Rita de Cássia Prazeres Frangella - Instituto
de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira – CapUERJ
Este texto visa relatar e discutir experiência desenvolvida
com uma turma de alfabetização. Entendo que a leitura e
a escrita se constroem no entrelaçamento da leitura de mundo e
da palavra, exploramos o conhecimento que as crianças têm
da língua a partir do resgate do repertório cultural das
crianças e suas famílias, realizando a pesquisa, leitura
e escrita de cantigas de roda e de ninar. Busca-se a análise e
reflexão sobre o desenvolvimento do processo de aprendizagem da
leitura e escrita, numa perspectiva de letramento, buscando compreender
a dinâmica, avanços, retrocessos e impasses na tarefa de
construir uma língua viva, plena, assumindo – tanto crianças
quanto professora - o papel de sujeito na-da-pela linguagem.
Além disso, a análise do trabalho desenvolvido permite responder
questões cruciais ao processo de alfabetização, refletindo
sobre a construção de estratégias de trabalho na
alfabetização coerentes com o arcabouço teórico
que a sustenta.
Das concepções que norteiam o trabalho
Discutir as concepções que norteiam a alfabetização
significa trilhar um caminho polêmico que, nos últimos anos,
vem sendo revisto e rearticulado. O rompimento com a visão do processo
de alfabetização como sendo de aquisição mecânica
de habilidades de codificação e decodificação
da língua trouxe a compreensão da criança como sujeito,
a idéia de construção do conhecimento entre outras
que exigem pensar o como encaminhar a prática alfabetizadora.
Falo então do lugar da professora alfabetizadora que todos os dias
entra em sua sala e se questiona sobre sua prática, que tem como
desafio à tarefa de efetivamente propiciar e construir, coletivamente
com suas crianças, a alfabetização nossa de cada
dia. Só consigo me aproximar do questionamento da prática
a partir de outra questão, mas que pode potencializar a reflexão:
que sentidos estão sendo construídos com e na prática
de alfabetização? Ou seja, para que alfabetizar?
E, essa pergunta, ao mesmo tempo complicada, traz-me uma clareza quanto
aos objetivos: alfabetizar para ser leitor, para se apropriar da escrita
e da leitura de forma autônoma, criativa, para experienciar a leitura
e escrita com seus múltiplos saberes e sabores. Sim, sabores porque
implica em gosto. A clareza da resposta diante da pergunta complicada
agora começa a apresentar suas dificuldades: como faze-lo? No que
isto implica?
No horizonte dessa discussão antevejo como caminho possível
para encaminha-la a questão do letramento. Letramento? Mais uma
inovação na área? Novos nomes, novas propostas que
às vezes de tão novas e rápidas perdem sua força
de mudança e reflexão pela superficialidade com que são
tratadas. E esse é o risco com o qual o conceito de letramento
é ameaçado.
Novamente volto para minha sala de aula, meu fazer de alfabetizadora e
antes de tudo preciso me indagar: como novas idéias se ligam a
minha prática? Como me ajudam a pensar e reconstruir meu cotidiano?
A idéia de letramento não é nova, mas apenas nos
últimos anos tem se difundido e ganhado força nas discussões
no campo da alfabetização. Sua invenção, para
usar os termos de Soares (2003), se enraíza num contexto de questionamento
sobre as práticas de leitura e escrita que exigiam mais que saber
ler e escrever evidenciado pela aprendizagem inicial, mas exigiam uma
certa fluência, domínio do ler e escrever. Esse movimento
não se deu exclusivamente no Brasil, mas em diversos países
que se deparavam com as dificuldades dos sujeitos em fazer uso da leitura
e da escrita em práticas sociais que as envolvam. Sendo assim,
letramento vem sendo definido como:
Estado ou condição que adquire um grupo social ou um indivíduo
como conseqüência de ter-se apropriado da escrita (Soares,
1998; 1996).
Apropriar-se: tornar próprio, desenvolver uma
atividade com propriedade – esse é o desafio que o letramento
traz para o cotidiano, deixando claro que essa condição
está para além do saber e ler e escrever, indicando um uso
diferencial da leitura e da escrita.
