Angela B. Kleiman: Orientadora
Paula Baracat De Grande - Unicamp
1. Introdução
O presente artigo apresenta as reflexões sobre
a formação do professor de Língua Portuguesa provocadas
pelo meu projeto de Iniciação Científica Retextualização
e compreensão dos gêneros do discurso científico por
professores em formação, iniciado em setembro de 2004, junto
ao grupo Letramento do Professor, orientado pela Profª. Dr.ª
Angela B. Kleiman.
Nas últimas décadas, os textos de acadêmicos/ pesquisadores
sobre a formação do professor de língua, assim como
os documentos oficiais, como os PCNs, têm afirmado que o conhecimento
dos professores é insuficiente para sua prática profissional.
Porém, não houve de imediato orientação aos
professores sobre como sanar a defasagem apontada por essas críticas.
Com o objetivo de contribuir para a formação do professor,
o projeto Letramento do Professor visa a refletir sobre suas práticas
de letramento no trabalho e sobre as demandas de leitura feitas pelos
documentos oficiais e pela academia, abordando o que o professor precisa
hoje para exercer sua profissão. A premissa do projeto é
que o letramento do professor é fundamental para a melhora do ensino
da língua materna e, por isso, o projeto visa a conhecer e produzir
conhecimento sobre sua formação e suas práticas,
tanto na leitura como na produção de textos.
2. O contexto da pesquisa
A pesquisa apresentada aqui teve como corpus relatórios
de leitura produzidos por alunos do quinto semestre de Letras de uma faculdade
do interior de São Paulo sem tradição de pesquisa.
O curso tem duração de três anos e os alunos estudam
no período noturno, sendo que a maioria trabalha nos outros períodos.
Os relatórios de leitura foram produzidos como uma atividade solicitada
pela professora da disciplina Laboratório de Leitura e Redação
I. A maioria é baseada na leitura de textos para a formação
do professor da área da Lingüística e da Lingüística
Aplicada.
A pesquisa que desenvolvemos está intrinsecamente ligada à
produção de textos dos gêneros da esfera acadêmica.
Os relatórios de leitura, inseridos nos gênero de produção
acadêmica, pressupõem características dessa esfera
de comunicação. Apesar do foco da análise estar na
produção escrita de retextualizações, esta
é precedida da leitura de um texto pertencente a gêneros
do discurso científico. Dessa maneira, a pesquisa também
visa à análise da compreensão de textos de tais gêneros.
O corpus, formado por 151 relatórios de leitura suscitou questões
que evolvem tanto a compreensão de textos dos gêneros do
discurso científico como também a produção
de textos por parte dos alunos. Essa reflexão sobre a leitura e
a produção de textos da esfera acadêmica pode ser
relevante para os formadores de professores pensar sobre o processo de
letramento envolvido na formação do professor de Letras.
A atividade solicitada, os relatórios de leitura, tinha como objetivo,
segundo a professora do curso, obter informações sobre a
compreensão que os alunos alcançaram, como também
determinar as leituras da disciplina, já que essas seriam cobradas
com a entrega dos relatórios. Em aulas posteriores à produção
dos relatórios, a professora diz que era sua intenção
que os alunos escrevessem sem direcionamento primeiro, para depois analisar
as diferenças nos textos uma vez que o gênero fosse trabalhado.
Os alunos estavam sendo introduzidos à leitura de gêneros
acadêmicos escritos e às características dos textos
do gênero. A análise dos relatórios de leitura produzidos
por eles permite perceber os modos de apropriação desses
gêneros e as dificuldades que eles apresentam para os estudantes.
Esses relatórios são retextualizações de um
texto base (o artigo científico) que envolvem a produção
de um novo texto, pertencente a um outro gênero (o relatório)
e destinado a outro interlocutor (o professor).
Segundo Goffman (apud Matencio, 2003), na retextualização
o sujeito produz um novo texto, com outro objetivo, outra interação,
outro enquadre, sendo que por enquadre entende-se o processo de reorganização
que o sujeito faz de informações novas em seus modelos mentais.
3 Análise
Para refletir sobre o enquadre dado pelos alunos aos textos
dos gêneros científicos, analisamos as estratégias
usadas pelos sujeitos para fazer referência ao discurso do outro
em seu próprio discurso, o gerenciamento de vozes.
