Andréa Pavão – ISERJ - Instituto
Superior de Educação do Rio de Janeiro
Este artigo tem por objetivo lançar um olhar crítico
sobre o uso generalizado de algo que poderíamos chamar de “pedagogia
do lúdico” e de sua aplicação no trabalho com
a língua portuguesa em sala de aula. Neste sentido, busca-se, em
um primeiro momento, mapear a genealogia do conceito lúdico no
interior do campo da educação no Brasil. Em seguida, apresenta-se
uma breve história dos jogos e brincadeiras. Procura-se, então,
em uma perspectiva antropológica, situar o brincar como prática
cultural e social. Temos aí, uma primeira tensão entre a
universalização e a pluralidade. Uma segunda problematização
surge a partir da dimensão de gratuidade, intrínseca ao
conceito de ludicidade, em tensão com a dimensão instrumental
e coercitiva, base da prática pedagógica. Por fim, busca-se
refletir sobre os limites e possibilidades da experimentação
do lúdico através de práticas de leitura e de escrita
em sala de aula.
O lúdico no campo da educação
O termo lúdico tem sido largamente utilizado na campo pedagógico,
embora de forma indiscriminada e pouco crítica. Teixeira (1959)
já nos havia prevenido sobre os riscos do que chamou “apropriação
precipitada” no campo da educação , das descobertas
“científicas ou pseudo-científicas” das chamadas
“ciências fonte”, entre as quais se inclui a psicologia.
De fato, é notável a apropriação do termo
com a divulgação, entre nós, dos trabalhos de Piaget
e Claparède, entre outros, no interior do pensamento escolanovista,
a partir dos anos 20, 30, tendo Helena Antipoff como sua grande divulgadora
(Kishimoto, 1993). Mas foi a partir dos anos 80, com a incrível
disseminação do ideário construtivista no campo da
educação, de forma pouco crítica, como denuncia Saviani
(1985), que a ludicidade tornou-se um a priori na educação
brasileira. E, ainda, com algum risco de imprecisão, podemos associar
a popularização (e por que não dizer, modismo) do
termo e de sua aplicação nas salas de aula brasileiras,
à divulgação dos PCNs, fortemente influenciados pela
psicologia espanhola de foco construtivista (Moreira, 1999).
Se analisarmos o estado do conhecimento dos trabalhos científicos
sobre o lúdico na pedagogia, contudo, nota-se que o mesmo entusiasmo
com que a idéia do lúdico na educação floresce
no plano do discurso da prática, não encontra eco no plano
do discurso teórico, traduzido pela produção acadêmica
dedicada ao tema.
Segundo Rocha (2001), até a década de 80, a produção
acadêmica sobre educação infantil concentra-se na
área da psicopedagogia. Com a constituição de 1988,
a creche passa a ser definida como “um direito da criança,
um dever do estado e uma opção da família”,
o que impulsiona a produção. Podemos dizer que apenas a
partir da década de 70, começa a ser reconhecida a importância
da educação infantil no Brasil. Mesmo assim, no início
da década de 80, apenas 10% das crianças de 0 a 6 anos são
atendidas em creches (de 0 a 3 anos) e na pré-escola (de 4 a 6
anos). Este atendimento ainda é muito associado à idéia
de privação cultural, visto principalmente como liberação
da mão-de-obra feminina de baixa renda e sua absorção
no mercado de trabalho.
Analisando a produção acadêmica ao longo do período
em que se concentra o estudo (1983 a 1996), mesmo ampliando o campo semântico
do conceito lúdico e incluindo termos como jogos, arte, movimento
corporal e desenho, encontramos apenas 25 artigos, 23 dissertações
e 9 teses que tratam do tema da ludicidade. Digno de nota é o fato
de a linguagem narrativa e literária, em geral, não aparecer
associada à idéia de ludicidade. Chama atenção,
sobretudo, o fato de a produção na área de educação
infantil corresponder apenas a 2,39% de todas as teses no campo da educação
no mesmo período e a 4, 63% do total de dissertações.
Exploração semântica do vocábulo
Fica evidente, sobretudo, a dimensão polissêmica do termo
lúdico, e sua apropriação no campo da educação.
Façamos, portanto, uma exploração semântica
do vocábulo.
