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A
SITUAÇÃO DA PRODUÇÃO SOBRE A ESCRITA E SEU ENSINO
NA FEUSP E FFLCH/USP NA ÚLTIMA DÉCADA
Emari Andrade de Jesus – Bolsista FEUSP
– PIBIC/CNPQ - Universidade de São Paulo – USP
Acompanhando a história da humanidade, vê-se
que a decifração de escritas de civilizações
desaparecidas foi sempre importante para vários estudiosos. Ao
longo dos tempos, grandes esforços para a compreensão destes
enigmas foram feitos por historiadores, arqueólogos, etc. Estes
estudos, entretanto, visavam a apenas “traduzir” os textos
encontrados, sendo que a descoberta dos alfabetos utilizados não
era um objetivo em si, mas instrumento para a compreensão das civilizações.
Na Antigüidade Clássica, a escrita foi vista como algo pernicioso
à Humanidade. Platão, no Fedro, através de um diálogo
entre Sócrates e Fedro, coloca-a em um segundo plano, vendo-a como
algo prejudicial ao homem e à sua memória, sendo, portanto,
uma aparência da sabedoria e não a verdade. Primeiramente
ele justifica a sua posição afirmando que a escrita torna
os homens mais esquecidos, pois confiando nela, esses deixarão
de cultivar a memória; e, em seguida, acrescenta que o discurso
escrito é como uma pintura, apenas aparenta uma vivacidade, mas,
na essência, assim não é. Portanto, diz que um discurso,
uma vez escrito, sai a vagar por toda a parte, ou seja, todas as pessoas
têm acesso a ele, conhecedoras ou não do assunto, o que permite
ser mal interpretado, desprezado e censurado injustamente. Conseqüentemente,
o discurso escrito, uma vez em circulação, não pode
ser defendido ou explicado por seu criador.
Com o surgimento da lingüística moderna no Século XIX,
os estudos sobre a escrita permaneceram em segundo plano. Ao tomar a língua
como objeto de seu estudo, Saussure (1966: 33-41) dá à escrita
um status de um fenômeno menor, vendo-a como se fosse simplesmente
uma imagem gráfica, portanto, quase como um mal necessário.
Tal fato podemos identificar no capítulo VI do Curso de Lingüística
geral.
Como conseqüência desses fatos históricos, os fenômenos
relativos ao estudo da escrita como um processo passaram longos anos excluídos
do campo da investigação lingüística. Sabe-se
que a partir da década de 80, dois movimentos mudaram este cenário
inicial:
1) Nos estudos relacionados à educação,
os fenômenos ligados à aquisição da escrita
ganharam interesse, principalmente ancorados nos trabalhos de Vygotsky,
autor que coloca a escrita como uma das maiores invenções
da humanidade destacando, entre outras coisas, o fato de permitir a democratização,
o desenvolvimento do pensamento humano, a criação de um
espírito crítico, etc; e os trabalhos de Emília Ferreiro
(1990) que alertou em 1989 para a importância de estudar as especificidades
da escrita como sistema de representação para compreender
seu ensino e aprendizagem; e
2) Na lingüística, surgiu a chamada “lingüística
do texto”, ou “lingüística textual”, cujo
objetivo principal era o de encontrar os critérios de textualidade,
ou seja, as propriedades que diferem um amontoado de palavras de um texto.
Tendo como objeto de estudo o texto (independente da extensão),
essa ciência funda-se na constatação de que este estudo
ultrapassa o âmbito do somatório de frases e é, por
natureza, multidisciplinar, na medida em que para o estudo do seu objeto,
utiliza as disciplinas: Fonética/Fonologia, Morfologia\Sintaxe,
que permitem estudar o texto em sua materialidade e organização;
da Análise do Discurso, que enfoca os textos como realização
dos discursos, articulando a enunciação com o lugar social
dos participantes do processo; da Semântica, base da construção
de significados e processos de significação; e da Análise
da Conversação.
Como conseqüência desses dois esforços,
as pesquisas sobre o ato de escrever e sobre o seu ensino começaram,
ainda timidamente, a aparecer nas faculdades de lingüística
e de educação de todo país constituindo um corpus
digno de reflexão, em especial, aquelas destinadas a tematizar
a escrita nos primeiros anos da escola básica.
