Décio Tadeu Orlandi - Universidade Federal
de Goiás
E aconteceu que, depois de sete dias, vieram sobre a terra
as águas do dilúvio. No ano seiscentos da vida de Noé,
aos dezessete dias do segundo mês, nesse dia romperam-se todas as
fontes do grande abismo, e as comportas do céu se abriram, e houve
copiosa chuva sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites (Gênesis
7, 10-12)
O título do presente trabalho faz referência a um verso original
do poema “Sorriso Interior”, de Cruz e Souza, publicado em
Últimos Sonetos (1897):
O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranqüila.
Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence, sem ânsias e sem custo...
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.
Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
O ser que é ser transforma tudo em flores...
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!
Quer-nos parecer que esta postura de total alheamento
diante de um mundo cataclísmico, louvada pelo poeta no final do
século XIX, tem seu paralelo com a realidade de nossos dias: em
face da crise de proporções diluvianas que se abateu sobre
a leitura em geral, e a leitura de poesia em particular, o mundo acadêmico
assume a postura de quem supõe possuir a “nobre fé
tranqüila”. Em outras palavras: ele a ignora completamente.
Contudo, para infortúnio do supremo “ser que é ser”,
as águas dessa crise que não cessa já atingem os
pescoços acadêmicos - e mais do que nunca, é chegada
a hora de enfrentar as próprias dores (ao invés de ironizá-las),
em busca de uma cura para o mal que ameaça, em última hipótese,
arrastar consigo a própria academia.
O poeta gaúcho Mário Quintana previu para este nosso ano
de 2005 o desaparecimento do romance como texto:
2005
Com a decadência da arte da leitura, daqui a 30 anos os nossos romancistas
serão reeditados exclusivamente em histórias de quadrinhos...
A grande consolação é que jamais poderão fazer
uma coisa dessas com os poetas.
A poesia é irredutível.
Não é difícil comprovar hoje o quão
certo ele estava em sua triste profecia. Para o poeta, porém, a
poesia não desapareceria. O que não podia prever - e aqui
revela-se uma terrível ironia - era justamente que o caráter
de irredutibilidade da poesia, que ele via como fonte de sua sobrevivência,
acabaria por destruí-la afinal. Ora, se a ficção
ainda sobrevive (não sob a forma de quadrinhos, mas através
de outra linguagem imagética), o faz quase que exclusivamente por
meio da televisão e do cinema. À poesia (pelo menos a poesia
lírica), quase sempre irredutível à linguagem cinematográfica,
restou o sempre desconfortável lugar nas listas de leitura obrigatória
das salas de aula e do vestibular. Ou seja: a poesia se exilou do mundo
real do século XXI.
Neste universo, cabe a nós, profissionais da palavra, buscar respostas
a uma pergunta fundamental: qual o futuro da poesia? Os (poucos) leitores
de hoje, praticamente restritos ao ambiente escolar, continuarão
a lê-la amanhã? Em que medida ela é verdadeiramente
significativa para esses mesmos leitores?
O presente estudo, embasado em uma pesquisa de campo com esses “leitores
especiais” de poesia, os alunos do Ensino Médio, tentará
começar a traçar um caminho para que, algum dia, encontrem-se
essas respostas. Para tanto, empregaremos os versos e as imagens do próprio
Mário Quintana, um dos poucos poetas que, apesar de sua própria
profecia apocalíptica, ainda mantêm hoje um canal de comunicação
aberto com o público . E para poder avaliar a eficvácia
da leitura de tais versos e imagens, aplicaremos o=ao texto os princípios
da competência metafórica.
O lingüista americano Noah Chomsky, criador da gramática gerativo-transformacional,
estabeleceu há algumas décadas o conceito já clássico
de competência, definido como o “saber lingüístico
implícito dos sujeitos falantes, o sistema gramatical que existe
virtualmente em cada cérebro” Com base neste conceito, vem-se
tratando freqüentemente da questão da “competência
metafórica”, noção pouco aplicada à
leitura de textos literários, mas muito estudada no contexto do
ensino de línguas estrangeiras:
Por competência metafórica se entende o tipo
de licença que os falantes se podem permitir ao falar; por ex.,
fazendo símiles, metonímias, etc., padronizados (a residência
do governo pelo governo: a Casa Branca, etc.). Em ouras palavras, o conjunto
de metáforas já conhecidas é o que permite aos falantes
e ouvintes criar e compreender novas metáforas.
