Maria Delourdes Maciel - Universidade Cruzeiro
do Sul – UNICSUL-São Paulo - Mestrado Profissionalizante
em Ensino de Ciências e Matemática - mariadelu@yahoo.com
Abigail Fregni Lins Universidade Cruzeiro do Sul – UNICSUL-São
Paulo - Mestrado Profissionalizante em Ensino de Ciências e Matemática
- bibilins2000@yahoo.co.uk
Resumo
Neste relato de experiência discutimos a estrutura, desenvolvimento
e resultados obtidos em um minicurso realizado com alunos do Programa
de Mestrado Profissionalizante em Ciências e Matemática da
UNICSUL - São Paulo. O mesmo teve como objetivo trabalhar a leitura
e a produção de textos científicos, a fim de subsidiar
a escrita do trabalho final do aluno (Dissertação), exigido
para a obtenção do título.
Introdução
Após o ingresso da primeira turma de mestrandos (professores de
Biologia, Química, Física e Matemática), em março
de 2004, e do trabalho desenvolvido nas diferentes disciplinas do Programa,
uma das maiores dificuldades apresentadas pelos alunos estava relacionada
com a leitura e a produção de textos acadêmicos, para
a apresentação de seminários e trabalhos de conclusão
das disciplinas. Para enfrentar esta dificuldade, os alunos solicitaram
a ajuda do Programa, alegando que, principalmente devido a sua formação
na área de Ciências Naturais e Exatas, onde a leitura fica
bastante restrita aos artigos científicos e a escrita aos relatórios
das atividades práticas, sentiam-se despreparados para dar conta
da carga de leitura e escrita solicitada.
Na tentativa de minimizar estas dificuldades, oferecemos, em horário
extraclasse, durante dois meses, uma vez por semana, um mini curso de
leitura e produção de textos científicos. Durante
este minicurso percebemos que as dificuldades começavam pela leitura
e interpretação dos textos trabalhados: os alunos tinham
dificuldades para identificar as idéias centrais dos textos, razão
pela qual os textos produzidos nem sempre apresentavam uma coerência
com o conteúdo do texto trabalhado. Os trabalhos escritos, além
de muito extensos, muitas vezes eram cópias na íntegra de
alguns textos desses mesmos autores.
Iniciamos o trabalho pela orientação em relação
à leitura, propondo que a mesma fosse realizada em três etapas.
Na primeira etapa a proposta era a leitura, na íntegra, do texto
sugerido, com identificação dos termos desconhecidos. A
medida em que iam lendo os alunos deveriam circular, com lápis,
a palavra desconhecida e, ao final da leitura, buscar seu significado
em dicionários. Na segunda etapa, a tarefa consistia da leitura
de cada parágrafo do texto, um por vez, onde o aluno deveria identificar
a idéia central do mesmo, grifando com marca-texto a palavra-chave
ou expressão que respondesse a pergunta: sobre o que o autor está
falando neste parágrafo? Na terceira etapa da leitura, a sugestão
era para que o aluno lesse apenas o que havia grifado, respondendo a seguinte
pergunta: como essas palavras e expressões podem ser ligadas, de
modo que expressem o conteúdo do texto? Ao responder oralmente
esta questão, os alunos iam utilizando termos de ligação
que resultavam em uma construção de frases e parágrafos
próprios. A medida em que avançávamos com textos
mais longos, as leituras eram mais rápidas e a construção
oral bem mais elaborada, gerando debates sobre as idéias trabalhadas
pelos diferentes autores, em torno de um mesmo tema.
A etapa seguinte foi a da escrita. Para a organização do
esqueleto do texto a ser produzido, empregamos a estratégia dos
mapas conceituais, propostos na teoria ausubeliana (Ausubel), solicitando
aos alunos que produzissem um mapa para cada um dos textos trabalhados.
