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LEITURA DOS ALUNOS DE EJA: UM DIAGNÓSTICO A PARTIR DO TEXTO NARRATIVO

Eliane Aparecida Cerqueira Fonseca – Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC

 1. Introdução

Codificar, compreender, interpretar e refletir sobre um escrito demanda um esforço muito grande daquele que precisa aprender e daquele que se propõe a ensinar. No processo de ensino-aprendizagem é preciso levar em consideração “o quê”, o “de quem”  e o “para quem” da leitura.

A contextualização, considerar a oralidade, as estratégias de leitura, usar os diversos gêneros textuais e muitos outros recursos que poderão contribuir para uma prática de leitura mais eficiente.

Geralmente, os alunos de EJA têm pouco domínio de escrita e da leitura, já que, muitas vezes, o tipo de trabalho ou as situações sociais das quais participam não favorecem o desenvolvimento dessas atividades. Sabe-se que esse fato, além de ser determinante para a sua exclusão sociocultural, torna-se um obstáculo para a sua aprendizagem.

Segundo Magda Soares os objetivos que cercam o ensino de leitura não ajudam a avançar.

“ (...) na escola freqüentada pelas classes populares.(...) a leitura se apresenta como uma necessidade para atender ao modo de produção das sociedades contemporâneas e para responder às exigências da cultura dominante, que se organiza , fundamentalmente, pela linguagem escrita. Saber ler ‘para arranjar serviço’ (...). Em oposição, alunos e pais de alunos das classes privilegiadas apontam a importância da leitura ‘como forma de lazer’(...)” (1995 p.48/49).

Assim, atendendo às classes dominantes, a escola atribui ao objeto de ensino de leitura a fruição, instrumento de circulação de conhecimento, como forma de participação social. Distanciando a classe popular desse objeto.Essa limitação, preocupa. A leitura é algo mais amplo e complexo assim como a constituição do sujeito-leitor. No entanto, é preciso considerar esse ponto de vista, conforme Orlandi esclarece: “(...) as classes populares têm uma finalidade pragmática(ler para se defender, eu diria), a classe dominante tem finalidade ‘construtivas’ (ler para dominar, eu diria) (...) é uma diferença que deve ser levada em conta nos métodos de leitura propostas” (1995,p.58).  

Espera-se que o aluno aprenda a ler não de acordo com um modelo (professor) mas que descubra, desvende, concorde, descorde com os vários sentidos que o texto lhe ofereça.

O problema que nos ocupa é: Os alunos de EJA do 2° segmento apresentam um perfil de sujeito-leitor? Em qual nível de ações e operações mentais os alunos apresentam  maiores dificuldades em Procedimento de leitura ?

O objetivo dessa pesquisa é identificar o nível de ações e operações mentais dos alunos de EJA do 2° segmento 5ª a 8ª séries do Ensino Fundamental em Procedimento de leitura.A hipótese é que os alunos de EJA apresentam  maiores dificuldades em Procedimento de leitura no Nível Global, pois é nesse nível que se encontram ações e operações mais complexas .  Ezequiel Theodoro explica : “As teorias clássicas na área da leitura explicitam três posturas distintas para um leitor na sua interação com os textos: o ler as linhas, o ler nas entrelinhas e o ler para além das linhas. Acreditamos que é exatamente esta terceira postura, a de ler para além das linhas que melhor caracteriza o trabalho de interlocução de um leitor crítico.” (1998 p.34).

2. Pressupostos teóricos

Conforme a consultora do MEC Maria Inês Fani,

“O processo do conhecimento passa pelo ‘saber fazer’, antes de ser possível ‘compreender e explicar’ e essa compreensão e a conceituação correspondente acabam por influenciar a ação posterior. Há, pois, uma fase inicial em que predomina a ação para obter êxito, seguida por outra, cuja característica principal é a troca constante de influência entre a ação e compreensão, ambas de nível semelhante e uma terceira em que a compreensão coordena e orienta a ação. Este processo é contínuo e culmina, numa fase posterior do desenvolvimento, com a ‘tomada de consciência’ dos instrumentos utilizados e das relações estabelecidas.” ( SAEB p.9,1999)

Assim, pode-se dizer que o processo de conhecer comporta um ciclo, pois a compreensão e a tomada de consciência dos instrumentos e das relações estabelecidas em um nível influenciam o fazer no nível seguinte. Desta forma, uma competência adquirida em um nível torna-se facilmente aplicável, com um saber fazer, no nível seguinte sem necessidade de maiores reflexões, dando origem, portanto, às habilidades instrumentais.

