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REFLEXÕES
SOBRE A ESCRITA E A LEITURA: A PARTIR DA AÇÃO PEDAGÓGICA
COM ADOLESCENTES
Darlize Teixeira de Mello - Secretaria Municipal
de Educação de Porto Alegre/RS
Universidade Luterana do Brasil (ULBRA)
Introdução
A trajetória profissional em turmas de progressão, tanto
do primeiro ciclo quanto do terceiro ciclo, em escolas da rede municipal
de ensino de Porto Alegre, ora como assessora da alfabetização,
ora como professora (situação atual) e como professora em
curso de formação de professores (pedagogia, habilitações
educação infantil e anos iniciais), conduziu o desenvolvimento
desta pesquisa, que se encontra em fase inicial. Nelas estão contidas
as inquietações que me acompanharam durante anos e que continuam
me acompanhando sobre a não alfabetização de crianças
e adolescentes das escolas municipais da periferia de Porto Alegre.
Ao longo dos anos, às complexas e conflitantes relações,
com as diferentes concepções de alfabetização,
foram se acrescentando um estranhamento, pois as pesquisas de Ferreiro
e Teberosky (1990) embora tenham trazido para as práticas de alfabetização
uma enorme contribuição, com base nos estudos psicogenéticos
de Piaget, não têm sido suficiente para garantir, sobretudo
à população periférica de Porto Alegre, pelo
menos no primeiro ano do ciclo, o acesso efetivo à leitura e à
escrita.
Assim sendo, a partir da análise discursiva dos estudos em alfabetização,
buscarei compreender os discursos produzidos e produtores de subjetividade
nas turmas de classes de alfabetização, enfatizando nesse
trabalho uma turma de progressão de 3ºciclo.
Contextos
Com a intenção de desvelar o cotidiano da
turma de progressão – classe de alfabetização
tomei como espaço a sala de aula, de uma Escola de Ensino Fundamental
da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do
Sul.
A escola onde desenvolvo parte do trabalho de campo situa-se em um dos
sete eixos de maior miséria da cidade de Porto Alegre, bairro Bom
Jesus, e em um dos eixos de maior índice de violência e homicídio
de adolescentes na faixa etária de 16 e 18 anos. Estou nesta escola
há três anos com turma de progressão do 3 º ciclo.
Escolhi a mesma pelo fato de estar intrigada com as dificuldades que os
adolescentes chegavam a esta classe, após ficar dois anos fazendo
assessoria, aos professores na área de alfabetização,
vinculada a Secretária Municipal de Educação. Na
época, a progressão de 3º ciclo, nessa escola, era
composta por professores das diferentes áreas.
A turma em que realizo a pesquisa é composta por 18 adolescentes,
com idade entre 13 e 17 anos, sendo 17 meninos e uma menina. Anteriormente,
no início do ano letivo, esta turma era composta por 20 adolescentes,
no entanto, duas adolescentes abandonaram a Escola por dois motivos concomitantemente:
um, pelo fato de ambas ter completado 18 anos e a lei não as obrigarem
a continuar na escola e, outro, por ambas terem bebês recém-nascidos.
Enquanto professora referência, ministro a maior parte das disciplinas
da matriz curricular (história, geografia, ciências, português
e matemática), devido ao fato dos adolescentes dessa turma estarem
em processo de alfabetização. Mais quatro professores especializados
ministram as disciplinas de inglês, arte educação,
educação física e filosofia, além de uma professora
volante que faz atendimento individual aos adolescentes.
O que encontrei, ao longo desses três anos, era familiar e desconhecido.
Familiar porque na Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre, sempre trabalhei
com turmas em processo de alfabetização e turmas de progressão
do 1º ciclo; desconhecido, porque nunca havia trabalhado antes com
adolescentes.
A seguir, apresento alguns exemplos de produções textuais
realizadas no início do ano letivo por dois alunos da turma para
que possa ser “marcado” o processo inicial de alfabetização
em que esta turma iniciou o ano letivo.
Figura 1 – Produção textual de D.

Figura 2
– Produção textual de M.

