Camila Alberto Vicente de Oliveira – FCT/UNESP
As aceleradas mudanças sociais, econômicas,
políticas e culturais, o advento de novos e importantes meios de
comunicação de massa, as mudanças na organização
das famílias e nas formas de vida ocorridas na sociedade contemporânea
afetam diretamente a escola e o trabalho do professor.
Para ilustrar o desenho dos novos tempos, nos coloca Kullok (2000, p.
19):
São hoje considerados como postulados do limiar do século
alguns aspectos tais como: a velocidade, onde podemos afirmar que nada
mais é como antes, as informações caminham numa velocidade
tal que mal temos tempo de tomar conhecimento de tudo o que está
ocorrendo no nosso campo profissional. Esta velocidade gera em cada um
de nós um nível de angústia tal que faz com que vivamos
em constante movimento de adquirir as informações para podermos
permanecer no trabalho. [...] Nada mais é permanente, tudo muda,
tudo passa.
Para Esteve (1995, p.95), as transformações
foram ainda mais significativas e serviram para justificar as várias
reformas do ensino ocorridas em sistemas de educação em
todo mundo.
Nos últimos vinte anos, as transformações sociais,
políticas e econômicas foram tão acentuadas que, quando
falamos aos nossos filhos e aos nossos alunos sobre a sociedade no princípio
dos anos 70, verificamos que os pontos de contacto com a realidade actual
são muitos tênues. A situação é idêntica
em relação ao sistema educativo.
Uma vez que as citadas mudanças, exemplificadas
objetivamente por Kullok (2000) e Esteve (1995), influenciam diretamente
a vida das pessoas, afetam também, a escola e os professores para
os quais têm sido levadas demandas que eram consideradas, anteriormente,
funções da família, de outros aparelhos públicos
– como algumas ações de prevenção em
saúde, por exemplo – e de outras entidades educativas.
Essas constatações têm como paradoxo o fato de que
a formação desse professor não tem acompanhado essas
novas exigências de desenvolvimento profissional.
Desse descompasso entre a formação do professor, as expectativas
pessoais sobre sua prática e as expectativas depositadas na escola
e no professor por pais, alunos e demais sujeitos envolvidos com a escola
podem derivar características do “mal-estar docente”.
O FENÔMENO DO “MAL-ESTAR DOCENTE”
O fenômeno do “mal-estar docente” é uma tendência
mundial confirmada por Esteve (1999, p.21) e seu estudo tem por objetivo
não apenas denunciar a inadequada formação e penúria
pela qual passa a escola pública hoje, mas também:
Ao estudar a mudança de cenário, talvez nossa sociedade
se dê conta de que tem de apoiar os professores da escola básica
para evitar um processo de socialização divergente, sem
que produzam grandes interferências na aquisição de
conhecimento instrumental mínimo e dos valores básicos,
sem o qual a convivência torna-se muito difícil.
O “mal-estar docente” é uma “doença
contemporânea e internacional”. Do descompasso entre as novas
exigências e demandas colocadas pela sociedade à escola e
consequentemente ao professor derivam características do “mal-estar”,
conforme afirma Esteve (1999, p.13):
A acelerada mudança no contexto social, em que exercemos o ensino,
apresenta, a cada dia, novas exigências. Nosso sistema educacional,
rapidamente massificado nas últimas décadas não dispõe
de uma capacidade de reação para atender às novas
demandas sociais. Quando consegue atender a uma exigência reivindicada
imperativamente pela sociedade, o faz com tanta lentidão que, então,
as demandas sociais já são outras. Portanto, os professores
se encontram ante o desconcerto e as dificuldades de demandas mutantes
e a contínua crítica social por não chegar a atender
essas novas exigências. Às vezes o desconcerto surge do paradoxo
de que essa mesma sociedade, que exige novas responsabilidades dos professores,
não lhes fornece os meios que eles reivindicam para cumpri-las.
Outras vezes, da demanda de exigências opostas e contraditórias.
O autor (1999, p. 25) nos coloca que a expressão
“mal-estar docente” tem sido utilizada desde 1957 e a considera
a mais “inclusiva existente na bibliografia atual” sobre o
tema, conceitualmente usada para: “[...] descrever os efeitos permanentes
de caráter negativo que afetam a personalidade do professor como
resultado das condições psicológicas e sociais em
que se exerce a docência”.
