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LEITURA E A FORMAÇÃO DO PROFESSOR
Denise Telles Leme Palmiere - Universidade São Francisco – USF
Introdução Assumindo-se a relevância do papel do professor
como formador de leitores, é de fundamental importância que
se compreenda como se dá a constituição desse professor-leitor.
Como apontam Frade e Silva (1998), a construção de uma “pedagogia
da leitura” só pode ser entendida a partir de uma “sociologia
de leitura” de professores, ou seja, da compreensão das condições
sócio-históricas que fazem do professor o leitor que é,
o que, certamente, tem repercussões no seu agir como formador de
leitores. As práticas de leitura de futuros professores do ensino fundamental Em seu empenho em elucidar os “modelos e efeitos, a história e o presente” da prática cultural da leitura, Chartier (1996) nos chama atenção para o fato de que “(...) cada leitor, a partir de suas próprias referências, individuais ou sociais, históricas ou existenciais, dá um sentido mais ou menos singular, mais ou menos partilhado, aos textos de que se apropria. Reencontrar esse fora-do-texto não é tarefa fácil, pois são raras as confidências dos leitores comuns sobre suas leituras. Com (...) testemunhos em primeira pessoa, pode-se ter uma medida da distância (ou da identidade) existente entre os leitores virtuais, inscritos em filigranas nas páginas do livro, e aqueles de carne e osso que o manuseiam, assim como podem ser diferenciadas, no concreto das práticas, as habilidades leitoras, os estilos de leitura e os usos do impresso.” (Chartier, 1996:20, 21) Neste trabalho, procuro buscar apreender – ainda
que parcialmente - esse “fora-do-texto” de que nos fala Chartier
nas práticas de leitura de futuros professores do ensino fundamental.
Minhas inquietações a esse respeito surgiram ao ministrar
uma disciplina no último ano de um curso de graduação
em Pedagogia, numa instituição privada do interior do estado
de São Paulo. A disciplina tinha como objetivo trabalhar questões
relativas ao ensino de leitura nas séries iniciais do ensino fundamental
a partir de uma abordagem interdisciplinar. Tabela 1- Leitura de jornal: alterações
no tempo médio gasto semanalmente (ao final da Graduação,
em relação ao período anterior à Graduação)
Tabela
1- Leitura de jornal: alterações no tempo médio gasto semanalmente (ao
final da Graduação, em relação ao período anterior à Graduação)
Também com relação à leitura de revistas, os dados sobre o tempo de leitura semanal mostram-se semelhantes, como se pode observar pela Tabela 2, abaixo. No entanto, é importante destacar que aqui parece ter havido uma mudança de caráter mais qualitativo: anteriormente à Graduação, entre as revistas mais lidas estavam, em geral, as de informação - como Veja, Isto é, etc. - e revistas femininas. Ao final do curso, mais de 70% dos futuros professores incluíram, entre seus títulos mais lidos, revistas ligadas à Educação, embora limitem-se àquelas encontradas em banca (como Nova Escola, Educação, etc.). Apenas uma aluna indicou ler regularmente revistas científicas especializadas da área. Tabela
2- Leitura de revistas: alterações no tempo médio gasto semanalmente (ao
final da Graduação, em relação ao período anterior à Graduação)
No que diz respeito à leitura de livros, apenas 30,76% dos alunos apresentaram aumento na quantidade de livros lidos por semestre (Tabela 3): Tabela
3- Leitura de livros: alterações na quantidade de livros lidos por semestre (ao
final da Graduação, em relação ao período anterior à Graduação)
