leitor, novamente abandonado à falta de informações,
não recebe detalhes e explicações sobre o programa.
Neste parágrafo, inclusive, se evidencia a falta de coesão
do texto. Acúmulo de informações, dados, ações
da Secretaria, de forma desarticulada, desarmônica, mostram a preocupação
maior em saturar o leitor dos “fazeres” – e isto se
exemplifica quando o autor tenta, em poucas palavras correlacionar, qualidade
de vida, segurança nas escolas e o “revolucionário”
Programa Escola da Família – do que em aprofundar, analisar,
detalhar as políticas educacionais.
Se a análise do discurso vai buscar (re) constituir
a relação pré-existente entre texto e contexto, o
que significa dizer que além de analisar as características
e singularidades internas dos enunciados do texto, é necessário
atentar-se às circunstâncias, aos processos de produção
e a institucionalidade social da língua, o que está em jogo
é a identificar quais os efeitos e ressonâncias que o discurso
em questão produz. Se entendermos que qualquer falante diz algo
de algum lugar – físico e simbólico, pretendendo estabelecer
uma interlocução específica – e que “o
discurso é uma parte de um mecanismo em funcionamento, isto é,
como pertencente a um sistema de normas, nem puramente individuais, nem
globalmente universais, mas (que) derivam da estrutura de uma ideologia
política” (Pêcheux, In Gadet e Hak, 1990), nos perguntamos:
qual visão de educação, de escola, de professor,
de aluno, de relação professor-aluno, de Estado e suas políticas
públicas, o autor procura evocar? Através de quais mecanismos
lingüísticos, simbólicos e retóricos ele firma
esta ideologia política? O que está implícito e pressuposto
no discurso do locutor (Ducrot 1977)?
Se pensarmos primeiro na visão sobre o professor, é necessário,
de antemão, apontar a pretensa simbiose que se cria entre o autor
do texto – destinador – e o professor – o destinatário.
Embora seja escrito em terceira pessoa do singular, ao final, quando o
texto assume de fato a idéia de celebração, destinador
e destinatário se fundem, se confundem em um “nós”
(“através de nós, professores, lançam-se como
flechas rumo ao infinito").
Chalita aproveita da finalização do texto para se juntar
à classe docente e surpreender o leitor: “através
de nós, professores”. Este mecanismo retórico é
bastante conhecido no meio político nacional para tentar aproximar
personagens sociais que, na maioria das vezes, ocupam papéis e
funções sociais distintas. Logo em seguida, o autor, conclui
o texto, se separando novamente do seu destinatário quando diz
“A vocês, professores, (...) está endereçada
esta mensagem”, o que nos leva a considerar dois pontos inter-relacionados:
primeiro a coloquialidade do discurso que emerge ao final do texto. O
autor procura não só “falar” com os professores,
como, por duas vezes, chama-os de “vocês”. Este recurso
leva-nos ao segundo ponto que é o já mencionado paternalismo
estatal. A histórica indistinção entre esfera pública
e privada no Brasil aqui se faz presente. O autor, como “patrão”,
num ato, vamos dizer, de sensibilidade e respeito, procura se aproximar
da intimidade de seu interlocutor. Traz para aquilo que Roberto da Matta
(1991) nomeia como “mundo da casa”, do privado, da intimidade,
a resolução de questões de ordem pública,
o “mundo da rua”. Faz isso, reconhecendo e agradecendo, aberta
e publicamente, a excelência do trabalho de “seus funcionários”.
Afinal, nada melhor do que no “seu dia”, (que é o que
geralmente ocorre, por exemplo, quando fazemos aniversário) ser
reconhecido pelo empenho e esforço, pela “nobreza”
e valor, pela missão de sua ação.
Se seguirmos adiante, na visão que o discurso evoca a respeito
do caráter e da função do professor, do aluno e da
relação professor-aluno, nos remetemos ao início
do próprio texto: “A função mais importante
do professor é gerenciar sonhos”. Amplia: “instigar
obreiros, fazedores; estimular a inspiração que leva ao
domínio do sonhar e do realizar”. Mais adiante afirma que
o aluno não é “um repetidor de fórmulas”,
mas sim “um cidadão”, “um humanista”. Novamente
o leitor fica sem quaisquer esclarecimentos sobre o que está sendo
entendido por “um repetidor de fórmulas”, “um
cidadão”, “um humanista”... Em seguida afirma
a necessidade do “respeito pelos jovens, pelos seus desejos e pelas
suas expectativas”. Para que toda essa ação pedagógica
se efetive, Chalita afirma que dos professores se requer “vocação”
e “dedicação”; da instituição
estadual, “apoio”. No último parágrafo adjetiva
os professores como “mestres na arte da amar, regentes de orquestras
em busca de afinação e condutores de sonhos...vocês
são realizadores”. Isso nos remete ao conceito de “tipo
ideal” weberiano. O professor gerencia, viabiliza, realiza sonhos,
prepara para a vida, quer (além de merecer) estar atualizado, se
dedica a sua missão, tem vocação para este trabalho,
é um mestre na arte de amar, um regente de orquestra, etc, enfim,
o discurso converte uma idéia (ou um idealismo), um conceito, um
tipo ideal de professor e materializa-o na realidade cotidiana. Não
por acaso, usa os verbo no presente do indicativo, ou seja, como algo
que acontece no presente, um “dado de realidade”, uma afirmação
definitiva do caráter de verdade. O discurso gera no leitor a “certeza”
de que tudo o que se diz acontece de fato no “mundo real”
da educação brasileira .