Para discutir o “mal-estar docente”, suas origens, causas
e conseqüências, foi realizado um estudo de caso (YIN, 2001)
com um grupo de professoras de uma escola da rede municipal de Presidente
Prudente –SP e partilhamos das afirmações de Esteve
(1995) que diz que isso não se faz por um “exercício
de autocomplacência”, mas tem como função a
superação de uma situação que inibe o professor
na realização de um bom trabalho educativo e tem como finalidade
política explicitar as necessidades do professor para a superação
de dificuldades encontradas em sua prática.
CAUSAS DO “MAL-ESTAR DOCENTE”: Elementos da
formação profissional
O fenômeno do “mal-estar docente” tem sido analisado
à luz de várias teorias e perspectivas, buscando a multidimensionalidade
do fenômeno, uma vez que pretende compreender todas as variáveis
que atingem a escola, transformando-a e ao professor no exercício
da docência.
Para Lopes (2001) o “mal-estar” pode ser analisado pela dimensão
psicológica e pela dimensão sociológica. Na dimensão
psicológica, as pesquisas centram-se na identificação
de processos psicológicos que configurariam o “mal-estar”;
já na dimensão sociológica, o enfoque é sobre
os aspectos sócio-histórico-culturais e escolares que caracterizam
o problema; os resultados dessas pesquisas procuram demonstrar quais são
as fontes do mal-estar docente.
Sobre as causas do “mal-estar”, a mesma autora (2001) aponta
três eixos principais: causas vinculadas ao contexto educativo,
causas vinculadas à motivação pessoal e à
formação inicial e causas vinculadas ao contexto escolar.
Outro autor que faz uma análise da relação entre
a escola e a sociedade é Jesus (2001), afirmando que os fatores
que causam o stress entre os docentes e consequentemente o “mal-estar
docente” podem ser distinguidos em dois grupos, relacionados ao
plano macro e ao plano micro.
As causas do “mal-estar”, ainda segundo o mesmo autor (JESUS,
2001) relacionadas ao plano macro dizem respeito a fatores sociopolíticos
como o número excessivo de alunos nas classes e o excesso de exigências
políticas colocadas sobre o trabalho dos professores e o esquecimento
das reais condições de trabalho e de formação
docente para que tais exigências políticas fossem respondidas
adequadamente. No plano micro, os fatores que geram “mal-estar docente”
se referem às atividades relacionadas diretamente com o local de
trabalho, nomeadamente a indisciplina dos alunos. A indisciplina é
causa principal de “mal-estar porque acaba por inviabilizar o planejamento
das aulas e a qualidade do processo ensino – aprendizagem que o
professor pretende atingir” (JESUS, 2001).
Contudo, nesse texto, destacaremos as causas do “mal-estar docente”
sistematizadas por Esteve (1999) na expectativa de apresentar um leque
de possibilidades maiores para a análise da escola e da realidade
brasileiras.
A classificação de indicadores do “mal-estar docente”
é colocada da seguinte forma: os fatores primários são
aqueles que se relacionam diretamente com a ação do professor
em sala de aula e fatores secundários que se referem às
condições em que se exerce a docência; a ação
do segundo grupo nos professores é indireta, segundo o autor, mas
diminui sua motivação e seu esforço e completa:
Isolados (os fatores), tem significado apenas intrínseco, mas,
quando acumulados influem diretamente sobre a imagem que o professor tem
de si mesmo e de seu trabalho profissional, gerando uma crise de identidade
que pode chegar inclusive [...] à autodepreciação
do ego (ESTEVE, 1999, p. 27)
Em relação aos fatores contextuais (secundários),
Esteve (1999) destaca a modificação no papel do professor
e dos agentes tradicionais de socialização.
É consenso entre os mais diversos autores que o aumento de exigências
e responsabilidades que recaíram sobre o professor foi significativo.
Entretanto, para Esteve (1999) não houve o acompanhamento dessa
mudança pela formação profissional docente para que
acompanhassem essas modificações com sucesso. O autor coloca
ainda que nos últimos anos - por diversas razões, dentre
elas pela entrada da mulher no mercado de trabalho, a transformação
do grupo familiar - que tem abandonado as relações com outros
membros e reduzindo-se a núcleos menores, a renúncia das
famílias às responsabilidades que desempenhavam no âmbito
educativo, obrigaram a escola a rever seu papel, que tradicionalmente
era de transmissão de conhecimentos, instalando-se aí um
grande conflito.
