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CIÊNCIA
NA ESCOLA E CIÊNCIA NA MÍDIA: “ALFABETIZAÇÃO
CIENTÍFICA” X INFORMAÇÃO CIENTÍFICA
Marcia
Reami Pechula - UNESP/RIO CLARO
1. Introdução
O século
XX foi (e ainda é) o século da ciência. Isso significa
que o conhecimento só é legitimado sob o amparo científico.
A ciência, entretanto, estabelece uma relação muito
estreita com o desenvolvimento tecnológico; às vezes provoca
até (com)fusão. Esta parece ocorrer, principalmente na divulgação
dos equipamentos tecnológicos que surgem nos campos da saúde,
da biologia de da informática. Geralmente a exposição
da evolução dos aparelhos tecnológicos quando vai
para a mídia é recebida pelo imaginário social como
uma representação do avanço científico. Um
exemplo, no campo da saúde, são os exames de ressonância
magnética feitos por aparelhos tecnológicos muito sofisticados.
Estes são resultantes do avanço tecnológico, embora
possibilitados pelo desenvolvimento da ciência na área da
física nuclear (exigem profundo conhecimento acerca dos núcleos
atômicos). Outro exemplo são as pesquisas com células-tronco,
que sendo pesquisas científicas necessitam de aparelhos tecnológicos
super-desenvolvidos para operarem as mudanças genéticas
nos tratamentos possíveis (processo de congelamento e conservação
das células). Enfim, a confusão não é sem
importância. É praticamente impossível falar em ciência
sem falar em tecnologia. Atualmente uma necessita da outra.
A relação entre ciência e tecnologia causa, inclusive,
forte debate e embate no meio acadêmico. Para a maioria dos cientistas
a tecnologia representa o progresso das descobertas e criações
científicas, são portanto, instrumentos para a ciência.
Os tecnólogos, por sua vez, reivindicam maior status, uma vez que,
sem o avanço tecnológico é praticamente impossível
pensar no progresso da ciência. Tal relação torna
acalorado o debate sobre a relação entre ciência básica
e ciência aplicada. Os laboratórios industriais compreendem
a pesquisa científica como uma finalidade imediatamente aplicativa.
Pesam e analisam causas e resultados; vislumbram o lucro. Enquanto as
universidades têm uma tradição em pesquisas com perspectivas
voltadas para as novas descobertas e informações, da natureza,
que possam demonstrar um conhecimento cada vez mais profundo acerca da
natureza mesma e do homem (pelo menos essa é a prática discursiva
dominante). Esse debate, porém, não está distante
da prática educacional, ao contrário, tem uma forte influência
no processo pedagógico definindo, inclusive, a expectativa da formação
pedagógica e identificando a estrutura educacional.
A educação, compreendida como formação e transmissão
do conhecimento e da cultura, tem a função de oferecer ao
sujeito as condições de inserção social (educação
familiar, religiosa, escolar e profissional). Pelo fato do conhecimento
científico ser aquele que determina o maior grau de legitimidade,
a educação se funda num processo pautado pela formação
escolar, que dá ênfase à transmissão do conhecimento
sempre de base científica. A ciência, entretanto, não
está delimitada, nem restrita à formação escolar.
Ela se difunde à outros espaços, que ocupam um lugar significativo
na formação/informação do aluno/estudante.
Dessa forma o espaço midiático aparece como “parceiro”
na formação intelectual.
Se escola e mídia se apresentam como expositoras/divulgadoras do
conhecimento científico e se este possui em sua própria
definição uma relação estreita com a tecnologia,
faz-se necessária uma investigação acerca da concepção
que tanto a escola quanto a mídia têm sobre ciência
(e também sobre tecnologia). Dizendo de outra maneira, será
que o entendimento de ambas sobre a definição, o papel e
a função da ciência é convergente? Essa questão
é percebida como o aspecto fundamental da pesquisa, que visa uma
investigação acerca da concepção do conceito
de ciência e de sua função e papel (envolvendo aí
a tecnologia), a partir da verificação da convergência
ou divergência dos conceitos no discurso propagado pela escola e
pela mídia.
