Mical de Melo Marcelino Magalhães - Faculdade
de Educação – Universidade de São Paulo (FE-USP)
Esta comunicação reflete parte da pesquisa
que venho desenvolvendo no mestrado. Em linhas gerais, minha pesquisa
busca refletir sobre a ocorrência/ausência de metáforas
nos textos escritos por alunos da educação básica,
utilizando como eixo teórico a psicanálise lacaniana, que
admite a metáfora como um dos indicadores da subjetividade de indivíduo,
ou seja, a capacidade de imprimir no discurso sua marca pessoal, visto
que a metáfora para Lacan nada mais é do que a tomada de
significantes já existentes na língua para um uso criativo,
novo, pessoal. Além de certas questões psíquicas
infantis envolvidas na capacidade de metaforização, questiono
ainda que outros fatores, no âmbito do ensino da escrita, portanto,
no âmbito da sala de aula, são favoráveis à
expressão da subjetividade de quem escreve, consistindo em um solo
fértil para a presentificação de metáforas.
Para esta comunicação que se insere no IV Seminário
Sobre Leitura e Produção no Ensino Superior, ater-me-ei
a uma das variáveis de análise do meu trabalho, a saber,
a metodologia do professor. A coerência desta escolha com o tema
do seminário consiste em entender que o professor da educação
básica é, certamente (pelo menos na realidade das escolas
paulistas, onde os dados foram colhidos), fruto dos cursos de licenciatura
e que a observação da sua prática pode nos fornecer
indícios da sua formação.
Este trabalho visava, a princípio, a refletir sobre um aspecto
pouco abordado na produção sobre a formação
dos professores de língua portuguesa: o emprego da metáfora
na prática e no discurso destes professores. Posteriormente, o
estudo estendeu-se a professores dos demais componentes curriculares.
Além disso, pretende analisar em que medida o conceito que o professor
tem de metáfora e a ocorrência (ou ausência) desta
em seu discurso é (ou não) determinante na produção
dos alunos.
Vale dizer que a importância da ocorrência (ou ausência)
da metáfora não reside a metáfora por si só,
mas naquilo a que ela indica, a saber, de uma subjetividade constituída.
Para dar conta da reflexão que me propus a fazer, realizei um pequeno
trabalho de campo numa escola estadual da periferia de São Vicente,
litoral sul do estado de São Paulo, onde observei as aulas de alguns
professores, conversei com alunos e, posteriormente, analisei produções
escritas destes alunos.
Das aulas que analisei, tomarei uma delas como estudo de caso. Trata-se
de uma aula de Arte em uma 7.ª série, portanto, com alunos
entre 13 e 15 anos de idade. A aula deste dia consistiu na leitura de
duas obras de arte, de Salvador Dalí (Mulher na Janela e A persistência
da memória).
A professora inicia a aula fazendo uma retomada da aula anterior quando
recupera, dialogicamente, com os alunos, os princípios estéticos
do Surrealismo. Neste momento, um aluno lembra que o Surrealismo estava
muito ligado aos estudos em psicanálise e suscita uma retomada
por parte da professora:
P: O que é mesmo a Psicanálise?
A1: É aquele negócio que mexe com a cabeça.
P: Pescoço?
(risos)
A2: Eles [os surrealistas] se inspiravam em Freud, pintavam os sonhos.
P1: Isso! A Psicanálise se ocupava de estudar a mente, o inconsciente.
Já aqui a professora faz um deslizamento sobre
a fala do aluno, para produzir um efeito de graça, o que Freud
chamaria de witz (traduzido por chiste ou tirada espirituosa), numa operação
metafórica-metonímica.
A seguir, os alunos começam a fazer a leitura do primeiro quadro
– Mulher na Janela. A professora apenas mostra a imagem, mas omite
o nome dela.
Num dado momento, a professora pergunta:
P: Quem foi o cabeça do Movimento Surrealista?