Há alguns anos a escola coincidia com a sociedade e as demais instituições
que participavam na socialização da criança nos valores
fundamentais, nos modelos que deveriam ser transmitidos; o que produzia
uma socialização fortemente convergente que afirmava a segurança
pessoal do professor desde que se mantivesse, em suas ações
escolares, dentro dessa delimitação geral, claramente definida,
dos valores aceitos.
No momento atual, os professores se encontram com uma nova fonte de mal-estar
ao pretender definir o que devem fazer, que valores vão defender,
porque na atualidade perdeu-se o antigo consenso, ao que sucedeu um processo
de socialização conflitivo e fortemente divergente (ESTEVE,
1999, p.30).
O professor vive ainda um dilema: mesmo discordando da forma como funciona
e dos valores que pretende transmitir a instituição em que
trabalha, aos olhos dos alunos é o representante daquela instituição
e da sociedade.
Sobrepondo-se de forma inextricável aos dois primeiros fatores,
as profundas transformações do contexto social no qual a
escola se insere podem ser identificadas com causas do “mal-estar
docente”. (ESTEVE, 1999). Ou seja, mudam as formas de relacionamento
escola-comunidade, mudam os apoios que essa comunidade deu historicamente
à escola e fundamentalmente, mudam as expectativas dessa comunidade
em relação à escola. A função do professor
muda por pressão da sociedade assim como mudam as expectativas,
o apoio e o julgamento desse contexto social aos professores.
Há somente alguns anos, os pais esforçavam-se para ensinar
a seus filhos o sentido da disciplina, a cortesia e o respeito, e não
só não permitiam a seus filhos o menor enfrentamento com
o professor como, além disso, muitos deles intervinham pessoalmente
para explicitar ao professor, diante dos próprios filhos, o apoio
que lhes ofereciam cegamente perante o menor conflito. No momento atual,
muitos professores se queixam de que os pais não só despreocupam-se
de infundir em seus filhos valores mínimos, convictos de que essa
é uma obrigação que só cabe aos professores,
como também estão de antemão dispostos a culpar os
professores, colocando-se ao lado da criança, com o último
álibi de que, no final das contas, se o filho é um mal-educado
a culpa é do professor que não soube educa-lo (ESTEVE, 1999,
p. 33).
Igualmente modificou-se o status social do professor, aumentando consideravelmente
sua responsabilização pelos problemas e erros cometidos
na/pela escola. Além das críticas à qualidade de
seu trabalho, aos questionamentos quanto à sua escolha profissional,
o professor vê-se atingido também por políticas salariais
desastrosas que atingem diretamente sua identidade profissional, levando-o
à auto-culpabilização e certa confusão entre
os fatores extrínsecos (salários, políticas educacionais,
inoperância dos sistemas de ensino) com fatores intrínsecos
(relação professor-alunos, relação professor-pais,
domínio de conhecimento e metodologias de ensino, etc.) ao processo
pedagógico. Em outras palavras, o desconforto por não saber
identificar quais são as suas responsabilidades em relação
à tão propalada “crise da escola” também
pode ser identificado como causa do “mal-estar docente”.
Além dos aspectos destacados sobre o status do professor, cabe
considerar aspectos relativos à sua imagem pública. Esteve
(1999) faz apontamentos interessantes quando se refere à forma
como a mídia em geral (imprensa, televisão, cinema) apresenta
o professor. Por um lado, o magistério é encarado como uma
profissão conflituosa, destacando-se questões relacionadas
à violência e indisciplina escolar e por outro lado, o professor
ainda é encarado como um personagem onírico, um sacerdote
que usa do magistério como uma missão cujo objetivo é
ajudar ao próximo.
Esses estereótipos vão ao encontro, segundo Esteve (1999,
p.42) de “dois pólos entre os quais evolui o conceito profissional
dos educadores”. O primeiro “pólo” é a
imagem construída especialmente durante a formação
inicial, na qual se pregam os formatos de um professor ideal. No “pólo”
oposto, o choque com a realidade do professor iniciante deixa o professor
“desarmado e desconcertado ao perceber que a prática real
do ensino não responde aos esquemas idéias com os quais
ele foi formado”.