No que diz respeito ao tipo de livro/texto prioritariamente lido pelos futuros professores antes e ao final da Graduação, houve uma certa mudança de caráter mais qualitativo, como mostra a Tabela 4, a seguir: Tabela
4- Tipos de livros/textos mais lidos
Pelos dados
da Tabela 4, pode-se verificar que, ao final da Graduação,
como conseqüência direta do tipo de leitura que é cobrada
pelo curso de Pedagogia, vê-se um aumento muito significativo na
leitura de livros ou textos sobre Educação, bem como a inclusão
de ensaios sobre cultura, arte, etc, entre os tipos mais lidos. Vê-se
também que os best sellers não mais aparecem entre os mais
lidos (são indicados por apenas 7,7% dos alunos) – fruto,
talvez, da escassez de tempo para esse tipo de leitura. No entanto, exceto
essas alterações, vê-se que, com relação
aos demais tipos de livros mais lidos, não se verifica nenhuma
alteração no decorrer do curso de licenciatura. “Como minha mãe sempre gostou de ler, era ela que lia livros de história e contos de fadas para mim. Gostava de ver as gravuras e escutar ela ler. Mas, que eu me lembre, ler um livro só aconteceu na primeira série. Durante a pré-escola, ainda no reconhecimento das letras e início do processo de escrita, gostava de brincar com os livros, mas não os lia. Meu primeiro livro (...) de leitura foi A maior boca do mundo, de Lúcia Pimentel Goes. Até hoje sei a história e me lembro das gravuras de tanto que li.” (AFN, 24 anos) “Em casa, minha mãe estava sempre lendo (ou romance, ou revista, ou jornais). Eu “babava”. Ela tinha o hábito de “tomar” nossas leituras (minha e de meus irmãos), todos os dias, independente se tínhamos tarefas escolares ou não. Lembro-me que ela pedia para lermos em voz alta, pois enquanto líamos, ela ia realizando outras tarefas domésticas, ou adiantava seu trabalho de costura”. (WOP, 61 anos) “Quando eu tinha sete anos, lembro-me que o meu pai sentava-se com todos nós e contava muitas histórias. Dizia que havia aprendido a ler pelo jornal, que nós devíamos ler o jornal, que era muito importante. (...) Eu tinha muita vontade de aprender a ler. (...) A leitura do primeiro livro para mim foi inesquecível, tinha o desenho de uma menina, um lampião e um trem. O texto tratava de uma viagem para São Paulo e começava assim: ‘O trem corre veloz pelos trilhos. Estamos viajando para São Paulo. Da janela avista-se o verde do campo. Chegando lá, o trem parou na estação da Luz. A cidade de São Paulo é muito grande.’ Depois dessa parte não me lembro mais. Parecia que eu estava dentro da história vivendo o papel dos personagens. Adorei a leitura e não cansava de ler. (...) Lembro-me que certo dia, já com dez anos de idade, acompanhei minha mãe nas entregas de roupas que ela costurava para um alfaiate, e ela parou em uma livraria e me ofereceu um livro. Gostei de um com o título As três cabeças de ouro. (...) Esta também é uma leitura que jamais esqueci.” (EVSF, 58 anos) “Em casa, como não sabia ler ainda, era minha mãe e minha irmã que era mais velha que liam para mim os livros que eu mesma comprava, eu gostava muito de olhar as figuras e tentar adivinhar a história.” (ACL, 23 anos) Pelos depoimentos,
é possível perceber a vivência de práticas
de leitura no ambiente familiar enredando esses futuros professores em
gestos e habilidades que caracterizam um leitor. Nossos sujeitos relatam
experiências prazerosas, ‘naturais’, descontraídas
e marcantes com a leitura no contexto familiar ao longo de sua infância.
Desses depoimentos, seria de se esperar que, no que diz respeito à
leitura, a “herança” ou a transmissão pela família
fosse um fator fundamental na criação e manutenção
do gosto e da necessidade da leitura, bem como na instauração
de uma certa relação ‘positiva’ com a leitura.