As competências cognitivas foram categorizadas em três níveis distintos de ações e operações mentais, que se diferenciam pela qualidade das relações estabelecidas entre o sujeito e o objeto do conhecimento: “Nível Básico, Operacional e Global” ( SAEB p.10/11,1999)

Do cruzamento entre conteúdo e competências resultam os descritores dos desempenhos desejáveis dos alunos; esses descritores, no seu conjunto, expressam a totalidade dos indicadores necessários para elaborar o material para a coleta de dados que situarão o nível de aprendizagem do aluno.

No Nível Básico encontram-se as ações que possibilitam a apreensão das características e propriedades permanentes e simultâneas de objetos comparáveis, isto é, que propiciam a construção de conceitos. Por exemplo, observar para levantar dados, descobrir informações nos objetos, acontecimentos, situações, etc...e suas representações. Para avaliar os Procedimentos de Leitura ao final do ensino fundamental os indicadores que correspondem às Competências Cognitivas do Nível Básico são:

  • Localizar informações num texto;
  • Identificar o tema/tópico central de um texto.

No Nível Operacional encontram-se as ações coordenadas que pressupõem o estabelecimento de relações entre os objetos; fazem parte desse nível os esquemas operatórios que se coordenam em estruturas reversíveis. Estas competências, que, em geral, atingem o nível da compreensão e explicação, mais que o saber fazer, supõem alguma tomada de consciência dos instrumentos e procedimentos utilizados, possibilitando sua aplicação a outros contextos. Por exemplo, classificar – organizar (separando) objetos, fatos, fenômenos, acontecimentos e suas representações, de acordo com um critério único, incluindo subclasses em classes de maior extensão. Para avaliar os Procedimentos de leitura, ao final do ensino fundamental os indicadores que correspondem às Competências Cognitivas do Nível Operacional são:

  • Relacionar uma informação identificada no texto com outras oferecidas no próprio texto ou em outro(s) texto(s);
  • Relacionar uma informação identificada no texto com outras pressupostas pelo contexto;
  • Utilizar informações oferecidas por um verbete de dicionário e/ ou de enciclopédia  na compreensão ou interpretação do texto;
  • Relacionar informações oferecidas por figuras, fotos, gráficos e/ou tabelas com as constantes no corpo de um texto.

No Nível Global encontram-se ações e operações mais complexas, que envolvem a aplicação de conhecimentos a situações diferentes e resoluções de problemas inéditos. Por exemplo analisar objetos, fatos, acontecimentos, situações, com base em princípios, padrões e valores. Para avaliar os Procedimentos de leitura ao final do ensino fundamental os indicadores que correspondem às Competências Cognitivas do Nível Global são: 

  • Depreender de uma informação explícita outra afirmação implícita no texto;
  • Inferir o sentido de uma palavra ou de uma expressão considerando o contexto e/ou universo temático e/ou estrutura morfológica da palavra (radical, afixos e flexões).

3. Metodologia

A seleção do texto levou em consideração a complexidade estrutural do texto, seu universo temático em função das características do aluno (sua idade, maturidade afetiva e intelectual e o nível de escolaridade) preocupando-se inclusive com a diversidade do domínio linguagem.

A pesquisa foi realizada com alunos atendidos pela Proposta Político Pedagógica Educação de Jovens e Adultos 2ª etapa (5ª e 8ª séries) do Ensino Fundamental da Rede Pública do Município de Ilhéus na Bahia. Um curso noturno com dois anos de duração para alunos com idade mínima de 15 anos na Escola Municipal do Banco da Vitória.