Em seu importante trabalho sobre o tema da ludicidade, no qual dedica
um capítulo inteiro ao conceito de jogo e suas expressões
na linguagem, Huizinga (1972) assim define a função que
considera um dos elementos mais fundamentais da vida humana:
o jogo é uma ação ou ocupação livre,
que se desenvolve dentro de limites temporais e espaciais determinados,
segundo regras absolutamente obrigatórias, mesmo que livremente
aceitas, ação que tem seu fim em si mesma e é acompanhada
de um sentimento de tensão e alegria e da consciência de
“ser de outro modo” do que na vida cotidiana (1972: 43)
Partindo da dimensão universalista do jogo, embora
reconheça que “todos os povos jogam e o fazem de maneira
estranhamente parecida”, Huizinga observa que nem todos os idiomas
abarcam o conceito “jogo” com uma mesma palavra, “de
maneira tão ampla como os modernos idiomas europeus”. Partindo
do grego, o autor indica uma grande variação de apropriações
em diversos ramos lingüísticos. Em algumas línguas,
subdividem-se ações específicas como jogar ao ar
livre, jogar jogos de tabuleiros, competir, dançar, praticar exercícios
corporais, etc..
Do latim, ludus, temos pelo menos quatro acepções importantes:
1- relativo a jogo, brinquedo, 2- qualquer objeto ou atividade que vise
mais divertimento que a qualquer outro objetivo, 3- aquilo que se faz
por gosto, sem outro objetivo que o próprio prazer de fazê-lo
e 4- lubridiar, enganar, fingir, fazer-de-conta, o “ser de outro
modo” ao qual Huizinga se refere.
No francês, encontramos o vocábulo jouer que significa tanto
brincar quanto jogar. Dele, derivam as palavras jouir, que significa gozar;
joie, sinônimo de alegria e, ainda, joyau, que traduz-se por jóia.
Encontramos nesta língua, portanto, a mesma idéia de gratuidade
e alegria do simples gozo, de fruição.
Do inglês moderno, o verbo to play traduz-se tanto por jogar, brincar
ou representar. O mesmo repara-se no alemão spielen que designa,
simultaneamente, brincar e jogar, sendo spiel, o substantivo jogo, tanto
quanto folga e prazer. Desta forma, tem-se a expressão spielverderber,
que significa desmancha-prazeres. Muito comum, também, encontrarmos
a idéia de movimento associada ao campo semântico do vocábulo
lúdico. Segundo Huizinga, Kant se referia ao jogo dialético
através da expressão dialektische Spiel.
Um desdobramento semântico nos leva ao sentido do perigo que existe
nas lutas, nos jogos: o jogo é luta e a luta é jogo. Temos
aí, também, o sentido de ludibriar, enganar, fazer-se passar
por outro. Não podemos nos afastar, tampouco, da idéia de
jogo em relação com o erótico. Em sânscrito,
kridati, jogar, tem freqüentemente, um sentido erótico. Segundo
Huizinga, “Buytendijk considera o jogo de amor como o exemplo mais
perfeito de todos os jogos, por mostrar, da maneira mais clara, todas
as características do jogo”.
Mas, ainda de acordo com Huizinga (1972: 61), “o valor de uma palavra,
em qualquer idioma, se codetermina por aquela outra que expressa o contrário”
e, em diferentes ramos lingüísticos, como antônimo de
jogo, temos o sério, e em um sentido mais estrito, trabalho, ou
em latim, gravis, gravitas, pesado, grave, briga. Resumindo, os vocábulos
que se opõem ao lúdico, encontram-se na esfera do empenho,
do esforço, da pena. Nota-se, porém, que estes conceitos
podem muito bem associar-se à idéia de jogo:
O sério é o que “não é jogo” e
não outra coisa. O conteúdo significativo de jogo, ao contrário,
não se define nem se esgota pelo de “não sério”,
pois o jogo é algo peculiar e o conceito de “jogo”,
como tal, é de uma ordem mais elevada do que aquela do “não
sério”. O sério trata de excluir o jogo, enquanto
que o jogo pode muito bem incluir em si o sério. (Huizinga, 1972:62)
O lúdico em uma perspectiva histórica
Uma vez que a atividade do jogo é, segundo Huizinga, uma das principais
bases da civilização, havendo para designá-la uma
infinidade de signos lingüísticos em sua variedade semântica,
vejamos, portanto, como se desenvolveu esta prática ao longo dos
tempos.
A primeira compilação de jogos que se tem notícia
foi encomendada pelo rei Afonso X de Leão e Castela, que reinou
entre 1252 e 1284. O “Livro dos Jogos” como ficou conhecida,
traz em seu prefácio, a seguinte mensagem: “Deus quis que
os homens se divertissem com muitos e muitos jogos, pois eles trazem conforto
e dissipam as preocupações”.
Chama-nos atenção, portanto, o caráter universal
dos jogos, sendo uma criação coletiva de todos os homens
em diferentes épocas e regiões. Por outro lado, no entanto,
não podemos desconsiderar o fato de os jogos terem suas peculiaridades
tanto ao longo da história, quanto entre diferentes povos e segmentos
sociais.
