Verônica
Borges de Oliveira/FME
Neste trabalho me proponho a fazer um recorte da discussão
de um grupo de professores que, desde 2000, fazem parte de um projeto
de aceleração da aprendizagem com alunos adolescentes que
apresentam distorção idade-série. As experiências
aqui relatadas retratam o cotidiano escolar e, por isso, mostram nossas
contradições, ambigüidades, avanços, recuos
mas também uma vontade muito grande de acertar.
Desde a concepção deste projeto, uma das discussões
era que o currículo não poderia ser tratado da mesma forma
como este vinha sendo aplicado nas escolas regulares. Não sabíamos
como fazer exatamente mas tínhamos clareza de que o currículo,
a avaliação, a relação professor/aluno, a
relação espaço/tempo precisavam ser forjados por
aquele coletivo que estava sendo constituído. Apresentarei aqui
dois momentos pelos quais já passamos/estamos passando que considero
emblemáticos do processo: o primeiro momento poderíamos
sintetizar em mantendo as referências e o segundo rompendo com as
referências.
Mantendo as referências...
Uma das primeiras ações foi o fortalecimento
do planejamento coletivo que era feito todas as semanas
(espaço garantido pelo órgão central da rede municipal)
e pelo fortalecimento do conceito de professor reflexivo. Com estas duas
ações pretendíamos construir a identidade do grupo
para que todos exercessem sua responsabilidade pelas transformações
no nosso fazer pedagógico. Foi possível criar o movimento
de, muito mais do que planejar atividades, discutir as concepções
teóricas que subjazem os fazeres de cada uma de nós. Nossas
concepções foram sendo explicitadas surgindo a necessidade
de negociá-las no grupo. Inauguramos um relação dialógica
entre nós professores mas continuávamos numa relação
ainda bastante autoritária com os alunos e seus responsáveis.
Algumas frases recorrentes nos planejamentos eram: “parece que falamos
grego”; “nossos alunos vivem em outra realidade”; “não
conseguimos estabelecer diálogo com os alunos ou com sua família”.
A princípio, não problematizávamos estas falas visto
que não nos questionávamos quanto aos processos que as naturalizam
e, por isso considerávamos que estas diferenças eram inerentes
à “sociedade partida” na qual vivemos. Sempre ficávamos
com angústia e sentimento de impotência diante disto e a
imobilidade muitas vezes se abateu sobre nós. Mas, como estas questões
não se esgotavam, resolvemos encará-la e nos implicarmos
nela tal qual os nossos alunos estavam implicados. A leitura de alguns
teóricos como Morin e Boaventura Sousa Santos, dentre outros, nos
possibilitou ver o conhecimento de forma diferente e também perceber
nossas contradições.
Desse modo, percebemos que estávamos numa lógica cuja função
do corpo docente era possibilitar àqueles alunos o acesso aos saberes
construídos pela sociedade ao longo da história como se
os alunos não fizessem parte desta humanidade. Embora já
percebêssemos que isto não dava conta de nossas indagações
e já vislumbrássemos outras estratégias, reproduzíamos
uma concepção tradicional de currículo. E fazíamos
o que nos cabia nesta lógica: proporcionar este acesso, mediando
os conhecimentos para que os alunos se apropriassem destes saberes. Na
maioria das vezes, tais saberes não faziam o menor sentido para
os alunos como também não faziam sentido para nós.
Este foi um dos indícios de que precisávamos para reorientar
nosso caminhar e começamos a discutir um currículo menos
rígido que se articulasse por temas. Ainda assim percebíamos
que havia um grande esforço de nossa parte em controlar os saberes
construídos. Uma das perguntas que não se calava era qual
seria o papel da escola? O que nós tíunhamos que garantir
àqueles alunos que já haviam passado por vários anos
de escolaridade e eram , a cada ano, reprovados novamente.
Um dos projetos trabalhados nesta época foi Sexualidade cujo tema
surgiu do grupo professores frente a demanda por eles analisada: curiosidade
dos alunos por este assunto, incidência de gravidez precoce e indesejada
e a possibilidade de aliar o tema ao conteúdo de ciências.