Partindo da hipótese de que escrever tem uma especificidade singular
que diferencia este ato de todos os demais modos de representação
inventados pela espécie humana, o presente trabalho visa a apresentar
os resultados encontrados a partir de uma investigação que
mapeou o estado da arte da pesquisa sobre a escrita e seu ensino levada
a cabo na FE e FFLCH/USP, através do exame das dissertações
de mestrado e teses de doutorado produzidas nos últimos dez anos
nas referidas unidades. Nesse estudo, contatou-se que, além de
poucos trabalhos de pós-graduação sobre o assunto,
muitos daqueles que declaradamente disseram que estudariam a escrita,
assim não o fizeram. Portanto, observa-se dentro da produção
do ensino superior uma não equivalência entre o imaginar
fazer e o fazer de fato.
Constituição do corpus e metodologia
A constituição do corpus deu-se através
da consulta do banco de dados da USP, dedalus através da opção
de busca por assunto (escrita/lingüística textual) e por tipo
de material (grau de dissertação e tese). É importante
ressaltar que este banco de dados, na opção por assunto,
oferece como resultado de pesquisa as palavras chaves informadas pelos
próprios autores das dissertações e teses. A facilidade
com tal instrumento de pesquisa bibliográfica adveio da experiência
de um estágio de dois anos na Biblioteca “Carlos Benjamin
de Lyra” do Instituto de Matemática e Estatística
da USP, entretanto, é importante salientar, ainda, que a pesquisa
através desse instrumento não é totalmente segura
ou completa, pois pode esconder alguns trabalhos existentes, caso os autores
que estudaram escrita não a colocaram como palavra chave dessas
produções.
Como resultado dessa triagem inicial, obteve-se uma lista de 36 títulos.
Desse material foi feito um corte no qual se retiraram da lista os itens:
mais velhos do que 10 anos; e aqueles nos quais, pela análise dos
resumos constatou-se que a escrita aparecia apenas de modo tangencial,
não sendo o foco principal da tese. Sendo assim, sobraram 18 trabalhos
(entre dissertações de mestrado, teses de doutorado e de
livre-docência), os quais foram o objeto do meu estudo, como mostra
a lista na Tabela A.
A partir da constituição do corpus, seguiu-se a etapa de
leitura analítica integral dos trabalhos, através da qual
se tentou recuperar o traçado teórico que deu origem ao
olhar segundo o qual a escrita é considerada no trabalho. A partir
desta primeira abordagem, foi idealizada uma grade para a sinopse individual
de cada trabalho, atentando aos seguintes tópicos:
? pergunta de pesquisa;
? hipótese de trabalho;
? objetivos;
? corpus analisado;
? metodologia utilizada;
? corpo teórico adotado;
? concepção de escrita que é possível inferir
do trabalho;
? descrição sintética dos procedimentos analíticos
adotados;
? conclusões alcançadas pelo estudo; e, finalmente,
? descrição sintética dos anexos apresentados.
Após ter concluído a idealização
da grade, foi realizada nova leitura dos 18 trabalhos, visando a preparação
de suas sinopses analíticas, que, além de servir de material
de consulta, poderiam servir de base para a construção de
uma abordagem mais macro sobre o estado da arte da pesquisa da escrita
e seu ensino na Universidade de São Paulo.
