Roberta Cristina de Paula - FE-Unicamp
Introdução
Este trabalho de pesquisa tem como objetivo destacar a
importância da linguagem corporal na primeira etapa da educação
básica: a Educação Infantil.
Para isso, partimos da concepção de uma educação
infantil não escolarizante, não restrita às linguagens
escrita e verbal, mas sim, que tenha a criança como uma protagonista
no processo educacional, uma criança produtora de cultura, com
tempo e espaço para as “Cem Linguagens” ( este termo
é título da poesia do italiano Loris Malaguzzi, e que também
inspirou o título do livro As cem linguagens da criança-
ver bibliografia).
Passamos por um momento histórico onde várias pessoas como:
professores, pesquisadores e outros envolvidos neste campo, vivenciam
um processo de construção da Pedagogia da Educação
Infantil; neste aspecto, a referência da Pedagogia da Educação
Infantil desenvolvida no norte da Itália veio contribuir com nossos
anseios, buscas e inquietações sobre um processo o qual
priorize a especificidade da faixa etária dos 0 aos 6 anos de idade.
O objeto da pesquisa é a linguagem corporal vivenciada pelas crianças
pequenas ( dos 3 aos 6 anos) freqüentadoras do Parque Infantil da
Vila Industrial, em Campinas, no período de 1942 à 1952.
A metodologia de pesquisa utilizada foi a de análise documental
, sendo sobre : fotografias, recortes de reportagens em jornal e fichas
de atividades ( estas últimas traziam descrição dos
jogos realizados na época, objetivos e faixa etária recomendada).
Através desta pesquisa consideramos que o trabalho realizado nesta
instituição antecipou alguns dos critérios e propostas
presentes no processo de construção da Pedagogia da Educação
Infantil existente nos dias atuais.
Um pouco de história ...
A Educação Infantil, em instituições
públicas, no Brasil, iniciou-se em fins do século XIX; passou
por um período assistencialista, seguida de um aumento das preocupações
com higiene ( início século XX) para combater as doenças
que eram uma ameaça para toda a população e para
a produção.
Foi na década de trinta (séc. XX) que foram criados os “Parques
Infantis”:
Torna-se fundamental apresentar aqui a criação
dos Parques Infantis, inicialmente, na cidade de São Paulo, quando
Mário de Andrade era o diretor do então criado Departamento
Municipal de Cultura e de Recreação. Esses estabelecimentos
tinham uma proposta que priorizava a cultura infantil e eram voltados
ao atendimento dos filhos de operários. (Paula, 2003, p.20).
Depois da capital, houve a criação de alguns
parques no interior do estado, sendo que Campinas foi uma das cidades
onde essa política foi implementada.
Sobre a instituição pesquisada
Em Campinas, o primeiro Parque Infantil foi criado em
1940. O Parque Infantil da Vila Industrial foi o segundo fundado na cidade,
isso deu-se em outubro de 1942. E, de acordo com Tonolli:
Podemos dizer que temos algumas evidências e muitos
indícios de que o Parque Infantil da Vila Industrial deu continuidade
a proposta de Mário de Andrade através do cuidado e educação
das crianças campineiras com base na cultura e não no modelo
escolar.(1996, p.73).
O Parque Infantil dispunha de uma área externa
ao ar livre bastante ampla, com uma piscina retangular e uma redonda (identificada
como tanque de vadear), com um teatro de arena , área gramada e
arborizada.
Não havia salas específica para as turmas, apesar de existir
a divisão por faixa etária.
Destacamos então a área privilegiada desta instituição
que garantia com isso que o processo educacional não fosse nos
moldes escolares, mas que os sujeitos realizassem a maioria das atividades
ao ar livre.
Conforme um dos documentos utilizados para a realização
desta pesquisa: “Critérios para um atendimento em creches
que respeite os direitos fundamentais das crianças” (Campos
e Rosemberg, 1995), observamos, com base no espaço físico,
que a proposta que se apresentava não era a de um corpo imóvel,
mas a de um corpo em movimento, pois um dos critérios (Nossas crianças
têm direito ao movimento em espaços amplos) diz:
Nossas crianças têm direito de correr, pular
e saltar em espaços amplos, na creche ou nas suas proximidades
Nossos meninos e meninas têm oportunidade de jogar bola, inclusive
futebol
Nossos meninos e meninas desenvolvem sua força, agilidade e equilíbrio
físico em atividades realizadas em espaços amplos
Nossos meninos e meninas, desde bem pequenos, podem brincar e explorar
espaços externos ao ar livre
...
Organizamos com as crianças aquelas brincadeiras de roda que aprendemos
quando éramos pequenos
Procuramos criar ocasiões para as famílias participarem
de atividades ao ar livre com as crianças, (p.21).
E um outro documento, também utilizado para a realização
desta pesquisa, foram “As Novas Orientações para uma
Nova Escola da Infância” (Caderno Cedes 37), que aborda os
campos de experiência educativa da educação infantil,
e um deles é o do corpo e o movimento:
o campo de experiência da corporeidade e da motricidade
(q) contribui para o crescimento e a maturação integral
da criança, promovendo a tomada de consciência do valor entendido
como uma das expressões da personalidade e como condição
funcional, cognitiva, comunicativa e de relações, a ser
desenvolvida em todos os planos de atenção formativa. (p.81).