A 1ª fase tem a duração de um (01) ano e oferecerá  as disciplinas de: Língua Portuguesa, História e Geografia. No ano seguinte, a 2ª fase, oferecerá as disciplinas de: Matemática, Ciência e Inglês. Segundo a Proposta cada Centro de atendimento de EJA contará com atendimento individual aos alunos com dificuldades de aprendizagem em Língua Portuguesa e Matemática.

I - Quadro curricular do ano 2005 / Educação de Jovem e Adulto 2ª etapa = 5ª a 8ª séries

1ª FASE – 01 ANO

COMPONENTES CURRICULARES

CARGA HORÁRIA

SEMANAL

ANUAL

Língua Portuguesa

10

400

História

05

200

Geografia

05

200

Total

20

800

 

 

 

 

 

II- Quadro curricular do ano 2005 / Educação de Jovem e Adulto 2ª etapa = 5ª a 8ª séries

2ª FASE – 01 ANO

COMPONENTES CURRICULARES

CARGA HORÁRIA

SEMANAL

ANUAL

Matemática

10

400

Ciências

06

240

Inglês

04

160

Total

20

800

        

 

 

 

Assim, os alunos participantes da pesquisa pertencem a 1ª fase conforme quadro I.

           Foram elaboradas 30 (trinta) questões - 10(dez) questões de acordo com os indicadores de cada Nível: Básico,  Operacional e Global.

           O texto: “Caso de Chá” foi dado ao aluno para leitura silenciosa. No primeiro dia receberam o texto e um questionário com 15 (quinze) questões. Não houve intervenção ou auxílio durante a tarefa. A seqüência das questões seguiu a seguinte organização : as 05 primeiras pertenciam ao Nível Básico as 05 seguintes ao Operacional e 05 últimas ao Global.

           O número de participantes do primeiro dia foi maior que o segundo dia. Os alunos não foram avisados que continuariam a atividade no dia seguinte:

1° dia  33 alunos. 2° dia 23 alunos. Os alunos que não participaram dos dois dias não tiveram os resultados analisados. Portanto trabalhou-se com 23 questionários.

           O texto escolhido para testar os procedimentos de leitura é “Caso de Chá” de ANDRADE, Carlos Drummond de. Em anexo.

Questões para avaliar os procedimentos de leitura a partir das competências cognitivas do Nível Básico:

1.      Onde fica localizada a casa da velha senhora?

 Resposta esperada: Na encosta do morro

2.      Que paisagem pode ser vista da sua casa?

              Resposta esperada: O mar e o bairro todo.

3.      Para se referir à velha senhora, como o verdureiro a tratava?

Resposta esperada:  “Madame”

4.      Para se referir ao verdureiro como a velha senhora  o tratava?

 Resposta esperada: Inicialmente “senhor”  quando mais íntima “meu filho” 

5.    Qual a explicação que o verdureiro dá por ter utilizado todo o terreno?

Resposta esperada: O Chá saiu muito bom e os seus parentes lhe pede.

6.      Por que a velha senhora não utilizava para o seu consumo o chá plantado?

Resposta esperada: Não se senti bem tomando chás.

7.      Qual o conselho do verdureiro com relação ao consumo do chá pela velhinha ?

Resposta esperada: Não devia tocar no chá

8.      Depois da plantação de chá, qual é a atividade diária que passa a ter a velha senhora?

Resposta esperada: Passa a regar as plantas, com isso exercita-se mais todo o dia.

9.      Quem descobre que a plantação de chá trata-se de plantação de maconha?

Resposta esperada: O filho da Velha Senhora recém chegado da Europa.

10.  O texto “O Caso de Chá” aborda sobre que assunto?

Resposta esperada: Aborda de uma forma bem humorada sobre a plantação e venda de drogas.

Questões para avaliar os procedimentos de leitura a partir das competências cognitivas do Nível  Operacional:

              11.  Por que o terreno da casa estava abandonado?

Resposta esperada: A velha não tem condição financeira para contratar profissionais que possam manter a propriedade bem cuidada, já que não tinha saúde para fazer isso sozinha.

12.  Por que a velha senhora considera o verdureiro um “bom rapaz” ?

Resposta esperada: Mostrava-se prestativo (ofereceu-se para matar a cobra) e sempre era atencioso com seus fregueses.