Tabela A: Corpus da pesquisa
| Data |
Título |
Orientador |
Autor
(a) |
Unidade |
| 1995
|
Oralidade e escrita: um diálogo pelo tempo |
ROCCO, M. T. F. |
FERREIRA, L. A. |
FE
(Doutorado) |
| 1995
|
Longo caminho entre o pensar e o fazer |
VIEIRA, Alice |
MURRIE, Zuleika de F. |
FE
(Mestrado) |
| 1995 |
Reinventando Narrativas: Estudo sobre a produção coletiva
de uma carta para Penélope. |
DIETZCH, Mary J. M. |
STELLA, Paula |
FE
(Mestrado) |
| 1997
|
Ensinar a ler e escrever: análise de uma competência
pedagógica. |
OLIVEIRA, Marta K. de |
CARDOSO, Beatriz |
FE
(Doutorado) |
| 1997 |
Redação infantil: tendências e possibilidades |
SILVA, Maria de L. R. da |
COLELLO, Silva de L. |
FE
(Doutorado) |
| 1999 |
A construção de um espaço dialógico em sala de aula:
imagens de um ambiente de leitura e escrita. |
DIETZSCH, Mary J. M. |
AZEVEDO, Ana L. do V. de B. e |
FE
(Mestrado) |
| 1999 |
Da leitura à produção: a construção da heterogeneidade
enunciativa em narrativas produzidas em contexto escolar |
MAURO, M. A. F. |
IVAMOTO, Regina M. F. E. |
FFLCH
(Mestrado) |
| 1999
|
Por uma proposta de articulação de leitura e escrita
com práticas sociais. |
BRANDÃO, Helena H. N. |
GUIMARÃES, Maria F. |
FFLCH
(Mestrado) |
| 1999 |
Gênese do texto infantil: uma análise de estágios iniciais
da escrita da primeira parte do ensino fundamental. |
SANTOS, Irenilde P. dos |
LEAL, Maria V. |
FFLCH
(Doutorado) |
| 1999 |
Leitura e Produção de textos: maneiras de ver, maneiras
de dizer... |
MELO, Lélia E. de |
PERFEITO, Alba Maria |
FFLCH
(Doutorado) |
| 2001 |
A narrativa como um passaporte para a entrada da criança
na escrita. |
(Livre-docência) |
MELO, Lélia E. |
FFLCH
|
| 2001 |
O Letramento de crianças em processo de alfabetização
em uma escola municipal. |
NICOLAU, M. L. M |
SCHMIDT, Maria H.C. B. |
FE
(Doutorado) |
| 2002
|
As prescrições para o ensino da caligrafia e da escrita
na escola pública primária paulistana (1909-1947) |
VIDAL, Diana G. |
ESTEVES, Isabel de L. |
FE
(Mestrado) |
| 2002
|
Progressão tópica e gêneros discursivos: o ensaio escolar
e o relato |
BRANDÃO, H. H. N. |
YAMANAKA, Isabel |
FFLCH
(Mestrado) |
| 2003
|
Entre o singular e o plural: relação com o saber e
leitura nos primeiros anos de escolarização. |
OLIVEIRA, Zilma de M. R. |
ESPÍNDOLA, Ana L. |
FE
(Doutorado)
|
| 2004 |
Perfil da Produção escrita e da trajetória escolar
de alunos surdos de ensino médio. |
CÁRNIO, Maria S. |
GONÇALO, S. F. |
FE
(Mestrado) |
| 2004 |
Insistindo na redação: em busca da palavra argumentativa
|
ROCCO, Maria T. F |
LIMA, Monique de O. |
FE
(Mestrado) |
| 2004 |
Do sintoma da escrita à escrita como ato criativo:
uma reflexão sobre a dificuldade de pós-graduandos no acontecimento
de sua escrita. |
VIEIRA, Alice |
AGUIAR, Eliane Aparecida |
FE
(Mestrado) |
Análise
do corpus
O fato de ter sido localizado apenas um pequeno número de trabalhos
já coloca algumas questões sobre o interesse e andamento
da pesquisa sobre a escrita nesta Universidade. Fazendo a média
entre o número de trabalhos encontrados durante o período
abordado, tem-se 1,8 trabalhos produzidos por ano. Separando o corpus
encontrado por ano de produção, obtém-se o gráfico
abaixo , através do qual se observa que o ano em que mais se produziram
trabalhos sobre a escrita nesta universidade foi o ano de 1999, com um
total de 05 produções.
Gráfico
A: divisão anual dos trabalhos produzidos sobre a escrita e seu
ensino na FE e FFLCH a partir de 1995.

Diante das diferentes abordagens teóricas que guiaram os trabalhos, fez-se
uma classificação do corpus analisado quanto a sua área e autor de base,
conforme consta na Tabela B.