A análise será amparada pelos estudos a respeito do conceito
de ciência presente na visão dos pesquisadores da área
do ensino de ciências e da posição assumida nos PCNEM
(Parâmetros Curriculares Nacionais, Ensino Médio). Destina-se
a esse nível de ensino pelo motivo de que este é considerado
a parte final do ensino básico, nos termos da LDB 9394/96. E também
porque é característico do público-alvo (jovens e
adultos), que é consumidor de mídia, sobretudo aquela analisada
na pesquisa - a revista Superinteressante. Nessa perspectiva a análise
visa um estudo comparativo acerca dos conceitos expostos tanto pelos pesquisadores
e documentos pedagógicos, quanto os conceitos veiculados na revista
Superinteressante, que se destina à divulgação científica
para público jovem e adulto.
1. considerações
sobre o desenvolvimento da ciência e a concepção de
“alfabetização científica”
“O ensino de Ciências passou de uma fase de apresentação
da ciência como neutra para uma visão interdisciplinar. Nela,
o contexto da pesquisa científica e suas conseqüências
sociais, políticas e culturais são elementos marcantes”
(KRASILCHIK e MARANDINO, 2004, p. 6). Essa visão posta pelas autoras,
educadoras da área do ensino de Ciências, demonstra a mudança,
se não em prática, pelo menos em discurso, acerca do ensino
de ciências nas escolas. De fato, a visão predominante de
ciências (proveniente do século XIX), no processo de formação
escolar era a de que a ciência era uma forma de conhecimento que
detinha o domínio do conhecimento da natureza e este pautava-se
em leis absolutas e universais. Nesse aspecto, a ciência era um
conhecimento objetivo, neutro e universal. O século XX, sobretudo
a partir da consolidação da Teoria da Relatividade, provoca
grandes transformações desse conceito.
Já nas primeiras décadas do século XX o poder da
verdade científica entra em crise, forjando sua negação.
Tal situação resulta numa condição ambígua
à ciência: ao mesmo tempo em que monopoliza a verdade, se
abre num leque de teorias e metodologias diferentes em disputa desse monopólio.
Esse processo é chamado de pós-modernidade. Nele, a verdade
científica formulada pela modernidade é posta em questão.
Nos primeiros 30 anos do século XX as descobertas científicas
(principalmente nos campos da física e da biologia), avançaram
profundamente e proporcionaram um grande desenvolvimento tecnológico.
A teoria da relatividade especial, apresentada por Einstein revelou limitações
da teoria mecânica de Newton e desenvolveu uma estrutura conceitual
radicalmente diferente, que combina conceitos físicos e matemáticos
(Cf. GLEISER, 1997: 316). As teorias de Einstein permitiram que se verificassem
novos contornos no universo, tornando-o, aos olhos dos cientistas, algo
dinâmico. Na década de 20, as pesquisas observacionais de
E. Hubble resultaram no reconhecimento de que o universo é composto
por inúmeras galáxias que se distanciam continuamente umas
das outras em todas as direções do espaço cósmico.
O maior problema, entretanto, ainda era o de responder às questões
que afligiam a curiosidade humana acerca da origem, fim, extensão
e tempo que permitissem compreender mais clara e racionalmente a existência
do universo. A busca de respostas a estas questões provocou não
só a aceleração das pesquisas, como também
a multiplicação assustadora de teorias. Estas se desenvolveram
e tomaram direções muito diferentes e divergentes no decorrer
do século XX. Entretanto, com todo o avanço no domínio
de conhecimento acerca do universo, no início do século
XXI, em programa televisivo, sobre o cosmo na perspectiva de S. Hawking,
este declarava ao término das descobertas acerca da finitude do
universo que as pesquisas prevêem que nas duas próximas décadas
todo o cosmo será decifrado e se saberá exatamente como
foi o seu início e quando será o seu fim, porém não
sabemos ainda por que ele existe (Desvendando o Universo. Programa apresentado
pela TV Cultura em 2004).