(DURÁN; POZAS (2003), grifo dos autores )
Ora, tal habilidade revela-se condição sine
qua non para a leitura da poesia, definida universalmente a partir da
própria presença da metáfora. Fica claro quer sem
essa “competência”, a decodificação das
metáforas se torna impossível, a leitura do poema acaba
truncada, o delicado processo de comunicação se perde no
vazio. Rompe-se o acordo tácito que rege as relações
poeta (= criador de metáforas) e leitor (= apreciador de metáforas):
O criador e o apreciador de uma metáfora aproximam-se
de forma singela, o que envolve três aspectos: (1) o falante emite
um tipo de convite oculto; (2) o ouvinte despende um esforço especial
para aceitar o convite; e (3) a transação constitui o reconhecimento
de uma comunidade. Todos os três aspectos aparecem em qualquer comunicação;
porém, no discurso literal comum, suas funções são
tão dispersas e rotineiras que passam desapercebidas. O uso de
metáforas coloca esses aspectos em primeiro plano – é
esse o ponto. ( COHEN (1992), p. 13)
Para nosso referencial teórico no campo dos estudos
da metáfora, adotamos a Teoria dos atos de fala, defendida por
Serale em Expression and meaning : studies in the theory of speech acts.
Em resumo, o ato da decodificação de qualquer metáfora
compreenderia, do ponto de vista lingüístico, três momentos:
1. é necessário ao leitor/ouvinte ter uma estratégia
que determine se ele vai necessitar procurar por uma interpretação
metafórica do enunciado (i.e., se o enunciado é impróprio
se for tomado literalmente – o que Eco (1991, p. 144) chama de “rejeição
da metáfora”); 2. uma vez decidido pelo caminho do sentido
metafórico, o ouvinte/leitor deverá possuir um conjunto
de estratégias (o que Eco (1991) denomina enciclopédia )
para elencar sentidos possíveis para o termo de comparação
(= veículo) para, então, 3. decidir quais desses sentidos
são passíveis de serem aplicados ao elemento comparado (=
tenor).
A partir da teoria dos três passos de Searle, fica fácil
para nós estabelecer os três erros possíveis na decodificação
de metáforas, respectivamente: 1. O leitor/ouvinte toma a metáfora
em seu sentido literal; 2. Ele lista um predicado que não pertence
realmente ao veículo; ou 3. Escolhe um predicado pertinente ao
veículo mas que não é uma propriedade possível
do tenor no contexto da metáfora. Percebe-se como os erros de decodificação
elencados estabelecem uma ordem crescente de competência metafórica
do leitor até o nível ideal da decodificação
viável (ou “correta”, como aceitam alguns teóricos
da análise do discurso (POSSENTI (2001) ). Foi aplicando estas
premissas que criamos um questionário com as metáforas extraídas
dos poemas de Quintana.
Analisemos um exemplo prático: a partir da metáfora criada
por Mário Quintana em
“As mãos que dizem adeus são pássaros
que vão morrendo lentamente.”
(“Anotação para um poema”)
poderiam ocorrer os seguintes “erros” de interpretação
(os números correspondem à seqüência abordada
anteriormente):
1. O autor está triste, pois tem pássaros
em suas mãos, e eles estão morrendo (interpretação
literal);
2. As mãos que dizem adeus estão sempre em movimento, como
os pássaros (o leitor entende que existe uma metáfora, mas
o predicado “estar em movimento” não é pertinente
a “pássaros que morrem”)
3. Quando dizem adeus, as mãos das pessoas ficam muito fracas (há
uma relação possível entre “morrer” e
“tornar-se fraco”, mas que não se aplica a “mãos”,
no contexto).
Uma quarta interpretação revelar-se-ia a
mais viável, no contexto do poema:
4. O movimento lento das mãos que dizem adeus lembra
pássaros morrendo.
Seguindo esta estrutura lógica, construímos
um pequeno questionário, incluindo ainda uma quinta alternativa
de interpretação: um espaço em branco que o leitor
pudesse preencher se concluísse que nenhuma das alternativas anteriores
explicava adequadamente a imagem poética lida. (É claro
que a seqüência das possíveis interpretações
(alternativas 1 a 4) não foi mantida em todos os itens do questionário.)