As análises na literatura a respeito (Matencio, 2003) afirmam que
o gerenciamento de vozes é um fator que se apresenta complexo ao
aluno. Este demonstra dificuldade em recuperar argumentos conflitantes,
o debate de idéias, quando o autor cita, quem cita e com quais
objetivos no texto-base, tendendo a apagar as diferentes perspectivas.
Tal dificuldade se origina de uma outra: a não percepção
dos traços que distinguem a natureza de um texto dos gêneros
do discurso científico, que é polêmico, dos textos
do discurso didático.
O gerenciamento de vozes pode ser refletido no uso dos verbos dicendi
e dos discursos relatados. Há diversas maneira para fazer referência
ao discurso do outro e para introduzir o discurso relatado como nomes,
grupos nominais, grupos preposicionais, verbos. Encontramos também
o uso do discurso direto e do indireto.
O uso dos verbos discendi em textos do gêneros científicos
é analisado por Oliveira (2004), na sua tese de mestrado, com um
corpus de resenhas acadêmicas produzidas por especialistas da área
de lingüística. Oliveira mostra que, no discurso de lingüistas
especialistas, há uma grande variedade de verbos usados para inserir
o discurso do outro, como propor, sugerir, considerar, chamar a atenção,
advogar, assegurar, avançar na questão, discorrer, distinguir,
elucidar, esclarecer, reiterar, relacionar, rever e muitos outros. Os
verbos utilizados pelos especialistas deixam claro a natureza da argumentação
no texto científico, que pressupõe que o conhecimento está
sendo formado e está sempre suscetível a mudanças.
Os usos dos especialistas serviram como matriz para a análise dos
verbos usados pelos alunos. Esses textos mostram, nesse aspecto, 2 características:
(1) Escasso uso e pouca variedade de expressões para introduzir
a voz do outro. Dos 151 relatórios analisados, em 85 deles não
há nenhuma referência ao autor do texto lido ou ao próprio
texto. Não há o uso do discurso relatado, nem direto nem
indireto. Há trechos copiados do texto-base, o que não é
explicitado como um discurso relatado, por aspas ou itens lexicais que
o introduzem. Os verbos presentes nos relatórios de leitura são:
argumenta, define, deixa claro, finaliza, nos dá exemplos, traz
exemplos, começa, enfoca, enfatiza, discute, segue, prossegue,
conclui, Fala, conta, mostra, relata, expressa, apresenta, trata, pesquisaram,
colocar, analisa, pesquisa feita, observar, ensina, faz compreender, dá
a perceber
(2) São encontrados verbos não utilizados no corpus de resenhas
de especialistas de Oliveira, como ensinar, nos fazer compreender, deixar
claro, que implicam que o conhecimento presente no texto lido está
pronto, é verdadeiro, para ser seguido. Ou seja, nas retextualizações
o texto científico é apresentado como portador de um conhecimento
de natureza didática, a ser aprendido.
O aluno que chega ao ensino superior muitas vezes só teve acesso
a materiais escritos através da escola e, assim, fica marcado pelas
características do discurso didático, em que há o
apagamento de oposições e apresenta-se uma verdade absoluta.
Dessa forma, o aluno vive um conflito entre uma produção
textual já sedimentada (didática) e uma representação
textual à qual começa a ter acesso na universidade, em que
o texto é concebido em relação a uma situação
específica de enunciação, marcada pelo conflito entre
diferentes argumentações.
Os gêneros são modelos “sócio-cognitivamente”
construídos, os quais são utilizados pelo sujeito para textualizar,
através de recursos linguageiros. Portanto, os sujeitos, para dominarem
os gêneros do discurso científico, deveriam ter acesso suas
práticas discursivas, para enquadrarem o processamento textual
a um modelo mental de representação da situação.
A análise apresentada sugere que os sujeitos não tinham
contato anterior com textos dos gêneros do discurso científico
e, provavelmente, a atividade de leitura em suas vidas eram calcadas nos
textos escolares/didáticos. Tais textos têm como característica
marcante a ausência de conflitos teóricos, sendo que um único
discurso é apresentado como verdadeiro.
Através das análise dos verbos discendi, portanto, chegamos
à uma hipótese de que o enquadre dado pelo aluno ao texto
científico é didático, e passamos a procurar outras
evidências que confirmassem essa hipótese.
