| |
PERSONAGENS E NARRATIVA: DOIS ELEMENTOS ENTRELAÇADOS
EM L’ARMATA BRANCALEONE
João
André Brito Garboggini - Docente do Centro de Linguagem e Comunicação
da PUC-Campinas
Resumo
No presente trabalho pretendo apresentar as premissas metodológicas
dentro das quais foi realizada uma análise do filme "L’Armata
Brancaleone" (1965-1966) de Mario Monicelli. Na análise procurei
decompor o filme em seqüências/episódios para estudar
o percurso das personagens dentro da narrativa. Apresento aqui as condições
nas quais as personagens do Exército de Brancaleone se constituem,
bem como procuro perceber de que maneira pode se dar o diálogo
das personagens entre si e com a narrativa aonde se desenrolará
sua trajetória e, quais as possíveis referências de
Mario Monicelli para construir uma noção particular de um
período histórico especificado como medieval.
L’Armata
Brancaleone: uma personagem coletiva
Talvez o que exista de comum entre os filmes L’Armata Brancaleone
de Mario Monicelli e Il Viaggio de Capitan Fracassa (1990) de Ettore Scola
seja a viagem de um grupo de cômicos populares italianos. Scola
trata de uma refinada encenação de um teatro seiscentista
e cortesão inspirada nas páginas do romance homônimo
de Théophile Gautier . Mostra uma trupe de comediantes que parte
da miséria em direção à Paris, e ruma para
o afrancesamento da commedia dell’arte . Em L’Armata Brancaleone,
a viagem se dá em direção ao Sul da Itália,
para a região conhecida como Mezzogiorno . É uma marcha
em direção a uma zona miserável e abandonada.
O Sul da Itália, segundo a historiografia e o senso comum, sempre
foi uma região considerada inferior, em relação ao
Norte. É do sul da Itália que emigram alguns zanni da commedia
dell’arte, para serem servos nas cidades consideradas civilizadas
do norte italiano. É de Nápoles que vem Pulcinella; Brighella,
provavelmente também é um emigrante desta cidade , servos
que prestam seus serviços nas cidades italianas da região
norte.
O grupo teatral do filme de Ettore Scola vaga em direção
a uma região mais rica, em busca de oportunidades. O grupo cômico
de L’Armata Brancaleone, não é assumido como uma companhia
teatral, antes está mascarado de “Exército”
e viaja em direção à Puglia, de onde prosseguirá
em direção ao mar e, como se vê no segundo filme sobre
Brancaleone, o alegre e barulhento Brancaleone alle crociate (1970), a
marcha em direção à Terra Santa revela-se como uma
viagem em direção ao Oriente.
No segundo filme centrado em Brancaleone, é importante o encontro
do cavaleiro com a personificação da Morte. Essa alegoria
que persegue o cavaleiro durante a jornada, talvez satirizasse O Sétimo
Selo (“Det Sjunde Inseglet – 1957) de Ingmar Bergman. No entanto,
a Morte não consegue destruir o cavaleiro que, durante uma luta,
é salvo pela jovem bruxa Tiburzia. Ela se coloca entre Brancaleone
e a lâmina da foice empunhada pela Morte, salvando o cavaleiro.
A bruxa talvez represente a magia que eterniza a imagem do cavaleiro,
diferenciando-o de Antonius Block, o cavaleiro de Bergman, levado pela
Morte ao lado de sua família e amigos.
O fato de Brancaleone não morrer no final do segundo filme indica
um desejo de continuar a série sobre o cavaleiro. Se for levada
em conta a possível relação da personagem Brancaleone
com o Dom Quixote, que também se compõe de duas partes,
pode-se arriscar que os dois filmes de Brancaleone, além de terem
esta ligação com o romance de Cervantes, tratam de sua própria
natureza cinematográfica, assim como o Dom Quixote é um
livro que trata de livros, onde a narrativa escrita constrói imagens.
Essa presença da referência à natureza da narrativa
fílmica nos filmes sobre Brancaleone, estariam, sobretudo quando,
no segundo filme, o cavaleiro, ao ser salvo por uma bruxa, estaria sendo
salvo pela magia da ficção cinematográfica, e pela
narrativa construída sobre um mundo manipulado de imagens, sons
e vozes que dispensa a presença de documentos escritos.
Em Brancaleone alle crociate, há uma referência ao livro
quando as personagens entram numa gruta obscura para consultar um ermitão,
cercado de grandes livros empoeirados. Em L’Armata Brancaleone a
única cena que se refere à leitura, é quando a personagem
Abacuc lê o pergaminho que guia o Exército de Brancaleone
para seu objetivo central: A Conquista de Aurocastro.