Com o objetivo de conhecermos as dúvidas dos alunos, foi proposto
que eles registrassem suas dúvidas por escrito. Depois realizamos
um fórum de discussões no qual respondíamos às
perguntas, assistimos a filmes didáticos, um dos nossos alunos
que fazia um trabalho voluntário de esclarecimento sobre doenças
transmissíveis coordenou uma conversa com os colegas, etc... E,
por sugestão de algumas alunas foi construído um caderno
que circulava entre os alunos e neste caderno eles trocavam informações
sobre este tema. Esta estrutura de caderno é muito comum entre
adolescentes dessa forma houve adesão da maioria à proposta.
Numa primeira análise, considerávamos que os alunos estavam
fazendo tudo aquilo que nós almejávamos: a partir de um
tema do seu interesse utilizavam a leitura e a escrita para buscar informações
significativas as quais, acreditávamos, iriam possibilitar transformações
em seus comportamentos quanto ao cuidado com o corpo, prevenção
de doenças, respeito a si próprio e ao outro, etc. Foram
utilizados diferentes suportes de textos informativos como jornal, revistas
para adolescentes, enciclopédia, folder que também era um
dos nossos objetivos pedagógicos de aproximar os textos da sala
de aula com os textos utilizados socialmente.
No decorrer deste projeto o grupo de professores (nas reuniões
semanais) externavam o desconforto com o tema proposto e o quanto nos
sentíamos distantes dos alunos. Surgiam várias discussões
quanto a valores morais do que cada um considerava certo ou errado. E,
por mais que soubéssemos que nossa função não
era julgar e sim garantir o espaço de discussão sabemos
que a neutralidade não é possível e que muitas vezes
fechamos alguns canais de comunicação que começavam
a se abrir. Quando percebíamos este movimento um componente do
grupo sinalizava ao outro da necessidade de tratarmos deste assunto na
perspectiva da ética, respeitando as diferenças, considerando
o ponto de vista do outro. Um grande ruído se instaurou pois havia
um movimento forte no sentido de mantermos valores para nós tão
preciosos. Ainda estávamos muito presos a referências até
que um aluno foi até nós se queixar de que o caderno estava
fazendo perguntas muito particulares sobre a vida sexual dos alunos. Nós
professores fomos conferir e, por consenso, retiramos o caderno de circulação
numa clara medida unilateral. Não fomos capazes de negociar com
o grupo. Nosso despreparo para lidar com certas situações
ficou evidente e nos fez recuar em nossas estratégias.
Clarificou-se a idéia de que a formação do outro
implica diretamente formação do formador. Se não
há este movimento de rever nossos pontos de vista não se
avança no sentido de um movimento instituinte e criador. Este tem
sido um dos nossos desafios qual seja o de estabelecer um movimento de
auto reflexão “pra dentro e para fora” e que esta dinâmica
seja capaz de ser mais ágil nestes momentos de crise pois nestes
momentos o nosso lado conservador , mantenedor do status quo acaba encaminhando
a questão.
Rompendo com as referências...
Continuamos buscando novas alternativas que possibilitassem
a construção de redes de conhecimentos. Nessa outra lógica
não seria mais a integração entre os conhecimentos
dos alunos e os conhecimentos dos professores pois os primeiros sempre
saíam perdendo nessa correlação de forças
por mais que estivéssemos “conscientes disto”. Hoje,
retrospectivamente, vejo que buscávamos mudanças, mudança
de paradigma num movimento de tessitura de novas redes de conhecimentos
a partir da relação, da troca. E como formar prevê
heterogeneidade também no nosso grupo isto estava posto. Haviam
pessoas em torno de uma meta comum mas com percursos próprios e
muitas vezes tendo como referência forte o currículo tradicional.
Romper com a lógica da reprodução do conhecimento
e construir conhecimentos que não fossem propriedade dos professores
e que não fossem propriedade dos alunos e sim um conhecimento construído
e vivido na relação ainda por se configurar. Um conhecimento
que tenha um caráter muito particular pois que próprio de
um grupo e também tenha uma conexão clara com o global evidenciando
o caráter de pertencimento neste mundo, o caráter humano-existencial
dos envolvidos neste processo.
Como foi ressaltado acima este processo está sendo forjado cotidianamente
e há avanços e retrocessos no grupo. A discussão
sobre currículo não se dá isoladamente e está
sendo necessário rever toda a prática pedagógica.