O recurso escolhido para investigar se os estudantes estavam enquadrando
o texto científico como texto didático foi a modalização.
Todo enunciado possui marcas de modalização que, segundo
Maingueneau (107, 2002), indicam a atitude do enunciador sobre o que diz
ou sobre a relação que estabelece com o co-enunciador. A
modalização explicita quais são as posições
do falante em relação ao seu interlocutor, a si mesmo e
a seu propósito.
Segundo o autor, num mesmo enunciado há diversas modalidades intrincadas.
As modalidades são as facetas de um processo mais geral de modalização,
pela qual o enunciador exprime uma atitude a respeito de seu destinatário
e do conteúdo de seu enunciado (Maingueneau, 2002). Há diferentes
classificações de modalidades. Maingueneau cita A. Meunir
(1974), que coloca dois tipos de modalidades: a lógica, que se
insere em uma escala que vai do existente ao impossível (possível,
necessário, certo, falso, obrigatório); e a apreciativa
ou evaluativa, que exprime um juízo de valor sobre o estado das
coisas (felizmente, lastimável, triste).
O trecho a seguir é característico das modalizações
encontradas nas retextualizações: as modalidades lógicas
exprimem certeza, verdade, enquanto que nos textos científicos,
exprimem possibilidades, hipóteses.
Exemplo (1)
O primeiro exemplo é a retextualização do texto A
interface de estratégias e habilidades. A aprendizagem mediante
o ensino de habilidades: uma proposta.
Este relatório vem nos ensinar o desenvolvimento de estratégias
de leituras, identificando primeiro palavras-chaves, e assim o leitor
ficará mais a vontade para determinar a melhor maneira de lidar
com o léxico. Devemos conhecer o significado exato das palavras
desconhecidas, isto fica claro quando lemos os exemplos do texto.
Mostra também a importância do vocabulário. Quando
lemos e nos deparamos com palavras difíceis, não devemos
jamais parar a leitura, continuamos e notaremos que seu significado vai
se esclarecendo no andamento do texto.
Texto com diversos tipos de exemplos.
Exemplo (2)
Retextualização do artigo A construção do
sentido do texto de Kleiman.
É necessário fazer inferência lexical, fazer com que
encontre pistas contextuais, em relação a conotação
das palavras inseridas. Ao ler o texto perceberá a intencionalidade
do autor o macro e na micro, que coloca várias razões para
chamar a atenção do leitor, mas não é a intencionalidade
da compreensão textual.
É também crucial que o leitor perceba os significados sociais
na gramática com uma perspectiva críticas proposta pelo
autor, ficando claro a intencionalidade do autor e assim constituindo
seu próprio objeto e capacidade de uma reflexão e análise
crítica.
O que pretende portanto com a interpretação, é desafiar
o aluno a pensar sobre as intenções do autor, observar seu
estilo e os usos da linguagem, solicitando, com freqüência,
que justifique sua resposta. Dessa forma, cada pergunta de transforma
em um momento de reflexão, do mesmo tempo que imprime o desafio
de argumentação sobre as idéias expostas resolvendo
problemas e, conseqüentemente, solicitando deles uma postura crítica
e criativa.
Assim o autor faz compreendermos que ler um texto representa um esforço
na busca de seu sentido, de suas intenções, e para que essa
tarefa se processe de forma prazerosa e eficaz é fundamental prepara-lo
desde o início.
Uma marca constante nos relatórios de leitura é
o uso do presente simples. Tal tempo verbal costuma expressar uma verdade
atemporal, como nos provérbios (em boca fechada não entram
moscas) ou em expressões habituais (ele fuma) ou em verdades infinitas
(os planetas giram em torno do sol). Nesses casos, o presente indica algo
que não ocorre exatamente no momento da fala, mas que pode ser
verdadeiro em qualquer momento, independentemente de quando é enunciada.
O emprego dos verbos no futuro exprime certeza acerca de um fato futuro
e o uso do presente reforça a idéia de verdade atemporal.
Por isso, o conjunto de verbos utilizados contribui para o efeito didático.
Além disso, o uso do verbo dever ( devemos) indicando que algo
precisa ser feito, aprendido, cria o efeito de autoridade, se o autor
do texto impusesse o conteúdo do texto, ordenasse que este fosse
seguido pelo leitor. Já o termo jamais é uma expressão
categórica que exprime uma idéia que não admite questionamento,
contradição. Todos esses usos são modalizações
que apresentam os fatos como estabelecidos, além de fazerem um
juízo de valor sobre o estado das coisas (crucial e necessário).