13.  Por que o verdureiro pede para a velha senhora deixá-lo plantar “chá” em sua propriedade?

 Resposta esperada: Ele percebeu estar diante de uma pessoa ingênua, dócil, sozinha,,, Que não desconfiaria de seus planos.

14.  De que profissionais a velhinha precisava para manter seu terreno limpo e produtivo?

Resposta esperada: O texto cita dois: jardineiro e hortelão. (Aceita-se lavrador... Trabalhador rural, braçal...

15.  Quais os fatores que impediam que a velhinha cuidasse de horta e jardim e deixasse

tudo bem cuidado como era antes?

Resposta esperada: A sua avançada idade, falta de saúde, a condição financeira para pagar mão-de-obra, disposição.

16.  Como se comportava a velhinha diante do estado de sua propriedade?

Resposta esperada: Conformava-se com a situação.

17.  Para se referir à plantação de maconha o narrador usa outras palavras e expressões. Cite-as:

    Resposta esperada: “A pequenina cultura de chá”, “a plantação”,  “as plantinhas” plantação de chá, “a           lavoura”

18.   A ilustração do texto retrata a propriedade antes ou depois do cultivo do “chá”? Por que você chegou a essa conclusão?

Resposta esperada: Antes. Não parece lépida ou bem disposta e a tiririca crescendo por todo lugar.

19. Qual o favor que presta o verdureiro á velha e que serve de inicio da relação de amizade entre ambos?

Resposta esperada: Ele ofereceu-se para matar uma cobra e apareceu no quintal da velha senhora.

20.  Por que o filho da velha senhora quase caiu duro quando vê a plantação?

Resposta esperada: Por que percebeu que a mãe estava sendo enganada, pois aquela plantação tratava-se de plantação de maconha.

Questões para avaliar os procedimentos de leitura a partir das competências cognitivas do Nível Global :

21.  Na sua opinião quem eram os parentes que pediam chá ao verdureiro?

Resposta esperada: Usuários da droga. Viciados. Jovens, homens e mulheres que compravam a droga em sua mão.

22.  Qual a classe social da velha senhora?

Resposta esperada: Classe média (baixa)

23.  Por que o verdureiro plantou em todo o terreno?

Resposta esperada: O produto cultivado era muito procurado, estava sendo bem vendido.

24.  “... resigna-se a ver crescer a tiririca na propriedade que antes era um brinco.” O que significa no texto a palavra em destaque?

Resposta esperada: Bem cuidada, produtiva, prospera.

25.  Por que a velha sente que a plantação era também uma pouco sua?

Resposta esperada: Sentia prazer em ajudar cuidar todos os dias. O esforço para cuidar da plantação não apenas do verdureiro ela contribuía para que a produção fosse boa.

26.  O que significa no texto a palavra “ lépida”: “Achou a mãe lépida, bem

disposta.”

Resposta esperada: Mais jovem, risonha, uma boa aparência.

27.  Na sua opinião o verdureiro era amigo da velha?

Resposta esperada: Não,  agiu de má fez. Poderia prejudicá-la muito.

28.  Qual a atividade ilegal praticada pelo verdureiro?

              Resposta esperada: Plantar e vender droga (maconha)

29.  Por que o verdureiro tinha que guardar a carrocinha?

Resposta esperada: Para facilitar o seu trabalho, pois ficava mais fácil retirar a droga do quintal da velha   senhora sem despertar suspeitas.

30.  Quais as conseqüências que poderiam surgir por causa do cultivo daquele tipo de “chá” ?

            Resposta esperada: Detenção dos envolvidos, processos, morte da velha ou verdureiro.

4. Análise dos Dados

As respostas esperadas estão de acordo com o exigido pelos indicadores de cada nível serão consideradas acertos, as que não atendam a esse critério, erros. Respostas incompletas, embora tenham sido raciocinadas a partir dos indicadores serão analisadas conforme sua condição. Existem ainda àquelas que não foram respondidas. Quanto à quantidade de questões por indicadores no Nível Básico, ficaram distribuídos:

·        9 perguntas para localizar informações num texto.

·        1 para identificar o tema/tópico central de um texto.

