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“BRASIL ORDEM! BRASIL PROGRESSO! BRASIL ALFABETIZADO!” MITOS DA ALFABETIZAÇÃO

Cassiano Vacca (UCS/NUPRA)
Cleusa Cestonaro (UCS/NUPRA)
Milena Dagnese Morassi, (UCS/NUPRA)
Raquel Ghelere (UCS/NUPRA)
Sônia Matos (UCS/NUPRA)

A proposta do nosso trabalho é desencadear movimentos, fluxos, cortes sobre o tema alfabetização e a educação de jovens e adultos.Para compreender este tema analisamos o Programa Brasil Alfabetizado . Os materiais produzidos pela campanha publicitária deste programa são vistos por nós como artefatos culturais, estes produzem discursos e constituem representações sobre as pessoas não-alfabetizadas.

As trajetórias deste estudo nos lançam em linhas. A linha de fuga é a que estamos mais embriagados/as neste momento. Pois nela não teremos uma verdade mais verdadeira sobre as questões da alfabetização e nem temos a pretensão de sacralizar este ou aquele programa de alfabetização de adultos. Muito menos apontar caminhos para uma proposta, nem julgar a deste ou aquele programa. Estamos cansados de receituários sobre a alfabetização de adultos e também esgotados das opiniões e falas desenvolvimentistas e redentoras sobre a educação de adultos .

Trazemos outros pensares e outros dizeres, sobre a alfabetização e a educação de adultos, não para sacralizá-las de verdades e de certezas, mas para (des)sacralizá-las. Deslocar os discursos circulantes que são produzidos na campanha do Programa Brasil Alfabetizado, é instigar a estabilidade, talvez esgorregar no impermeável deste trabalho. Pois é na linha de fuga que encontramos a bricolagem de analises e de discursos, e é na linha de escrita que traremos para vocês nossas vibrações, efeitos, maquinamentos e nossas produções desejantes sobre este tema, a alfabetização.

DISCURSOS E PRÁTICAS SOCIAIS HISTÓRICAS DA LÍNGUA GRÁFICA

O programa Brasil Alfabetizado reflete a visão Ocidental de entusiasmo em relação ao desenvolvimento e uso da forma escrita da linguagem nas práticas sociais que remete-nos ao deslumbre de relações de poder que situam e imprimem identidades individuais e lugares no âmbito social: há os indivíduos ou comunidades letradas , considerados portadores de intelecto; e os não letrados que, dentro de uma ordem cartesiana iluminista, são despossuídos de tal intelecto. Lê-se letrado para a modernidade quem necessariamente freqüentou os bancos da disciplinarização escolar: único local capaz de resgatar o “cego” analfabeto da “escuridão ignorante.”

Grande parte dos programas governamental de alfabetização traz em seu bojo um ideal demarcado de homem e de sociedade aplicável a todos em favor de uma hegemonia que, como na teoria de Kant, dá seus lugares ideais às coisas terrenas. As palavras Liberdade, Igualdade e Fraternidade, famoso lema da revolução burguesa na França de 1789, encontra forte eco dentro das esferas estatais. Não é diferente no caso do programa Brasil Alfabetizado, pois todas as pessoas “obrigatoriamente” necessitam ser escolarizados para poderem assumir a identidade idealista de bons cidadãos democratizados, como o programa federal identifica a seus sujeitos já portadores do código escrito.

Enfim, as práticas sociais em torno do código escrito constituíram-no como um dos ideais iluministas de ser homem na cultura Ocidental. Com a Reforma Protestante, Lutero insurge contra a visão medieval da Igreja Católica que mantinha em seus conventos e igrejas a cultura letrada e seus monges copistas: tradutores da herança escrita dos romanos e gregos. A Bíblia, livro máximo do Cristianismo, apresentava-se como algo da ordem do Sagrado e, como tal, necessitava ser lido pelo Sagrado: os representantes de Deus no solo Terreno. Sua difusão, assim como a dos demais livros da cultura clássica greco-romana, distanciaria, porventura, o homem de Deus, diminuindo, por conseqüência, a predominância do poder Católico sobre seus fiéis.