Para tanto, deveriam escrever apenas as palavras e expressões grifadas
com marca-texto, distribuindo-as no papel segundo a estrutura do texto
(início, meio e fim), ligando-as com traços ou setas, sobre
as quais deveriam escrever a palavra ou expressão de ligação
que davam sentido a idéia expressa pelo autor, tal como haviam
feito oralmente. Os mapas produzidos individualmente eram analisados pelo
grupo e alterados, se necessário, até que a idéia
central do texto fosse expressa com clareza. O processo foi repetido com
diferentes textos, de diferentes autores, versando sobre um mesmo tema.
Ao final, os mapas eram expostos na lousa, comparados, analisados, de
modo a verificar a posição de cada autor: em que concordavam
ou discordavam; o que um autor acrescentava em relação ao
outro. Como tarefa individual os alunos deveriam construir de um mapa-síntese,
onde as idéias trabalhadas pelos diferentes autores fossem evidenciadas.
Este mapa-síntese passou a funcionar como um esqueleto do texto
a ser produzido pelos alunos. A primeira escrita foi individual. Cada
um dos textos foi lido e analisado pelo grande grupo para que seu autor
pudesse incorporar as sugestões na escrita final.
A partir dessa experiência realizada em 2004, os alunos que não
haviam passado pela mesma e os alunos ingressantes em 2005 solicitaram
que o minicurso fosse novamente oferecido. Tendo em vista a necessidade
da elaboração de artigos para publicação,
antes da defesa da Dissertação, e a elaboração
da própria Dissertação, alteramos a proposta inicial
e incluímos, em 2005, a orientação para a escrita
de artigos e participação em Eventos Científicos,
experiência que passamos a relatar.
Estrutura do minicurso
O minicurso foi estruturado em seis encontros semanais de 2h, sendo três
deles dedicados a leitura e produção de textos, tal como
já havíamos feito em 2004, e três para a discussão
da natureza, estrutura e objetivo de um evento científico, comunidades
científicas (Sociedades) e produção de artigos, conforme
cronograma abaixo:
1º e 2º Encontros – Introdução da técnica
de leitura em três etapas (já descritas na introdução),
a partir de três textos sobre Mapa Conceitual (Faria, 1987; Moreira
e Buchweitz, 1993; Novak e Gowin, 1999), seguidos de mapeamento dos mesmos.
3º Encontro – produção de um texto síntese
a partir dos três mapas construídos com a leitura dos três
textos indicados.
4º Encontro – o papel das Sociedades e Congressos: Para quê?
Quais são? Como iniciaram? O que apresentar? Quais os formatos?
5º Encontro – exploração, via Internet, de Sociedades,
Revistas, Periódicos e Eventos Científicos existentes nas
áreas de interesse.
6º Encontro – discussão sobre a estrutura e escrita
de resumos e artigos para apresentação em pôster,
comunicação oral, mesa redonda, grupo de trabalho, grupo
de discussão, fórum, painel, etc.
Desenvolvimento
No primeiro encontro os alunos receberam o programa, cronograma e textos
que seriam trabalhados. Tendo em vista que seriam apenas seis encontros
de 2h, apenas com o primeiro texto realizamos as três etapas de
leitura em sala. A leitura dos demais textos foi proposta como tarefa
extraclasse, ficando apenas a discussão e mapeamento dos mesmos
para o trabalho em sala, assim como a análise e discussão
dos textos produzidos.
Os três últimos encontros aconteceram no Laboratório
de Informática, onde os alunos tiveram a oportunidade de acessar
os endereços e verificar a estrutura de artigos publicados pelas
Sociedades e Periódicos da sua área de formação
(Biologia, Química, Física e Matemática), bem como
da área do Ensino, assim como sites de Eventos científicos,
para que pudessem comparar as propostas de trabalho de um e de outro,
a fim de buscar informações sobre as normas exigidas, tendo
em vista a produção do artigo solicitado.