Os sete textos em verso contemplados na pesquisa foram extraídos
de diferentes obras coligidas em antologias poéticas, com preferência,
sempre que possível, pelo texto integral (dadas as características
de concisão e de aforismo dos “quintanares”, tal tarefa
não foi difícil). E aqui cabe uma breve discussão
sobre a seleção das metáforas poéticas.
Antes de mais nada, buscamos na obra de Quintana o tipo específico
de metáfora estudado por Searle, estruturalmente mais simples e
representado pela expressão “S é P” (“As
mãos são pássaros...”), ou “metáfora
predicativa com caráter de definição”, como
a chama Friedrich (1991, p. 208), que explica que não é
em sua forma, mas sim em seu conteúdo, que este tipo de metáfora
constituirá uma novidade ao leitor: “o insólito destas
metáforas reside apenas em seu material. Com a ajuda deste convertem
o mundo familiar em estranheza sensível e do significado”
. Relativamente rara na poesia moderna (que, ainda para Friedrich, teria
predileção pela chamada “metáfora de genitivo”,
p. ex., “a roda das estrelas”), tal espécie de metáfora
é comum na poesia de Quintana – fato que mais uma vez nos
alerta para a preferência do poeta pela simplicidade e leveza na
estrutura formal de seus poemas (mas não nas idéias veiculadas
por eles).
Quanto à dificuldade das metáforas selecionadas, optamos
pelas mais simples (ou “fechadas”(cf. ECO), ou “menos
arrojadas”), entendendo-se por “metáfora arrojada”
aquela que
consiste na junção inusitada de realidades
muitos distantes (até mesmo “incompatíveis”)
dentro da mesma equação metafórica [...]. O que condicionaria
o “arrojo” da metáfora [...] seria um desvio em relação
às regras lógicas do discurso. Isto significaria que essas
metáforas estariam bem próximas do que em lógica
se chama “contra-senso” (CARONE (1974), p. 63)
Não que as metáforas “menos arrojadas”
(ou “fechadas”) não sejam igualmente poéticas:
Mas a inspeção avisa que nenhuma metáfora
é fechada em absoluto, seu fechamento é pragmático.
[...] Não há metáfora impoética em absoluto:
ela existe somente para determinadas situações socioculturais.
Parece, porém, que existe uma metáfora poética em
absoluto. (ECO (1991), p. 186, grifos do autor)
Esta última, identificada como “metáfora
absoluta” e definida como “um meio verbal para apreensão
de algo que não é verbalmente exprimível” (CARONE
(1974), p. 94), vai se converter em cânone da poesia do século
XX, especialmente após a divulgação das idéias
estéticas do Surrealismo, e passará a designar o fenômeno
metafórico na poesia por excelência:
A imagem diz o indizível: as plumas leves são pedras pesadas.
Há que se retornar à linguagem para ver como a imagem pode
dizer o que, por natureza, a linguagem parece incapaz de dizer. (PAZ (1994),
p. 44)
Assim, a metáfora absoluta, tipicamente moderna,
comporá, com outros recursos lingüísticos, aquilo que
Friedrich (1991) denomina de “dissonância”: a magia
da palavra em seu sentido de mistério, ou a junção
de incompreensibilidade e de fascinação.
A metáfora absoluta não é comum em Quintana (o que
é perfeitamente coerente com sua predileção pela
simplicidade formal), mas aparece aqui e ali: “A luz do morto não
se apaga nunca” . Para efeito de nossa pesquisa, no entanto, a escolha
dessas “imagens dissonantes” seria, no mínimo, contraproducente,
quando o que se pretende é avaliar a compreensão. Assim,
de maneira geral, as metáforas que constam de nosso questionário
são mais ou menos prontamente relacionáveis à realidade
:
5. “Os grilos são os poetas mortos”:
grilos cantam = poetas cantam = poetas que morrem metamorfoseiam-se em
grilos que cantam.
Uma única exceção (proposital), o
poema “Elegia urbana”:
2. “Rádios. Tevês. / Gooooooooooooool
!!!! / (O domingo é um cachorro escondido
debaixo da cama)”
no qual a relação entre domingo = cachorro
escondido + transmissões de rádio e TV deverá ser
abstraída pelo leitor de seu possível repertório
sociocultural (“enciclopédia”) de maneira mais elaborada.