        III – Neste quadro contém apenas participantes dos dois dias de atividade/ Nível Básico

Localizar informações num texto                     

Questão n°

ACERTOS

ERROS

INCOMPLETAS

 NÃO RESP.

01.   

23

-

-

-

02.   

15

6

2

-

03.   

15

8

-

-

04.   

9

11

3

-

05.   

6

17

-

-

06. 

19

3

-

1

07.  

15

7

-

1

08.  

16

5

1

1

09. 

17

4

1

1

Com exceção das questões de n° 4 e 5, de forma geral  o indicador do Nível Básico demonstrado no quadro III, apresenta um número maior de acerto.

 As respostas consideradas erradas para o questionamento de n°4 (Para se referir ao verdureiro como a velha senhora  o tratava?), não estavam de acordo com o solicitado no indicador, por exemplo: “Tratava muito bem e com atenção”;  “Muito agradecido mais vai incomodar a senhora”; “um moço” “O bom rapaz o verdureiro cheio de atenção” (...)

O mesmo ocorreu com a questão de n°5 (Qual a explicação que o verdureiro dá por ter utilizado todo o terreno?): “diz que torna alegre outra vez a terra abandonada”; “Que a plantação se vai estendendo por toda a área”; “Que era só para o consumo dele” (...)

Observa-se que nos casos citados o leitor não foi capaz de “localizar informações num texto”. 

       IV – Neste quadro contém apenas participantes dos dois dias de atividade/ Nível Básico

Identificar o tema/tópico central de um texto.                     

Questão n°

ACERTOS

ERROS

INCOMPLETAS

 NÃO RESP.

10.   

5

13

2

3

  Para  “indicar o tema tópico central de um texto” apresentou um índice maior de erro. Por exemplo respostas como: “A maconha”; “Sobre o verdureiro” , assim não estando de acordo com as respostas esperadas para esse indicador.

ACERTOS

ERROS

INCOMPLETO

NÃO RESP.

140=     60,869%

74=     32,173%

9=         3,913%

7=       3,043%

De modo geral, os alunos apresentaram facilidade para responder ás questões relativas as Competências Cognitivas do Nível Básico. A diferença de 28,696% separa acertos e erros.

Os resultados quanto ao  procedimento de leitura com relação ao Nível Básico ficou dentro do previsto. Portanto a maioria dos pesquisados demonstrou pouca ou nenhuma dificuldade com relação a essa competência cognitiva.

Quanto à quantidade de questões por indicadores no Nível Operacional, ficaram assim distribuídas:

  • 06 perguntas para relacionar uma informação identificada no texto com outras oferecidas no próprio texto ou em outro(s) texto(s);
  • 02 perguntas para relacionar uma informação identificada no texto com outras pressupostas pelo contexto;
  • 01 pergunta para utilizar informações oferecidas por um verbete de dicionário e/ ou de enciclopédia  na compreensão ou interpretação do texto;
  • 01 pergunta para relacionar informações oferecidas por figuras, fotos, gráficos e/ou tabelas com as constantes no corpo de um texto.

        V –Neste quadro contém apenas participantes dos dois dias de atividade/ Nível Operacional

Relacionar uma informação identificada no texto com outras oferecidas no próprio texto ou em outro(s) texto(s).                                          

Questão n°

ACERTOS

ERROS

INCOMPLETAS

NÃO RESP.

11. 

-

21

2

-

12. 

3

6

13

1

14.

5

14

2

2

17.

9

10

2

2

19.

17

5

-

1

20.

18

4

-

1

No nível operacional as respostas dos alunos não estão articuladas com as perguntas. Os alunos  comportam-se como se respondessem a um questionamento do Nível Básico. Por exemplo, a pergunta de n°11 (Por que o terreno da casa estava abandonado?) A resposta mais comum era: “Por que o jardineiro despediu-se a tempo”.Quando se esperava que o aluno percebesse que a velhinha não tinha condições para manter profissionais para cuidar da propriedade e que a mesma não tinha idade, disposição e saúde para fazer isso sozinha. Portanto, era preciso que o aluno relacionasse essas informações do texto.