Tabela B: Divisão por área de pesquisa
|
Área |
Principais
autores utilizados |
Quantidade |
| Lingüística
(Psicolingüística) |
Piaget
Vygotsky |
5 |
| Lingüística
(Lingüística
Textual e
Análise
do Discurso)
|
Foucambert,
Reuter
Maingueneau,
Authier-Revuz, Bakhtin, Geraldi, Rojo, Dolz e Schneuwly. |
4 |
| Pedagogia
|
Perrenout,
Calkins, Ferreiro & Teberosky. |
5 |
| Sociologia
|
Bourdieu |
1 |
| Teoria
da Literatura
(Crítica
Genética) |
Willemart |
1 |
| Psicanálise |
Freud,
Lacan |
1 |
| Teoria
da Argumentação |
Perelman
e Olbrechts-Tyteca |
1 |
Através
dela pode-se observar em quais áreas do conhecimento se constituíram
as investigações. Nesse sentido, ressalta-se que a maioria
dos trabalhos, mesmo possuindo temáticas diferentes, tem como base
teórica o dialogismo bakhtiniano, em que se enfoca as relações
entre a linguagem e a sociedade, enquanto efeito das estruturas sociais;
e o sociointeracionismo Vygotskyano, principalmente em relação
à importância do outro no desenvolvimento infantil. Diante
disso, pode-se notar que grande parte dessas pesquisas privilegia o olhar
para as relações que se estabelecem entre um sujeito e a
sociedade e importância de um outro na aquisição ou
no desenvolvimento da linguagem escrita.
Vygotsky é um dos autores mais citados nos trabalhos sobre a linguagem
escrita, mas o que fez de especial esse autor e seus colaboradores para
se destacar tanto até os dias de hoje? Sabe-se que o autor escreveu
na década de 30, entretanto, provavelmente devido ao isolamento
geográfico da época, ou mesmo pela própria novidade
da teoria, essa só repercutiu décadas mais tarde.
Os trabalhos de Vygotsky e Luria foram os primeiros a introduzirem o estudo
da leitura e da escrita no campo da Psicologia do Desenvolvimento, assim,
valorizaram o papel dos sistemas simbólicos em geral e, em especial,
o papel que ocupa a escrita de possibilitar o desenvolvimento do pensamento
independentemente da mediação do outro. Defenderam que a
criança passa por uma fase de “pré-história
da escrita”, em que compreende o sentido e os mecanismos da escrita
antes de dominá-la formalmente.
O autor russo não dá uma definição explícita
de escrita, entretanto, suas observações permitem reconstruir
a sua concepção. Ele foi o primeiro a combater o ensino
mecânico da escrita, chamou a atenção dos educadores
para a evolução das representações simbólicas
na criança e para as dimensões lingüística e
cultural da escrita, defendendo a tese de que o que se deve fazer é
ensinar às crianças a linguagem escrita, e não apenas
a escrita das letras. (VYGOTSKY, 1988:134).
O autor também afirma que as funções psicológicas
superiores são construídas ao longo da história social
do indivíduo (op.cit.), dessa maneira, a relação
com o outro social é de extrema importância para o desenvolvimento
da linguagem e do pensamento, na medida em que o processo de desenvolvimento
ocorre do exterior para o interior, ou seja, do meio social para o individual.
Nesse sentido, para o autor o aprendizado e o desenvolvimento são
processos inter-relacionados sendo que o aprendizado impulsiona o desenvolvimento.
O autor defende a existência de um nível de desenvolvimento
real, que seria a capacidade da criança resolver os problemas sem
a ajuda de um adulto, ou seja, de maneira independente; e de um nível
de desenvolvimento potencial, determinado através da solução
de problemas sob orientação de um adulto ou em colaboração
com companheiros mais capazes (Vygotsky, 1988:112). À distância
entre o desenvolvimento real e o potencial o autor denomina de zona de
desenvolvimento proximal.