Outra consideração de Esteve (1999) é que as mudanças
ocorridas quanto aos objetivos do ensino e o avanço do conhecimento
colaboraram para a insegurança tanto na formação
quanto na prática docente favorecendo o desenvolvimento de características
do “mal-estar docente”. A manutenção dos objetivos
de um tipo de ensino projetado para atender a elite é incompatível
com a educação de massas. Esse paradoxo se configura assim:
se por um lado a massificação do ensino que procurou responder
ao desafio de ensinar a todos como se fosse a um só foi uma das
grandes conquistas sociais da modernidade, os objetivos e as formas de
se ensinar não avançaram com a mesma rapidez aprofundando
uma contradição interna nos sistemas educativos, qual seja
a existência de uma dualidade entre as escolas de massa e as escolas
de elite. Por outro lado, cria-se uma expectativa, uma promessa de que
a escolaridade poderia ser uma mola propulsora para o sucesso na vida
e no trabalho.
Ao longo de nossa exposição, temos focado nossa discussão
sobre aspectos diretamente relacionados à formação
profissional, à identidade profissional, à imagem pública
e auto-imagem do professor. Porém, não podemos perder de
vista aspectos relacionados às condições materiais
de funcionamento da escola e aos fenômenos de entorno mais geral,
mas que repercutem fortemente no interior da escola.
Dentre esses aspectos, que segundo Esteve (1999), afetam diretamente a
atuação do professor em sala de aula, destacamos os seguintes:
recursos materiais e condições de trabalho, violência
nas instituições escolares.
A falta generalizada de recursos materiais é apontada por Esteve
(1999) como indicativo presente em muitas pesquisas relacionadas ao tema
(exclusivamente em países do hemisfério norte), inclusive
uma realizada pela Organização Internacional do Trabalho,
no começo da década de 1980. Não é incomum,
segundo essas pesquisas reunidas por Esteve (1999) o professor ter a ilusão
de uma renovação didático-pedagógica e ver
o seu trabalho limitado pela falta de material didático ou de recursos
para adquiri-los e o prolongamento dessa espera acaba por prejudicar a
efetivação de um bom desempenho do professor:
Quando essa situação se prolonga a médio e longo
prazo, costuma-se produzir uma reação de inibição
no professor, que acaba aceitando a velha rotina escolar, depois de perder
a ilusão de uma mudança em sua prática docente que,
além de exigir-lhe maior esforço e dedicação,
implica a utilização de novos recursos dos quais ele não
dispõe (ESTEVE, 1999, p. 48).
As pesquisas relatadas por Esteve (1999) também apontam que o problema
em determinada escola pode não estar na falta de material didático,
mas em relação aos prédios mal conservados, falta
de espaço e até mesmo móveis e equipamentos. As mesmas
investigações ainda constatam que há uma desesperança
generalizada entre os professores de que essa situação vai
melhorar e a isso vem se somar:
[...] um certo constrangimento quando os responsáveis políticos
e os administradores criticam a falta de renovação metodológica
ou a incorporação tardia de novas técnicas em uma
escola que acompanha de longe as novas exigências sociais. Muitos
professores - entre eles os mais ativos e inquietos - consideram essas
críticas um autentico sarcasmo quando pensam nas mil artimanhas
e no enorme esforço que devem fazer a cada dia para dispor de um
material mínimo. (ESTEVE, 1999, p.49).
O aumento da violência nas instituições escolares
é outro fator apontado como determinante para o desenvolvimento
de características do “mal-estar docente”. Segundo
Esteve (1999), os Estados Unidos é um país representativo
dessa problemática, pois segundo ele, no período letivo
de 1979-1980 naquele país houve 113.000 casos de agressões
a professores - correspondendo a 5% do total de professores em exercício,
o que representou um aumento de 43.000 se comparado ao período
letivo anterior de 1977-1978.
Apesar dos números registrados nos Estados Unidos e divulgados
por Esteve (1999), o autor afirma não se resumir ao ato de violência
física as perdas do professor
Do problema que supõe o aumento da violência nas instituições
de ensino, talvez o dado menos importante seja o de professores que sofrem
diretamente uma agressão física. Deve-se contar o efeito
multiplicador desses acidentes, no plano psicológico, sobre os
colegas ou amigos do professor agredido; e inclusive sobre outros professores,
totalmente alheios à cena da ação, mas que recebem
seu impacto através dos meios de comunicação social
(ESTEVE, 1999, p.54).
Além das questões referentes a violência física
envolvendo professores e alunos, há outros tipos de violência
como os assaltos aos prédios, muitas vezes motivados não
apenas contra o patrimônio da instituição, mas como
uma forma de mostrar um vandalismo causado por vingança.