Com isso , o Parque Infantil caracterizou-se como uma
instituição bastante inovadora em sua época, realizando
práticas e proporcionando espaços para a produção
da cultura infantil ( este termo refere-se ao que as crianças produzem
entre elas no mundo adulto).
O processo de pesquisa
A faixa etária delimitada foi dos 3 aos seis anos
( identificada como a turma dos pequenininhos ou dos pequeninos).
Durante o processo de seleção do material para a pesquisa
verificamos que havia momentos como: festas, jogos , brincadeiras e passeios
que proporcionavam com que as crianças pequenas pudessem se misturar
com as crianças de outras idades ( inicialmente o Parque atendia
crianças dos 3 aos 12 anos), sendo que a maioria dos documentos
fotográficos registrou estas situações.
Dentre o material fotográfico encontramos registros das crianças
no tanque de vadear, assim a existência de uma piscina redonda,
a qual era utilizada pelos pequenininhos dá indícios de
que a proposta era para que a criança tivesse contato com o meio
líquido ( aspecto característico da Pedagogia italiana,
que destaca a importância do contato com os quatro elementos da
natureza), cabe ressaltar que o formato sugere-nos que o objetivo não
era a prática do esporte ( natação), mas a brincadeira
na água.
Através das reportagens em jornal observamos que a ênfase
era para a divulgação das festas que aconteciam na instituição
, mas também encontramos textos falando sobre o trabalho desenvolvido,
com destaque para o aspecto preparatório da educação
realizada, como mostra o trecho a seguir:
Correio Popular30/05/1950
Importantes melhoramentos serão introduzidos nos Parques Infantis
Gabinetes dentários e galpões para lanche
...
Bem, muito bem anda a Diretoria de Ensino e Difusão Cultural, zelando
como zela com especial carinho, dos nossos parques infantis.
E nem podia ser diferente. Essas criações relativamente
modernas nos novos processos eugênicos constituem indiscutivelmente
centros eficientes onde se cuida da _______ (palavra inelegível
no documento) aperfeiçoamento da raça. Desses laboratórios
raciais há de sair fatalmente a geração forte e válida
dos bandeirantes vindouros. Campinas, vanguardeira invicta em quase todos
os empreendimentos _______ (palavra inelegível no documento) notáveis
oriundos do progresso não podia por modo nenhum, neste terreno
ficar na retaguarda. Mister-lhe é manter-se, como sempre, na posição
avançada da linha de frente, de maneira a caminhar pari passu com
os grandes centros urbanos nacionais e estrangeiros.
...
E Oxalá aconteça, porque, ao nosso ver, nos parques infantis
repousa o aperfeiçoamento incontestável do fator humano.
Precisamos de gente forte e sadia para trabalhar pelo progresso da cidade
e do Brasil. E é, tratando do físico, ao sol e ao ar livre,
que os homens bons se fazem. * este trecho foi transcrito no trabalho
final e encontra se pág. 41 ( Paula, 2003).
Sobre as fichas de atividades verificamos que os jogos
também proporcionavam a mistura de idades. Quanto aos objetivos,
esses enfatizam o aspecto desenvolvimentista da psicologia.
Finalizando
Assim, o Parque Infantil apresentava dois aspectos sendo:
um transformador e o outro disciplinador. O primeiro, por proporcionar
às crianças pequenas condições que favoreciam
a construção da cultura infantil, não limitando os
sujeitos à um processo educacional antecipador da escola ( ou que
na época seria e ensino primário, e hoje a o ensino fundamental).
O Parque Infantil possibilitou condições para que os sujeitos
pudessem expressar-se de maneira global e ampla, porque:
... ou a educação é educação
de forma global e avalia-se também a importância do movimento
, da corporeidade com suas implicações na construção
das subjetividades, na cognição e nas formas de conhecer
o mundo (Assman, 1994) ou encaramos esta Educação de forma
fragmentada ... O que precisa começar a a contecer é um
mínimo de coerência com os princípios que orientam
a nossa prática pedagógica e a visão de ser humano
como tal . (Gonçalves, 2001, p.68).
E o segundo aspecto, disciplinador, pelo fato de também
identificarmos objetivos que relacionavam essas práticas à
formação de um corpo saudável, pois afinal, aquela
geração seria a geração de futuros trabalhadores
. Um outro ponto é quanto à questão do caráter
disciplinador dos jogos, no entanto torna-se necessário salientarmos
que:
Na verdade, como diz Caillois (1982), a atividade lúdica
é um continuum com duas extremidades: uma, ocupada por jogos que
manifestam criatividade, fantasia, espontaneidade; e outra, com os jogos
, subordinados a regras. Na vida social, sempre existem regras, que variam
de sociedade para sociedade, portanto, o jogo infantil, naquele continuum,
pode tanto ensinar a obediência às regras, como também
pode ensinar a sua arbitrariedade. (Faria, 1999, p.156).
Dessa forma, o Parque Infantil não estava tão
somente servindo aos interesses políticos da época, mas
também oferecendo condições para se viver a infância
e expressar mais uma, entre as “Cem Linguagens” da criança:
a linguagem corporal.
Bibliografia
CAMPOS, Maria Malta; ROSEMBERG, Fúlvia. Ministério
da Educação e do Desporto.SEF. Depto de Políticas
Educacionais. COEDI. Critérios para um atendimento em creches que
respeite os direitos fundamentais das crianças, Brasília.
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