Se o processo de histórico que faz emergir o conceito de letramento
aponta para a insuficiência para o termo alfabetização
na abordagem da leitura e escrita devido a sua complexidade e multiplicidade,
o letramento apontaria para o desenvolvimento dos usos sociais da leitura
e escrita, indo para além do domínio do código.
O fenômeno do letramento desenha um novo horizonte para os objetivos
traçados para aprendizagem da leitura e escrita. Apropriar-se da
escrita implica compreensão do uso da escrita, nos usos sociais
e exploração-produção de textos, da escrita
em sua plenitude. Fica evidente a identificação de um processo
de aquisição e domínio gradual da língua em
função do contato mais freqüente com essa.
Assim, a noção de letramento nos permite lançar novos
olhares a antigas questões, a busca por re-inventar as práticas
cotidianas do alfabetizar. Seria errôneo pensar no letramento como
superação da alfabetização, mas de considerando
a especificidade de cada processo pensá-los como interpenetráveis,
de complementaridade. Há a assunção de desafios a
escola, que passam não só pela a construção
de novas práticas, mas na necessidade de remexer nas concepções
que norteiam a prática da leitura e escrita na escola, cabe ensinar
não só a ler e escrever, mas os usos da leitura e escrita,
ampliando as possibilidades no diálogo intenso com diferentes produções,
diferentes gêneros textuais, dando, de fato, espaço para
que a leitura e a escrita se façam presentes dentro da escola,
o que significa também romper com a idéia de que esse espaço
se dá nas aulas de língua. A idéia de letramento
se dá perpassando o currículo alinhavando práticas
que estão à frente da disciplinarização que
ainda é marca da escola.
Das práticas vividas...
Achar que somente por imersão a eventos de letramento as crianças
naturalmente aprenderão a ler e escrever é conclusão
simplista que, ao invés de promover o avanço nas discussões
sobre a alfabetização a descaracterizariam, distorcendo-as.
Corre-se o risco do reducionismo de, ainda que implicitamente, transmutar
o letramento em método.
Esse é um dos equívocos a serem desfeitos: crer na capacidade
criadora da criança e na construção de conhecimentos
não implica numa postura espontaneísta. È necessário
e urgente pensar em estratégias, atividades significativas que
possam ser desenvolvidas nesse processo. Como seres sociais imersos na
linguagem, estamos sempre interagindo. E essa interação
se dá com uma língua viva, dinâmica, múltipla,
cheia de sabores e saberes, que precisa ser provada, gostada, sentida,
vivida. Por isso nosso cotidiano é cheio de músicas, textos,
notícias, brincadeiras na e pela linguagem. Exploramos o conhecimento
que as crianças tem da língua construindo pontes para que
este seja ampliando, conquistando novas possibilidades. Assim, aprendemos
a ler lendo, a escrever escrevendo, sem simulação, mas assumindo
o papel de sujeito na-da-pela linguagem.
As atividades que envolvem a leitura e escrita têm por princípio
remeter aos usos sociais que delas fazemos. Além disso, de forma
lúdica, recorremos ao repertório sócio-cultural,
à tradição oral para, a partir dos saberes que já
temos, construir novos. Assim quadrinhas, músicas, poesias, narrativas,
imagens, cantigas de roda e de ninar são pesquisadas e trabalhadas
no cotidiano. Investimos na possibilidade de expressão e diálogo
com e na leitura e escrita.
A proposta de trabalho com cantigas de roda e de ninar se apresentou como
estratégia por permitir o envolvimento das crianças com
a leitura, onde mesmo sem saber ler (convencionalmente), elas liam, se
colocavam no papel de leitores dos textos recorrendo ao repertório
oral e cultural. Na medida em que liam, mais leituras eram desejadas e
partilhadas pelo grupo.