Todos esses aspectos apontados por alguns dos teóricos que fizeram
parte do referencial da pesquisa nos mostram que as causas do “mal-estar
docente” estão no cenário da escola pública
brasileira levantando a necessidade da preocupação em discutir
formas de se evitar e superar esse “mal” sempre na expectativa
de que o professor possa ter uma boa atuação, cabendo, especialmente
à formação profissional, contemplar - ao menos –
a leitura desse novo espaço/tempo de trabalho do professor para
que o choque com a realidade no início do exercício no magistério
não lhe traga constrangimentos a ponto de inibir-se em suas atividades
inerentes à profissão notadamente a preocupação
com o processo ensino-aprendizagem do aluno.
ELEMENTOS DO COTIDIANO DE PROFESSORAS E DA ESCOLA COMO
CAUSA DO “MAL-ESTAR DOCENTE”
Durante a pesquisa de campo, materializada nas observações
realizadas na escola pudemos constatar que, para além de todas
as causas expostas por Esteve (1999), Lopes (2001) e Jesus (2001), a relação
entre a professora, o aluno e o ensino-aprendizagem é causa evidente
de “mal-estar docente”, uma vez que gera profundo desconforto
entre os membros do grupo e é o aspecto mais comentado e discutido
naquele coletivo. Essa relação é responsável
por grande parte das reclamações vindas das professoras,
mas seguramente, também é fonte de muitas alegrias pronunciadas
- em verdade - em menor número. Importante ressaltar que a escola
tem uma direção e um grupo de professoras consolidado, a
maioria das professoras tem uma formação considerada adequada
(nível superior) e a preocupação das professoras
para com o aprendizado do aluno e com a boa realização de
seus trabalhos era bastante evidente durante as observações.
A toda hora, no decorrer do acompanhamento da rotina das professoras era
possível verificar a preocupação e muitas vezes o
desamparo em relação ao não - aprendizado do conteúdo
pelo aluno e a dificuldade em saber como superar essa situação:
Durante o período de intervalo, a professora da 4ª. série
se volta para o grupo que tomava café e pergunta:
- Vou fazer uma pergunta, mas eu já sei a resposta. Vocês
têm algum (aluno) que não quer nada com nada. Que ainda não
se tocou que está na 4a. série?
- Hum, quase engasguei (mostrando que também concorda com a colega).
(Pesquisa de campo, 2004)
O diálogo relatado abaixo também é
sintomático dessa situação:
Na hora do recreio, chega uma professora e logo atrás outra. A
primeira pergunta:
- Professora¹ - Você me ouviu ?
- Professora² - Não.
- Professora¹ - Porque hoje eu gritei, hein. As meninas da cozinha
tão até me imitando (ri). Ah, não dá. Tô
explicando a tarefa, acabou de explicar e o menino pergunta: o que é
para fazer ali? Explico de novo e vem outro e pergunta de novo...
- Professora² - É, a gente sabe que não adianta nada
e que o maior prejudicado é você mesmo, mas tem hora que
não dá.
- Professora¹ - É.
(Pesquisa de campo, 2004).
Em outro dia de observação, também
na hora do intervalo, a professora da 1ª série chega meio
cabisbaixa, nos cumprimenta e pergunta como vai a minha pesquisa e começamos
a conversar:
- Pesquisadora: E você como está?
- Professora: Ai, hoje eu to meio desanimada. A minha turma ta muito fraca,
não sei, eles não evoluem. A leitura ta difícil...
- Pesquisadora: Mas não é muito cedo? Tem pouco tempo de
aula.
- Professora: Mas sabe quando você sente que não vai....
(Pesquisa de campo, 2004)
Em outro momento, durante o intervalo, todas elas (as
professoras) voltam a falar sobre os alunos lentos. A professora-substituta
comenta:
- Estagiária: Olha, eu acho que tá o caos e vai piorar.
As colegas concordam. Uma delas enumera uns sete ou oito alunos, pelo
nome – todos meninos -, que lhe dão trabalho para copiar
e fazer a lição. E a professora-substituta conta uma história:
- Professora: Tem mãe que fala: professora, enche de lição!
E a criança mesmo assim não faz. Uma vez eu deixei pra ver,
três, quatro crianças com o caderno cheio de lição
e ficaram uma semana sem fazer nada. Aí, eu aproveitei. Quando
a mãe veio eu falei: nem você nem seu filho estão
preocupados com nada. Depois a professora que tem que se matar. Só
para educar e disciplinar já vai um bimestre.
As professoras concordam e comentam dos alunos que não terminam
a tarefa na sala.