(Não é por acaso que este item do questionário foi
um dos que obtiveram o menor índice de respostas corretas; cf.
o sub-item 3.2, a seguir)
Uma vez selecionados os textos, optamos por aplicar a pesquisa em indivíduos
privilegiados, ou seja, leitores que têm travado contato com temas
poéticos há já algum tempo, e com certa familiaridade:
os alunos de uma 1ª série do Ensino Médio de um colégio
bem estruturado (biblioteca, computadores, etc.) e com um programa consistente
de Literatura: o Colégio de Aplicação da UFG (CEPAE);
tais alunos desenvolveram, durante todo o ano de 2004, um trabalho intensivo
de análise e leitura de textos líricos (alguns até
mesmo do próprio Quintana), segundo sua professora.
O questionário completo é apresentado no Anexo A; passemos
à análise dos resultados.
Responderam ao questionário um total de 26 alunos da 1ª série
do Ensino Médio; para efeito de cálculo, computamos como
respostas corretas toda vez que o aluno assinalou a alternativa que apresentava
a interpretação mais viável para a imagem poética
proposta, dentro daquele contexto (uma alternativa por item) ou quando
o aluno apresentou ele mesmo uma interpretação viável
no espaço especialmente destinado a isto (alternativa e). Aparecerão
como respostas incorretas : a) as respostas dos alunos que assinalaram
as alternativas correspondentes às duas acepções
menos viáveis (1. interpretação literal e 2. apresentação
de um predicado não-pertinente ao termo metaforizado) em cada item
do questionário; b) as respostas em branco (apenas três,
na verdade); e c) as respostas apresentadas pelo próprio aluno
(alternativa e) que foram julgadas como totalmente inviáveis (“absurdas”)
dentro do contexto. Note-se que as respostas correspondentes à
segunda acepção dentro da teoria de Searle ( apresentação
de um predicado pertinente ao termo metaforizado, mas não aplicável
no contexto) e seus correspondentes fornecidos pelos próprios alunos
na alternativa e) não foram computados como corretas ou incorretas.
Assim temos, por item, o seguinte quadro:
1. respostas corretas: 77 %
respostas incorretas: 7,7 %
2. respostas corretas: 58 %
respostas incorretas: 15,4 %
3. respostas corretas: 65 %
respostas incorretas: 7,7 %
4. respostas corretas: 65 %
respostas incorretas: 11,5 %
5. respostas corretas: 58 %
respostas incorretas: 27 %
6. respostas corretas: 61,5 %
respostas incorretas: 23 %
7. respostas corretas: 27 %
respostas incorretas: 15,4 %
(A) TOTAL DE RESPOSTAS CORRETAS : 58,8 %
(B) TOTAL DE RESPOSTAS INCORRETAS: 15,4 %
Não é nossa intenção realizar uma análise
exaustiva dos dados coletados, deste modo vamos nos ater a duas questões
principais: o total de respostas corretas muito baixo e o total de respostas
incorretas muito alto, considerando os indivíduos entrevistados,
os textos selecionados e a natureza dirigida da pesquisa. Grosso modo,
os resultados revelam que mais de 40% dos alunos, confrontados com a leitura
de um poema de Mário Quintana, não saberiam compreendê-lo
de maneira realmente significativa; pior, mais de 15% deles não
compreenderiam coisa alguma do texto lido. No universo de 26 indivíduos
que se submeteram a esta pesquisa (personalizando a fria estatística),
estariam no primeiro caso mais de 10 alunos, dentre os quais 4 sequer
entenderiam que o que estavam lendo no poema era uma metáfora!
Se o questionário se quisesse de fato uma avaliação,
em qualquer escola com média 6 os alunos teriam sido reprovados...
Podemos supor o que aconteceria se a mesma pesquisa fosse aplicada ao
público leitor em geral, este mesmo público a que, há
já várias décadas, a crítica literária
vem atribuindo o papel central de co-autoria de um texto. Mas –
cabe perguntar – que leitor é esse a quem foi concedido tal
poder? Apesar de algumas importantes divergências metodológicas,
críticos como Iser e Fish trabalham com a mesma suposição:
o leitor de que tratam é aquele que deve ter um papel ativo na
(re)construção dos textos. O “leitor informado”
de Fish (aquele que tem “competência literária”
(ISER, 1996, p. 68) é o “leitor implícito” de
Iser que é o “leitor modelo” de Eco, que é a
concretização do ideal de leitor de Barthes e Sartre. Não
é qualquer leitor – e Iser já o afirma em sua própria
obra: “o leitor deve ser ativo nos atos de apreensão”
(p. 84), e sua leitura será sempre passível de avaliação:
O papel do leitor representa um leque de realizações
que, quando se concretiza, ganha uma atualização determinada
e, por conseguinte, “episódica”. Por isso, a atualização
do texto se torna acessível à avaliação, pois
toda concretização ser dá diante do pano de fundo
das estruturas de efeito contidas no texto. Mas se toda atualização
é um determinado preenchimento da estrutura do leitor implícito,
então essa estrutura cria uma referência que torna a recepção
individual do texto acessível à intersubjetividade. (p.