Segundo Arriès, até o século XVII, não há
separação entre o universo lúdico infantil e adulto.
Adultos e crianças brincam juntos dos mesmos jogos. Esta separação
vai se estabelecendo por três razões básicas: a construção
e sedimentação da criança como categoria social;
a institucionalização da escola como espaço de exclusão
e quarentena da infância do convívio social, de acordo com
as análises de Foucault (1987) e, por último; o divórcio,
para os adultos, entre o mundo do trabalho e o mundo do lazer, como conseqüência
da mudança do modo de produção tradicional para o
modo de produção capitalista .
Segundo o estudo iconográfico de Arriès (1978), em 1600,
o pequeno Luis XIII já tem seus próprios brinquedos. Afastado
do universo adulto, o brinquedo tem a especificidade da infância
que se tornava, assim, “o repertório dos costumes abandonados
pelos adultos”. Muitas brincadeiras infantis eram, portanto, antigos
jogos de festas religiosas ou pagãs preservadas apenas pelo mundo
infantil.
Na medida em que o trabalho adquire uma maior centralidade na vida do
homem moderno, o brincar chega mesmo a tornar-se vergonhoso entre os adultos.
Como foi dito, o campo semântico “sério”, associado
à idéia de trabalho e de esforço, exclui o “não
sério”, o brincar, o lúdico. No modo de produção
capitalista, todo esforço vincula-se à idéia de utilidade,
de uso, excluindo a dimensão de gratuidade e de fruição.
Assim, pouco a pouco, “as crianças constituem as sociedades
humanas mais conservadoras”, segundo Arriès, na medida em
que a infância torna-se o reduto de jogos e brincadeiras abandonadas
pelos adultos e, as crianças, seus guardiãos.
Podemos dizer, portanto, que os adultos depositam no universo infantil
estes saberes e lhes confiam estes jogos, precisamente, para conservá-los,
para que eles não se percam. A partir da super valorização
e otimização do tempo em função da produção
e do trabalho, a ludicidade dos adultos é projetada sobre a infância,
apagando-se da vida adulta de forma explícita.
Mas a infância, por sua vez, também imita a vida adulta em
suas brincadeiras. Lembremo-nos que uma das acepções do
vocábulo lúdico, refere-se a lubridiar, fingir, fazer de
conta, em uma palavra: imitar. Temos assim, portanto, um intrincado jogo
de espelhos e projeções pois, ao mesmo tempo que os adultos
projetam e confiam seus brinquedos aos cuidados de suas crianças,
estas, por sua vez, brincam de imitar a vida cultural e social adulta.
Na iconografia do século XV, os putti (putos), como eram chamadas
as crianças, aparecem brincando de cavalo-de-pau ou de mercadores,
por exemplo, como forma de, através da imitação,
através do jogo, interiorizarem as práticas de socialização
adulta. Também os imitando, dançavam, pulavam carniça
e pulavam bananeira.
Talvez por esta razão, os adultos contemporâneos fiquem tão
chocados e preocupados com o interesse crescente das crianças pelos
brinquedos eletrônicos e jogos individuais. Hoje, vemos nossas crianças
sentadas diante da tela do computador, solitárias e nos inquietamos,
talvez porque reconheçamos que a brincadeira infantil reflete e
imita a vida adulta e, nela, é flagrante que o mundo do trabalho
e, sobretudo, o mundo do trabalho alienado, vem roubando nossa própria
infância, nossa ludicidade, nossa liberdade.
Assim, de acordo com matéria da Folha de São Paulo pode-se
dizer que o “início da vida e a maturidade se encontram cada
vez mais próximos culturalmente, tornando a criança um simulacro
do adulto, e este, um projeto constante de eterna juventude”. Na
referida matéria, o psicanalista Chaim Samuel Katz adverte sobre
o “colapso da infância” na medida em que se torna precocemente
adulta. A criança é, hoje, diz ele, um “pré-adulto”,
submetida ao mundo adulto, onde ser criança torna-se problemático
em si mesmo.
Constitui um problema não apenas a infância, mas a própria
ludicidade que, ameaçada, desencadeia uma série de ações
no sentido de torná-la espetacular, o que se comprova com o incrível
fortalecimento da indústria do entretenimento infantil, onde a
diversão e a ludicidade, fetichizadas, convertem-se em mercadoria.
Quanto mais elevado o nível social, mais envolvidos estão
os pais na engrenagem de produção capitalista e maior o
investimento na “indústria da ludicidade”, como uma
forma de terceirização da maternagem. Entre os adultos,
por sua vez, o lúdico se torna gratuito e suspeitamente infantilizado.
Talvez, em função do caráter alienado de sua atividade
produtiva, as pulsões eróticas não encontrem outro
meio de sublimação.