Algumas questões
eram diferentes para ambos (professora e adolescentes): como pendurar
o alfabeto? Como transformar o espaço da sala de aula em um ambiente
alfabetizador (considerando as orientações presente nas
concepções de alfabetização para educação
infantil e anos iniciais), respeitando as identidades juvenis? Como justificar
para as outras turmas do 3º ciclo, formadas por outros adolescentes,
que eles possuíam uma única professora para as disciplinas
de história, geografia, matemática, ciências e português,
como os pequenos do 1º ciclo?
Velho (1987, p. 131) afirma que o “processo de estranhar o familiar
torna-se possível quando somos capazes de confrontar intelectualmente,
e mesmo emocionalmente, diferentes versões e interpretações
existentes a respeito de fatos”. Acrescenta ainda, que conhecer
dados sobre determinadas situações sociais do cotidiano
não significa nem que conheçamos a visão de mundo
dos diferentes atores em uma situação social nem os subtextos
que estão por trás dessas interações”.
Deste modo, apesar de estar trabalhando com o processo de alfabetização,
estava inserida num novo contexto: o contexto das identidades juvenis.
Tal questão não pode ser tratada aligeiradamente. Do ponto
de vista da prática cotidiana nas escolas com adolescentes e jovens,
Fischer (2002) aponta que há, “uma espécie de sentimento
ambíguo, expresso por nossos alunos, de segurança e ao mesmo
tempo de perdição: o sentimento de que eles estariam no
centro das atenções, de que o mundo é deles e existe
para eles, e ao mesmo tempo, a falta de referências, nas quais possam
apoiar-se, para além daquelas oferecidas pelo exemplo dos grandes
astros da mídia, do esporte e da publicidade.”
Ou, ainda, como salienta Dahlke (2001), “sujeitos adolescentes ao
mesmo tempo em que reclamam para si um atendimento cada vez mais individualizado,
articulam-se a diferentes grupos de mesmas exigências, partilham
de identidades (consumidores para os mesmos bens, clientes para os mesmos
serviços, públicos para as mesmas imagens e mensagens).
São adolescentes/ massa - adolescente/ hedonista ao mesmo tempo,empresários
de si mesmo e simultaneamente alvo de múltiplas interpelações”.
Em outras palavras, estou querendo salientar, que pensar em trabalhar
com o processo de alfabetização nessa classe, progressão
de 3º ciclo, implica em entender toda essa discursividade em torno
da adolescência e da juventude, que constitui e produz subjetividades.
Um exemplo dessa questão seria a escolha de ídolos na turma.
80% dos meninos elegeram: Ronaldinho gaúcho, Ronaldo ou outros
jogadores estrangeiros, de preferência aqueles que o “passe”
estiver mais alto.
Desse modo, a partir desse contexto, passei a ampliar meu conceito do
que é ser adolescente e estendê-lo para outros espaços
sociais. Passei a deslocar esse contexto também, para o cenário
nacional. Estudos de Mortatti (2004, p.24) auxiliaram na elucidação
dessa realidade mais abrangente.
De acordo com a autora (Mortatti, 2004, p. 25), “os avanços
quantitativos em relados à inclusão educacional não
têm sido suficientes para superar o déficit qualitativo sobretudo
no ensino fundamental, pode-se mencionar os seguintes: o percentual de
freqüência à escola : em 1998 e 1999, 24% dos alunos
do ensino fundamental e 18% dos alunos do ensino médio no país
estavam repetindo o ano; os dados do IBGE de 2001 revelam que 35% dos
analfabetos já freqüentaram a escola; os dados da UNESCO e
pela Organização para cooperação e Desenvolvimento
Econômico localizaram o Brasil em penúltimo lugar, entre
41 países, no que se refere às competências de jovens
de 15 anos de idade para a leitura, matemática e ciências;
e os dados das avaliações do Saeb vêm apontando queda
sistemática no aproveitamento dos alunos de 4a e 8a séries
do ensino fundamental em língua portuguesa e matemática”.
Contudo, segundo seus estudos, esse dados têm se constituído
enquanto reforço para manutenção da associação
entre alfabetização e educação escolar, assim
como entre alfabetização, educação e desenvolvimento
social, cultural, econômico e político, presentes nas idéias
pedagógicas oriundas as teorias críticas de currículo.