“confere a seu portador uma atitude (...) em relação à leitura (...) que tende a ser mais natural, desinteressada, descontraída, segura, desenvolta, livre (isto é, menos escolar), (...) como aquela que se tem com um bem de família”. (Nogueira, 1997:118). No entanto, para uma parcela significativa de nossos sujeitos, a análise de outros momentos dos depoimentos (e questionários) desses futuros professores aponta para algo diferente. Embora em relação aos momentos iniciais de contato com a leitura em ambiente escolar seus relatos continuem a revelar o encantamento anterior, à medida que vão avançando em sua escolarização, é notável a mudança de atitude em relação à leitura – pelo menos em relação a determinadas práticas de leitura. É o que se pode perceber, por exemplo, nos trechos transcritos a seguir: “Depois lembro que lia os livros que a professora pedia ou então os enormes textos das cartilhas. A relação com a leitura nessa época de 2a. a 8a. série era pra mim algo chato, distante, lia porque tinha que ler e não porque gostava. Nesse período, não lembro de freqüentar a biblioteca da escola e nem bibiotecas municipais. Quando entrei no primeiro ano de magistério, lembro que havia mais textos para serem lidos, mas também não me interessava. Livros de Literatura, então, nem se fala, não gostava. Cheguei a fazer prova sem ter lido o livro. Acredito que essa foi uma falha na minha formação, porque todo professor precisa ler, ler é fundamental. (...) Pra mim, ler era ‘coisa’ da escola, fora dela não pensava em ler. Afinal, ler pra quê?” (AFN, 24 anos) “Não gosto de ler. O estímulo que recebi para desenvolver o gosto pela leitura não foi suficiente para isso. Minha família sempre gostou de ler, mas na escola sempre foi somente por obrigação. Ler textos e livros chatos para fazer prova logo em seguida.” (JS) “Hoje gosto de ler, mas até uns seis anos atrás, não. Acredito ser pelo fato de não ter sido estimulada durante a escolarização, por ter sido sempre leituras impostas e não com um objetivo claro, finalidade...” (ST, 37 anos)
“Lembro-me bem que a professora reservava um dia inteiro para a leitura e era sempre na sexta-feira. No início da aula, líamos livros selecionados pela professora e fazíamos várias atividades após a leitura. No final da aula, a professora deixava cada aluno pegar um livro na biblioteca da escola e levar pra casa, pra ler no final de semana. Eu sempre lia o livro pra todo mundo que chegava em casa e todos adoravam.” (ACL) Apesar de
relatos como os de ACL, acima, predominam os depoimentos em que se evidencia
uma diferenciação entre práticas escolares e práticas
não-escolares de leitura, o que se revela marcante na maneira como
esses leitores relacionam-se com o objeto lido, seja ao longo de sua própria
história de leitura, seja ao longo de seu curso de Graduação.
“Ao contrário das práticas não-escolares de leitura, - particularmente daquelas que se desenvolvem nos espaços da vida privada, que acentuam a gratuidade, o ‘desinteresse’ e a autonomia do leitor -, as práticas escolares se constroem em nome da ‘não-gratuidade’, de uma finalidade de aprendizado e se desenvolvem com base em gestos que procuram garantir sua consecução.” (Batista,1998: 43) Para a maioria
de nossos futuros professores, as práticas não escolares
de leitura, realizadas especialmente no âmbito familiar, não
foram suficientes para levá-los a uma relação positiva,
autônoma e “distensa” em relação ao objeto
lido – ou, pelo menos, em relação a alguns desses
objetos. As práticas escolares de leitura a que foram submetidos
ao longo de sua escolarização levaram-nos, inversamente,
a uma relação “mais laboriosa, forçada, tensa
e insegura” (Nogueira, 1997:118) com a leitura, especialmente em
relação a alguns textos ou livros em especial. “Eu gosto de ler, pois distrai e descansa a mente (quando o livro é para lazer). Ao contrário disso, ler nos traz informações e conhecimentos.” (DM, 23 anos – grifo meu) Para as alunas acima referidas, há uma relação tensa, não descontraída e muitas vezes insegura diante de determinadas leituras, particularmente aquelas advindas de solicitações do curso de graduação. E vários outros depoimentos apontam na mesma direção, como, por exemplo, o de PB, abaixo: “Quando eu entrei para a universidade eu tive e tenho muita dificuldade, pois agora eu vejo que nem sempre a leitura é prazer, e sim trabalho.” (PB, 21 anos) No caso de
JS, como já mencionado, essa relação é por
ela ampliada para a leitura de forma geral. Diante da pergunta: “Você
gosta de ler?”, ela é enfática em responder negativamente.