Uma das dificuldades mais substanciais do grupo seria abrir uma fenda
em nossa própria formação para dar lugar a outros
modos de ver o mundo. Nós fomos formados pela objetividade, pela
classificação, pela disciplinarização dos
saberes e sua decomposição. Partindo da simplificação,
do mais simples para o mais complexo, tudo sempre muito organizado, controlado
e, cada vez mais descolado do seu sentido.
Dessa forma, para redimensionar nossa prática foram-estão
sendo necessárias algumas rupturas com estas marcas da nossa formação.
Como sabemos, os conhecimentos considerados senso comum são rechaçados
dos espaços escolares em nome de um estatuto de cientificidade
com o argumento de que é preciso garantir acesso ao conhecimento
sistematizado. E aí nos perguntamos muitas vezes: que conhecimento
sistematizado era este que não tinha nenhuma “liga”
com os nossos saberes. E aqui estou chamando de NOSSOS, os saberes dos
alunos e dos professores.
Na tentativa de ir contra esta lógica buscamos potencializar os
conhecimentos construídos cotidianamente, sem cair num espontaneismo
no qual tudo é possível e sendo mais flexíveis para
deixar passar o acontecimento, o devir. Queríamos fazer isto marcando
como a construção histórica foi forjada socialmente,
quais os embates políticos se fizeram necessários para tornar
algumas idéias hegemônicas e outras não, para relativizar
conceitos totalizadores na cultura e na ciência. Enfim, queríamos
que o conhecimento se edificasse sem estruturas de sustentação
sem seqüências previamente determinadas. Uma das formas de
materializar estes saberes está sendo o projeto Cidadania Planetária
cujo nome tomamos emprestado de Morin bem como tomamos emprestado a discussão
sobre o conceito de pertencimento. Contarei aqui alguns dos momentos vividos
com este grupo de alunos/professores procurando evidenciar alguns processos
de produção de conhecimentos na perspectiva da produção
e construção de sentidos de tudo o que é discutido,
relatado e refletido.
Diante da inquietação que tomou conta dos nossos planejamentos
nos indagávamos o porquê de nossas estratégias não
darem resultados, ou melhor, não promoverem transformações
nos comportamentos dos alunos no que diz respeito, por exemplo, a manter
o espaço escolar limpo. Muitas vezes marcarmos palestras sobre
o lixo e seu tratamento, assistimos ao filme “Ilha das Flores”
no qual mostra e analisa uma realidade crua de como a sociedade lida com
a miséria, enfim, achávamos que assim iríamos “tocá-los”,
sensibilizá-los para outras maneiras de estar neste mundo. O grupo
de professores, através deste incômodo com os usos e desusos
do espaço escolar e do quanto todos nós que o habitamos
somos responsáveis por ele, levou esta conversa para o planejamento
e de lá foi para as salas de aulas bem como para as reuniões
administrativas e parte do grupo tomou pra si esta responsabilidade. Nesse
momento raro estabeleceu-se uma comunicação com o grupo.
Cada um foi experimentando ações para que o espaço
fosse melhor articulado e habitado por todos. Em algumas turmas foi rediscutido
o contrato de trabalho, ou seja, os alunos juntamente com os professores
passaram a discutir como cuidar do material, como organizar a sala no
que se refere a limpeza ou a disposição das carteiras bem
como cuidar das relações interpessoais. É importante
ressaltar que nesta relação faz-se necessário que
os professores corporifiquem as ações que são combinadas
no grupo e que os alunos percebam que os combinados não são/foram
cumprimentos de regras meramente . É muito maior que isto, é
postura de vida. A ressignificação das nossas ações
tanto para o professor quanto para os alunos são conquistas que
precisam ser reconquistadas a cada encontro. O que procuro trazer aqui
são os movimentos vividos no sentido de redimensionar as relações
estabelecidas dando outro sentido a elas.