Essa experiência faz-nos refletir sobre os materiais e leituras
utilizados na alfabetização. A pesquisa de cantigas de roda
e de ninar rompe com a dicotomia entre “textos para ensinar a ler”
e os textos que se dão a ler. Os textos pesquisados são
significativos, pois remetem às diversas experiências sócio-culturais
que os tornam vivos, dinâmicos, repletos de possibilidades de leitura
para além da decodificação: leitura do mundo, das
trajetórias diversas, de experiências plurais que são
partilhadas.
Cabe destacar o envolvimento das famílias no trabalho de pesquisa,
revelando histórias, tradições e diferentes culturas
sendo negociadas e resignificadas. O entendimento do signo como arena
de confronto em torno do significado pressupõe negociação,
articulação, na constituição do que Bakthin
(2004) chama auditório social. Assim, o caráter dinâmico
e dialógico da linguagem é entendido como espaço
formativo de desarticulação/articulação e
não de substituição da linguagem. O embate gerado,
as negociações enfrentadas são processos produtivos
que reconstroem continuamente a linguagem e os sujeitos, enraizados no
terreno da cultura.
A proposta de trabalho se sustenta numa prática onde as crianças
são vistas como sujeitos da e na cultura, não só
sofrem a sua influência, mas são produtoras de cultura uma
vez que a resiginifica e rearticula. A aprendizagem da leitura e escrita
não pode se fazer descolada do contexto histórico-sócio-cultural
das crianças. Isso traz a tona o desafio das diferenças
presentes entre grupos culturais e o desafio do diálogo entre eles.
As crianças aprendem a ler e escrever na medida em que agem e pensam
envolvidas na atividade de ler escrever. Estabelecem relações,
põem seus conhecimentos em jogo e agem. O papel das professoras
e agir como mediadoras propondo atividades significativas e desafiadoras
onde as crianças ao realizá-las questionem suas certezas
e comparando e refletindo possam elaborar novas hipóteses acerca
da leitura e escrita. Novamente é ressaltado aqui o papel do outro
como mediador que diálogo, que confronto e que agem conjuntamente,
não fazem pela criança, mas com ela. Aqui vale destacar
que essa mediação não é só feita pela
professora, mas também nas relações criança-criança.
Assim, temos proposto situações de trabalho em conjunto,
em duplas ou grupos até maiores onde os conhecimentos diferentes
que cada um possui são postos na mesa e confrontados, discutidos
ampliando as possibilidades de todos. Vygotsky (1991) nos ajuda a pensar
sobre a importância desse trabalho cooperativo quando explica, o
que chamou de zona de desenvolvimento proximal.
O trabalho de leitura das diferentes cantigas nos permite oferecer situações
onde as crianças põem em xeque seus conhecimentos e desenvolvem
as diferentes estratégias de leitura. É de suma importância
a realização de atividades que permitam o desenvolvimento
das diferentes estratégias de leitura, uma vez que entendemos que
a leitura não se calca na decodificação somente.
Além disso, a observação das estratégias desenvolvidas
permite conhecer os caminhos percorridos por cada um na construção
da leitura e escrita. Conhecedoras das hipóteses e conhecimentos
das crianças temos em mãos um rico material apara construirmos
possibilidades de intervenção qualificada e planejar situações
pertinentes ao momento e que permitam o desenvolvimento desse processo.
Sabemos que essa não é uma construção linear,
que se dá de uma vez por todas e igual para todos, mas temos percebido
os avanços e conquistas de cada um.
O trabalho com as cantigas nos permite criar estratégias de intervenção
junto às crianças de modo a assegurar o efetivo trabalho
com e na linguagem que encaminhe de fato à conquista do conhecimento
da língua escrita. Explorando a ludicidade que as cantigas fazem
emergir, é possível penetrar na língua, percebendo
seu funcionamento. Para tanto, é fundamental a compreensão
de que letramento e alfabetização são processos distintos
e que sua entrada na prática escolar não pode sugerir a
perda da especificidade da alfabetização, que precisa ser
discutida em suas necessidade, inclusive metodológicas que possibilitem
a apropriação do sistema de escrita alfabético e
ortográfico, torna-se importante que esse processo inicial se de
num contexto de letramento, contribuindo para a produção
de sentidos na e pela prática alfabetizadora.