Em “L´Armata Brancaleone” (1965/66) Monicelli recupera,
ao lado de Suso Cecchi D’Amico, Age e Scarpelli, um grupo à
margem da sociedade medieval italiana. Continua sua experiência
de, por meio da comédia, propor reflexões sobre situações
e personagens do lumpemproleariado que vivem nas bordas da sociedade.
Nesse filme, reconstrói uma Itália medieval maltrapilha,
abandonada e achincalha a instituição militar. Um exército
clandestino que, sem nenhuma consciência de sua insignificância,
parte em busca de um feudo. É possível associar esse exército
incompetente ao exército italiano da II Guerra, comandado pelo
Duce, que estaria sendo satirizado na figura de Brancaleone.
Esses elementos críticos presentes nas comédias de Monicelli
renovam o gênero na cinematografia italiana, sem perder suas características
e remontam a uma tradição do gênero cômico.
Em suas entrevistas, Monicelli freqüentemente refere-se à
commedia dell´arte como fonte do que seria a commedia all´italiana
cinematográfica herdeira dos palcos teatrais mais populares na
Itália. Aí a commedia dell’arte possuía um
traço de crítica social, ao construir personagens a partir
de suas origens sociais e geográficas, além de tratar de
modo cômico de assuntos que poderiam ser tomados como sérios,
como a fome, a morte e outras dificuldades causadas pela desigualdade
social. O embate entre os diversos níveis sociais e dialetos presentes
na commedia dell’arte, dentro de uma ingenuidade e simplicidade,
desafiava o instituído, mostrando patrões, empregados e
amantes de forma caricatural.
A criação de personagens em "L´Armata Brancaleone",
assim como em outros filmes de Monicelli, é fundamental. Isto também
remonta à tradição teatral popular da Commedia dell'Arte.
Monicelli parte da criação de suas personagens para chegar
às situações que compõem os roteiros. Também
existe uma preocupação do diretor em utilizar enquadramentos
nos quais os grupos de personagens, como grupos sociais que lutam para
conquistar objetivos maiores do que eles, levando-os a falharem, criando
a imagem de anti-heróis. Essas comédias, logo, acabam com
finais nem sempre felizes.
O Exército de Brancaleone, formado por um grupo de bufões
, evolui num jogo encenado em cada local por onde passa, com uma linguagem
improvisada e dialetal, de onde os roteiristas Age e Sacarpelli adaptaram
o seu gosto de deformar as palavras: uma complicada mistura de latim macarrônico
e pré-vulgar inventado, realmente difícil de entender .
Um idioma híbrido, criado para o filme sem compromisso com a reprodução
histórica literal, mas com a construção de uma fidelidade
atmosférica relacionada à Idade Média da Península
Itálica. A criação desse simulacro lingüístico
ficcional para o filme de Monicelli recupera a diversidade dialetal das
máscaras da Commedia dell’Arte.
Essa elaboração de personagens tipificadas e a construção
de uma narrativa ocorrem em uma sucessão de incidentes ocorridos
durante a marcha de Brancaleone e sua trupe e isto constitui o fio narrativo
do filme. Esse fio, em vez de fluir veloz se afrouxa e é interrompido,
dando a impressão de construir uma rede de itinerários,
obstáculos, perseguições, enganos, duelos e torneios
, ameaçando constantemente o percurso inicial da viagem rumo ao
feudo de Aurocastro.
As relações das criações teatrais e literárias
com esse filme de Monicelli possibilitam interpretá-lo a partir
de dois nexos importantes: 1) a elaboração de personagens
fortemente construídas a partir de suas características
sociais e sua aparência exterior, deixando em segundo plano seus
conflitos interiores; 2) sua estrutura narrativa forjada sobre um roteiro
de episódios aparentemente autônomos entre si e que, no entanto,
conferem ao filme uma linearidade tênue alicerçada na jornada
do grupo em direção à Puglia.
Há um diálogo entre essas personagens e a narrativa fílmica,
que os entrelaça. Dessa forma, as personagens podem existir antes
da elaboração do roteiro e este ser construído a
partir de suas características. O roteiro pode ter sua forma já
estruturada, enquanto seqüência narrativa e, por sua vez, as
personagens serem construídas no desenrolar das cenas.