A1: Freud
A2, A3, A4: Andre Breton
P: Andre Breton. Liderar não é a mesma coisa que encabeçar?
Então o cabeça do movimento, o líder foi o Andre
Breton,
Esse foi outro registro de “metáfora”
no discurso da professora observada. Embora a expressão “ser
o cabeça de alguma coisa” seja uma daquelas metáforas
“cristalizadas”, parece que nem todos os alunos estão
familiarizados com ela. É o que acontece com A1 quando ele faz
uma livre-associação Psicanálise – cabeça
(mente) – cabeça (líder) – Freud. (para A1 não
há a diferenciação cabeça 1 e cabeça
2).
A professora, ao perceber, que a sua fala não foi autenticada por
todos, explica a substituição que ela fez (cabeça
por líder).
O último registro de metáfora no discurso da professora
foi durante a leitura do segundo quadro – A persistência da
memória. Ao observar os relógios do quadro, um aluno levanta
a questão:
A1: Parece que ele [o pintor] estava preocupado com o
tempo.
P: E por que o tempo está mole, derretendo?
A1: Ele [o pintor] estava cansando.
A2: O tempo tá devagar.
A3: O tempo está passando muito rápido.
A4: Ele tá preocupado com a hora.
Em outra aula, a professora pediu aos alunos que formalizassem
em um texto escrito as informações técnicas e estéticas
do quadro e escrevessem sobre as impressões que o mesmo causara
neles – o que ela chama de “leitura fruitiva.” O gênero
textual era livre: um relato, uma narrativa, um poema.
Um dado interessante a ressaltar é o relatado pela professora acerca
do engajamento dos professores desta escola em trabalhar (cada qual no
seu conteúdo) a fluência leitora e escritora dos alunos,
depois de constatar através da análise de dados como o resultado
do SARESP que essa seria a principal deficiência do alunado.
Das 48 produções dos alunos, várias apresentaram
o que chamo de “metáforas cristalizadas”, a saber,
aquelas expressões metafóricas mas que, por terem sido incorporadas
ao repertório comum, perderam o traço de criatividade e,
que por isso não podem ser consideradas como expressão de
subjetividade de quem as emite. É o caso de “ser cabeça
do movimento”, que só foi considerada neste trabalho por
causa da resposta de um dos alunos à expressão, mas não
que ela atenda ao quesito criatividade, singularidade a que me apego em
minha pesquisa.
Destaco, porém, 3 produções que apresentaram metáforas
menos convencionais:
A. “Eu vejo uma mulher na janela [...] ela está
desabafando com as águas, com o vento, com as cortinas.”
L. “[...] a mulher é a irmã do pintor
retratada, (sic) e que ele havia viajado ou alguma coisa assim, por isso
que essa mulher estava ali de cara pro mundo pensando que seu irmão
logo irá voltar.”
M. “Isso me lembra uma tristeza que ficou parada
no tempo [...]”
Diante destes dados, levanto a hipótese de que
de ocorrências como estas nos textos dos alunos podem ser “facilitadas”
por alguns fatores presentes no discurso desta professora, a saber, mais
do que seus enunciados emitidos sonoramente, sua posição
em relação ao que fala, já que entendo discurso aqui
na proposição lacaniana como uma estrutura sem palavras,
anterior à linguagem.
Vale dizer que considero estas três ocorrências de metáforas
dentre os 48 textos analisados reflexo do discurso subjetivo do professor
porque, embora a proporção seja muito pequena, ela é
muito significativa se olharmos para o corpus completo do meu trabalho
de mestrado (cerca de 1000 produções discentes) e constatarmos
um número quase nulo destas ocorrências.
O primeiro destes fatores é uma atitude de permeabilidade da professora
à expressão da subjetividade dos alunos.
Ao falar da leitura fruitiva, da expressão das impressões
que a obra causou em cada um, esta atitude é reforçada pelo
enunciado
P: nesta etapa da leitura, não há certo
ou errado
e os alunos parecem realmente confiar nisso, pois participam
maciçamente do exercício e são atentamente ouvidos
pela professora que trata de validar a contribuição de cada
um perante as brincadeiras dos outros colegas.