JS representa a si mesma como uma “não-leitora”, afirma
ler pouco e somente por obrigação. No entanto, essa relação
tensa não parece ser de fato a relação que perpassa
todas as suas leituras. Como já anteriormente apontado, os dados
relativos às leituras de JS mostram - fora do âmbito universitário
- uma relação positiva, prazerosa e freqüente com o
ato de ler. Ela afirma, por exemplo, que o período em que mais
lê é durante as férias, por vontade própria,
e para divertir-se... (aliás, essa é a resposta de 77% dos
alunos). Sua representação de si mesma como não-leitora
e seu declarado ódio pela leitura constituem-se, na verdade, em
relação a uma determinada instância de leitura, a
saber, às práticas escolares de leitura – incluídas,
aí, aquelas realizadas ao longo da Graduação. “Gosto de ler e acredito que a leitura é uma das habilidades necessárias para viver nesta sociedade letrada. Leio porque vejo a importância que a leitura faz em minha vida pessoal e profissional.” (AFN, 24 anos) “Gosto de ler porque me ajuda a obter conhecimento, a ter idéias para utilizar no trabalho e porque me traz diversão; posso passar horas agradáveis com a leitura.” (SNB, 25 anos) “Hoje gosto de ler, mas até uns seis anos atrás, não”. (ST, 37 anos) Por outro lado, para a maioria desses futuros professores, a Graduação parece não ter provocado alterações significativas em suas práticas de leitura; essa formação não foi suficiente para criar – ou, ainda, redimensionar - uma relação não-escolar com a leitura. Para esses, predomina uma relação tensa, laboriosa e ‘não-natural’ com o objeto lido. Nesse segundo grupo, pode-se perceber, ainda, uma distinção entre dois subgrupos: alguns realmente explicitam que a experiência universitária não foi suficiente para a re-significação de sua relação com a leitura, o que se pode perceber pelos depoimentos abaixo. “Não gosto de ler; são poucas as vezes em que leio. A minha leitura é feita sempre de forma apessada (sic), sem o prazer de ler.” (SLC, 40 anos) “A universidade enfatiza a importância da leitura, mas não colabora para transformar as atitudes diante da leitura.” (JS) Outros, no
entanto, esmeram-se em “ecoar” um discurso da “importância
do ato de ler” e do “quanto a universidade foi importante
em minha história de leitura”... No entanto, suas respostas
aos questionários, bem como seus depoimentos, apontam em direção
oposta, indicando predominarem, ainda, as práticas ritualizadas,
rotinizadas e laboriosas de uma leitura escolar. “A leitura é sempre apropriação, invenção, produção de significados. Segundo a bela imagem de Miguel de Certeau, o leitor é um caçador que percorre terras alheias. Apreendido pela leitura, o texto não tem de modo algum – ou ao menos não totalmente – o sentido que lhe atribui seu autor, seu editor ou seus comentadores. Toda história da leitura supõe, em seu princípio, esta liberdade que se desloca e subverte aquilo que o livro lhe pretende impor. Mas esta liberdade leitora, não é jamais absoluta. Ela é cercada por limitações, capacidades, convenções e hábitos que caracterizam, em suas diferenças, as práticas de leitura. Os gestos mudam segundo os tempos e lugares, os objetos lidos e as razões de ler.” Chartier (1998: 77). Tais considerações
de Chartier relativas à história da leitura parecem servir
também aos dados aqui analisados: os nossos professores em formação
nos mostram que seus gestos de leitura modificam-se dependendo da “situação
de leitura” em que se encontram. No entanto, predominam aqueles
gestos advindos de uma relação tensa com o impresso, em
práticas escolares de leitura. Para a maioria dos nossos sujeitos,
a vivência universitária teve um papel ainda pouco significativo
para mudar seus gestos de leitura no sentido de levá-los a ampliar
sua “liberdade leitora” ou a estabelecer uma relação
mais segura e distensa com a leitura. “-
Mãe, o que você está fazendo? Preparando aula? Referências Bibliográficas BATISTA,
A.A.G. Os professores são “não-leitores”? In:
MARINHO, M. e SILVA, C.S.R. (orgs.). Leituras do professor. Campinas,
SP: Mercado de Letras: ALB, 1998. |
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