Assim é possível realizar uma análise das personagens,
com seus atributos e funções dentro da narrativa fílmica,
desmembrando as seqüências de acontecimentos que engendram
os episódios constituintes da narrativa que compõe, ao fim
e ao cabo, o roteiro como um todo.
Análise
das personagens e da narrativa
No plano das personagens, é possível enfatizar seus atributos,
em três rubricas fundamentais: aparência e nomenclatura, particularidades
de entrada em cena e habitat baseado no estudo realizado por Vladimir
Propp sobre a Morfologia do Conto Maravilhoso .
No roteiro, a proposta é de isolar os episódios constituintes
do filme, utilizando conceitualmente o ponto de vista metodólogico
da Morfologia do Conto Maravilhoso:
Do ponto de vista morfológico podemos chamar de conto de magia
a todo desenvolvimento narrativo que, partindo de um plano (A) ou uma
carência (a) e passando por funções intermediárias,
termina com o casamento (Wo) ou outras funções utilizadas
como desenlace. A função final pode ser a recompensa (F)
a obtenção do objeto procurado ou, de modo mais geral, a
reparação do dano (K), o salvamento da perseguição
(Rs), etc. A este desenvolvimento damos o nome de SEQÜÊNCIA.
A cada novo dano ou prejuízo, a cada nova carência, origina-se
uma nova seqüência. Um conto pode compreender várias
seqüências e quando se analisa um texto deve-se determinar,
em primeiro lugar, de quantas seqüências esses textos se compõem.
Logo esta noção de seqüência não se restringe
apenas a acontecimento Substituindo a experessão “conto de
magia” por “narrativa fílmica”, a idéia
é analisar as várias “seqüências”
do enredo de L’Armata Brancaleone, definindo a cada novo dano ou
prejuízo, a cada nova necessidade, o início de uma nova
seqüência que se segue à anterior, que será chamada
de “episódio”. Colocar lado a lado os episódios
fílmicos é um procedimento análogo aos romances de
cavalaria, em sua estrutura. Dessa maneira pode-se pensar que os episódios/aventuras
cavalheirescas são semelhantes.
Para Propp, os contos maravilhosos possuem uma particularidade: as partes
constituintes de um conto podem ser transportadas para outro sem nenhuma
alteração , o que o autor chama de lei da permutabilidade
. A partir disso é possível encontrar uma relação
entre conto maravilhoso e romance de cavalaria, devido à elaboração
da narrativa cavalheiresca efetivar-se a partir da transposição
de personagens e ações de um gênero para o outro.
Um episódio de Lancelot, o Cavaleiro da Charrete de Chrétien
de Troyes poderia ser transposto para uma outra narrativa de cavalaria,
com um outro cavaleiro, Brancaleone, por exemplo, executando as ações
que compõem aquele determinado episódio do “romance”.
Assim, selecionando diversos episódios de diversas narrativas desse
topos da linguagem, com personagens variados e distribuindo-os numa seqüência
elaborada dentro de um determinado lugar enunciativo, seria possível
elaborar uma outra narrativa cavalheiresca assemelhada com a primeira.
O roteiro do filme de Monicelli pode ser lido como uma seqüência
de episódios. Essa narrativa ordena-se por acontecimentos que,
independente de sua duração, se tornam puntiformes, ligados
por segmentos retilíneos, num desenho em ziguezagues que corresponde
a um movimento ininterrupto . A narrativa das aventuras se dá como
uma fieira de episódios unidos, de modo um tanto frouxa pelo fio
condutor da marcha do Exército, isto é, o enredo de aventuras
engendra o romance de cavalaria . Segundo Mikhail Bakhtin, os heróis
dos romances de cavalaria da Idade Média saem para a estrada, onde,
via de regra, todos os acontecimentos se desenrolam ou estão concentrados
. Essa ordem narrativa pode se encontrar no filme de Monicelli. Pois,
apesar da constante reafirmação do objetivo principal do
Exército de Brancaleone, os episódios nos quais os protagonistas
se envolvem adquirem uma intensidade que desvia as atenções
da linha central da ação, fazendo com que ela fique tênue
e esses episódios superem a linearidade do filme e dêem a
impressão de autonomia dos episódios entre si.
Essa relação frouxa entre os episódios é obtida
através de uma montagem coerente, porém nem sempre compromissada
com a linearidade. Tudo no filme flui de um episódio para o seguinte,
onde a lógica se constrói dentro da idéia de que
os episódios, à primeira vista independentes entre si, poderiam
ser organizados de diversas maneiras sem prejuízo do encadeamento
cinedramático.