Reagindo a esse futuro certo, escola como/enquanto caminho para transformação
social, estudos e pesquisas (Hall, 1997; Bakhtin,1992; Silva 2000) têm
permitido dizer adeus às ilusões futuras e olá as
“novas” produções culturais sobre o que é
ser alfabetizado hoje, a partir do resgate da narrativa que, restitui
ao sujeito a experiência e a linguagem, o reconduz à tarefa
histórica e cultural de ser humano, de se produzir e ser produzido
na sociedade.
Com isso, se resgata, definitivamente, o tempo presente, contextualizando-o
historicamente, como tempo que não deveria ser mais uma ligação
entre o ontem e o amanhã, mas tempo vivo, necessário para
o tempo presente: o que se lê/escreve, como se lê/escreve
e para que se lê/escreve hoje.
Pesquisando
os contextos apontados
O objetivo
central deste estudo é, conforme já apontado, compreender
o porquê da não alfabetização em escolas da
rede municipal de Educação de Porto Alegre, em especial,
de uma turma de progressão de 3º ciclo. Tal pesquisa será
desenvolvida através de um estudo comparativo e crítico
sobre a história da alfabetização no Brasil; quando
a escola pública brasileira começa a ser democratizada.
O interesse em realizar um estudo que permita descrever e analisar o processo
histórico da alfabetização, a partir de um estudo
comparativo com o contexto atual de uma escola de ensino fundamental,
considerando os discursos narrativos produzidos neste /para este espaço,
guiou a escolha de uma abordagem qualitativa e conseqüentemente,
os métodos utilizados na coleta de dados.
Para levar a cabo a investigação, que se encontra em fase
inicial, tenho procurado reunir o material de análise, a partir
de cinco procedimentos metodológicos: observação
interativa (MELLO, 1997; SMOLKA,1991), entrevistas, coleta de narrativas
orais e gráficas (desenho e escrita) (SIVEIRA,1995; BAKHTIN,1992),
estudo bibliográfico e análise de cartilhas a partir da
democratização da escola pública, escoa para o povo
(TRINDADE, 2001; MORTATTI, 2000) e coleta de matrizes curriculares de
cursos de formação de professores, especialmente, do Curso
de Pedagogia, habilitações educação infantil
e anos iniciais.
Ressalta-se que este estudo encontra-se na fase das observações
interativas e coleta de materiais gráficos (produções
escritas e desenhos) e que as análises apontadas a seguir serão
realizadas, através dessas observações e material
gráfico coletado.
Interação
em sala de aula e o desencadeamento de narrativas orais e escritas.
Se der tempo,
a gente fala! A turma em questão, progressão de 3º
ciclo, está situada em um prédio da Escola, onde na frente
da sala de aula, há outras duas turmas: B13 e B 14 (que “corresponderiam”
às 3a séries, na escola seriada) e ao lado uma A25 (que
“corresponderia” à 1º série, na escola
seriada).
O silêncio das salas das turmas B13 e B14 no decorrer do período
de aula, turno da manhã, é assustador.
Não se ouve nem a voz das professoras que ficam toda a manhã
com as portas abertas, parecendo vigiar o que acontece no corredor do
prédio. As crianças dessas turmas, B 13 e B14, passam toda
a manhã com os livros didáticos abertos, parecendo haver
muita cópia.
Isso é perceptível, não apenas por mim, que também
pareço estar vigiando, mas, também pelos adolescentes da
progressão que dizem: “Coitados! Eles só escrevem”!
“Que chatice, não escutam música naquela turma”.
A outra A25 está, segundo a professora, implementando um método
“novo” de alfabetização, que em conversa informal
comigo, relatou ter encontrado na internet. Parece estar vendo a proposta
encontrada como algo salvacionista, algo que irá auxiliar na alfabetização
de 100% de sua turma, uma vez que o material parece garantir este resultado
em seus dados. Ouve-se pouco barulho, as portas fechadas. Uma vez que
outra, ouço a professora comentando sobre o trabalho que utiliza
o método fonético. A linguagem parece estar emparedada.
A escola parece oferecer pouco espaço para as crianças expressarem
seus anseios, suas alegrias, medos, angústias, prazeres enfim,
suas vidas. Por isso, se der tempo, a gente fala
Como sabemos a escola pública desconhece o contexto de vida de
seus alunos, a sua história, a sua cultura. Pelo contrário,
na maioria das vezes ela os nega, insiste em negar esse conhecimento persistindo
em impor outra cultura, outro modo de entender a realidade.