78)
Em outras palavras: “o leitor, ao entender o texto
ou aquilo que é comunicado por ele, tem êxito ou fracassa”
(p. 103-104); os textos têm um potencial orientador (ou “primeiro
código”), isto é, “instruções
para que o leitor construa o significado” (p. 122), o que ele deve
fazer efetivamente, dentro de um processo que Iser define por “realização”,
ou “segundo código” (interpretação).
Essa realização é condicionada concretamente “pelas
disposições individuais do leitor, bem como pelo código
sociocultural do qual ele faz parte”.
Ora, é justamente esse leitor capaz de desempenhar um papel ativo
no ato da leitura que está em crise hoje, de tal forma que sua
existência começa a ser questionada pelos dados da realidade
concreta, bem como pela revisão de conceitos que vem se processando
na última década e meia.
Desta forma, Roger Chartier (2002), muito mais próximo de nossa
realidade atual, irá retomar o pensamento de Barthes (“A
morte do autor”), opondo-lhe os dados inegáveis do declínio
do número de leitores (pelo menos dos leitores tradicionais) em
todo o mundo, num texto intitulado “Morte ou transfiguração
do leitor?”, em que se coloca em cheque o futuro do texto por insuficiência,
desinteresse ou incapacidade de quem possa decodificá-lo: “A
essa constatação [barthesiana] do nascimento do leitor sucederam
os diagnósticos que lavraram seu atestado de óbito”
(CHARTIER, 2002, p. 102)
Ou seja: existe uma materialidade – o texto – que não
pode ser negada ; o leitor deverá ter competência para lidar
com ela sem extrapolá-la; como dirá o próprio Iser:
“Se a relacionabilidade das perspectivas do texto é regulada
dessa forma, o leitor não é mais livre para imaginar qualquer
coisa” (p. 182, grifo nosso); ou ainda, mais enfaticamente, no segundo
volume da mesma obra: “Não há dúvida de que
o texto inicia sua própria transferência, mas esta só
será bem sucedida se o texto conseguir ativar certas disposições
de consciência – a capacidade de apreensão e de processamento
[do leitor]” (p. 9 , grifo nosso).
Há, portanto, dois pressupostos de base no pensamento de Iser transcrito
acima: primeiro, o texto tem de ter a qualidade intrínseca de ativar
a consciência do leitor – isto é, sua existência
material (e seu nível de acabamento artístico) é,
sim, fundamental. O segundo pressuposto de base implícito no pensamento
de Iser é que o leitor deve possuir efetivamente uma capacidade
de apreensão e de processamento passível de ser ativada
pela leitura; o filólogo alemão só não explica
se esta é uma capacidade inerente a qualquer leitor, ou se há
realmente níveis distintos de apreensão e processamento,
e se, portanto, essa é uma característica que pode ser adquirida
(ou aperfeiçoada) por, digamos, prática de uso.
No entanto, o que encontramos hoje são leitores sem a prática
do texto, muito menos do texto poético. Leitores sem prática
de olhar e sentir, já que “[...] quanto mais constante e
diversificado for o nosso contato com o universo poético, mais
atento será o nosso olhar para as coisas em volta. Ler poesia nos
ensina a olhar e sentir” (PAIXÃO, 1982, p. 41). Ou, como
postulam alguns modelos de leitura, leitores sem maturidade (KATO, 1987)
; ou ainda, segundo o conceito do Prof. Ezequiel Theodoro da Silva, leitores
não-críticos.