        VI - Neste quadro contém apenas participantes dos dois dias de atividade/ Nível Operacional

Relacionar uma informação identificada no texto com outras pressupostas pelo contexto

Questão n°

ACERTOS

ERROS

INCOMPLETAS

NÃO RESP.

13.

2

19

-

2

15.

6

15

-

2

A pergunta de n°13 também provocou muitos erros dos 23 apenas 2 acertaram: (Por que o verdureiro pede à velha senhora deixá-lo plantar “chá” em sua propriedade?) A resposta mais comum era: “disse que estava doido por chá e que estava tão caro” .

           Novamente o aluno responde a partir do Nível Básico. Esperava-se que ele relacionasse as informações identificadas no texto com outras pressupostas pelo contexto e respondesse que o verdureiro aproveitou-se da situação, pois estava diante de uma pessoa ingênua, dócil, sozinha que não desconfiaria de seus planos. 

     VII– Neste quadro contém apenas participantes dos dois dias de atividade/ Nível Operacional

Utilizar informações oferecidas por um verbete de dicionário;                                                                                                     

Questão n°

ACERTO

ERROS

INCOMPLETAS

NÃO RESP.

16.

6

15

-

2

As palavras em negrito e selecionadas no “ PÉ-DE PÁGINA” do texto (um pequeno verbete) parecem ter sido ignoradas pelos leitores, pois não utilizaram as informações oferecidas. Nesta questão distanciaram-se muito da resposta esperada . Respostas como: “comportava-se com orgulho e prazer”; “feliz da vida”;  “normal” “muito triste”; “indignada”. Indicaram a deficiência nesse indicador.

         VIII– Neste quadro contém apenas participantes dos dois dias de atividade/ Nível Operacional

Relacionar informações oferecidas por figuras, fotos, gráficos e/ou tabelas com as constantes no corpo de um texto.

Questão n°

ACERTOS

ERROS

INCOMPLETAS

NÃO RESP.

18.

6

15

-

2

O leitor demonstrou dificuldade na relação da ilustração apresentada no texto com informação contidas no corpo do texto. A questão de n°18 recebeu  respostas do tipo: “Depois, porque a velhinha se mostrava muito feliz”; “Antes porque era uma plantação de maconha”.  

ACERTOS

ERROS

INCOMPLETO

NÃO RESP.

72=     31,304 %

124=     53,913 %

19=         8,260%

15=       6,521%

No Nível Operacional o número de acertos é bem menor que os de erro. A diferença que separa os erros e acertos é de 22,609%. Os leitores pesquisados possuem dificuldade em relacionar informações fornecidas pelo texto, pressupostas pelo contexto, verbetes e ilustrações. Essas competências precisam de maior atenção no estudo de leitura para essa turma.

Quanto à quantidade de questões por indicadores no Nível Global, ficaram assim distribuídas:

  • 8 perguntas para depreender de uma informação explícita outra afirmação implícita no texto;
  •  
  • 2 perguntas para inferir o sentido de uma palavra ou de uma expressão considerando o contexto e/ou universo temático e/ou estrutura morfológica da palavra (radical, afixos e flexões).

         IX– Neste quadro contém apenas participantes dos dois dias de atividade/ Nível Global

Depreender de uma informação explícita outra afirmação implícita no texto;

Questão n°

ACERTOS

ERROS

INCOMPLETAS

NÃO RESP.

21.

12

10

-

1

22.

13

8

-

2

23.

10

12

-

1

26.

11

9

-

3

27.

12

3

8

-

28.

4

9

7

3

29.

-

20

-

3

30.

16

4

-

3

Com exceção das questões de n° 28 e 29, os dados demonstram um certo equilíbrio entre acertos e erros. Nestas questões, os alunos apresentaram competência superior ao Nível Operacional, contrariando a teoria citada. Acredita-se que o aluno obteve  esse aproveitamento devido ao tema abordado, já que alguns dos pesquisados são usuários de drogas e outros lidam com a questão direta ou indiretamente. Portanto, o tema e o texto estão condizentes com a realidade do aluno, ficando fácil abstrair, emitir julgamento de valores, criticar, julgar,  dar opiniões nas situações apresentadas pelo texto, pois alguns acontecimentos resultam de experiências vivenciadas ou fazem parte do universo daquela comunidade.

