Marta Raquel de Araújo Lima - Secretaria
Municipal de Educação – SME - Campinas
"A história atual de uma determinada prática
só pode ser revelada em sua complexidade quando investigada em
suas origens de tempo e espaço - por isso a importância fundamental
de que o pesquisador da prática investigue-a não só
em sua função imediata, tal como ela aparentemente se revela,
mas se permita compreender as condicionantes históricas que a determinaram."
(FAZENDA, Ivani Catarina Arantes)
Meu trabalho é um relato de experiência,
de constituição, ação, reação
e resistência em nossa ‘bela’ profissão.
Vou começar com “Era uma vez” uma moça que com
seus 16 anos não sabia ao certo pra onde ia, o que fazia.
Bem, esta moça sou eu, não tão moça quanto
antes, mas ainda assim moça, que acabou caindo de pára-quedas
no magistério do Colégio Ave Maria.
Eu gostava muito do curso. Um MARAVILHOSO curso!!! Porém, no 2º
ano eu queria sair para fazer colegial e tentar ingressar no curso de
Medicina.
No 3º ano, prestei artes cênicas. No 4º ano, queria fazer
canto na Unesp.
Caminhos, possibilidades abertas e fechadas. Prestei Pedagogia e entrei
na Unicamp. Terminei em 2001.
Eu gostava muito do curso, gostava de estudar. Mas, ainda assim, nada
certo. Pensava em ser professora de faculdade, porque como professora
de Educação Infantil ou de Ensino Fundamental, não
daria certo, não!!!
Os primeiros passos enquanto professora foram nos anos de estágio,
passando por diferentes realidades e, em alguns momentos, visitando as
escolas que freqüentara enquanto criança.
Na realidade do Estado, estagiei na 1ª série. Foi uma experiência
muito rude, na qual a professora usava de agressividade moral e física
para se relacionar com as crianças, deixando transparecer sua repulsa
por elas, e o forte preconceito que carregava. Uma professora realmente
descontrolada.
Voltando à escola anos depois, a mesma professora se encontrava
em cargo de direção: que sorte para as crianças!!!
Na realidade da Prefeitura de Campinas, estagiei numa EMEI, meio ‘largada’
pelos professores, ‘pedagogicamente’ falando. As professoras
antigas da ‘casa’, na verdade se sentiam realmente ‘em
casa’. As aulas consistiam em brincar, sentados em suas mesinhas,
com os jogos escolhidos pela professora. Eu pensava: ‘Que coisa
linda, que fofinho!!!’
Na realidade de escola Particular, estagiei numa 1ª série.
Um trabalho totalmente direcionado, sem espaço para respirar. Afinal,
um sacrificiozinho pela escrita e leitura não faz mal para ninguém!!!
E nisto tudo, eu ficava questionando, ‘detonando’ a prática
dos professores, vendo e anotando e, por fim, classificando cada um deles,
como se estivessem lá para serem etiquetados, considerando a existência
de tal ‘pureza teórica’: Skinner, Piaget, Vygotsky,
descontrolado, louco,...!!! (talvez isto sirva para repensarmos nossos
cursos de formação de professores, repensar o nosso ‘ar
de superioridade’ simplesmente porque estamos num bom curso, ou
mesmo na faculdade, como se fôssemos detentores de ‘todo’
saber, capacitados para tais juízos...).
Tolinha eu era.
“Ao observarmos as práticas do professor em sala de aula,
não podemos concluir taxativamente sobre as suas concepções
e muito menos inferir, de maneira apressada, sobre os princípios
teóricos que norteiam a sua ação. (...) A prática
não é transparente nem homogênea. Ela é permeada
por contradições que impedem identificá-la com uma
única teoria.”
(SMOLKA, Ana Luiza Bustamante e LAPLANE, Adriana Frizman)
Depois do magistério, fiz algumas substituições:
em Escola Particular, uma aula de Geografia na 5ª série, e
de religião na 8ª série. Depois, na Escola Estadual
Sérgio Porto, na Unicamp, na qual realizei um trabalho mais delongado
de estágio (projeto de trabalho com Vídeo e de Incentivo
à Leitura). Nesta escola Estadual, tive o prazer de iniciar um
trabalho em parceria com professores e colegas, além de ser relevante
o fato de que fui a 1ª, na época, a conseguir estágio,
pois a Escola sempre reclamava que os estudantes iam lá somente
para ‘usar’ a escola, e nunca mais voltavam (Novamente, precisamos
repensar nossos cursos de formação!!!).