O trabalho com as cantigas une o objetivo de alfabetizar letrando, ou
seja, imerso num contexto onde práticas sociais de linguagem efetivamente
são vividas há também o trabalho específico
voltado para a construção do conhecimento sobre e com a
língua escrita. Não se trata de hierarquizar os momentos,
mas faze-los entrelaçados no cotidiano escolar.A polêmica
dos métodos hoje vivenciada tenta, de certa forma, retomar a especificidade
da alfabetização.
O desenvolvimento deste trabalho nos permite tratar tanto as questões
referentes à aquisição do sistema alfabético
quanto o trabalho com textos sociais plenos de significado. As crianças,
na leitura das cantigas pesquisadas, recorriam à oralidade , ao
fato de saberem de memória o texto apresentado. As intervenções
feitas problematizavam a leitura exigindo delas a busca por outras estratégias
de exploração do texto. Dessa forma, há o investimento
em proporcionar atividades contextualizadas e significativas sem perder
de vista a especificidade da alfabetização e das questões
que envolvem a aprendizagem da escrita: percepção das regularidades,
consciência fonológica, etc. Explorando as rimas, aliterações,
das cantigas para o trabalho com a alfabetização.
O envolvimento no trabalho não se restringe a esse aspecto, mas
propiciou na medida que se atenta para os sentidos possíveis de
produção significativa, a ampliação e o convite
para o encontro com outros textos. O brincar de roda levou a pesquisa
de brincadeiras e brinquedos, à leitura de poemas numa intertextualidade
explícita.
E nesses movimentos há encontros interessantes. Destaco um dos
momentos vividos, transcrevendo trechos do Diário de bordo da turma:
A ênfase na criação em diálogo
com diversas produções ganhou destaque nos projetos desenvolvidos,
principalmente “Brinquedos e brincadeiras” que nos permitiu
trilhar um caminho variado de poesias, construções concretas,
diálogo com obras de arte, pintura, desenho, de forma a proporcionar
um desenvolvimento integral de todos enquanto sujeitos leitores e escritores
que lêem a palavra, a palavramundo (trecho de texto de avaliação
dos trabalhos do 4º. Bimestre de 2004).
As crianças cruzaram suas produções e pesquisas ampliando-as
indo além da palavra escrita. Nisso encontramos com Portinari e
sua obra. Várias leituras foram feitas, análises de suas
obras, reprodução e recriação delas ... O
menino de Brodosqui alargou nossa leitura, trouxe brinquedos e entrou
na roda, cantando com as crianças histórias de outras infâncias,
de outros momentos resignificados por uma classe de alfabetização.
Mas essa é outra história, para ser contada em outro momento,
em outra volta dessa ciranda.
Por enquanto fica a reflexão que a retomada do trabalho propicia,
de que precisa ser incluído na discussão sobre alfabetização
é que não há um único método para ensinar
a ler e escrever, mas diversas e diferentes alternativas que se ligam
às múltiplas facetas da alfabetização. Que
pensar a alfabetização significa repensar criticamente que
sentidos conferimos à aprendizagem da língua, no desafio
de alfabetizar letrando, ou como encaminha Soares (2003:14)
Sobretudo no momento atual, em que os equívocos
e falsas inferências anteriormente mencionados levaram alfabetização
e letramento a se confundirem, com prevalência deste último
e perda de especificidade da primeira, o que se constitui como uma das
causas do fracasso em alfabetização que hoje ainda se verifica
nas escolas brasileiras, a distinção entre os dois processos
e conseqüente recuperação da especificidade da alfabetização
tornam-se metodologicamente e até politicamente convenientes, desde
que essa distinção e a especificidade da alfabetização
não sejam entendidas como independência de um processo em
relação ao outro, ou como precedência de um em relação
ao outro. Assegurados esses pressupostos, a reinvenção da
alfabetização revela-se necessária, sem se tornar
perigosa.