(Pesquisa de campo, 2004)
Conversando sobre o reforço no HTPC, somente a
professora da 1ª. série reclama para a da 2ª.:
- Professora1: Eu não sei o seu, mas meu reforço não
ta adiantando nada! Parece que eles não melhoram. To pensando em
tirar esses que estão e colocar outros que estão um pouco
melhorzinhos porque pelo menos vale a pena investir.
- Professora2: O meu até que ta indo mais ou menos.
(Pesquisa de campo, 2004)
As professoras, que também acompanham as mudanças
em relação às fontes de conhecimentos e o aumento
nos meios para se ter acesso à informação apontam
que entre as paredes de suas salas de aula, o reflexo dessas transformações
já são evidentes. Cada vez mais os alunos têm dificuldade
em aprender conteúdos descontextualizados e apresentados em um
formato ortodoxo, conforme os relatos das professoras durante a semana
de provas:
- Professora1: Madeira é um combustível gasoso. É
pra rir pra não chorar.
- Professora2 : E vocês não sabem. Sabem o ... (fala o nome
do aluno) ele dormiu na rua essa noite. Na área de casa ele me
falou. Veio todo sujo, cheirando mal. A mãe dele não é
certa veio aqui hoje ver se ele tinha vindo aqui para a escola e disse
que quer dar o menino e ninguém quer.
Contudo, essa situação não é
encarada com naturalidade pelas professoras. O fato de elas apontarem
em suas conversas o descontentamento com as condições de
ensino-aprendizagem demonstra que elas também se mostram preocupadas
em reverter essa situação, pois, a aprendizagem do aluno
é a garantia do sucesso do professor, conforme opinião de
professora registrada em conversa com durante o intervalo de aulas:
- Professora: Você que está estudando. Tinha que ver lá
na faculdade porque essas crianças são assim. São
devagar demais. Não copiam. Eu não sei o que é. A
UNESP tem parcerias com a prefeitura, não tem?
- Pesquisadora: Algumas poucas.
- Professora: Precisava ver na educação infantil porque
eles vêm sem base nenhuma.
As outras professoras concordam e vão fazendo acréscimos
a esse comentário da professora, contando situações
de sala de aula:
- Professora2: Eles são muitos dispersos. Você pode explicar
duas, três vezes no coletivo que tem que passar depois carteira
por carteira falando individualmente porque senão eles fazem tudo
errado ou nem fazem.
Uma das professoras comenta com a colega durante o intervalo e fala de
uma aluna transferida que chegou na escola e tem um material chique e
é muito caprichosa:
- Professora: De que adianta! Agora só metade da turma é
fraca! (ênfase registrada pela professora).
(Pesquisa de campo, 2004)
Outro ponto a ser destacado refere-se ao fato de que como
a escola e os professores não têm consenso e nem clareza
da suas funções, ficam a mercê de executores externos.
Em um dos momentos de nossa observação algumas professoras
reclamavam da Secretaria de Educação que solicitou um projeto
pedagógico (?) de cada classe, alegando que isso acontece porque
nunca ninguém se posiciona contrariamente às solicitações
da Secretaria de Educação em relação ao tipo
e quantidade do trabalho burocrático delas exigido:
- Elas ficam sentadas lá (remetendo às Coordenadoras Pedagógicas
da Seduc) e só dando ordem. Pedindo as coisas para ontem. Quero
ver se elas estivessem aqui.
E a orientadora completa:
- Não adianta vocês brigarem comigo e me xingarem. Se a gente
não fizer certo a secretaria não vai homologar!
(Pesquisa de campo, 2004).
Ainda, nesse contexto, o mesmo autor aponta que a função
docente passa a sofrer com as contestações e contradições
tornando-se também fonte de “mal-estar”.
Devido à falta de parâmetros sobre como deve ser a atuação
do professor, qualquer atitude pode ser contestada, qualquer valor defendido
por ele pode ser rebatido e ao mesmo tempo, pelas mesmas razões,
o professor depara com a necessidade de desempenhar papéis declaradamente
contraditórios:
Exige-se do professor que ele seja companheiro e amigo dos alunos, ou
pelo menos que se ofereça a eles como um apoio, uma ajuda para
seu desenvolvimento pessoal; mas, ao mesmo tempo, exige-se que ele faça
uma seleção ao final do curso, na qual abandonando seu papel
de ajuda, deve adotar um papel de julgamento que é contraditório
ao anterior (ESTEVE, 1999, p. 31)
E vivem nas nossas escolas, situações ainda
mais peculiares como pudemos observar.