Por exemplo, a questão de n° 21(Na sua opinião quem eram os parentes que pediam chá ao verdureiro?) Apenas um aluno relaciona “os parentes” a tios, irmãos, pai, mãe, primos. Outros transcrevem a passagem do texto. Três alunos respondem de forma vaga: “O verdureiro”; “O filho da velha”; “Anciões”. A maioria responde dentro do esperado.

A questão de n° 28 (Qual a atividade ilegal praticada pelo verdureiro?):

As interpretações foram diversificadas, alguns erros aproximam-se da resposta esperada, porém as conclusões não estavam de acordo com o exigido pelo indicador do Nível Global. Por exemplo, “Que é proibido esse tipo de plantação”; “A plantação de maconha”; “A mentira”.

A questão de n° 29 (Por que o verdureiro tinha que guardar a carrocinha?) “Por que ele não tinha lugar para guardar” – compreensão a partir do Nível Básico.  “Para que não ficasse na rua à noite”, “para não chamar a atenção”; “Por que é com ele que vende verdura”. Os alunos não observaram que a carrocinha era um veiculo de transporte da droga, indispensável para a realização dos planos do verdureiro. Portanto, essa informação implícita não foi depreendida.

      X– Neste quadro contém apenas participantes dos dois dias de atividade/ Nível Global

Inferir o sentido de uma palavra ou de uma expressão considerando o contexto e/ou universo temático e/ou estrutura morfológica da palavra.

Questão n°

ACERTOS

ERROS

INCOMPLETAS

NÃO RESP.

24.

4

18

-

1

25.

7

14

-

2

No quadro X o erro é bem acentuado, observou-se uma pobreza no vocabulário do aluno, a maior parte dos alunos relacionam “brinco” com “limpeza”(questão de n°24). Não observam contexto ou concordância. A palavra lépida  foi relacionada a “alegre”; “disposta”.

ACERTOS

ERROS

INCOMPLETO

NÃO RESPONDEU

89=      38,695%

107=    46,521%

15=          6,521%

19=     8,260%

O Nível Global apresenta número de acerto inferior ao de erro, contudo apenas 7,826% distanciam-nos. Assim, os dados analisados não são suficientes para confirmarmos a hipótese. É preciso, pois, uma nova pesquisa  com abordagem temática não tão próxima da realidade dos alunos.

5. Considerações Finais

De modo geral, os alunos apresentaram facilidade para responder as questões relativas as Competências Cognitivas do Nível Básico. Das nove questões para localizar informações num texto, apenas duas tiveram o número de erros superior ao de acertos. Apresentaram dificuldade também para identificar o tema central do texto, mas o índice total de acertos foi de 60,869%. Assim, os resultados quanto ao procedimento de leitura nesse nível ficou dentro do previsto.

  No Nível Operacional, as respostas dos alunos não estão articuladas com as perguntas. Os alunos  comportam-se como se respondessem a um questionamento do Nível Básico. Em muitos casos transcrevem informações do texto, quando deveriam fazer relações com as informações identificadas no texto. Ignoram informações fornecidas pelo verbete e alguns não souberam relacionar a ilustração com informação fornecida no corpo do texto. O índice total de acertos foi de 31,304%. Assim, a dificuldade em relacionar informações fornecidas pelo texto, pressupostas pelo contexto, verbete e ilustrações foi bastante representativa.

Os dados analisados no Nível Global demonstram um certo equilíbrio entre acertos e erros. O índice de acertos foi superior ao do Nível Operacional, 38,695%, esse diagnóstico contraria a teoria aplicada. Os critérios quanto à seleção do texto e tema interferiram no diagnóstico, alguns dos pesquisados são usuários de drogas e outros lidam com a questão direta ou indiretamente. Portanto, o tema e o texto estão condizentes com a realidade do aluno, ficando fácil abstrair, emitir julgamento de valores, criticar, julgar, dar opiniões nas situações apresentadas pelo texto, pois alguns acontecimentos resultam de experiências vivenciadas ou fazem parte do universo daquela comunidade.

Faz-se necessário uma outra pesquisa sobre o diagnóstico de leitura, considerando temas diversificados , para que se possa identificar o real perfil da turma.