Com relação ao incômodo com o lixo produzido na sala
e que não tinha um tratamento diferenciado iniciou-se uma discussão
sobre o que seria meio ambiente e qual seria a nossa interferência
individual e coletiva sobre ele. Os alunos, sábiamente, logo se
implicaram e se engajaram na discussão de que nossas ações
particulares interferem neste ambiente no qual habitamos e estas ações
têm um caráter local e global. Pequenas ações
foram/são valorizadas como um dia em que uma professora e um grupo
de alunos caminhavam em direção ao terminal rodoviário
e um dos alunos joga um papel no chão. Prontamente um senhor o
reprova e pede que ele pegue o papel do chão. Como o aluno não
acata seu pedido o senhor recolhe o papel dizendo que ele tão responsável
por manter a cidade limpa quanto qualquer uma das pessoas que vivem nesta
cidade. Tal cena foi levada para a sala e discutida e, nesse momento,
o enfoque da discussão não foi se aluno fez certo ou errado
e qual seria a punição. A discussão foi encaminhada
no sentido de indagar qual seria o motivo de nós, e não
só aquele aluno que não pegara o papel, não nos sentirmos
responsáveis pelos espaços no qual vivemos. Ou ainda, porque
nós só nos responsabilizamos por espaços claramente
demarcados como de nossa propriedade. Acreditamos que mudar o foco da
discussão nos possibilita aproximar mais dos significados que atribuímos
aos nossos fazeres.
Sentimos necessidade de tratar o conhecimento em seu caráter complexo,
ou seja, entendendo que a aprendizagem para fazer sentido precisa ser
articulada sob várias facetas. Pois na vida ela não está
isolada . Ao contrário ela está ligada de tal forma que
é não é possível separar. Mas, contraditoriamente,
teimamos em ensinar partes como se sua soma constituísse um todo
significativo e o que temos é que a soma das partes não
é o todo. O todo é relacional e não conseguimos levar
isto para as partes.
“O conhecimento do mundo como mundo é necessidade ao mesmo
tempo intelectual e vital. È o problema universal de todo cidadão
do novo milênio: como ter acesso às informações
sobre o mundo e como ter possibilidade de articulá-las e organizá-las?
Como perceber e conceber o Contexto, o Global (a relação
todo/partes), o Multidimensional, o Complexo? Para articular e organizar
os conhecimento e assim reconhecer e conhecer os problemas do mundo, é
necessária a reforma do pensamento. Entretanto, esta reforma é
paradigmática, não, programática: é a questão
fundamental da educação, já que se refere `a nossa
aptidão para organizar o conhecimento.”(Morin, 2004, p.35)
Com o firme propósito de tratar deste conhecimento que Morin propõe
batizamos nosso projeto de Cidadania Planetária. Como nós
professores sentimos necessidade de sistematizar, ou melhor, organizar
nosso fazer planejamos a construção de um livro que vai
detonar a discussão da noção de pertencimento. Parte
do trabalho foi articulado a partir do livro ZOOM que traz como primeira
imagem um detalhe da crista de um galo que numa primeira visão
pareceria uma parte de um dinossauro ou jacaré ou qualquer outra
imagem que nossa mente possa construir. Nas próximas páginas
o quadro vai se abrindo e imagens nunca dantes imaginadas vão se
apresentando a nós. Dessa forma várias imagens vão
se ampliando na página posterior dentro de outra cena e assim vai
mostrando as relações de inclusão até chegar
ao universo. Estamos construindo as relações de pertencimento
e discutindo o quanto estamos todos imbricados nesse ir e vir. A materialização
do projeto está na construção do zoom de cada um
no qual partimos de fotos dos alunos para chegar ao universo dando a dimensão
do quanto somos pequeno-grandes dependendo do ponto de vista.
“As práticas vão expondo sua própria ambigüidade
e emerge a permanente ambivalência das análises realizadas;
as certezas vão sendo substituídas por dúvidas que
re-significam o pensamento e a ação.” (Esteban, 2001,
p. 7)
Então trazer discussões como o preconceito, a relatividade
do tempo, o Big Bang, viagem espacial, protocolo de Kioto, grandes navegações
do séc.XV e XVI, repertório musical (funk, reggae, samba,
etc), movimento de rotação e translação, os
OVNIS, leitura de jornais, a origem do futebol , etc promovem o exercício
de colocar-se no lugar do outro e sendo uma prática instigante
pode suscitar mudanças nas relações. Outra discussão
muito rica foi quando os alunos estabeleceram relação entre
países da Europa, concentração de riqueza e países
do hemisfério sul e concentração da pobreza. Um aluno
fez-se a seguinte indagação observando o mapa-mundi num
momento em que eu contava uma versão das grandes navegações:
“quer dizer que os países daqui (apontou para Europa) de
cima são todos mais ricos do que os daqui de baixo?” outro
falou o seguinte “ E na África, só tinham pretos?”