O lúdico em uma perspectiva antropológica:
brincar como prática cultural e social
Se, por um lado, historicamente somos levados a identificar uma certa
universalidade no brincar, mesmo que reconhecendo diferenças na
forma de se lidar com o lúdico ao longo da história, na
perspectiva antropológica, nos deparamos com a diversidade na medida
em que se considere o brincar como prática cultural e a própria
infância como construção social. Desta forma, somos
levados a pensar em termos de pluralidade, tanto de infâncias como
de brincadeiras.
Dentro da vastidão de acepções atribuídas
ao termo cultura, concentremo-nos na definição de Geertz
(1989) que, citando Weber, dirá que “o homem é um
animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu” e que
a cultura seria precisamente o emaranhado destas teias que envolve e implica
o homem na relação social e de construção
coletiva de identidades.
Neste sentido, se observarmos o cotidiano infantil, por mais que a infância
esteja eclipsada na contemporaneidade, identificamos descontinuidades
significativas entre o universo infantil e o adulto, certas especificidades.
Podemos falar, portanto, em uma cultura infantil, ou melhor, em culturas
infantis. Nesta linha de pensamento, colocamos a criança como sujeito
histórico, produtor de cultura (Kramer e Leite, 1998 e Jobim e
Souza, 2000), de redes de significados particulares.
Segundo Kishimoto (1993), a intensa miscigenação trouxe
grande variedade de brincadeiras e representações da infância
no Brasil que, em suas origens, sofreu influências tanto dos colonizadores
portugueses, quanto do negro, do índio e dos imigrantes. A dramática
desigualdade, como marca de nossa sociedade, produz uma variedade de construções
sociais da infância, de tal forma que não se pode falar em
uma única forma de ser criança no Brasil, nem de brincadeiras
de criança, nem na importância do lúdico na educação
da criança.
Em pesquisa realizada na comunidade do Pavão-Pavãozinho-Cantagalo
(Pavão, 2004), um capítulo intitulado “Infâncias
do morro” já anuncia a diversidade, tanto em comparação
à infância do asfalto, quanto no interior da própria
realidade do morrão . Enquanto há aqueles que ficam trancados
em casa e desfrutam seu tempo livre na igreja, há os que soltam
pipas nas lajes, os que brincam de atiradeira simulando as disputas entre
as facções do tráfico e os que trabalham, ajudando
na composição da renda familiar (Dauster, 1991), lembrando
que se pode, ainda, brincar de atiradeira à tardinha e ir ao culto
à noite.
Para termos uma idéia da diversidade destas redes de significados
que constituem a pluralidade da infância, de seus brinquedos e suas
brincadeiras, transcrevo alguns trechos de depoimentos de jovens moradores
de comunidades e do asfalto sobre a sua infância:
Minha infância no morro era assim: eu morava no terreirão,
que agora é uma grande quadra de futebol de salão. Eu morava
com minha mãe, irmã e irmão. Na minha infância
eu brincava de pique-esconde, bola de gude e de jogar bola. Quando eu
precisava de dinheiro, eu vendia os poucos brinquedos que eu tinha pra
comprar alguma coisa pra mim. Agora não é mais assim, tudo
que eu quero, agora eu tenho, com muito esforço .
Certa vez, eu queria muito empinar pipa, mas eu não tinha dinheiro
pra comprar, então, a única solução era entrar
dentro da pedreira que ficava do outro lado da barraca. Mas como eu morava
no Dunga, eu e meus amigos tínhamos uma inimizade com os moleques
da barraca, por isso nunca passávamos por lá, e pra ir na
pedreira tinha que dar uma puta volta, mas mesmo assim valia a pena porque
lá caía muita pipa.
Nascido e criado em apartamento, quase não tive aventuras do tipo
correr de cachorro, quebrar perna e coisa do tipo. Porém, ao contrário
do que muita gente pensa, a infância em prédio tem (algum)
conteúdo diferente, também. Tocar a campainha do vizinho
e sair correndo; brincar de vôlei, pique e queimado; esvaziar o
pneu do carro do vizinho chato; e implicar com o zelador do prédio;
zoar com aquela vizinha esquisita escondido, jurando de pé junto
que ela nem desconfia de quem estava ali; fazendo “salada mista”
sempre que possível, principalmente quando rolava visita no prédio
ou moradores novos.
Por que as crianças brincam?
O fato é que as crianças brincam, seja de empinar pipa ou
de tocar a campainha do vizinho, seja com brinquedo comprado ou fabricado,
seja este brincar dissociado ou não do mundo do trabalho. Mas por
que as crianças brincam espontaneamente?