Com a Reforma, Lutero e sua recém surgida Igreja Protestante quebram com inúmeros preceitos católicos, entre os quais a visão da Bíblia como algo a ser lido exclusivamente por religiosos. Tal contraponto redireciona o olhar medieval sobre a questão de detenção dos saberes elaborados sob o código escrito e quebra com a hegemonia católica. O desenvolvimento da imprensa por Gutenberg, fortemente apoiada pelo protestantismo, pode apresentar-se aqui como um exemplo da nova ordem das coisas em relação ao poder de quem pode ou não deter as técnicas de leitura e escrita. Os novos usos da linguagem escrita proporcionada pelas práticas sociais e discursivas em torno do uso da imprensa auxiliaram, de certa forma, na disseminação da linguagem gráfica para além dos muros dos conventos e igrejas. A Bíblia passa a ser lida não somente pela ordem do sagrado, mas por qualquer mortal.

Conseqüentemente ao aumento da circulação de livros e materiais destinados à leitura, aumenta o número de leitores. Nos séculos XVI, XVII e XVIII, devido à publicação de almanaques, cartazes, manuais e catecismos, a letra torna-se algo de maior existência comum entre a população. Entretanto, o aumento de leitores não condiz com um suposto aumento da escolarização. Inúmeros eram as pessoas que aprendiam a ler sem, portanto, escolarizarem-se. Parafraseando o que diz Chartier (2001, p.120-121) “leitura e escrita não formavam uma unidade intrínseca. Um indivíduo que era capaz de ler e, portanto, decifrar o código escrito muitas vezes não dominava a escrita de tal código. Poderiam ser muitos os leitores, porém não em mesmo número os de escritores.”

Se, como descrevemos acima, um leitor não era necessariamente um escritor, a produção escrita ainda se matinha elitizada e restrita. Escrever está sendo generalizado aqui como uma ação sinônima de criação, apesar de tal generalização ter suas controvérsias. A leitura, por sua vez, reproduzia o escrito. E essa leitura situava-se longe de ser autônoma e subjetiva ao sujeito, pois, desde os momentos clássicos pré-medievais, a tradição da oratória predominava e os textos restringiam-se a algo para ser lido aos outros. A leitura silenciosa, no recôndito do silêncio e do isolamento intrapessoal figura como uma prática moderna de conceber o ato de leitura.

Assim, ao apresentar aspectos de oratória e dissociada ao ato de escrever, a leitura apresentava brechas para a manutenção do controle sobre ela. A disciplinarização do ler é, portanto, possível de ser mantida mesmo na sua difusão renascentista. Além disso, como escrever permanece um exercício dominado por poucos, o predomínio do poder que a leitura e a escrita exerce entre os que dominam tais instrumentos sobre os que os dominam em parte se mantém. O próprio protestantismo que se caracterizou pela divulgação da Bíblia entre a população restringiu, de certa forma, o acesso ao livro Sagrado ao instituir catecismos ao povo protestante e a induzir suas leituras do texto sagrado. Indução esta que partia dos portadores das habilidades de ler e escrever para os que somente dominavam o ler.

A difusão massiva da escrita, possibilitada em parte pelos fazeres sociais sobre o impresso, e a concepção moderna de leitura como um ato silencioso e pessoal no recôndito do isolamento apresenta novos paradigmas à leitura. Acompanhando tal movimento, a escola, com a intenção de organização e disciplinarização da sociedade, progressivamente acumula para si a tarefa de institucionalizar e sistematizar o aprendizado da cultura letrada. A escola moderna se torna o centro para onde precisa convergir quem quer de fato aprender a ler e a escrever. Elitista e, mais tarde, sob o lema Liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa, ressurgida como pública, a escola reafirma-se como instituição destinada ao ideal de alfabetizar o povo: ponte que faltava entre os não letrados e os letrados, entre os cultos e os não cultos que almejam ao ideal da cultura aceita pelos padrões do novo homem burguês. Os Planos Nacionais de Educação, surgidos entre os franceses, inauguram a idéia de escola pública gratuita e obrigatória, na busca de igualdade: propaganda da classe burguesa para convocar a todos ao levante contra o poder absolutista da monarquia.