4 Considerações finais
Através das análises das retextualizações
feitas por professores em formação, procuramos mostrar que
o aluno que está sendo introduzido à leitura de textos acadêmicos
lê o texto científico como se fosse didático, ou seja,
um texto que possui apenas uma voz de autoridade, que ensina o que é
certo, verdadeiro e absoluto. Percebemos essas características
nos relatórios de leitura como também uma conotação
moral no discurso. Provavelmente, essas marcas aparecem, pois os alunos
não tinham contato anterior com textos dos gêneros do discurso
científico nem passaram por um ensino das características
desses gêneros. A partir dessa característica das retextualizações,
ou seja, do enquadre didático conferido ao texto científico,
evidenciado na análise do gerenciamento de vozes, do uso do presente
simples, do futuro e de expressões categóricas, inserimos
o debate dentro da perspectiva da Lingüística Aplicada, para
refletir sobre a compreensão e produção dos gêneros
do discurso científico.
Devido a essa história de leitura, quando esses sujeitos entram
na universidade e passam a ler textos dos gêneros dos discursos
científicos e dos discursos de divulgação científica,
em que se exprime uma outra relação com o conhecimento,
na qual um dos traços fundamentais é a explicitação
de conflitos teóricos e metodológicos que implica a instabilidade
do conhecimento, com referências a outros autores e outras perspectivas
de pesquisa, surge um certo estranhamento que pode dificultar a compreensão
desses textos. Sem um ensino sobre características desses gêneros,
ou seja, sem a introdução sistemática às práticas
acadêmicas através de seus gêneros, a compreensão
dos textos se torna difícil para o aluno, como também a
produção escrita de textos da esfera acadêmica baseados
em artigos científicos ou de divulgação científica,
como resenhas, resumos e relatório de leitura.
Por isso, propomos que, ao introduzir o aluno na leitura e produção
de textos da esfera acadêmica, deve-se atentar para as características
das práticas científicas, suas relações com
o conhecimento e a representação delas nos textos dos gêneros
científicos e ensiná-lo a distingui-las das presentes nos
gêneros didáticos. Quando o aluno conhece o gênero
e percebe suas marcas, pode alcançar mais facilmente a compreensão
dos textos científicos.
Bibliografia
Assis, J.A., Matencio, M.L., Silva, J.Q. Explorando as
representações do texto escrito. Revista Scripra, 2º
semestre, 2001.
Charaudeau, P. Maingueneau, D. (orgs.) Dictionnaire d'analyse du discours.
Paris, Seuil, 2002.
Dionísio e Bezerra (orgs.) O Livro Didático de Português
– múltiplos olhares. Ed: Lucerna – 2003 (2a. ed.) Rio
de Janeiro – RJ.
Jodelet, D. Representações sociais: um domínio em
expansão. In: Jodelet, D. (org.) As representações
sociais; Tradução: Lilian Ulup. Ed. Uerj – 2001, Rio
de Janeiro.
Kleiman, A.B.(org.) A formação do professor – perspectivas
da Lingüística Aplicada. Mercado de Letras – 2001, Campinas
– SP.
Maingueneau, D. Análise de textos de comunicação
/ Dominique Maingueneau; Tradução Cecília P. de Souza-e-Silva,
Décio Rocha.- São Paulo : Cortez, 2002.
Matencio, M. L. M. Leitura e Produção de textos na escola.
Mercado de Letras – 2000 (2a. ed.) Campinas – SP.
________________. Atividades de (re)textualização em práticas
acadêmicas: um estudo do resumo. II Simpósio Internacional
de Análise do Discurso, 2002. UFMG. Belo Horizonte
________________. Referenciação e retextualização
de textos acadêmicos: um estudo do resumo e da resenha. ANAIS do
III Congresso Internacional da Abralin, 2003.
________________ et Silva, J.Q. Retextualização: movimento
de aprendizagem. ANAIS do II Encontro Internacional Linguagem, Cultura
e Cognição. UFMG, 2003. Belo Horizonte.
Oliveira, S.M. Os verbos de dizer em resenhas acadêmicas e a interpretação
do agir verbal. São Paulo, 2004.