Diferentemente desta perspectiva pedagógica, tomei como base para
o desenvolvimento do processo de alfabetização dos adolescentes
da turma de progressão, CP1, os estudos de Bakhtin (1992) e Hall
(1997), autores que, a partir de uma perspectiva dialógica - para
o primeiro -, e cultural – para o segundo -, dão à
linguagem um lugar central para a constituição de subjetividades.
As palavras
e seus significados culturais
Para análise
de algumas cenas do cotidiano sobre os diferentes significados da palavra
trabalharei com os pressupostos teóricos bakhtinianos, uma vez
que apontam que a palavra está sempre carregada de um conteúdo
ou de um sentido ideológico vivencial.
Cena 1
Sala de vídeo.
A : - V. pega a caixa da fita e diz: Duque vídeo? Hah! Hah! Professora,
Duque ? O que é Duque?
P: - Duque, é o nome da locadora, V. Tem esse nome, porque a locadora
fica na rua Duque de Caxias.
A: - Mas, Duque é o estuprador, nos presídios.
P: - Ah, Sim, mas, nesta locadora, quer dizer Duque, no sentido de um
título nobre dado a Caxias, que lutou na revolução
Farroupilha. Tu “acha” nobre quem estupra? Por que Duque?
V. não respondeu. Só ria “marotamente”.
Cena 2
Escrevíamos um texto coletivo sobre a África, pois estávamos
fazendo um estudo da África.
A professora escrevia no quadro e dizia:
P: - África é um continente.... O que vocês acham?
...economicamente pobre. Pode ser?
Silêncio.
P: - Ué! Não pode ser? Ah! Já sei! Por que será
mesmo que escrevi economicamente pobre? (
A: - Ora, sora! Para ficar mais bonito! W. fala.
Questiono-me, então: podem essas questões não ser
discutidas na escola? Pode-se não permitir a palavra e desconsiderar
esse adolescente como ser social, criador e criatura da cultura? Deste
modo, ressalto como aspecto relevante para o conhecimento do contexto
dessa turma, em processo de alfabetização, a linguagem.
A palavra signo ideológico por excelência, para Bakhtin (1992),
ganha vida não por ser assimilada como um sinal abstrato da língua,
como uma forma sempre idêntica a si mesma, mas como concretude dos
enunciados nos quais aparece de forma flexível e variável.
Tal aspecto, permite, então, indagar mais: o que escrevemos em
textos coletivos? De quem são as vozes presentes nestes textos?
Que discursos interpelam essas construções coletivas? Qual
a “força” do discurso pedagógico na construção
dessas produções? Ou como salienta Hall (1997): o outro
é em suma essencial ao significado.
Os mapas
e seus significados culturais
Fugindo
ou procurando fugir das concepções pré-fabricadas
sobre maneiras de alfabetizar, tenho procurado ao longo desse semestre
focar a questão do processo de alfabetização não
apenas no estudo da língua materna, como palavra solta, descontextualizada,
mas aliada a um contexto.
Esse contexto refere-se a palavras vinculadas por diferentes áreas
de conhecimento, pois segundo a proposta da própria Secretária
de Educação ler e escrever é um compromisso de todas
as áreas.
A partir dessa perspectiva, apontarei algumas canas que marcaram essa
situação no cotidiano.
Cena 3
Estávamos jogando o jogo War. Após explicar o jogo, distribui
as cartas e fui percebendo que os adolescentes não localizavam
seus territórios no mapa.
Fiquei intrigada, pois todos liam as palavras das cartas, mas levavam
um tempo procurando os territórios. Os únicos territórios
encontrados, foram o Brasil e alguns países da África, devido
ao estudo realizado anteriormente sobre o povo africano.
Questiono-me,
novamente: Adolescentes entre 14 e 17 anos e que não se localizavam
no Mapa Mundo? De que leitura de mundo as teorias educacionais críticas
que “invadiram” as escolas na década de 80, falam?
Segundo Kaercher (1999), “estar alfabetizado em geografia significa
relacionar espaço com natureza, espaço com sociedade, isto
é, perceber aspectos econômicos, políticos e culturais
entre outros, do mundo em que vivemos ler e escrever em geografia é
ler o mundo, de maneira que o aluno saiba situar-se (e não só
localizar e descrever) e posicionar-se. Que assuma um posicionamento crítico
com relação às desigualdades socioespaciais”.