Durante o recreio, chega a diretora, cumprimenta e pergunta se estão
todas quietinhas por causa da presença da pesquisadora. Elas respondem:
- Não, não.
- É que ou você vai ao banheiro, ou come ou conversa.
- É, mas vocês deram sorte porque estão na melhor
escola. Fiquei sabendo que na escola (diz o nome da escola), os professores
nem tem esse tempinho para o descanso, tem que acompanhar os alunos durante
o recreio porque eles estão sem inspetor. Sabe a professora (diz
o nome da professora) tá grávida e dizem que passou até
mal de fome porque não deu tempo de comer.
- Fiquei sabendo que na escola (diz o nome da escola). As professoras
estão se recusando a organizar o reforço.
- É, nós estamos no céu! – completa a professora.
(Pesquisa de campo, 2004).
A relação entre a escola e a comunidade
também é um tema que toma o tempo e a preocupações
das professoras na medida em que ainda existe uma crença de que
os pais ou os responsáveis de uma forma geral têm responsabilidade
sobre o aprendizado do aluno e poderiam se tornar parceiros do trabalho
do professor, ocupando, também, espaço significativo na
conversa entre as professoras, conforme observado no trabalho de campo:
Durante o intervalo a professora afirma:
- Professora¹ - Sabe, eu tenho até dó dela (da aluna)
porque a mãe é o problema. Chega com a menina, a menina
tá quietinha e diz na frente de todo mundo: ela não sabe
nada, não faz nada...
- Pesquisadora - Eu percebi mesmo.
- Professora¹ - Tem umas pessoas, viu, que eu acho não nasceram
para ser mãe. Só fazem prejudicar a criança.
- Professora² - As vezes, a mãe não aceita a criança
porque ela é tudo aquilo que ela gostaria de ser ou de fazer ou
muito igual a ela.
- Professora¹ - É, pode ver que quando a gente antipatiza
com uma pessoa ou ela é muito parecida ou é aquilo que a
gente gostaria de ser, além daqueles que temos razões outras
para antipatizar.
- Pesquisadora - É verdade. É difícil aceitar isso
ou saber disso.
- Professora¹ - Mais difícil ainda é saber e não
saber o que fazer com isso.
- Pesquisadora - Verdade! (Pesquisa de campo, 2004)
E em outro momento, no HTPC, a professora faz considerações
sobre um aluno e seu pai:
- Professora - Posso contar do ..........(fala o nome do aluno)?
- Orientadora - Vai desabafa, fala a orientadora.
- Professora - Hoje ele falou: porque eu tenho que ficar no reforço,
porque meus amigos não ficam no reforço, porque na minha
casa não tem comida, porque a minha mãe tá desempregada,
porque eu não tenho computador.... Aí, eu perdi a paciência
e berrei mesmo: tem dia que eu não tenho nem o dinheiro do passe
e não tô reclamando, tô?
- Orientadora - Esse menino é cínico.
- Professora - É. ele chega e fala: papai me falou que hoje eu
não ia fazer tarefa porque eu ia para a igreja. Mamãe me
falou... Eu não agüento.
- Orientadora - Esse menino é aquele que o pai veio aqui e disse
que o filho dele tava indo embora sem almoçar. E nós falamos
que o almoço dele não é às 12:10, que eu não
posso dar merenda para ele essa hora. Que ele não deixasse de comer
então às 10:15 que é o horário de almoço
deles. No outro dia, fui ver e ele tava comendo salgadinho às 10
horas. Ele que não venha reclamar.
(Pesquisa de campo, 2004).
A falta ou não adequação do material
didático àquilo que as professoras desejavam ministrar e
tratar em suas aulas também faz parte do cotidiano da nossa escola.
Pudemos confirmar essa impressão quando registramos comentário
da diretora sobre as dificuldades em relação ao material
didático e às necessidades das professoras:
Diretora - Quando te vi, quase te chamei para ouvir uma conversa. aí,
achei melhor não.
Pesquisadora - Ah é, sobre o que?
Diretora - Sobre livro didático. Duas professoras estavam reclamando
porque elas escolheram um livro e veio outro.(Pesquisa de campo, 2004)
Outro registro corrobora o relato anterior.
A diretora entra e cola um cartaz feito em uma folha de sulfite na parede
perto da mesinha onde ficam o café, água, bolacha.
Professora - Que misere, viu ! Não tem nem mais copo. a situação
tá feia.