O século XX também é promissor para a Biologia; a
teoria darwinista adquire credibilidade e promove uma verdadeira revolução
científica. Em continuidade à teoria de Lamarck, as constatações
darwinianas reorganizam a ordem temporal do homem, conferindo-lhe um novo
“lugar” na natureza. Isso significa que Darwin põe
toda a humanidade no campo da ciência, tornando tudo científico
(de acordo com sua teoria, o homem está submetido à seleção
natural das espécies). Dessa forma, não há processo
de criação; a natureza é um processo que se desdobra
continuamente, numa luta entre e as espécies, sobrevivendo a mais
forte. A luta entre espécies ocorre tanto externa como internamente,
o que provoca o surgimento de características dominantes dentro
de uma mesma espécie, como é o caso da cultura humana. A
teoria darwiniana, após seu reconhecimento, abre as portas para
o avanço da zoologia comparada, da botânica, da anatomia
comparada, da antropologia e da biologia genética (Cf. BUICAN,
1990; DARWIN, 1981), o que ocorre de forma mais acelerada após
a descoberta do DNA (Segunda metade do século XX)
Nesse novo contexto, mais acentuado ao final da primeira metade do século
XX, proliferam-se as teorias científicas e abre-se um forte debate
acerca da credibilidade e confiabilidade dessas teorias. Instaura-se um
certo conflito, por exemplo, no campo da biologia aprofunda-se o confronto
entre a teoria criacionista e a teoria evolucionista. Apesar desta tornar-se
cada vez mais precisa do ponto de vista científico, extraía
a base do “conforto antropológico” de que o homem é
senhor da natureza. No campo da física a teoria do big-bang promove
um abalo na teoria do estado padrão. Simultaneamente a esse estudo,
o físico N. Bohr e sua equipe aprofundavam suas pesquisas em mecânica
quântica empregando uma “nova interpretação”,
que na leitura de alguns cientistas (dentre eles F. Capra e G. Zukav),
era próxima das bases filosóficas orientais (Cf. JAMMER,
2000:177-79). A mecânica quântica nessa época trouxe
muitas controvérsias. Provocou ao mesmo tempo, grande foco de atrações
e desenvolvimento tecnológico; e também críticas
devastadoras, vindas de uma parte significativa dos cientistas da academia
tradicional, que não concordavam com a interpretação
quântica orientada pela filosofia oriental.
Tamanha proliferação e divergências teóricas
provocaram um grande debate no meio acadêmico acerca da credibilidade
dos novos métodos científicos, gerando polêmica na
aceitação das teorias científicas emergentes. Por
um lado o avanço das teorias da relatividade e da física
quântica superam a visão de um universo estático e
infinito, por outro, algumas destas teorias não estão inteiramente
adequadas aos padrões metodológicos de base positivista
(observacional), aceitáveis pelos critérios acadêmicos
tradicionais.
No campo da biologia, a questão metodológica pareçe
menos polêmica, pois o darwinismo, através do neodarwinismo,
resultaria nos anos 30-40 do século XX, numa “teoria sintética
da evolução” que não rompe com a metodologia
tradicional. A teoria sintética da evolução postula
as mutações no âmbito do gene (micromutações),
cujas pesquisas permitem “passar das mutações gênicas
a mudanças cromossômicas”. Mesmo assim, esta teoria
enfrentou grande resistência dos críticos que acreditavam
que a teoria sintética da evolução só poderia
explicar a microevolução, “mas não a macroevolução
(aparecimento de espécies, gêneros e até classes diferentes)”.
A discussão, no entanto, permaneceu no âmbito da metodologia
científica tradicional, não permitindo qualquer discussão
de base obscurantista, que se sustentasse em dogmas e ou religião.
Dessa forma, o desenvolvimento do darwinismo (que resultou na descoberta
do DNA e da biologia molecular), estabelece uma visão de mundo
mecanicista, explicável a partir da evolução dos
genes, impondo uma metodologia determinada para a composição
da explicação da espécie humana e também para
a sua produção clonada (Cf. BUICAN, 1990: 115-16).
Em decorrência do profundo avanço da ciência, a ciência
enfrenta fortes discussões, primeiro, no campo acadêmico,
cuja base do conflito era fundada nos métodos, se estes eram suficientes
para alcançar um resultado plausível e eficiente. Segundo,
nas relações entre ciência e tecnologia. O avanço
científico desde o final do século XIX estava praticamente
voltado para o desenvolvimento da tecnologia e isso acabou por atrelar
de tal forma ciência e tecnologia que tornou-se impossível
pensar uma dissociada da outra. Terceiro, em repercussão da segunda,
os meios de comunicação promovem a “vulgarização”
da ciência. Aumenta incessantemente o acúmulo de informação
científica proveniente dos meios de comunicação,
com a especialização de jornalista na área de divulgação
científica. Estes, entretanto, promovem a banalização
do termo ciência e esta passa a ser sinônimo de qualquer conhecimento
que se apresenta respaldado por uma pesquisa, sem se aprofundar na credibilidade
da pesquisa.