Dessa maneira, os trabalhos encontrados que se baseiam na concepção
Vygotskyana, em grande parte, utilizam-se dela no sentido de que colocam
o professor como mediador entre o que a criança conhece e o novo
conhecimento que irá adquirir. Abandonando a postura de único
detentor do saber, o professor deve propor atividades compreendidas pelos
alunos, mas que, ao mesmo tempo, representem uma dificuldade que deve
ser encarada como desafio.
Conforme bem aponta Barros (1996:21), Bakhtin influenciou ou apenas antecipou
as principais orientações teóricas dos estudos sobre
o texto e o discurso desenvolvidos nos últimos 30 anos. Certamente
pode-se afirmar que o tema central do autor russo é o dialogismo,
o do princípio dialógico, para qualquer objeto de reflexão.
Contrariando os estudos lingüísticos da época que tomaram
a língua como objeto de análise, Bakhtin afirma que a especificidade
das ciências humanas está no fato de que seu objeto é
o texto, ou o discurso (Bakhtin, 1992:31), e este, por sua vez, é
dialógico, ou seja, define-se pelo diálogo entre os interlocutores
e pelo diálogo com outros textos e só assim, constrói-se
a significação (Barros, 1996:24). O fato de colocar o texto
como lugar central de toda a investigação humana é
uma das razões que fizeram deste escritor o precursor e antecipador
dos estudos do discurso, uma vez que muitos estudiosos da linguagem, até
hoje têm dificuldade em aceitar o papel do texto.
Para este autor, a vida é dialógica por natureza e a alteridade
define o ser humano, sendo assim, é inconcebível pensar
neste fora das relações que o ligam ao outro. Um segundo
tema muito freqüente e de igual importância, nesse autor, é
o diálogo entre os interlocutores, tema importante para os estudos
sobre a interação verbal entre sujeitos e sobre a intersubjetividade.
Bakhtin trata desse assunto especialmente no capítulo sobre interação
verbal em Marxismo e Filosofia da Linguagem (1929), em que alerta para
a necessidade de um olhar mais atento para esse fenômeno, considerado
como aspecto constitutivo da linguagem e como fator a ser priorizado na
análise e descrição de todas as formas de discurso
e não somente no diálogo enquanto estrutura de texto (Brait,
2002:126). Como sintetiza Barros (1996: 27), o ponto de partida do autor
é sua “opção pelo social”, na oposição
entre social e individual, de onde decorrem quatro aspectos do dialogismo
entre interlocutores: 1) a interação entre locutores é
o princípio fundador da linguagem; 2) o sentido depende da relação
entre sujeitos; 3) a intersubjetividade é anterior à subjetividade;
e 4) há dois tipos de sociabilidade: entre sujeitos e dos sujeitos
com o grupo social.
Observando os trabalhos que se utilizam os estudos desse autor, vê-se
que todos foram defendidos na Faculdade de Letras, sendo, portanto, relacionados
à lingüística, mais especificamente à lingüística
textual e Análise do Discurso. Dentre as principais idéias
utilizadas nessas pesquisas destaca-se a abordagem interacionista da linguagem
muito enfocada pelo autor russo, conforme se apontou acima. Tais pesquisas
vêm a leitura e a escrita como momentos discursivos, em que a relação
de um ser com a escrita vai muito além da simples aprendizagem
de letras e frases, mas implica, desde a sua gênese, na construção
do sentido e, mais especificamente, numa forma de interação
com o outro. Nesse sentido, a escrita pressupõe um interlocutor,
geralmente um adulto letrado que reconhece as proposições
de um outro sujeito e lhe “empresta” sua própria colaboração
discursiva.
Os focos de investigação
Delimitando
um pouco mais o objeto de estudo, dividiram-se os trabalhos encontrados
quanto ao foco de investigação de cada um a fim de saber
com maior clareza quais são as maiores preocupações
por parte dos pesquisadores desta Universidade com relação
à escrita (cf. Tabela C). Nesse sentido, percebe-se que o tema
mais recorrente nas pesquisas estudadas, num total de 07 trabalhos, refere-se
à Escrita de crianças, aqui entendida como a escrita produzida
por escolares da educação infantil até a 4ª
série. A maior parte dessas pesquisas procura estudar a relação
da criança com a escrita e como esta é apreendida por elas,
atentando às suas especificidades, tendências e envidando
esforços para que as crianças gostem da escrita e se reconheçam
como autores, ou seja, esses trabalhos rejeitam a maneira que a escrita
é ensina pela escola tradicional, ou seja, apenas como representação
fônica da fala e como forma de promoção escolar. Nesse
âmbito, quase todos os trabalhos, implícita ou explicitamente,
fazem distinção entre alfabetização (aquisição
do código alfabético) e letramento (domínio da linguagem
escrita ou oral), sendo que este pode ter diferentes graus e, por vivermos
em uma sociedade letrada, acredita-se que não há como falarmos
em indivíduos não letrados, pois o que há são
pessoas não alfabetizadas.