“Por que eles deixavam os brancos escravizá-los”
Em outro momento quando falávamos dos cuidados que deveríamos
ter com produtos não degradáveis pela natureza um aluno
me pergunta se eu conhecia uma imagem de “uma menina nua correndo”
fazendo alusão àquela imagem clássica da fuga desesperada
de uma menina japonesa quando foi jogada a bomba atômica em Hiroshima.
Neste momento, mais uma vez, ficou claro que nossos alunos estão
conectados neste mundo tal como nós. Não temos (ainda bem
!) nenhum controle sobre as conexões que se fazem com os saberes
que construímos. Mas o trabalho fica muito rico quando as atividades
propostas são capazes de explicitar as conexões traçadas
e de dar indícios que levem os interlocutores para o universo para
o qual nos transportamos. Considero que aqui cabe recolocar a questão
inicial: Não vivemos em mundos diferentes, habitamos o mesmo espaço/tempo
com lógicas locais. Nesse sentido faz-se necessário ressaltar
que juízos de valor como melhor/pior e outros antagonismos como
cultura versus natureza, objetividade e subjetividade, saúde e
doença, teoria e prática precisam ser desconstruídos
para que haja negociação de sentidos e que haja a comunicação
da qual estamos falando. Penso que a única maneira de comunicar-nos
será partindo do princípio de que não há separação
e sim relação. Os saberes só serão construídos
se seu sentido for negociado entre ambas as partes e se este saber fizer
sentido para ambos os interlocutores. Ao fazermos tal negociação
de sentidos estamos proporcionando que nos percebamos como diferente–iguais,
ou seja, que nossa relação humana se edifique de forma a
conferir a ambas as partes a devida importância de cada um nesse
universo. Isto também proporciona um sentimento de solidariedade
que nos faz transitar mundos nunca imaginados e estar integrados nesta
nova configuração. Durante as aulas a gente vive muitas
histórias que exemplificam as questões que acabo de explicitar
acima.
Outro princípio a ser posto é o do rompimento com a disciplinarização
dos saberes tão bem edificado pelo paradigma da modernidade. Não
faz sentido decompor os saberes como se eles só pertencessem a
um campo de conhecimento em respeito a um estatuto de cientificidade,
ou seja, para manter uma lógica que traz subjacente o mito da neutralidade,
a definição do objeto de estudo, a objetividade e delimitação
do campo de atuação. Muitos teóricos têm defendido
uma proposta de ruptura com o paradigma dominante e têm construído
novas teorias que, transitando de um campo de conhecimento para outro,
constroem novas possibilidades de pensar a realidade. Começamos
a nos aproximar de tal concepção teórica pois acreditamos
que tais pressupostos nos possibilita encarnar nossa condição
humano-existencial. Para tanto, estabelecer comunicações
entre pessoas que vivem realidades diferentes sem transformar sua realidade
sob nosso ponto de vista e sim tecendo novas relações a
partir da particularidade daquele momento num constante exercício
de nos locomover em espaços locais e globais percebendo nossas
várias entradas neste mundo e potencializando as intervenções
possíveis.
Este foi um breve relato acerca de uma experiência em andamento
e que está a anos-luz de se considerar acabada. Por mais que o
grupo se desfaça, como acontece a cada ano letivo com a saída
dos alunos e de professores o que permanece em cada um de nós são
os encontros significativos que conseguimos estabelecer. Acredito que
a escola só estará cumprindo seu papel neste início
de século se for capaz de redimensionar sua função
social na perspectiva de responsabilizarmo-nos pela vida na Terra. Parece
utopia, pretensão mas enfim acho que a construção
do conceito de cidadania planetária nos indica este caminho e é
este caminho que estamos seguindo, incorporando os percalços inerentes
ao caminhar.
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