Em resumo: as práticas sociais cada vez mais solidificados na imprensa e nos mercados editoriais produzem na cultura ocidental seu assentamento sobre a hegemonia da cultura letrada, cabendo à escola a alfabetização obrigatória dos indivíduos. Não é estranho, portanto, que o sistema escolar, na contemporaneidade, seja alvo constante de programas governamentais com a intenção de propagar a escrita a todos: o ideal de homem alfabetizado imposto pela modernidade precisa ter uma política hegemônica para alcançado o seu intento.

Essa lógica apresentada por tais programas, como o Brasil Alfabetizado, em afirmar que o exercício da cidadania passa necessariamente pela escolarização do indivíduo de certa forma faz sentido na medida em que o Estado e seus poderes se assentam de tal forma sobre a cultura escrita que o exercício dito cidadão dos direitos e deveres da sociedade moderna passam por leis sancionadas pelas esferas superiores e apresentadas à população sob o código escrito. E como os poderes instituídos utilizam-se somente dessa forma, aprender a ler e a escrever, na sociedade moderna torna-se a porta de entrada para o exercício da plena democracia. Conceito democrático esse que em seu âmago traz a exclusão das comunidades e indivíduos não letrados: desprovidos da cultura padrão que a escola se encarrega de ensinar, disciplinarizar e sistematizar cartesianamente em conhecimentos dosados a conta gotas por meio de seus métodos positivistas de ciência metódica.

OS DISCURSOS CIRCULANTES DO SITE DO PROGRAMA BRASIL ALFABETIZADO

Nesta pesquisa, estamos analisando qual o discurso utilizado pelo Programa Brasil Alfabetizado ao se referir aos analfabetos. Dentre as várias análises que fizemos, e dos vários materiais analisados, está o conteúdo do site, do programa. Neste buscaremos identificar qual o discurso que se faz sobre o analfabeto, como ele é visto pelo programa, e mais, que pessoas são estas que “precisam” ser alfabetizadas.

O que entendemos por discurso? “(...) para Michel Foucault, o discurso ultrapassa a simples referência a” coisas “, existe para além da mera utilização de letras, palavras, imagens, sons e frases, e não pode ser entendido como mera” expressão “de algo: o discurso poderia ser definido como um conjunto de enunciados apoiados numa formação discursiva, ou seja, num sistema de relações que funciona como regra, prescrevendo o que deve ser dito numa determinada prática discursiva. (Fischer 1997, p. 64)”.

Não é nossa pretensão, criticar, destruir ou fazer qualquer outra avaliação negativa do programa, mas reconhecer, analisar, o discurso vigente sobre o analfabeto, e saber se existem relações de poder dos que falam para os que ouvem estas falas.

A linguagem

No site do programa analisamos a linguagem utilizada, e como esta é direcionada ao leitor. Nossa intenção é de (...) “investigar a lógica discursiva da mídia em direção à produção de sentidos, a partir do exame de estratégias de linguagem”. (Fischer 1997, p. 60).

O conteúdo do site utiliza-se nas questões mais objetivas, mais significativas, de uma linguagem “simples”, de pequenas perguntas objetivas, e respostas curtas. Destas destacamos algumas: “O que é o Brasil Alfabetizado? É um programa criado pelo Governo Federal com a missão de abolir o analfabetismo do Brasil”, “Quanto tempo, em média, dura a alfabetização? O tempo para a alfabetização varia de acordo com a proposta pedagógica da instituição alfabetizadora...”, “Por que é tão importante saber ler escrever? Por que esse é um direito de todo o cidadão. Só assim ele poderá exercer seu papel social...” Essa linguagem parece “facilitar” o entendimento, e “subestimar” o leitor, com respostas fáceis de entender, e supostamente não exige muito do raciocínio para compreendê-las.