Os mecanismos retóricos, poéticos e metafóricos que
tentam diluir a reflexão a respeito das condições
sócio-históricas do nosso sistema educacional, mostrando
os problemas da rede de ensino, suas contradições, suas
dificuldades, suas necessidades e, portanto, seus desafios, também
são utilizados na visão que se constrói do aluno.
Este é um fazedor, um sonhador, um desejoso, um ser com ânsia
de vida, um instrumento musical que busca ser afinado, em uma palavra,
“uma flecha rumo ao infinito” (lançada, é claro,
pelo professor). Analisemos primeiro esta última sentença:
se pensarmos na idéia de flecha lançada, e infinito, vemos
claramente uma contradição, afinal toda flecha ou tem algo
que intercepta seu movimento, ou cai por falta de velocidade e força.
No entanto, aqui a flecha – o aluno – nunca cai. Ele vai até
o infinito, o “combustível” dado pelo professor nunca
termina e ele adquire um caráter autônomo e permanente de
movimento. Quando o aluno é concebido como um eterno aprendiz do
“mestre”, ou como um instrumento musical que só precisa
ser “afinado” pelo professor, temos a reiteração
de que ele carece do professor para cumprir sua condição
existencial: seja como “flecha”, seja como “instrumento”.
O que importa é a afirmação da idéia renascentista
de incompletude, de um ser em busca de, a ser lapidado por outro, alguém
em formação, em permanente aperfeiçoamento, enfim
uma efetivação somente no “milagre do aprendizado”
encontrada na relação professor-aluno (Boto, s/d).
Ao retomarmos os recursos lingüísticos e sociais
utilizados pelo texto para a construção de um discurso político,
educacional e pedagógico, podemos essencialmente chegar em dois
pontos.
Primeiramente, uma busca, através de uma “mensagem aos professores”
de propagandear os ditos feitos da gestão atual da Secretaria Estadual
de Educação, de forma textualmente não coesiva, e
duvidosa do ponto de vista efetivo, na medida que o leitor não
tem como se assegurar que tudo tem ocorrido da forma como se diz. O autor,
ao mencionar os inúmeros fazeres da Secretaria, troca a falta de
qualidade dos dados pela quantidade de informações. Isso
nos faz questionar aquilo que nos perguntamos acima: o que está
implícito no discurso e quem é de fato o destinatário
do texto. Pois, se fosse de fato o professorado paulista, ora, não
seria ele o primeiro a saber que tudo isto tem ocorrido em sua esfera
de trabalho? Por exemplo, para que contar ao professor que ele está
sendo capacitado, que ele e seus pares têm diploma universitário,
que seu salário foi reajustado, etc, se ele vive essas melhorias?
Talvez caberia perguntar se o interlocutor do texto não ultrapassa
o próprio professorado. Os leitores da Folha de São Paulo,
de Chalita (que é escritor), da educação, não
se excluem, pelo contrário, se complementam e criam uma atmosfera
social homogênea diante da educação em geral e do
professorado paulista em particular. Não seria, portanto, propósito
do texto se aproveitar desta oportunidade – o Dia dos Professores
– para “informar” a sociedade a respeito das realizações
políticas do governo estadual . Afinal, nada mais pertinente que
trazer o próprio secretário para falar pelo governo num
meio de comunicação que se pretende facilitador do debate
público.
Segundo, a “poluição” de informações
e do oportunismo poético. A construção do discurso,
através da metaforização dos sujeitos - o professor
e aluno – suas relações, o ato de ensinar, é
formulada através do uso excessivo e até incoerente de inúmeros
recursos poéticos. Ocorre aqui, o que Ducrot (1977:25) chama de
código conotativo, ou seja, “o significado não é
mais somente o sentido do enunciado, mas o conjunto de condições
socio-psicológicas que devem ser satisfeitas para que ele seja
empregado”. Levar o leitor a conceber as relações
pedagógicas, sociais e afetivas através dos recursos retóricos
apontados acima é sensibilizar o leitor a conceber os acontecimentos
que ocorrem dentro da escola como algo idílico e poético.
De fato um “milagre”!
Bibliografia
ALTHUSSER, Louis. Ideologia e Aparelhos Ideológicos
do Estado. 3a ed. Lisboa: Presença, 1980.
BOTO, Carlota. O desencantamento da criança: entre a Renascença
e o Século das Luzes. FEUSP: s/d (mimeo).
DA MATTA, Roberto. A Casa e a Rua: espaço, cidadania, mulher e
morte no Brasil. 4a ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1991.
DUCROT, Oswald. Princípios de semântica Lingüística:
dizer e não dizer. São Paulo Ed. Cultrix, 1977.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Edições
Loyola, 1996.
GADET, Françoise e HAK, Tony. Por uma analise automática
do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux.
Campinas: Editora da Unicamp, 1990.
WEBER, Max. Economia e Sociedade - fundamentos da sociologia compreensiva
Brasília: UNB, 1994.