Bem, fazendo o curso de Pedagogia na Unicamp, cheguei na fase do: ‘Procura-se
um emprego desesperadamente! Quero ver como isso funciona!!!”
Procura daqui, procura dali: “É necessário ter experiência!!!”
De certa forma, com a desvalorização da profissão,
podemos perceber que o estágio para professor é um dos únicos
(o único que conheço...), que não é remunerado,
dificilmente encontrado e aceito, e muito menos reconhecido. (Que bom
saber que todos um dia precisaram de professor!!!!!!)
Então, como ter experiência, se não há lugar
algum para começar a trabalhar???
Achei uma portinha: Concurso Público.
SESI. Prestei e passei.
Trabalhei lá somente 3 meses (exatos!!!).
Tinha o cargo de professora de Educação Infantil (‘Reserva’),
e a função de auxiliar das 6 professoras e de organização
do Almoxarifado. Eu cobria o horário de lanche das professoras,
(e elas abusavam!!!), num trabalho que deveria ocupar 1 hora, eu perdia
3 horas. A diretora ficava pouco lá, mas o pouco tempo que tinha,
usava para pressionar as pessoas, no que eu ganhava grande espaço,
pois se realmente eu tivesse as 4 horas para fazer o trabalho do almoxarifado,
eu já o teria terminado há tempos, o que não acontecia,
e ela não via o porquê. Saí traumatizada, deixando
um trabalho efetivo para iniciar um trabalho de pesquisa na Unicamp. Concumitantemente,
passei a realizar estágio na direção, obrigatório
do curso, no que fui chamada para trabalhar no Notre Dame.
Lá no Notre Dame, minha história foi muito diversificada,
trabalhando como professora auxiliar.
No 1º ano, passei por muito sofrimento, muito choro. Cada dia levantava,
como se estivesse indo para um enterro. O ‘status’, o poder
das ‘donas da casa’, o ‘sobrenome’ perpassando
todas as relações,... Eu não podia e não queria
me acostumar com aquilo... ser cúmplice de um sistema cruel...
abandonar-me, em troca de ‘uns reais’...
Em contrapartida, posso dizer que eu aprendi muito!!!
Por amor, eu precisava deixar o curso... que era aquilo???
Para isso é que eu estudara tanto???
No 2º semestre do mesmo ano, resolvi trabalhar em uma escolinha,
pra ver se eu conseguia ‘me apaixonar’ pela profissão...
Seis meses, acumulando trabalho, cansaço, choro, (desidratação
a mil!!!), num depósito de crianças...
No ano seguinte, trabalhei somente no Notre Dame, numa época um
pouco menos atribulada, mas não sem suas emoções.
O começo do ano foi muito bom, realizando um trabalho em um grupo,
com respeito, amizade, e muito crescimento profissional (SAUDÁVEL!!!).
Uma das professoras que eu auxiliava tirou licença gestante, e
aí começou o furação das emoções.
Crianças indisciplinadas, uma coordenadora que não me amava
de paixão – foi colocada uma estagiária para substituir
a professora, e aí o circo caiu... As crianças não
sabiam a quem ouvir, e ao mesmo tempo, não reconheciam a autoridade
da estagiária.
Passei por muitas dificuldades, acabei entrando no jogo e, reconheço,
fiz besteira.
Acabei ficando como auxiliar de uma sala apenas, que tinha 8 alunos, com
uma situação muito delicada. Foi uma época boa, pois
houve tempo de aprender e realizar muitos projetos, mas ao mesmo tempo
terrível, de extrema sensibilidade emocional e moral...
No final do ano eu pedi a conta.
Em Fevereiro fui chamada na prefeitura para substituição.
Fui seca!!! Mas, o que fazer com tantas frustrações???