Noutros textos do site, usa determinados termos referindo-se ao futuro alfabetizando, ao leitor, e ao método que as instituições “devem” usar para alfabetizar. Quando usa os termos “deve”, “faz-se necessário”, aponta e parece dar uma “ordem” imediata para as questões do analfabetismo no Brasil. Usando esta linguagem, impõe e dá a ordem de quando, como e porque determinadas pessoas precisam ser alfabetizadas. Sobre isso escreve Foucault (apud Silva, 2003, p.44-45).

“Os discursos estão entre, de um lado, relações de poder que definem o que eles dizem e como dizem e, de outro, efeitos de poder que eles põe em movimento: o discurso é o conjunto das significações constrangidas e constrangedoras que passam por meio das relações sociais”.

Nos dizeres do site, aparecem as seguintes questões, de que o programa “deve” garantir a efetiva alfabetização, “deve” respeitar o processo de alfabetização participativo e democrático, “deve” considerar a aprendizagem dinâmica da linguagem verbal. A linguagem utilizada pelo Programa Brasil Alfabetizado, é uma linguagem do discurso crítico, quando aponta os caminhos a serem seguidos para a alfabetização dos brasileiros. Essa linguagem exerce aqui o seu caráter político, demarcando posturas do que precisa ser ensinado, e de que maneira isso será feito.

Imagens

No conteúdo do site, também aparecem imagens de pessoas. Esta vista por nossa análise, parecem ser as pessoas analfabetas de nosso país, aquelas que “precisam” ser alfabetizadas. São negros, (homens e mulheres) e nordestinos. Citando um filósofo que muito analisou os discursos, “Foucault, não quer fazer história dessa linguagem, mas, sobretudo a arqueologia desse silêncio”. O silêncio de Foucault está, na ausência de outras “raças” ou culturas, neste é apresentado somente negros e nordestinos. Por que não aparecem brancos, descendentes de europeus, (italianos, alemães, poloneses, outros)? Somente negros e nordestinos são analfabetos?

O discurso utilizado pelo site cita em vários pontos o objetivo e a finalidade do programa. São estes, “... um portal de entrada para a cidadania”, “... a inclusão educacional”, “... a missão de abolir o analfabetismo no Brasil”.
Com estes dizeres, justificando a necessidade de se alfabetizar estas pessoas citadas acima, parece-nos que somente os alfabetizados pela instituição escola, são cidadãos, e quem não for alfabetizado está excluído da sociedade. Neste ponto cabe uma questão: Qual o conceito de alfabetização do programa? Como são vistos os letramentos , os conhecimentos que as pessoas já possuem, que aqui não são citados. Para este programa, as pessoas que não passaram pela escola são seres vazios, sem conhecimento algum.

Na parte das questões simples e objetivas, mais especificamente na última questão, onde trata da importância de saber ler e escrever, o discurso justifica como um direito de todo cidadão. Se for de direito, como diz no site, por que não foi proporcionada a oportunidade anteriormente. Para este programa parece que somente o alfabetizado pode exercer seu papel social. Quem não for, como citamos anteriormente é excluído da sociedade, é visto como um mal a ser extinto.

Outra questão é a justificativa para a falta de desenvolvimento, como se os principais problemas de nosso país fossem por causa do analfabetismo. A alfabetização é apresentada numa abordagem desenvolvimentista e redentora. E a idéia de que se extinguirmos esse mal todos os problemas seriam resolvidos, o país sairia da condição de terceiro mundo, não haveria mais violência, nem miséria, e usando as palavras do site, nossa sociedade seria mais justa e humana. Esses discursos colocam como solução dos problemas, a escolarização, e a falta desta, é a causa dos problemas da nossa sociedade.

As cores utilizadas no site são as cores da bandeira nacional, sendo as mais usadas o verde e o amarelo. Este discurso nos remete a um determinado tempo histórico de nosso país, o discurso da Proclamação da República, influenciado pelas idéias do positivismo .