Cabe-nos, contudo, perguntar: Como ler o mundo, situar-se e posicionar-se,
sem localizar seus diferentes territórios? Como estar na escola,
com 8 ou 9 anos de escolaridade, e não saber localizar territórios
no Mapa do Mundo?
Cena 4
Logo no início da aula.
A: - Professora, minha barriga dói! Onde é o estômago?
Disse J., um adolescente de 14 anos.
P:- Ah! O estômago fica aqui. (mostrando no corpo do adolescente).
Por que será que dói ? O que tu “comeu”?
A: - Aí, não sei.
Cena 5
No outro
dia construímos um trabalho sobre o corpo humano. Segue abaixo
os conhecimentos que os adolescentes já possuíam sobre o
corpo humano e o que queriam saber, após a representação
gráfica que alguns fizeram sobre o corpo.
Figura 3
- Projeto sobre o corpo humano

Figura 4
- O corpo por dentro: F.
Figura 5
- O corpo por dentro: G.
Analisando
as situações apontadas anteriormente sobre as turmas A25,
B13 e B14, anos iniciais do ensino fundamental , não se admira
que estes adolescentes não saibam localizar o estômago no
corpo. Devido as suas dificuldades em dominar o código escrito,
por muito tempo esses adolescentes foram considerados aqueles que não
sabem, aqueles que não se alfabetizavam, têm dificuldade
em pensar abstratamente.Contudo, pela representação gráfica
e F. e G. podemos perceber quantas abstrações são
representadas em seus desenhos gráficos.
Dificuldades em se alfabetizar. Problemas de aprendizagem. Adolescentes
com diferentes histórias de vida. A turma de progressão
é vista como um lugar dos problemas. Contudo, pelas cenas do cotidiano
retratadas, podemos perceber que o processo interativo de aprendizagem
revela que o aprendizado ocorre por meio de práticas discursivas,que
podem mostrar o quanto os sujeitos são de “certa forma”
letrados, sem necessariamente serem alfabetizados (Soares, 1998). Portanto,
aprendizagem, ensino e desenvolvimento, embora processos distintos, interagem
dialeticamente. No aprendizado dessa turma a interação comigo,
enquanto professora e os pares, outros colegas, apontou a importância
da heterogeneidade e da linguagem para a aprendizagem.
Percebe-se que nas relações dialógicas, as palavras
têm um poder, muitos significados e múltiplos sentidos, em
seus diferentes contextos sociais, pois para entendermos a linguagem do
outro, é necessário compreender que existem muitos sentidos
no contexto da sala de aula.
Todas cenas retratadas, neste trabalho, procuraram evidenciar /marcar
o processo do trabalho com a linguagem e o processo de alfabetização
na sala de aula de uma turma de progressão, afastando-se das condições
deterministas que constituem o olhar sobre esses adolescentes. Procuraram,
também, evidenciar/marcar a constituição de subjetividades
de sujeitos que tem voz, que têm um papel social e que capturam
significados por meio de sua inserção num mundo definido
culturalmente, do qual a escola, também, faz parte.
Considerações
finais
Ao longo
desse trabalho procurei salientar a centralidade da linguagem e da cultura
(Hall, 1997), como uma das perspectivas contemporâneas para se pensar
o processo de alfabetização. Penso que: “Não
precisamos nos questionar apenas se devemos deslocar o trabalho pedagógico
da alfabetização para o letramento, da redação
ao texto, ou ainda, da crença no discurso monossêmico ao
polissêmico, do monofônico ao polifônico, mas buscar
entender, por um lado, o quanto as nossas aulas, nossos planos não
são produzidos de forma autônoma e criativa como imaginávamos,
mas que decorrem de discursos e representações do que é
ler, escrever e oralizar.” (Dalla Zen;Trindade, 2002, p. 131) Contudo,
este estudo, em fase inicial procurará, também, analisar
como essa perspectiva foi se produzindo ao longo da história da
alfabetização no Brasil e como tem sido ou não constituído
nos cursos de formação de professores, na Pedagogia, a partir
de habilitações como a educação infantil e
anos iniciais.
Referências
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