A realização deste minicurso envolveu desde a exposição
de objetivos e etapas de trabalho (1º encontro), seguidos de discussão
e debate após cada leitura realizada e mapas e textos produzidos,
até a culminância, no último encontro, com uma avaliação
do minicurso e auto-avaliação dos alunos, tendo em vista
a proposta, o desenvolvimento e seu aproveitamento.
Resultados
Os resultados do minicurso estão expressos na fala de alguns alunos,
registradas na avaliação:
“Passei a utilizar da realização de mapas conceituais
em minhas aulas, com alunos do Ensino Médio. Notei que eles, com
o uso dessa dinâmica, se sentiram mais à vontade quando falavam
dos conceitos que eu havia trabalhado na aula. Acredito que seja pelo
melhor entendimento da matéria”.
“Acredito que toda disciplina relacionada com a técnica de
leitura e escrita científica seja de grande importância para
o nosso desenvolvimento. Assim, a disciplina contribuiu para um melhor
entendimento dos textos no Mestrado”.
“A disciplina trouxe-me uma nova forma para abordar os conteúdos
em aula e de estudar... com os mapas conceituais fica mais fácil
apropriar-se do conhecimento... entender os textos...”.
“... uma melhor compreensão dos textos...”.
“...aprendi a estudar...”
“...poderia ser oferecida como disciplina optativa no Mestrado...”.
“... mais tempo para abordar outros teóricos e aprofundar
o trabalho...”
“...a disciplina trouxe-me uma nova forma de abordar conteúdos
e de estudo. Com mapas conceituais fica mais fácil apropriar-se
do conhecimento e obter um conhecimento mais amplo do conteúdo”.
“A disciplina mostrou-me como focar um conteúdo...”.
“... como elaborar mapas conceituais, elaborar cartazes de participação
em eventos...Pesquisa na Internet sobre eventos e comunidades científicas”.
“... conhecer com maior profundidade: mapas conceituais, Ausubel,
congressos e grupos afins...”
Comentários Finais
Tendo em vista que o objetivo era de auxiliar os alunos nas suas dificuldades
de leitura e escrita acadêmica; que o mesmo foi realizado em apenas
12h, consideramos que os resultados alcançados na primeira etapa
do minicurso foram muito além do esperado. Os alunos não
apenas passaram a utilizar a técnica de leitura e escrita e mapas
conceituais na realização dos Seminários das disciplinas
do Mestrado, como também passaram a utilizá-las como estratégia
de ensino em suas aulas, favorecendo a aprendizagem de seus alunos. Na
segunda etapa, ficou claro o desconhecimento dos alunos em relação
à natureza, estrutura e objetivos de um Evento Científico,
o que evidencia uma carência de participação na vida
acadêmica durante a Graduação. Entendido o significado
de um Evento Científico e explorado, via Internet, quais as Sociedades
e Eventos relacionados com sua área de formação e
atuação, os alunos passaram a se organizar no sentido de
participar dos mesmos.
Um dos resultados apresentados na avaliação realizada pelos
alunos é a sugestão para que o minicurso se transforme em
disciplina optativa, a ser incluída no Programa de Mestrado, a
fim de que a experiência possa ser socializada, no futuro, com um
maior número de alunos e realizada num espaço de tempo maior,
possibilitando aprofundamento de algumas questões.
Bibliografia
FARIA, Wilson de. Teorias de ensino e planejamento pedagógico.
São Paulo: E.P.U., 1987.
MOREIRA, M. A. e BUCHWEITZ, B. Novas estratégias de ensino e aprendizagem:
os mapas conceituais e o Vê epistemológico. Porto/PT: Plátano,
1993.
MOREIRA, M. A. Ensino e aprendizagem: enfoques teóricos. São
Paulo: Moraes, 1983.
NOVAK, J. D. e GOWIN, D. B. Aprender a aprender. Trad. Carla Valadares.
Porto/PT: Plátano, 1999.