Nossa bandeira conta, com o lema “Ordem e Progresso”, essa expressão foi extraída da fórmula máxima do Positivismo, que pregava os seguintes ideais: “O amor por princípio, à ordem por base, o progresso por fim”, que significa, viver para outrem (altruísmo), e cada coisa no seu devido lugar para a perfeita orientação ética da vida social.

Ao analisarmos mais este discurso do site, notamos que esta maneira de apresentar-se utilizando as cores da bandeira nacional, perpetua as idéias do Positivismo que pregava o amor à pátria, a total dedicação a ela e a “ORDEM E O PROGRESSO!!”

Cidadania anti-cidadão: que cidadania é esta?

No site do programa
Brasil Alfabetizado a palavra cidadania aparece com muita freqüência e a uma frase que se chama o“portal de entrada na cidadania” •. Mas o que vem a ser esta cidadania? Trazemos o enfoque etmológico para o texto, a origem da palavra cidadania vem do latim “civitas”, que quer dizer cidade. No atual dicionário (Ferreira, 2000, p.36), a definição é a seguinte: "Cidadania é a qualidade, estada ou condição de cidadão". E ser cidadão é ser um "indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com este".

Ficamos a nos perguntar: que vontades de verdades que determinam o que é ser cidadão? Que discursos permeiam a questão cidadania? Que constituições de identidades estão expressas na cidadania do programa Brasil Alfabetizado? O que é ser cidadão? E o que é não ser cidadão? Quem tem poder para definir? Nós?! Certamente não. Vocês?! Não sabemos. Definir cidadania?! Propomos questionar, discutir, investigar que narrativas estão sendo criadas e colocadas em circulação no site do programa sobre o que pode vir a ser, o que pode significar cidadania.

Em todo o site a palavra “cidadania” é atrelada a alfabetização, pois para as pessoas se tornarem cidadãs tem que estar circulando nos discursos das pessoas alfabetizadas, escolarizadas. Portanto está palavra produz um fluxo maquínico que ordena as pessoas irem para este programa, podendo assim alcançar o ideal social, atingir a horaria de ser considerado “cidadão”. Quem são as pessoas que ganham essa horária? Como aponta o jingle do programa são os “o pobre, o adulto e o aposentado” os anti-cidadão.

Maquina-se uma verdade, sobre o alfabetismo e a escolarização, produzindo produzindo e representando o discurso de que a cidadania é alcançada por meio da apropriação da leitura e da escrita. Portanto, analfabeto é visto pelo programa como anti-cidadão, sendo este perigo para o desenvolvimento do país. Um país alfabetizado cria mais possibilidades para o desenvolvimento”, produzindo um lugar para a verdade: o alfabetismo e a escolarização promovem o progresso social.

Encontramos outra fala no material do site: “Qualquer pessoa pode contribuir com o trabalho de abolição do analfabetismo”. O não alfabetizado tende a ser visto pelo programa como um ser desamparado, isolado, incapaz, que necessita de bondade alheia para superar a sua condição de “inferior”. Para isso conclama, principalmente, os comerciantes, empresários e a igreja para se unirem e ajudarem nesta “luta de abolição do analfabetismo”.

Os discursos apresentados no site normaliza, controla, informa o que é ser cidadão em uma linha mantenedora do lema desenvolvimentista e positivista: “Ordem e Progresso!”. Ele julga quem é bom e quem é ruim, quem é o mocinho e quem é o bandido, vinculando uma tarefa normativa de cidadão, de cidadania. Estas narrativas expressam no site tornam o alfabetizado como o certo, o bom, o normal; e o não alfabetizado como o ruim, o excêntrico, o diferente que deve se abolido, como afirma essa frase no site: “abolir o analfabetismo”.

Somos atravessados com representações que se apresentam como as corretas de ver a cidadania e suas relações. Na sessão perguntas e respostas, os discursos e narrativas ali expostas dizem como é e como deve ser um cidadão “Tem que saber ler e escrever, interpretar textos, saber cálculos matemáticos básicos”. .As representações divulgadas pelo site estão estritamente vinculadas a relações de poder que incluem ou excluem, que fazem determinados grupos de pessoas falarem e outros calarem. Ousamos os silêncios e as vozes!