E na educação o que ocorre com a concepção
de ciência? Bem, até a década de 70 o termo ainda
aparece como “produto de um empreendimento para descobrir fatos
e estabelecer conceitos gerais” (KRASILCHIK e MARANDINO, 2004, p.
7). Mas, o termo ciência, a partir da análise acerca do ensino
de ciências, passa a ter uma visão interdisciplinar. De acordo
com as educadoras M. Krasilchik e M. Marandino (2004, p. 7), a ciência
passa a ser compreendida como “processo” e como “instituição”.
Segundo as autoras, há fatores que contribuíram para essa
mudança. Dentre eles, destacam as profundas transformações
sociais e econômicas, que aumentaram os bolsões de miséria,
promovidos pela ampliação do desemprego. À medida
que o conceito não estava inserido no contexto de forma a capacitar
a consciência do sujeito acerca da real contribuição
e problemas da “evolução” científica,
ocorria a desvinculação entre conhecimento e ciência,
provocando o imaginário de que a ciência era responsável
por todos os problemas. Nesta perspectiva, ela passa a ser “culpada
por questões como a crise energética e a degradação
do meio ambiente, entre outras”. Pensar a ciência frente a
essas circunstâncias exigia a compreensão consciente do termo
e a análise de suas contribuições e o uso que se
pode fazer do conhecimento científico. E isso implicaria no processo
denominado pelas autoras de “alfabetização científica”.
O monopólio do conhecimento científico e o domínio
tecnológico promoveram, também no campo educacional, a confusão
entre ciência e tecnologia. Pouco se sabe discernir entre a função
de uma e de outra. Nesse sentido, a aprendizagem da ciência na escola
exige um novo processo de concepção e formação.
Nesse processo o conhecimento científico não pode estar
dissociado da condição e da conscientização
acerca da cidadania (KRASILCHIK e MARANDINO, 2004, p. 10/11).
Pensar o domínio do conhecimento em ciências, na escola,
tendo por base uma consciência cidadã, exige um processo
de formação sustentado na concepção de “alfabetização
científica”. Mas o que significa alfabetizar cientificamente?
Afirmamos acima que estamos em plena era da ciência. Isso ocorre
porque em nossa vida cotidiana consumimos ciência por meio da alimentação,
da medicação, do transporte, dos equipamentos tecnológicos
que utilizamos (computadores, telefones etc). Sabemos que as descobertas
e invenções científicas, de alguma maneira, estão
presentes em nossa vida. Aprender, conhecer como isso tudo surgiu e como
funciona é suficiente para nos conscientizar do uso que fazemos
da ciência? Myriam Krasilchik e Martha Marandino (2004), em estudo
acerca do ensino de ciências, mostram que este, nas escolas, não
pode mais vir desacompanhado da conscientização de cidadania
necessária para a continuidade da existência da vida e do
planeta. Assim, mais do que conhecer, dominar e consumir as descobertas
e invenções científicas, é preciso saber “problematizá-las”.
Urge colocar em debate as formas pelas quais o conhecimento científico
deve ser apreendido pela população (idem, p. 12). Nesse
sentido, a alfabetização científica é a forma
de ensino das ciências voltada para a conscientização
de participação do cientista e do consumidor de ciência
no processo de conhecimento científico e no uso que se faz desse
conhecimento. Quem faz a ciência, para que se faz, para quem se
faz, e o que se faz da ciência, é um problema de todos os
cidadãos e para ser de domínio de todos os cidadãos.
De acordo com as autoras de Ensino de Ciências e Cidadania (2004),
“o processo de alfabetização em ciência é
contínuo e transcende o período escolar, demandando aquisição
permanente de novos conhecimentos” (idem, p. 14). Defendem a inserção
de meios paralelos e simultâneos ao processo escolar para divulgar
e ampliar a alfabetização científica. Dessa forma,
museus, programas de rádio e televisão, revistas, jornais,
entre outros, “devem se colocar como parceiros nessa empreitada
de socializar o conhecimento científico de forma crítica
para a população” (idem, p. 14). A mídia, nesses
termos “deve” claramente figurar como parceiras no processo
da “alfabetização científica”.