Inúmeros pesquisadores têm se ocupado do brincar como objeto
de pesquisa. Para Winnicott (1982), por exemplo, o brincar é uma
forma de a criança lidar com as suas angústias e conciliar
seu mundo interno com o externo. Segundo o autor, a criança adquire
experiência brincando:
Compete-nos não ignorar a contribuição social feita
pela criança ao experimentar seus sentimentos agressivos através
das brincadeiras, em lugar de o fazer em momento de raiva. (Winnicott,
1982:162)
Em uma perspectiva psicanalítica, pode-se dizer
que o brincar é uma manifestação de pulsões
eróticas que buscam ser satisfeitas. Neste sentido, algumas brincadeiras
são formas de sublimação de desejos cuja realização
é moralmente inaceitável. Como exemplo, podemos citar o
caso de uma menina de seis anos de classe média alta que, brincando
com suas bonecas, representava a babá, o motorista e a mãe
como integrantes de sua família, deixando esta última (ausente
na vida real) afogar-se na piscina, ao que a boneca que representava a
babá comentou: “Ah, não faz mal, deixa ela aí,
e vamos fazer aquele brigadeirinho na cozinha”.
Segundo Piaget (1994), através dos jogos simbólicos, a brincadeira
infantil tem como objetivo relembrar acontecimentos vividos e representá-los
solucionando, através da ficção, a realidade que
os oprime. Como exemplo, podemos citar uma brincadeira de casinha observada
na pré-escola em que uma criança, que acabara de ganhar
um irmãozinho, representa o papel da mãe e diz aos seus
filhos ficcionais: “agora, fica aí com a chupeta que a mamãe
vai brincar com sua irmãzinha (referindo-se a si própria
como irmã mais velha)”. Em sua análise sobre a brincadeira,
Vigotski (1990) enfatiza, também, a relação social,
as mediações e negociações entre as crianças
e o papel do “faz-de-conta” como possibilidade de reinventar
a realidade, muitas vezes, opressora.
Para Fourrier (Konder, 2000), em seu falanstério, célula
elementar da sociedade utópica e ideal, as crianças viveriam
apartadas dos adultos, para o bem de ambos, de tal forma que seus jogos
e brincadeiras estivessem totalmente insubmissos às deliberações
da vida adulta e suas regras. Assim, as brincadeiras das crianças
no falanstério seriam criadas e vividas pelas crianças,
sem qualquer interferência de qualquer adulto. Neste mesmo sentido,
Winnicott escreve:
Os adultos contribuem, neste ponto, pelo reconhecimento do grande lugar
que cabe à brincadeira e pelo ensino de brincadeiras tradicionais,
mas sem obstruir nem adulterar a iniciativa própria da criança
(Winnicott, 1982:163)
O que encontra eco na maneira com que Hanna Arendt concebe
a infância, como um acontecimento, o novo que “atualiza”
as visões cristalizadas do adulto e, o brincar, como algo revolucionário,
na medida em que é o radicalmente novo, desde que não seja
administrado pelo adulto.
Ora, se o brincar “autêntico”, como prática cultural
entre agrupamentos sociais formados por crianças, encontra-se associado
à liberdade e esgota-se em si mesmo, de tal forma que os seus “ganhos”
são espécies de “acidentes de percurso”, por
que brincamos com as crianças em sala de aula, recolocando o brincar
em uma perspectiva de trabalho orientado para outros fins?
Por que brincamos com as crianças em sala de aula?
Como se dá a incorporação da idéia de ludicidadde
na educação? Em 1740, Rousseau (1994) no Projeto que escreveu
aos pais do Senhor de Sainte-Marie, então com 5 anos, nos apresenta
uma relação ambígua com o brincar. Reconhecendo,
em seu futuro pupilo, forte antipatia por tudo que se parecia com aplicação,
encontra as raízes da aversão aos estudos na “indisciplina
que ele (o menino) adquiriu brincando com seus irmãos” (1994:77)
e “para remediar este inconveniente, seria preciso”, segundo
Rousseau, “fornecer-lhe outros divertimentos que o desligassem das
bobagens” com as quais se ocupava então. Neste sentido, o
filósofo sugere que seja criado “um quarto adequado para
fazer as vezes de sala de estar e de estudo”, que ele próprio,
como preceptor, se ocuparia de tornar agradável e alegre, reconhecendo
que já seria um grande avanço conseguir que o menino se
sentisse “bem no local em que deve estudar”.