PROFÉSSOR, DICTATOR, IMPERATOR*

O texto de Aldous Huxley(2001), “Admirável mundo novo”, à primeira vista, nos parece de natureza fantástica e surreal ou, ainda, um tema para filmes de ficção científica. Porém, há relações com a vida real que podemos estabelecer se focarmos com mais atenção nosso olhar.

A pré-concepção programada, representada através de tubos de ensaio para "formar" este ou aquele sujeito remete a uma outra manipulação: a que permeia o maquinário escolar e rege a sociedade. Um dos reflexos dessa manipulação pode estar na dogmatização do sujeito escolarizado, conferindo a ele os graus de cidadão e existente. Já os que tiveram seus tubos virados 1/4 de volta serão identificados em seus documentos de identidade como "não-alfabetizado". Se a assinatura é uma, apenas uma, das formas de representação pessoal, qual é o significado de, em seu lugar, estar impresso não-alfabetizado? E, se nem todas as pessoas passaram pelos duros bancos escolares, onde está a coerência de uma assinatura fazer parte de um documento oficial de identificação?

Para resolver essa e possíveis outras questões, vigora atualmente o programa nacional Brasil Alfabetizado, o qual convoca os não alfabetizados a passarem da classe dos "selvagens" para a dos "domésticos". E para que não suscitem dúvidas, delimita quem serão os constituintes: o pobre, o adulto e o aposentado. Mas o que faz sugerir serem essas pessoas o alvo para o programa?

Será porque pobre não tem condições financeiras e cognitivas de freqüentar uma escola regular? Será porque adulto não pode perder tempo estudando enquanto a máquina deixa de produzir? Será porque, então, depois de velho, incapaz de operar a máquina e carregar o peso que entortou a coluna, poderá "ocupar" o tempo que resta de vida para que, antes do último suspiro tenha tido a salvadora oportunidade de se "transformar" em cidadão? Eu vos concedo o grau de bacharel – ops! Eu voz concedo o grau de cidadão! – qualquer semelhança não é mera coincidência.

Penso ser essa delimitação de pessoas uma forma de dispor, aos nossos olhos, a margem da sociedade. Ao contrário do que marqueteia o programa, percebe-se a inércia de atitudes preocupadas em desmarginalizar tais pessoas. O governo mascara o que percebe e fantasia salvações apoteóticas: “erradicar o analfabetismo”. E, caso o objetivo não seja alcançado, foi você quem ficou parado. E quanto à sociedade: aplaude a boa intenção.

O canto embriagado

Atenção: sigam as instruções que virão abaixo para aprender a ler. Elas virão em seqüência para facilitar a compreensão e serão claras a fim de que não suscitem dúvidas. Vou ressaltar que o objetivo é aprender a "ler". Entendido? Ouçam a leitura:

Pra aprender a ler
Pra isso não tem hora
Pode ser de dia
Pode ser de noite
Pode ser agora
Pode ser pobre
Pode ser adulto
Ou aposentado
Pra aprender a ler
Só não pode ficar parado

Vou fazer a chamada: os pobres estão presentes? Os adultos? Os aposentados também?
Seguindo...

Percebe-se no primeiro verso da música o objetivo central: o aprendizado da leitura. E constata-se a falta da escrita. Qual seria o motivo dessa omissão?

Podemos, primeiramente, analisar o motivo que faz constar a leitura. Por que se faz necessário que se leia? Há inúmeras interpretações, sendo uma delas, ler o que é produzido por instâncias manipuladoras, mantenedoras do status quo, portanto, detentoras de poder. Ler, por exemplo, nos meios de comunicação que o PIB está tendo aumentos significativos, que o índice de emprego tende a subir neste trimestre e o de analfabetismo a cair.