Em 2003 trabalhei em uma escola onde eu sofri muito: diretora rígida,
duas monitoras ‘antigas da casa’, (peso pesado!!!), e uma
professora com quem deveria partilhar o trabalho (só que ela morava
na lua!!!), numa época de greves.
Tentei realizar um projeto, dentro de tantos limites estreitos...
Aprendi muito!!!
Fiz tudo o que eu não acreditava!!! (tudo de ‘errado’!!!)
MINHA IDENTIDADE
(Marta RAL/ 2001 - inspirado em "Identidade" de Pedro Bandeira)
Às vezes, nem eu mesmo
Sei quem sou.
Às vezes sou quem sou
Às vezes sou quem querem que eu
seja.
Às vezes sou assim,
Assado,
Torrada.
Quem serei?
Mas que tarefa difícil...
Sexo feminino, branca
Campineira, paulista,
Brasileira, ser humano.
Registro Geral n° 30.173.565-7.
Tenho CIC, carteira de motorista,
título de eleitor.
Para o banco, sou maior capaz...
Fui o que fui,
Sou o que sou,
Serei o que serei.
Sou eu, você,
Sou os outros, todos nós,
Mas não importa (ou talvez sim...)
O que pensam de mim...
Eu sou quem sou,
Eu sou eu,
Sou assim,
Sou menina e mulher
Artista, arteira,
Silêncio e fala
Sou Marx, Skinner,
Sou contradição...
Sou Permanência e resistência,
Althusser e Gramsci.
Significação x condicionamento...
Tenho Vygotsky no sangue,
E Bergson nas veias...
Tenho você nas teias,
Sou um tecido,
Manuscrito,
Impresso numa só pessoa,
Que não é uma,
São várias,
Sou o que não sei o que sou.
Não me conheço,
Não me pertenço,
Não sei como procedo,
Não sei o que cedo.
Eu me procuro:
Tu me achas?
Tu me vês?
Tu me conheces?
Então, diga-me quem sou...
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
(Cecília Meireles, in Flor de poemas.)
“A ação do professor decorre, em parte,
das suas intenções. Mas as condições concretas
oferecem resistência“
(SMOLKA, Ana Luiza Bustamante e LAPLANE, Adriana Frizman.)
No final do ano, terrorismo, dizendo que não haveria possibilidade
de remoção: quase enfartei!!!
Deus é Pai e é Bom!!! Fui buscar o Paraíso.
Comecei a trabalhar onde trabalho atualmente, na EMEI Carlos Drummond
de Andrade, e aí procurei reconstruir-me enquanto professora.
Comecei a fazer tudo o que sempre tive vontade, e tudo o que acreditava:
trabalho em conjunto com uma colega, planejamento considerando projetos
(Jornal, Animais, ...) e as reais necessidades da crianças, trabalho
com diferentes linguagens, a vivência da aprendizagem e a aprendizagem
da vivência...
No meio do caminho, uma turma muito difícil (MUITO!!!: dos meus
três alunos ‘terríveis’, o mais santo era o terror
da escola no ano anterior!!!), mudança de Orientadora, direção
‘nova’, a dificuldade de relacionamento com as professoras
mais antigas da escola (diferença de trabalho, divisão da
sala, ...)...
Foi um ano de muito desgaste (E de choro!!! Que profissão mais
desidratante!!!), mas de real constituição do meu ser professora.
Retornei aos estudos, já descansada dos 8 anos seguidos de curso
(Magistério e Pedagogia), agora com real ‘vontade’
de estudar.
AO TEMPO EM QUE EU ESTAVA LÁ,
Lá, bem perto, junto mesmo,
Eu não via o que olhava
Tão perto, tão junto...
Agora que estou longe,
Muito longe mesmo,
Eu vejo
O que precisava de espaço e tempo
Para ser olhado!
(O espaço é preciso
para que haja horizonte
como o presente é necessário
para que haja futuro!).
Então, eu pressentia perto - distante,
Agora, eu sei distante - perto!
(Gabriel de Paula Machado in Crônicas e Poesias)
Ano novo, vida nova, e felizmente, turma nova!!!
Uma nova possibilidade de reconstrução: a direção
está mais experiente, a existência de algumas tentativas
de acertos com as professoras ‘veteranas’, o retorno ao estudo
de Vygotsky, a tranqüilidade aparente, uma turma nova (23 meninos
e 11 meninas!!!).