Nota-se, neste impressionante documento sobre a educação,
uma reflexão filosófica sobre problemas que, à época,
já se faziam presentes na pedagogia, qual seja; atrair a atenção
da criança que, originalmente, interessa-se prioritariamente por
brincar. Trata-se, portanto, de tornar lúdico o espaço de
estudo, de maneira que venha a competir com os fortes apelos das brincadeiras
de criança. E eis aí um grande paradoxo deste expediente,
que abordaremos ao longo deste texto: sendo lúdico aquilo que é
pura gratuidade, como tornar lúdico o processo educativo que nada
tem de gratuito, uma vez que se investe de um projeto traçado a
priori e que se lança, portanto, em direção a metas
que transcendem o desfrute gratuito do presente, marca do brincar? Nesta
tentativa, vejamos algumas das estratégias de Rousseau:
Então, para desligá-lo imperceptivelmente destas brincadeiras
pueris, eu participaria de todos os seus divertimentos e lhe forneceria
mais alguns próprios para agradá-lo e excitar a sua curiosidade;
joguinhos, recortes, um pouco de desenho, música, instrumentos,
um prisma, um microscópio, uma retorta, e mil outras curiosidades
me forneceriam temas para direcioná-lo e ligá-lo pouco a
pouco ao seu aposento, a ponto de se sentir melhor ali do que em qualquer
outro lugar. (1994:79)
Possivelmente influenciado pelas concepções pedagógicas
de Rousseau, sobretudo de seu Emílio, elaborado alguns anos depois
da experiência do filósofo como preceptor, Fröbel conceberia,
em 1837, o primeiro kindergarten (Jardim de Infância), associando
a idéia de atividade à de liberdade.
Fröbel ficou conhecido como o primeiro educador a utilizar o brinquedo
nas escolas como atividade pedagógica. O educador defendia o contato
com a natureza, partindo de uma idéia extremamente romântica
da infância e das crianças, concebidas como plantinhas do
jardim da infância. “Os jardins de infância criados
no Brasil no século passado divulgaram a pedagogia dos jogos froebelianos”
(Kishimoto, 2001:99), que incluíam o que o pedagogo chamava de
dons (a bola, o cilindro, o círculo, o cubo). Nestas atividades,
encontram-se jogos orientados e cantados, com forte participação
de um educador, ao mesmo tempo que defende-se a livre exploração
dos materiais pelas crianças.
Segundo Kishimoto, embora prevalecesse uma “nítida preferência
pelos jogos livres, os jogos educativos continuaram presentes nos anos
20, no Brasil, durante a expansão do movimento escolanovista”.
Ao que se saiba, os jogos sempre estiveram ligados à vida social
e, entre as funções sociais, sempre foram instrumentos de
ensino e aprendizado e, também, uma forma de linguagem na transmissão
de conhecimentos. Antes mesmo de surgir a didática, os jogos eram
educativos, mas é o prazer, a gratuidade, que distingue o verdadeiro
jogo da atividade profissional, que diferencia o lúdico do educativo.
Esta tensão entre a brincadeira como jogo espontâneo, que
se esgota em si mesma, e como um instrumento pedagógico direcionado
para a apropriação de conteúdos previamente definido
pelos adultos, é o que nos interessa abordar em relação
ao discurso da “pedagogia do lúdico” no desenvolvimento
de atividades de Língua Portuguesa.
Ludicidade, leitura e escrita em sala de aula
Em matéria divulgada na Folhinha de São Paulo (02/07/2005),
sob o título “Quer brincar de poesia?”, lê-se
o seguinte:
Você já leu poesia? Ou tentou fazer versos?
Se você pensa que ler ou escrever poemas é coisa só
para os adultos, está enganado! Brincar de contar uma história
rimando as palavras é muito divertido. É o que garante Vinícius
Andrade, de dez anos. Desde os 6, Vini, como é chamado pelos amigos,
é poeta. Um de seus hobbies é passar a tarde deitado na
rede de casa fazendo versos sobre sua família, a escola, a turma,
as férias e outros assuntos. Vini acaba de lançar seu primeiro
livro, “Poesia a Toda Hora” (Carrenho Editorial).
Vinícius diz ter descoberto a poesia através
de uma proposta pedagógica, quando escreve seu primeiro poema.
O fato de ter visto sua produção publicada na agenda escolar
no ano seguinte o estimulou a escrever mais e, hoje, escrever para ele
é representado como um hobbie, ou seja, algo que se dá independente
das orientações escolares, por iniciativa própria,
autonomamente, para satisfazer necessidades e demandas pessoais na sua
relação com seu entorno.
O que chama atenção, também, é que, este hobbie,
apesar de lúdico, apesar de sua gratuidade, não se opõe
ao sério, como colocou Huizinga (1972), na medida em que reconhece
a necessidade do trabalho de reescrever, buscar palavras no dicionário
de sinônimos e antônimos que, segundo Vini, “ajuda a
achar palavras novas”. O importante, diz o pequeno poeta, “é
não desanimar”, admitindo que, apesar de fazer poesia ser
muito “gostoso”, pois através dela se “pode inventar
versos e brincar de rimar palavras”, parafraseando João Cabral
de Melo Neto (1997), escrever se limita com catar feijão, ou seja,
é um ofício que exige trabalho.