Em resumo: a leitura literária (qualquer que seja ela) exige do
leitor familiaridade, possibilidade de percepção e reconhecimento
(Lajolo), generosidade e doação para com o texto (Sartre),
uma atitude responsiva ativa (Bakhtin), imaginação e postura
ativa (Iser), prazer estético (Jauss), movimentos interpretativos
conscientes e uma “enciclopédia” mínima (Eco,
Possenti), maturidade (Kato), prática (Paixão), criticidade
(Silva).
Ainda existirão muitos leitores assim? Apesar do otimismo de alguns
críticos (Lajolo, Zilberman, Chartier), tudo nos leva a crer que
não – e nossa pesquisa parece comprovar tristemente este
fato. Eis a crise do leitor, as “primeiras águas” desse
dilúvio que se abateu sobre a literatura contemporânea.
Referências
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CHARTIER, Roger. Morte ou transfiguração do leitor? In:
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Anexo: questionário
Exercício de interpretação de textos
INSTRUÇÕES: nas questões de 1 a 7
abaixo, assinale com um X apenas uma alternativa, aquela que, em sua opinião
e do seu ponto de vista, explica melhor o texto dado. Note que não
há necessariamente alternativas “certas” ou “erradas”.
Se achar que nenhuma das alternativas explica melhor o texto dado, dê
você mesmo sua explicação no espaço correspondente
à alternativa e). Se você tiver alguma dúvida sobre
o vocabulário dos textos, pergunte à sua professora (mas
ela não vai ajudá-lo a entender os textos!). O título
de cada texto é dado entre parênteses. Você não
precisa se identificar.
1. “Esta vida é uma estranha hospedaria,
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia...”
(“Dos hóspedes”)
a) Esta vida é a nossa moradia.
b) Nossa vida nos leva a viajar por lugares muito distantes.
c) É necessário pagar para viver, como quem aluga um quarto
numa hospedaria.
d) Nós estamos apenas de passagem pela vida.
e) _________________________________________________________________________
2. “Rádios. Tevês.
Goooooooooooooooooooool !!!
(O domingo é um cachorro escondido debaixo da cama.)”
(“Elegia urbana”)
a) O domingo é um dia parado.
b) As pessoas têm medo do domingo.
c) O domingo é o dia de se assistir à TV.
d) Tem um cachorro escondido debaixo da cama do poeta, enquanto ele assiste
ao jogo de futebol no domingo.
e) _________________________________________________________________________
3. “As mãos que dizem adeus são pássaros
que vão morrendo lentamente.”
(“Anotação para um poema”)
a) Quando dizem adeus, as mãos das pessoas ficam
muito fracas.
b) As mãos que dizem adeus estão sempre em movimento, como
os pássaros.
c) O autor está triste, pois tem pássaros em suas mãos,
e eles estão morrendo.
d) O movimento lento das mãos que dizem adeus lembra pássaros
morrendo.
e) _________________________________________________________________________
4. “[O poeta canta a si mesmo]
porque o seu coração é uma porta batendo
a todos os ventos do universo.”
(“O poeta canta a si mesmo”)
a) O coração do poeta reage sempre a tudo
que acontece.
b) O coração do poeta têm válvulas que abrem
e fecham o tempo todo, como portas.
c) O coração do poeta está sempre feliz, em qualquer
lugar do universo.
d) O coração do poeta está sempre fazendo um grande
barulho.
e) _________________________________________________________________________
5. “Não estão ouvindo, lá fora,
os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.”
(“Ah, sim, a velha poesia...”)
a) Os grilos já não podem mais fazer poesia.
b) Os grilos cantam o tempo todo.
c) Os poetas que morrem continuam cantando, só que na forma de
grilos.
d) Os grilos também fazem poesia.
e) _________________________________________________________________________
6. “E vai a Névoa, a bruxa silenciosa,
Transformando a Cidade, mais e mais,
Nessa Londres longínqua.”
(“Que bom ficar assim”)
a) A névoa que cobre a cidade é muito forte.
b) “Névoa” é o nome de uma bruxa silenciosa.
c) A névoa é má, como as bruxas silenciosas.
d) A névoa tem o poder de alterar a realidade.
e) ____________________________________________________________________________
7. “Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.”
(“Os poemas”)
a) Os poemas não têm dono.
b) Os poemas nos chegam de surpresa, vão e vêm.
c) Os poemas que nós lemos nos livros são sempre escritos
com muito carinho.
d) Enquanto estávamos lendo um livro de poemas, vieram os pássaros
e pousaram no livro.
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