1.1 A ciência
na LDB 9394/96 e nos PCNEM (Parâmetros Curriculares Nacionais para
o Ensino Médio)
No contexto
das décadas de 80 e 90, surgem novas propostas para a atualização
da estrutura educacional brasileira, que deveria ser “ajustada”
às novas exigências socio-culturais (incluindo-se aí
os aspectos econômico e político). A década de 80
representa a passagem da condição educacional submetida
a um regime militar, cuja duração só se extingue
em 1985, para uma condição permeada por um discurso que
primava pela democracia, pela liberdade de expressão, pela consciência
cidadã, vista como condição plena de direito e participação
social. Este contexto toma conta da nação e resulta no avanço
e amplo debate em vários setores das atividades sociais, tais como
movimentos populares, movimentos políticos e movimentos educacionais,
estes concentrados marcadamente nas universidades. O debate acerca da
estrutura educacional deu margem a constituição de um movimento
que resultou na formulação da LDB (Lei de Diretrizes e Bases
da Educação), encerrada em dezembro de 1996. Foram quase
dez anos para que se reformulassem as bases da estrutura educacional brasileira,
desde o ensino fundamental e médio, até o ensino superior.
Também foram fortes os interesses, sobretudo de apelo econômico
(orientado pelo FMI e Banco Mundial) que influenciaram na formulação
da LDB 9394/96. Da proposta inicial, formulada pelas universidades, à
proposta aprovada há uma distância em que o ideário
pedagógico praticamente desaparece. Entretanto, no conteúdo,
a Lei parece privilegiar uma estrutura educacional que concebe a educação
como “dever da família e do Estado, inspirada nos princípios
de liberdade e nos ideais de solidariedade humana” e “tem
por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o
exercício da cidadania e sua qualificação para o
trabalho” (LDB 9394 art. 2º).
Nos termos da LDB 9394/96 (art. 35), o Ensino de 2º grau torna-se
Ensino Médio e passa a fazer parte da etapa final do ensino básico
da educação. Ocorre, na leitura da Lei uma grande mudança
na formação destinada ao Ensino Médio. No inciso
IV, a Lei demonstra claramente a perspectiva de valorização
do ensinamento de cunho científico-tecnológico para este
nível, declarando a importância da “compreensão
dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos,
relacionando teoria e prática no ensino de cada disciplina”.
Destaca ainda no art. 36, inciso I, a importância de se transmitir
nesse nível de ensino a compreensão do significado de ciência
(grifo nosso), das letras e das artes. O parágrafo primeiro prevê
“domínio dos princípios científicos e tecnológicos
que presidem a produção moderna”.
A “nova” LDB, assim nomeada em seus primeiros anos, necessitava
de um forte instrumento de apoio e propagação de suas instruções.
Forjou, então, como instrumentos principais de apoio os PCN (Parâmetros
Curriculares Nacionais) e as Diretrizes Curriculares. Estes instrumentos,
elaborados por comissões nomeadas pelo MEC (Ministério da
Educação e Cultura), tinham a finalidade de sugerir propostas
de encaminhamentos para as novas formas de ensino e aprendizagem e estruturação
curricular, inspirados pelo “espírito” da LDB.
Os PCNEM (Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio)
de Ciências da Natureza, Matemática e suas tecnologias, vieram
à público em 1998 (simultaneamente aos PCNEM de Linguagens,
Códigos e suas Tecnologias e Ciências Humanas e suas Tecnologias),
e visavam, sobretudo, orientação para a constituição
das Diretrizes Curriculares Nacionais, que estabelecem a nova estrutura
pedagógica brasileira. Os PCNEM de Ciências da Natureza,
Matemática e suas Tecnologias têm por objetivo central “
a explicitação das habilidades básicas, das competências
específicas, que espera sejam desenvolvidas pelos alunos em Biologia,
Física, Química e Matemática, nesse nível
escolar, em decorrência do aprendizado dessas disciplinas e das
tecnologias a elas relacionadas” (PCNEM, p. 203). Neles há
uma ampla associação entre ciência e tecnologia.