Em ordem decrescente de assuntos tratados, aparecem os trabalhos (num
total de 3) que tratam sobre a escrita de adolescentes (da 5ª à
7ª série). O que há de comum nessas pesquisas é
o fato de todas trabalharem de maneira articulada a escrita e a leitura
e terem sido desenvolvidas na FFLCH, na área de lingüística
e de língua portuguesa. De modo geral, todas procuram estudar questões
relativas às marcas enunciativas nas produções desses
escolares. Nesse âmbito, destaca-se a preocupação
em desenvolver no aluno o domínio sobre os diferentes gêneros
discursivos através da interação com o professor
e com o texto, ou seja, fazer com que o aluno saiba adequar sua escrita
de acordo com a situação vivenciada; preocupam-se, ainda,
em observar e desenvolver a criticidade e a subjetividade desses alunos,
para que vejam a escrita não somente no contexto escolar.
O fato de encontrar esse tipo de trabalho somente na FFLCH, mostra a preocupação
desses pesquisadores com questões relativas à estrutura,
gênero, formas de dizer do texto, etc; ou seja, nota-se os esforços
envidados no sentido de estudar a produção textual desses
escolares. Outra preocupação que se observa é a busca
da constante articulação não somente com a leitura,
mas também com a oralidade, mostrando que esta não pode
ser desprezada, mas sim estudada para que os alunos conheçam as
especificidades de cada modalidade e as utilizem conscientemente.
Os trabalhos que focalizaram seu olhar sobre a escrita de estudantes universitários,
apesar de terem objetos e abordagens totalmente diferentes; sendo que
um estuda a progressão tópica em estudantes universitários
do curso de letras, outro as dificuldades de pós-graduandos no
acontecimento de sua escrita e o terceiro as técnicas argumentativas
utilizadas em textos dissertativos redigidos por indivíduos de
formação superior completa, todos envidaram esforços
para mostrar como esses estudantes se relacionam com o texto. Cabe aqui
destacar o enfoque dado, tendo com embasamento teórico a psicanálise,
às dificuldades de escritas de pós-graduandos, mostrando
que o sintoma da escrita, concretizado pela dificuldade de escrever, é
um sério problema enfrentado até mesmo por pessoas que já
têm um amplo conhecimento da língua escrita e a utilizam
com freqüência.
Os trabalhos que foram classificados como trabalhos cuja preocupação
é a situação do professor e o relacionamento deste
com a escrita, apesar de colocarem em seus resumos que tratariam também
da escrita, nota-se que esse não foi o foco principal dos trabalhos,
na medida em que não se detiveram no exame do texto em si e nem
nas características da escrita dos professores. Observa-se que
uma das pesquisas trabalha especificamente com a situação
dos professores que preparam outros professores para o ensino da leitura
e da escrita, alertando para a situação das políticas
educacionais para as escolas de magistério, e, a segunda, com o
conhecimento teórico desses profissionais e o aperfeiçoamento
desses através da escrita.
As pesquisas que trabalham a escrita historicamente, de maneira geral,
fazem um resumo bibliográfico a respeito do assunto que tratam.