(Pesquisa de campo, 2004)
Em conversa observada entre as professoras, observa-se
que elas também manifestam seu descontentamento com o material
disponibilizado:
- Professora¹ - Você viu como o “ler” (livro de
português) tá bom?
- Professora² - Você acha?
- Professora¹ - Tá todo mundo comentando.
- Professora² - Eu acho ele muito extenso.
(Pesquisa de campo, 2004)
Esses aspectos apontados - as dificuldades em relação
ao ensino e à aprendizagem dos alunos, a indisciplina e a relação
da professora com os pais de alunos - acreditamos terem implicação
direta no que tange o desenvolvimento de características do “mal-estar
docente”, refletem-se na qualidade do trabalho docente e no seu
envolvimento pessoal com o grupo de alunos e o compromisso em ensiná-los,
podendo ser considerados como causas do “mal-estar docente”
observados diretamente no cotidiano de uma escola e de um grupo de professoras.
ALGUNS APONTAMENTOS
O ponto nevrálgico da atuação do professor é
chegar à sala das professoras e admitir junto às colegas
que tem dificuldades para ensinar, que os alunos tem dificuldades de aprender,
que não há alternativas possíveis, ou se há
não é de conhecimento delas, deixam entrever um doloroso
sentimento que literalmente “murcha” a professora provocando
muitas vezes reações de desejo de abandonar a docência.
Considerado muito mais como problema extra-escolar, a imagem construída
pela comunidade sobre os professores atualmente constitui um fator que
os agride bastante como pessoas e atinge seu lado profissional. A opinião
de pais e da comunidade e as informações veiculadas pela
mídia (especialmente aquelas críticas negativas), afetam
profundamente os professores, trazendo à baila a manifestação
explícita de um desejo de acertar e, contraditoriamente, um certo
conformismo com a situação pela qual passam os sistemas
escolares, o que os leva desistir de observar e empenharem esforços
pessoais para a superação dessa situação.
Os aspectos internos e externos da peculiar relação entre
professora e aluno são uma tentativa didática (uma vez que
não há separação total entre esses aspectos)
de ampliar a análise da instituição conhecida e pesquisada
a fim de vislumbrar pontos nos quais aquele grupo possa se debruçar
e investir energias e sua capacidade teórica para a realização
de um trabalho mais qualificado e feliz.
Estes relatos podem contribuir para ilustrarmos a importância que
os professores dão à qualidade das relações
que estabelecem com os alunos. Considerando que a educação
escolar tem por objetivo primeiro a transmissão dos conteúdos
historicamente acumulados a fim de formar um homem integralmente –
intelectual e humanamente -, observamos que o investimento para que esse
objetivo torne-se, nas situações mais inusitadas e difíceis,
passível de concretização passa pela humanização
das relações entre professores e alunos e pela garantia
do suporte necessário para ensinar e ao aluno, para aprender. Esse
suporte abarca inúmeras condições como políticas
públicas que estejam em consonância com a realidade da escola,
boas condições de trabalho e de carreira, mas, especialmente
uma formação profissional docente – inicial e continuada
– capaz de fornecer aos professores elementos que lhes garantam
habilidades e competências para a preparação, execução
e avaliação da aula a fim de que ela possa ser analisada,
repensada para atingir todos os alunos.
Por essa razão que o professor que tem dificuldade durante a tarefa
que é única de sua profissão – a tarefa de
ensinar – resultando, na maioria das vezes, na dificuldade do aluno
aprender - tende a desenvolver características do “mal-estar
docente”. Nas singularidades que se interpenetram na relação
aluno e professor, no processo de ensino e aprendizagem, estão
presentes as conquistas e perdas dos professores.
Esses elementos são possíveis de se conhecer e de aprender.
Para isso, a formação do professor precisa estar centrada
na escola, na sua rotina, no seu barulho, nos seus cheiros, nas pessoas...
seus verdadeiros dilemas e suas reais conquistas.
Referências Bibliográficas
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função docente. 2 ed. IN: NÓVOA, Antonio. Profissão
Professor.
Lisboa: Porto Celebra, 1995.
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Trad. Durley de Carvalho Cavicchia.
JESUS, Saul Neves de. Como prevenir e resolver o stress dos professores
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KULLOK, Maísa Gomes Brandão. As exigências da formação
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LOPES, Amélia. Mal-estar na docência? Visões, razões
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A construção de identidades profissionais docentes.
Lisboa: Instituto de Inovação Educacional, 2001.
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