Apesar da narrativa fílmica, como um todo, ser necessária
para uma recepção mais satisfatória do filme, cada
um dos episódios poderia ser destacado do conjunto e estudado isoladamente
. É interessante, portanto, delimitar cada episódio a fim
de localizar a noção de começo e fim deles. Pode-se
entender que a composição e ordenação das
seqüências formam um episódio . Assim, é possível
que o roteiro de um filme seja uma composição e ordenação
dos episódios, para descrever e exaurir, com equilíbrio
e clareza de sucessões lógicas e temporais a narrativa fílmica.
Segundo Erich Auerbach, o termo aventura refere-se ao romance de cavalaria
cortês medieval; uma forma extremamente peculiar e estranha de acontecimento,
criada pela cultura cortesã . Um episódio no qual o cavaleiro
é colocado constantemente à prova, de maneira voluntária
e incessantemente renovada para que a imagem do cavaleiro andante seja
conservada. O cavaleiro é jogado para além dos limites do
mundo conhecido, em paragens ignotas e longínquas. Uma das diferenças
em relação aos romances de cavalaria medievais é
que as aventuras de Brancaleone, como as de Dom Quixote, têm seu
início, porém seu meio sempre leva a um desenlace fracassado
e cômico. Todas as aventuras de Brancaleone terminam em desastre.
Mesmo sua conquista final da cidade de Aurocastro não é
bem sucedida o que permite um final aberto, como se a história
de Brancaleone não terminasse ali. Esses insucessos de Brancaleone
e seu Exército não estancam a marcha dessa gente que padece
com suas derrotas, todavia se recupera a partir de motivação,
muitas vezes inesperada, insólita ou insignificante, que leva o
bando a retomar sua jornada. O caminho percorrido pelo Exército
de Brancaleone, diferencia-se dos contos maravilhosos e também
dos caminhos fantásticos dos cavaleiros corteses medievais. Não
ultrapassa os limites do geograficamente conhecido, não tem perigos
sobrenaturais, ameaçadores e originados na ação de
deuses, espíritos, encantamentos, demônios ou outras forças
mágicas. Brancaleone e seus companheiros deparam-se com obstáculos
materiais e dificuldades prosaicas. A coragem do Exército de Brancaleone
existe, pois os obstáculos são superados. Não vencidos,
mas esquecidos no instante em que uma nova possibilidade de continuar
a marcha se apresenta, mesmo que essa motivação não
esteja ligada à conquista final de Aurocastro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMICO, Masolino,
La Commedia all'Italiana: il Cinema Comico in Italia dal 1945 al 1975.
Milano: A. Mondadori, c. 1985.
ARISTARCO, Guido, História das Teorias do Cinema - II Volume. Lisboa:
Ed. Arcádia, 1963.
AUERBACH, Erich, Mimesis. São Paulo: Perspectiva, 1994.
BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich, Questões de Literatura e de Estética:
a Teoria do Romance. São Paulo: Editora UNESP: Editora Hucitec,
1988.
CALVINO, Ítalo, O Cavaleiro Inexistente. São Paulo: Companhia
das Letras, 1993.
______________, Seis Propostas para o Próximo Milênio, São
Paulo: Cia. das Letras, 1990.
DUCHARTRE, Pierre Louis, The Italian Comedy. New York: Dover, 1966.
GRAMSCI, Antonio, A Questão Meridional. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1987.
HOBSBAWN, Eric, A Era dos Extremos – O breve século XX (1914-1991).
São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
MEYER, Marlise. Pirineus, Caiçaras...: da Commedia dell'Arte ao
Bumba meu Boi. Campinas, SP: editora da UNICAMP, 1991.
MICCICHÉ, Lino, Cinema Italiano: gli anni’ 60 e oltre. Venezia:
Marsilio Editori, 1998.
PECCIANTI, Maria Cristina, Storie della Storia d’Italia. Firenze:
Manzuoli Editore, 1988.
PROPP, Vladimir, Morfologia do Conto Maravilhoso. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 1984.
SCALA, Flaminio, A Loucura de Isabella e outra comédias da Commedia
dell’Arte. São Paulo: Editora Iluminuras/FAPESP, 2003.
SIGAL, Pierre André, Brancaleone s’en va-t-aux croisades:
satire d’un moyen âge conventionnel. In Les Cahiers dela Cinematheque,
N. 42/43 ETE 1985.70F – Le Moyen au cinema.
TROYES, Chrétien, Romances da Távola Redonda. São
Paulo: Martins Fontes, 1991. |
|