Se valermo-nos da discussão sobre o prazer estético, este
conjunto específico de operações que envolve o ofício
de escrever, parece remeter à oposição clássica
entre prazer e trabalho, entre uti (uso) e fruti (prazer), tal como concebida
por Santo Agostinho. Segundo Jauss (In. Costa Lima, 1979), pela estética
marxista, a dissociação entre prazer e trabalho está
na base da alienação, perda da noção da realidade
em sua complexidade, de onde talvez possamos inferir que a leitura enquanto
prática que dissocia o prazer do trabalho engendraria uma atividade
alienada, na qual não há lugar para o gozo, o usu-fruir,
e o uso, o caráter instrumental, supera qualquer outro nível
de apreensão estética. Igualmente alienada seria a prática
da leitura onde o prazer se sobrepõe ao trabalho, na outra ponta,
como ocorre na idealização da leitura literária tão
presente nos discursos oficiais de políticas de formação
de leitores . O mesmo se dando quanto à idealização
do escritor como ser vocacionado para a escrita, como se escrever não
fosse um ofício árduo, mas apenas fruto de inspiração.
Esta parece ser uma oposição muito presente na discussão
do acesso à cultura escrita no interior da luta de classes: de
um lado, a leitura e a escrita enquanto ócio e, de outro, como
neg-ócio (Chauí, 2000).
A escrita tal como relatada por Vini, é uma poiesis, um dos três
aspectos que caracteriza a experiência estética e que consiste
no criar, no fazer, no agir, pressupondo um trabalho ativo de quem escreve.
Os demais aspectos são a aisthesis, a relação sensual
(aísthesis, sensação) com a materialidade do texto
e, por fim, a kátharsis, experiência através da qual,
o escritor vai se projetar subjetivamente no texto, entrar no texto, emocionar-se,
alterar-se. Esta dimensão, tanto no ofício da escrita, quanto
na prática de leitura, talvez esteja associada ao que chamamos
de experiência, esta vivência que deixa marcas na memória
de quem as vive, que o transforma.
Creio que seja interessante buscarmos pensar a relação entre
o estudante e o texto de forma dialética. No caso da leitura, se,
por um lado, através da recepção poética damos
centralidade à subjetividade do leitor que transforma, por assim
dizer, o que lê, construindo significados próprios, na recepção
catártica, ocorre o apagamento da subjetividade, a “leitura
como uma experiência de formação”, nos termos
de Larrosa (1998), onde o leitor é transformado pelo texto.
O que parece ocorrer, de acordo com os relatos de crianças no ensino
fundamental e observações de campo, é que este trabalho
de produção de significados a partir do que se dá
a ler é marcadamente controlado na leitura enquanto estudo, na
leitura pedagogizada. As instituições de ensino tendem a
administrar a leitura, controlando a sua recepção através
de inúmeras estratégias pedagógicas. Isto ocorre,
fundamentalmente, porque um leitor imerso na leitura, recolhido, ensimesmado,
constitui uma ameaça aos objetivos pedagógicos pré-estabelecidos.
A leitura como experiência de formação é um
gesto prenhe do novo, do imprevisível, do incontrolável
e, nesta media, precisamente, torna-se uma ameaça. A instituição
escolar é o espaço da leitura e da escrita administrada,
controlada. Segundo Ruth Rocha, na apresentação da edição
brasileira do célebre Gramática da Fantasia, Rodari argumentava
que:
os setores mais poderosos da sociedade realmente não têm
nenhuma intenção de privilegiar a imaginação
e a criatividade pois não desejam que as pessoas aprendam a pensar,
já que o pensamento criativo seria a arma mais eficaz de transformação
do mundo e portanto de ameaça a uma ordem conhecida, estabelecida
e vantajosa para eles (Rodari, 1982:10)
Nesta direção, através de sua larga
experiência lecionando com crianças, Rodari propõe
uma série de jogos surrealistas que, apesar de destinados à
vida escolar, buscam “libertar” a palavra, defendendo “todos
os seus usos a todos”. Comentando sobre sua atuação
como professor, Rodari escreve:
Devia ser um péssimo professor, pouco preparado
para o trabalho, com a cabeça repleta de idéias que iam
de lingüística indo-européia ao marxisimo; eu tinha
em mente tudo, exceto a escola. Todavia, acho que não fui um professor
cansativo ou enjoado. Contava às crianças, um pouco por
simpatia, um pouco pelo prazer do jogo, estórias sem a mínima
referência à realidade ou ao bom senso, estórias que
inventava servindo-me das “técnicas” iniciadas por
Breton (Rodari, 1982:12)
Infelizmente, não é este o gênero de experimentação
com as palavras que a “pedagogia do lúdico” tem produzido
em sala de aula. Ao contrário, ou se trabalham os aspectos formais
da língua escrita através de exercícios enfadonhos,
numa espécie de “metalinguagem”, segundo Geraldi (2002),
como se a língua materna fosse uma língua estrangeira ou,
em prol de uma falsa ludicidade aliada ao ideário construtivista
distorcido, abandona-se toda e qualquer possibilidade de reflexão
sobre estes aspectos, propondo que as crianças escrevam não-importa-o-quê,
que jamais será lido ou discutido, sob o pretexto de não
“cercear a criatividade dos alunos” ou, ainda - e o que é
mais perverso - , impõe-se os mesmos exercícios sobre os
aspectos formais travestidos de elementos pseudo-lúdicos, o que
me parece extremamente desleal.