Comecei a me apaixonar pela profissão. Prossegui com o desenvolvimento
de projetos (Jornal, Desenho, Hino Nacional, ...), num trabalho de vida,
para vida, em vida, e com vida!!!
Prosseguindo com o trabalho conjunto com minha amiga, e em nossa loucura
em desafiarmos a tranqüilidade ‘tradicional’ da sala
(tão bem reconhecida, por debaixo das ‘lindas falas pedagógicas’!!!),
em detrimento da aprendizagem significativa, ainda nos indagamos, em nossos
devaneios, se realmente vale a pena todo desafio, toda dificuldade.
Se outrora, enquanto professora estagiária ou substituta, via-me
como impotente diante da mudança de prática tradicional,
corriqueira nas escolas (mas, não nas falas!!!), hoje vejo-me como
atuante, fazendo história na realidade concreta (e, portanto, DURA!!!),
podendo escolher entre o caminho mais fácil e o melhor caminho.
O maior problema que me coloco, muitas vezes, é o fato de que,
embora embasada pelos pressupostos Vygotskyanos(e até mesmo, por
ser embasada por eles...), a constituição de minha prática
não pode deixar de ser marcada pela minha história de vida
e pela história da escola diante do ensino.
É neste âmbito que os posicionamentos teóricos vão
fazendo toda a diferença. Todas as atividades pedagógicas
vão passando a precisar de uma forma de leitura diferenciada, que
contemple o mundo dos significados.
A leitura vai produzindo vida, movimento. Vai alterando meu modo de olhar,
meu modo de pensar a Educação, e o próprio modo como
concebo a leitura na prática pedagógica.
Assim, acabo por defender a própria concepção, que
pressupõe a constituição sócio-histórica,
e a não existência de pessoas como tábulas-rasas (não
há como negar em nós a constituição pelo tecnicismo...),
pressupondo a inquietude suscitada na existência certa de um estado
de incerteza constante.
“As opções que a professora faz e as decisões
que ela toma no momento, ou seja, o modo de condução da
atividade, podem se constituir em indicadores que falam dos pressupostos
e das intenções que ela tem.”
(SMOLKA, Ana Luiza Bustamante e LAPLANE, Adriana Frizman. )
MEU TRABALHO
Em minha resistência,
Minha voz.
Em nossa resistência,
A voz das crianças.
Correr logo cedo, pular,
Subir em árvores,
Uma aula de ginástica,
Discoteca,
Fazer pic-nic, a torto e direito...
Quer ser criança???
Tem que experimentar,
Tem que experienciar...
Que tal viver?
Que tal sentir?
Por que não sorrir, gritar, aplaudir?
Sou criança, sempre vou assim ser...
Ser o ser, o que sou,
Somente isto!!!
Tão simples, pequenino...
Alegrar-me com a água,
Deleitar-me no barro,
Admirar-me com a natureza,
Realmente ‘pegar’ fogo...
E rir-se do vento
(que pode ser Pum!!!, como dizia Vinícius de Moraes)
Tão simples, pequenino...
Ler Tarsila,
Apaixonar-se por Van Gogh...
Rir com o Drummond
(Que idéia é aquela da Quadrilha, hein!?!)
e não se cansar do Vinícius.
Melecar-me com machet,
Manchar-me com guache...
(Que história francesa, hein!?!)
Abusar da arte,
Fazendo parte,
Do que sou...
Fazendo arte,
Extraindo-me de mim...
Uma história louca,
Sem fim.
Mas, quem quer o fim de uma história???
Quem quer o fim de uma história feliz???
Marta RAL (04 de Julho de 2005)
Bibliografia
SMOLKA, Ana Luiza Bustamante e LAPLANE, Adriana Frizman.
O trabalho em sala de aula: teorias para quê? In CADERNOS ESE: Alfabetização
e Leitura FEUFF n°1 – Novembro/93
FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. A construção
da didática na prática dos professores in TOZZI, Devanil
A. et alii. A didática e a escola de 1º grau. São Paulo,
FTE. Diretoria técnica. 1991)