A intenção com essa afirmação não é
desvalorizar os trabalhos aqui mencionados, apenas mostrar que esses pesquisadores
enfocam a escrita de outra maneira, ou seja, relacionando-a à história;
como é o caso da dissertação As prescrições
para o ensino da caligrafia e da escrita na escola pública primária
paulista (1909-1947), que mostra como era o ensino da escrita e da caligrafia
na primeira metade do Século XIX, como esse variava dependendo
tipo de escola e região em que esta se localizava. O segundo trabalho
desse foco de investigação, Oralidade e Escrita: um diálogo
pelo tempo, diferentemente, mostra como a escrita foi detratada historicamente
por vários estudiosos, como se tornou, através dos tempos,
sinônimo de prestígio social e, ao mesmo tempo, como seu
ensino foi cristalizado pela escola. O estudo é importante, pois,
além de mostrar essas questões, alerta para a maneira mecânica
que esta instituição vem ensinando a escrita e discute a
necessidade da valorização da oralidade na escola brasileira.
Por fim, foi constatada a presença de um trabalho (Perfil da Produção
escrita e da trajetória escolar de alunos surdos de Ensino médio)
que traça a trajetória escolar de alunos surdos e, ao mesmo
tempo, analisa, efetivamente, a escrita desses alunos, mostrando suas
especificidades, dificuldades, facilidades, etc. Soma-se a isso, a pesquisa
retoma alguns dos maiores autores que escreveram ou escrevem sobre a escrita
(Vygotsky, Ferreiro e Teberosky, Geraldi, etc); e ainda mostra como esta
é ensinada tanto na escola comum quanto na de alunos surdos.
Essa dissertação ainda se difere das outras não somente
pelo tema tratado, mas também porque é a única que
se vale de um trabalho anterior de pós-graduação
feito no período delimitado nesta pesquisa, isto é, a pesquisadora
destaca e se aproveita da tese de doutorado de Colello (1997) sobre as
tendências e possibilidades da redação infantil para
a construção do seu trabalho.
Tabela C: Divisão dos trabalhos por foco de investigação
| Foco
da investigação |
Títulos |
Quantidade |
|
Escrita
de crianças
(da
educação infantil à 4ª série) |
Ö
Reinventando narrativas: estudo sobre a produção coletiva de uma
carta para Penélope
Ö
Redação Infantil: tendências e possibilidades
Ö
O Letramento em crianças em processo de alfabetização em uma escola
municipal
Ö
Entre o singular e o Plural: relação com o saber e leitura nos primeiros
anos de escolarização
Ö
A construção de um espaço dialógico em sala de aula: imagens de
um ambiente de leitura e escrita
Ö
Gênese do texto infantil: uma análise de estágios iniciais da escrita
em escolares da primeira parte do ensino fundamental
Ö
A narrativa como um passaporte para a entrada da criança na escrita |
7
trabalhos |
|
Escrita
de adolescentes
(da
5ª à 7ª série) |
Ö
Por uma proposta de articulação de leitura e escrita como práticas
sociais
Ö
Da leitura à produção: a construção da heterogeneidade enunciativa
em narrativas produzidas em contexto escolar
Ö
Leitura e Produção de Textos: maneiras de ver, maneiras de dizer |
3
trabalhos |
|
Escrita
de estudantes universitários |
Ö
Progressão tópica e gêneros discursivos: o
ensaio escolar e o relato
Ö
Do sintoma da escrita à escrita como ato criativo: uma reflexão
sobre a dificuldade de pós-graduandos no acontecimento de sua escrita
Ö
Insistindo na redação: em busca da palavra argumentativa |
3
trabalhos |
| Trabalhos
cuja preocupação é a situação do professor e o relacionamento deste
com a escrita |
Ö
Longo caminho entre o pensar e o fazer
Ö
Ensinar a ler e escrever: uma análise de uma competência pedagógica
|
2
trabalhos |
|
Trabalhos
de cunho histórico |
Ö
As prescrições para o ensino da caligrafia
e da escrita na escola pública primária paulista (1909-1947).
Ö
Oralidade e Escrita: um diálogo pelo tempo |
2
trabalhos
|
| Escrita
de portadores de necessidades especiais |
Perfil
da Produção escrita e da trajetória escolar de alunos surdos de
Ensino médio |
1
trabalho |
Considerações
finais
Diante dos
resultados expostos no decorrer deste trabalho, pode-se concluí-lo
destacando as principais lições aprendidas através
desta pesquisa, bem como as lacunas encontradas no decorrer do caminho.