Para dar apenas dois exemplos: encontramos em uma gramática escolar
destinada à sétima série, no capítulo sobre
“agente da passiva”, a ilustração de um “agente
secreto” do qual saía um balão com uma inscrição
do tipo: “estudar é divertido!”. Em uma outra gramática,
recorria-se à música “Comeu”, de Caetano Veloso,
para se trabalhar os tempos verbais “de forma lúdica”.
Resultado desastroso: o poema era cortado à metade, prejudicando
a construção de sentido e, pior, havia a proposição
de um exercício que os autores, provavelmente, também julgaram
ser “divertido”: substituir todos os tempos verbais, do pretérito
perfeito para o imperfeito. Ora, através deste expediente infeliz,
a perfeição e dramaticidade de um passado inexorável
(ela comeu meu coração/mastigou/engoliu/comeu) transforma-se
em um sadismo grotesco e gratuito (ela comia meu coração/mastigava/engolia/comia)
no pretérito imperfeito.
Considerações Finais
Percebe-se como, dentro de uma perspectiva pedagógica, o “lúdico”
afasta-se, necessariamente, de nosso ponto de partida etimológico,
de sua gratuidade. De um modo ou de outro, o lúdico na educação
será sempre instrumental, seja para “distrair”, “entreter”,
“disciplinar”, ou para “passar conteúdos”.
Neste sentido, somos levados a concordar com Marx ao dizer que o trabalho
não é jamais lúdico.
Entretanto, afastando-nos do que se tem tornado uma “ideologia da
ludicidde”, e sem perder de vista a dimensão pedagógica
do ensino da língua portuguesa, com toda sua intencionalidade,
creio ser possível envolver estudantes em atividades concretas
de leitura e de escrita, tanto quanto em atividades de pura experimentação
estilística e ficcional, desde que na tensão dialética
entre o uti (uso) e o fruti (prazer).
Que tal inventar um produto Tabajaras para solucionar o mais importante
problema de sua mãe? Pode-se, ainda, redigir o comercial, seguindo
as conhecidas regras deste gênero do discurso (Bakhtin): “Você
está cansada de mandar seu filho arrumar o seu quarto? Seus problemas
terminaram... chegou o incrível e revolucionário Arrumaitor
Tabajaras automático!”... e seguem-se as instruções.
Isto parece divertido, mas se se deseja mesmo presentear a mãe
com este texto, é preciso reescrevê-lo inúmeras vezes,
como os escritores profissionais o fazem, até que se chegue à
forma ideal, em todos os aspectos, e isto dá muito trabalho, embora
este trabalho já não seja gratuito, ou meramente pedagógico,
mas necessário.
Para se fazer necessário, os jogos com a linguagem precisam encarnar-se
na realidade cultural de cada grupo de estudantes, exigindo do educador
um esforço no sentido de elaborar um levantamento temático
dos interesses específicos de uma determinada infância, evitando-se,
assim, a ditadura de uma certa ludicidade da infância de elite,
expressa majoritariamente nos livros didáticos e literários,
o que acaba excluindo outras infâncias e outras ludicidades.
Espero com este ensaio instigar uma reflexão crítica quanto
ao uso indiscriminado e tirânico do lúdico no ensino da língua
portuguesa e seus perigosos disfarces. Creio que seja necessário,
nós, que trabalhamos com a língua portuguesa em sala de
aula, repensarmos nossas práticas, orientando-as na tensão
do jogo dialético entre o “sério” e o “não
sério” pois, como nos ensina Huizinga, se o “sério”
se define como antônimo de “não sério”,
o lúdico, o jogo, não se constrói em oposição
ao trabalho, às regras, muito pelo contrário...
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