Esta postura afasta-se das respostas prontas e incentiva a reflexão
e a expressão daquilo que realmente o aluno pensou. Conseqüentemente,
as metáforas que eles possam apresentar não precisam ser
“metáforas certas”, como as depreendidas de uma aula
por Geraldi (1995) que constituem clichês reproduzidos na fala das
pessoas.
Não se trata de em nome da subjetividade aceitar tudo o que um
aluno disser, deixar de corrigir seus erros, agir com permissividade mas
de respeitar a singularidade dele, sobretudo nas atividades de fruição,
como a leitura de uma obra de arte, de um texto literário que,
a meu ver, são boas portas para a construção de um
estilo próprio na escrita.
O segundo fator é o que assinala a presença de algumas metáforas
na fala da professora e sua visível preocupação com
o entendimento das mesmas pelos alunos, evidenciada pelo diálogo
travado sobre o “cabeça do movimento surrealista”.
Se o professor apresenta ao aluno um discurso marcado pela subjetividade
(dada a ver, pelas metáforas que produz, por exemplo) e que implica
no comprometimento de quem fala com aquilo que fala, bem como a coerência
entre o que fala e o que faz, parece-me uma boa hipótese que isso
facilitará ao aluno a expressão de suas própria singularidade
também.
O que está em jogo na relação que se estabelece em
sala de aula, mais do que simplesmente funções (função-aluno
e função-professora) são sujeitos aluno e professor
(Geraldi, 1995) e pesa muito “a relação ética
que um adulto possa vir a ter com sua própria palavra, honrando
através dela, seu estatuto de adulto”. (Riolfi, 2005).
Essa identificação do discurso do aluno com o do professor
pode se dar em qualquer situação de relação
professor-aluno, para o bem ou para o mal. Se o discurso do professor
reflete uma posição “desejante”, de busca por
aquilo que lhe falta, o reflexo desse em seu aluno será de cunho
produtivo. Ao contrário se o seu discurso dá a ver uma posição
acomodada, ou nos termos de Lacan, “gozosa”, o reflexo será
reprodutivo.
Segundo Ducrot (1972) “[...] falar a alguém é reclamar-lhe
a atenção” e “não se pode falar legitimamente
a outrem senão daquilo que possa interessar-lhe”. Damos ao
outro o que ele quer receber de nós, devolvemos ao outro o que
ele nos dá.
Este cenário permite-nos hipotetizar que não importa tanto
se o professor sabe o que é metáfora, que conceito ele tem
dela ou como ela foi trabalhada na sua formação (posto que
provavelmente a professora de Arte do nosso caso não deve ter conhecimentos
muito diferenciados dos comumente veiculados a respeito deste fenômeno
linguajeiro). Vale muito mais que o professor constitua-se sujeito do
seu discurso (o que, conseqüentemente, torna-o capaz de metaforizar)
para que seja capaz de reconhecer e estimular no aluno a expressão
de sua singularidade.
Neste sentido, a formação do professor tem papel fundamental
na medida em que precisa estimular nele, ainda enquanto graduando, a produtividade
ao invés da reprodutividade, a produção de conhecimento,
ao invés da repetição de modelos prontos, o comprometimento
com a sua própria palavra, ao invés do adesivamento à
palavra de outros, o que certamente será mimetizado quando os papéis
se inverterem e este graduando passar a posição de professor.
Referências bibliográficas:
DUCROT, O. Princípios de semântica lingüística
– Dizer e não dizer. São Paulo, Cultrix, 1972.
GERALDI, J. W. Portos de Passagem. São Paulo, Martins Fontes, 1995
RIOLFI, C. R. Criando o novo com as mesmas velhas palavras. In: Anais
do V Colóquio do LEPSI. São Paulo, LEPSI, 2005 (no prelo).