6. Referências Bibliográficas

LOPES, M. M. A. et.al. Novo Português Hoje: A Comunicação Viva. Belo Horizonte. Ed. Lê,1994.

MATRIZES CURRICULARES DE REFERENCIA PARA O SAEB. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, 1999.

ORLANDI, Eni Pulcinelli. Leitura: De quem, para quem ?. In: ABREU, M. (Org.) Leituras no Brasil: antologia comemorativa pelo COLE. Campinas, SP: Mercado de Letras, 1995. p. 57-71

SILVA, Ezequiel Theodoro da. Criticidade e Leitura Ensaios: Uma leitura da leitura crítica. Campinas, SP: Mercado de Letras, 1998.

SOARES, Magda Becker. Comunicação e Expressão: O Ensino da Leitura. In: ABREU, M. (Org.) Leituras no Brasil: antologia comemorativa pelo COLE. Campinas, SP: Mercado de Letras, 1995. p. 47-50

Anexo

            

        A casa da velha senhora fica na encosta do morro, tão bem situada que dali se aprescia o bairro inteiro e o mar é uma de suas riquezas visuais o bairro inteiro. E o mar é uma de suas riquezas visuais. Mas o terreno em volta da casa vive ao abandono. O jardineiro despediu-se há tempo; hortelão, não se encontram nem por milagre. A velha moradora resigna-se a ver crescer tiririca na propriedade que antes era um brinco. Até cobra começou a passear entre a folhagem, com indolência; é uma cobrinha de nada, mas sempre assusta.

       O verdureiro que faz ponto na rua lá em baixo ofereceu-se para matá-la. A boa senhora reluta, mas não pode viver com uma cobra tomando banho de sol junto ao portão e a bicha é liquidada a pau. Bom rapaz, o verdureiro, cheio de atenções para com os fregueses na ocasião, um problema o preocupa: não tem onde guardar à noite a carrocinha de verdura.

Ora, o senhor pode guardar aqui em casa. Lugar não falta.

Muito agradecido, mas vai incomodar a madame.

Incomoda não, meu filho.

         A carrocinha passa a ser recolhida nos fundos do terreno. Todas as manhãs o dono vem retirá-la, trazendo legumes frescos para a gentil senhora. Cobra-lhe menos e até não cobra nada. Bons amigos.

          _ Madame gosta de chá?

Não posso tomar, me dá dispesia, me põe nervosa.

Pois eu sou doido por chá. Mas está tão caro que nem tenho coragem de comprar. Posso fazer um pedido? Quem sabe se a madame, com esse terreno todo sem aproveitar, não me deixa plantar uns pés, pouquinha coisa, só para o meu consumo?

Claro que deixa. Em poucas horas o quintal é capinado tudo ganha outro aspecto. Mão boa é a abandonada. Não faz mal que a plantação se vá descendendo por toda a área. A velha senhora sente prazer em ajudar o bom lavrador. Alegando que precisa fazer exercício caminhando com cautela, pois enxerga mal, ela rega as plantinhas, que lhe agradecem a atenção, prosperando rapidamente.

           _Madame sabe: minha intenção era uma só uma pequena quantidade. Mas o chá saiu tão bom que os parentes vive me pedindo um pouco e eu não vou negar a eles. É pena madame não experimentar, mas não aconselho: se faz mal, não deve mesmo tocar neste chá.

         O filho da velha senhora chegou da Europa esta noite. Lá ficou estudando. Achou a mãe lépida, bem disposta.

          _ E eu trabalho, sabe, meu querido? Todos os dias rego a plantação de chá que o moço me pediu licença para fazer no quintal. Amanhã de manhã você vai ver a beleza que está.

           O verdureiro já havia saído com a carrocinha. A senhora estende o braço, mostra com orgulho a lavoura, pelo esforço em comum, é também um pouco sua.

O filho quase caiu duro:

           _ A senhora está maluca? Isso nunca foi chá, nem aqui nem na Índia, isso é maconha, mamãe!

ANDRADE, Carlos Drummond de. Cadeira de Balanço. 29º Ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1968.

 
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