Primeiramente observamos que as dissertações de mestrado
e teses de doutorado muito têm a ensinar com relação
ao ensino e aprendizagem da escrita, principalmente no que tange à
escrita infantil, uma vez que grande é a preocupação
desses pesquisadores com relação à aquisição
da língua escrita e às especificidades da produção
escrita das crianças nos primeiros anos de escolarização.
Nesse sentido, esses trabalhos são importantes, na medida em que
fornecem àqueles que se interessam pela escrita um grande embasamento
teórico sobre o assunto, articulando-o com a prática na
sala de aula.
Constatou-se também a presença de muitos trabalhos que articulam
a escrita com a leitura, mostrando que uma complementa a outra no processo
de aprendizagem da língua materna. Percebe-se ainda a ênfase
dada em quase todas as pesquisas à forma mecanicista de como a
escrita vem sendo ensinada na escola, estas acreditam que a escrita deve
ser ensinada com vistas ao letramento e objetivando criar no aluno o prazer
pela escrita.
Não menos ricos e importantes são os trabalhos que tratam
da escrita de adolescentes; universitários; alunos com deficiências
especiais; os que demonstram preocupação com o professor
e a relação deste com a escrita; e os de cunho histórico.
Acredita-se que cada um, individualmente, contribui, de certo modo, para
fins diferentes; seja para dar informações históricas
a respeito da escrita, seja para mostrar o comportamento das crianças
frente a uma narrativa, ou tratar de questões sobre os gêneros
narrativos; etc; constituindo assim, uma fonte importante de conhecimento
e de pesquisa.
Entretanto, não se pode deixar de mostrar algumas lacunas encontradas
nessa produção do conhecimento sobre a escrita e seu ensino.
Primeiramente se pôde perceber que termos como “escrita”,
“mundo da escrita”, são usados com diferentes concepções
e, muitas vezes, não são definidos ou explicitados pelos
pesquisadores. Como um trabalho que diz ter como palavra chave a escrita
não define como a entende, ou a partir de que concepção
de escrita parte? Nesse sentido, em três trabalhos não foi
possível encontrar o que o autor entende por escrita nem inferir
a concepção adotada.
Diante disto, pode-se inferir que deve haver uma maior preocupação
por parte dos pesquisadores ao utilizar as palavras-chave do trabalho
e, mais ainda, ao indicar o objeto da pesquisa, uma vez que alguns trabalhos
que se propõem a tratar sobre a “escrita”, não
a colocam no centro da pesquisa, mas apenas de modo tangencial.
Outra lacuna encontrada reside no fato de não ter encontrado trabalhos
que envidassem esforços para estudar o processo de criação
textual. Mesmo tendo em nosso corpus dois trabalhos que estudaram rascunhos
(Leal, 1999; Gonçalo, 2004), por não ser este o foco principal
da pesquisa, seus autores não focalizaram a análise dos
mesmos no processo necessário para a constituição
de um texto.
Nenhum trabalho mostrou, através de exemplos de produção
textual, o lento e difícil trabalho de tessitura de um texto. Nesse
sentido, retoma-se o conceito de trabalho específico da escrita,
criado por Riolfi (cf. Riolfi, 1999), através do qual a autora,
compreendendo a escrita como um trabalho singular de ficcionalização
– que veda ao leitor o acesso a todo um conjunto de operações
discursivas e faz com que um sujeito consiga tanto expressar uma idéia
quanto organizá-la textualmente –, mostra o que vem a ser
o ato de escrever, comparando o trabalho do escritor com o do ouvires,
o qual recebe a matéria bruta e a transforma, limpando-a e moldando-a
até obter a forma desejada para a jóia. Do mesmo modo, o
trabalho da escrita é um exercício de enfrentamento com
a massa desordenada das idéias e com a materialidade significante,
requer fôlego, discrição e paciência.
Essa situação, alerta e leva a concluir que há a
necessidade de envidar esforços para descrever no que consiste
essa especificidade do trabalho da escrita, como ele se dá e que
efeito essa produção causa em quem escreve.
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