Ler por ler, sem considerar interpretar. Aí entra a omissão da escrita. Ler remete à uma questão passiva, por isso bem frisada no jingle. Já a escrita remete à autoria - perigo à vista! Essa autoria faz emergir a possibilidade de reflexão e interpretação para uma possível ação. Ação essa, que pode se disseminar, tornando-se um vírus mortal àqueles que limitam à leitura. Situação semelhante é ilustrada pelo autor George Orwell (1998), nos eu livro 1984, em que materiais escritos eram modificados, publicados e divulgados a cada instante para as pessoas lerem e vê-se, desoladamente, em momento de autoria, Winston Smith, personagem do livro, sendo preso, ao manifestar, em secreto diário, seus pensamentos, pela Polícia do Pensamento.

O jingle ainda estabelece quando o seu objetivo vigorará: dia, noite, agora! Ignora o tempo do sujeito-alvo e, mais uma vez, o coloca na posição de assujeitado, submisso à regras, no dever, o que o faz tornar-se temeroso do não cumprimento de tal imposição e, novamente, da comprovação de seu fracasso perante a "benevolência" de seu "Grande Irmão" em conceder-lhe a graça da leitura. Aos pobres, ricos e aposentados que vacilarem pelo caminho, o destino não lhes trará a redenção: sentarão à frente de um copo de Gim Vitória , catatônicos – diria que estão mortos.

Aos corajosos, objetivados em tornarem-se cidadãos, terão sido elogiados por aprenderem a ler. Estarão em paz, ótimos pelo fim da luta. Finalmente lograrão a vitória sobre si mesmos. Amarão o “Grande Irmão”. Mas terão passado por duras penas, esquecido de suas essências e tido como mestre um proféssor, dictator, imperator “funcionário da ortopedia moral” (Foucault, 2004, p. 13), que também passou por duras penas, esqueceu sua essência...

OS MAQUINAMENTOS DO PROGRAMA BRASIL ALFABETIZADO

O enunciado“Brasil alfabetizado” nos remete a criar movimentos para uma outra ordem de pensamento, buscando esmigalhar a afirmação, do slogan. Há fluxos de funcionamento da lógica desta afirmação enunciativa. Existem maquinamentos produzindo esses discursos de Brasil?De Alfabetizado? De ordem e de progresso?

Tratamos este slogan na produção de maquinamentos, estamos ligados à máquina socious, acontecimentos, movimentos, engendramentos, agenciamentos, produzem e estão produzindo cortes e fluxos, acoplando-se a outros movimentos maquínicos, produzidos em territórios educativos, políticos e midiáticos. As máquinas socius, não tem lugar, nem maquinistas(sujeitos), não busca significado e significante, cartografar um pouco destes acoplamentos e funcionamentos a partir do enunciado, Brasil alfabetizado, é nossa proposta.

Brasil? Ordem e Progresso! Estas palavras fazem parte de um discurso histórico destes “Brasis”. Os maquinamentos do Brasil, Ordem e do Brasil, progresso são pontuados no movimento do positivismo republicano que mergulhamos no final do século XIX Fluxos ocorreram nesta produção discursiva nos territórios educativos. Os acoplamentos discursivos do qual falamos, os encontramos na primeira constituição republicana, esta era formada “de discípulos mais ou menos remotos da doutrina positivista obcecados com o ideal de pequenas pátrias, do sistema comteano” (Lacombe, 1949, p.13). Este sistema era adesivado nas máximas positivistas como: ordem e progresso, progredir, melhorando e ensine o que souber e quizer e como puder. Estas produções discursivas foram engendradas nas estratégias, jurídicas, mas também educacionais em nosso país. As máquinas desejantes (Deleuze e Guattari, 1972) positivas educacionais produzem o evolucionismo na alfabetização, constituíram verdades verdadeiras, formulas nas práticas de alfabetização, voltadas para os métodos de alfabetização, as teorias maquinam diretrizes de como se faz a alfabetização, para quem se direciona. Há o controle ordenado das premissas dos métodos pedagógicos.

Alguns estudos contemporâneos rastreiam os detalhes destes maquinamentos disursivos na alfabetização. Em Mortatti (2000), encontramos um minuncioso histórico dos métodos de alfabetização dentre os períodos de 1876-1994, no Município de São Paulo. E no Rio Grande do Sul, temos a autora Trindade (2004), que estuda as cartilhas produzidas no período republicano.

Essas cadeias de narrativas de base educacional positivista da ordem e do progresso, afirmavam que garantiriam o desenvolvimento econômico, e promoveriam o progresso ordenado de nosso país através da escolarização e alfabetização em massa. Essas falas nos acompanham até os momentos atuais..Pois o programa Brasil Alfabetizado, coordenado pelo atual governo federal, voltado para a Alfabetização de Jovens e Adultos, é uma das máquinas, que se acopla as outras máquinas desejante positivistas, produzindo lugares e verdades sobre a alfabetização, o que nominamos de mito da alfabetização. Os maquinamentos sobre alfabetização fabricaram e fabricam práticas discursos e não-discursvas produzindo subjetividades sobre as pessoas jovens e adultos, não escolarizadas.

Esse programa é veiculado na mídia televisiva, radiofônica e publicitária, estes movimentos midiáticos são por nós reconhecidos como instituições, e portanto são tomadas por nos como fabricantes de verdades, fabricantes de enucunciados, e produtores de subjetividades. Esses poderes demarcados pelo enunciado do slogan “Brasil Alfabetizado”, produzem vontades de verdades sobre as pessoas não alfabetizadas e alfabetizadas. Há códigos, marcas, codificações discursivas nesses movimentos midiáticos. Eles são estratégistas em suas “montagens publicitárias”. Veremos mais sobre essas questões DURANTE NA TAL PARTE DO NOSSO TEXTO. Quando faremos uma analise da letra da música, do jingo e das cores esolhidas nesta campanha publicitária.

Quanto aos maquinamentos do enunciado no slogan...Estes demarcam, estruturam, rotulam, esmiúção, lugares, formas e julgamentos, disciplinam corpos, inventam identidades de como são e devem ser as pessoas não alfabetizadas?Como vivem? Como e onde moram?De que etnia fazem parte? Que roupas vestem? Quanta grana tem? Que idade tem? O que consomem? Com esses controles, está instituição, se maquina com o discurso positivista e promove o mito da alfabetização. Pois o Pais tem que ser alfabetizado. Esse refrão é uma ordem! Em busca do progresso.

Esse slogan maquina na linha do bem e do mal, do mocinho e do bandido, do cidadão e do não cidadão. Fabricando a correspondência maniqueísta de quem é o mal, o bandido e o não cidadão. Estas são as pessoas não alfabetizadas, portanto o Brasil não é alfabetizado!. E essas pessoas atrapalham o crescimento econômico do País, sendo pontuado nos índices internacionais como um mal mundial a ser “atacado, acabado”. Um país não alfabetizado, passa a viver e conviver com discursos mundias sobre a importãncia da alfabetização, montando-se um circuito discursivo, que nos chamamos de mito da alfabetização, pois ela salvará essa selvageria; os não alfabetizados. Assim como fizeram os jesuítas com os índios, no iníco da colonização do Brasil. Os civilizados, os colonizadores e religiosos, tem a verdade, o bem, o paraíso para dominar e disciplinar os bárbaros, não alfabetizados..

È pela linha de fuga que optamos olhar esta campanha publicitária, portanto, os barbaros, não alfabetizados são parte da produção discursiva da maquina desejante mídia, e esta com seus tentáculos de poderes também produz o mito da alfabetização.

As maquinas desejantes positivista e as miídiáticas copulam e produzem padrãos e normas para um lugar do bem, que é o lugar das pessoas alfabetizadas, disciplinadas e civilizadas. O mito da alfabetização passa a ser desejado pelas pessoas alfabetizadas, pois todos querem ter o lugar da salvação, da magia e do poder da escrita. A civilidade dá garanti de serem normais e não mais diferentes. Não esquencendo que o diferente tem que ser dominado pelos normais e civilizados, neste contextoos alfabetizados.

REFERÊNCIA BILBIOGRÁFICA

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