No que se refere ao conceito de ciência, parece haver uma aproximação
estreita entre a interpretação exposta pelos PCN e àquela,
exposta no item anterior, que apresenta a leitura de Krasilchik e Marandino
(2004), acerca da Alfabetização ciantífica. Embora
os PCN não empreguem este termo a concepção não
é divergente, pois eles definem que “um ensino médio
concebido para a universalização da educação
básica precisa desenvolver o saber matemático, científico
e tecnológico como condição de cidadania e não
como prerrogativa de especialistas”. O documento aponta ainda para
a “necessidade de superação das modalidades pré-universitárias
e/ou profissionalizantes” em prol da garantia da “pretendida
universalidade desse nível de ensino, que igualmente contemple
quem encerre no ensino médio sua formação escolar
e quem se dirija à outras etapas de escolarização”
(PCNEM, p. 209).
Para o ensino de ciências o texto sugere que “o aprendizado
das Ciências da Natureza e da Matemática deve se dar em estreita
proximidade com linguagens e códigos, assim como com as Ciências
Humanas” (p.212). Essa visão é consoante com a Resolução
CNE/98 (Conselho Nacional de Educação), que prevê
que a área de Ciências e Matemática “incluem
compreender as Ciências da Natureza como construção
humana (grifo nosso) e uma relação intrínseca entre
o conhecimento científico-tecnológico e a vida social e
produtiva” (p.212).
Dessa forma, tanto Na perspectiva da LDB, quanto na dos PCNEM, há
uma mudança na concepção de conhecimento e de ciência,
existentes nas visões anteriores mais adequadas à visão
moderna que define a ciência como conhecimento absoluto, universal,
neutro e de composição de leis universais que revelariam
o verdadeiro conceito da natureza e de tudo que a rege.
Os documentos, entretanto, revelam modelos que estão à frente
da prática cotidiana nas escolas, pois a tradição
ainda sustenta, no contexto geral, uma compreensão de ciência
muito mais voltada para a visão moderna do que aquela proposta
nos documentos aqui descritos. Essa constatação parece se
evidenciar nos exames vestibulares, que em sua maioria verificam os conteúdos
oriundos das ciências da natureza e matemática, a partir
de uma ótica conteúdista e a-crítica, sob a perspectiva
da neutralidade.
2. A ciência
nos meios de comunicação: parceira no processo de alfabetização
científica?
O avanço
tecnológico que instaura a chamada revolução eletrônica,
faz com que os meios de comunicação se tornem os principais
instrumentos de informação dos fatos e acontecimentos científicos.
Atualmente, a produção das informações das
descobertas e criações científicas ocorre praticamente
em simultaneidade à ocorrência da própria descoberta
ou criação científicas.
O motivo da análise estar focada nos veículos de comunicação
de massa deve-se a dois fatores básicos: primeiro porque estes,
atualmente, ocupam um espaço significativo na divulgação
do conhecimento científico, sob a forma de informação
de notícias. Segundo, porque os meios de comunicação
têm sido constantemente considerados parceiros na tarefa escolar
da transmissão do conhecimento. Há ainda uma outra “razão”
que é a de que o número de veículos (programas televisivos
e segmentos impressos) destinados à divulgação desse
tipo de conhecimento, tem aumentado significativamente, tornado-se cada
vez mais atraentes aos olhos dos receptores, que passam, muitas vezes,
a preferi-los em detrimento às formas institucionalizadas de aquisição
de conhecimento (tal como as escolas, por exemplo). Dessa forma, o leitor
da revista Superinteressante (nossa fonte de análise), mesmo que
não possua informação escolar razoável, sente-se
bem informado acerca das descobertas e invenções científicas.
Para desenvolvimento da análise, partiremos da postura assumida
por M. Krasilchik e M. Marandino (2004) de que a mídia, “deve”
claramente figurar como parceiras no processo da “alfabetização
científica”. Nesse sentido, faz-se necessário compreender
primeiro, a necessidade da mídia produzir a informação
para comunicar aquilo que deseja; e segundo, os mecanismos que ela utiliza
na produção da informação.
A informação é constituída de linguagem que
se expressa por meio dos códigos. Estes, por sua vez, só
podem ser compreendidos inseridos na cultura à qual pertencem.
Dessa forma, cada cultura possui um conjunto de códigos específicos
para produzir a informação que gera a comunicação.
Informar (palavra proveniente do verbo latino informare) significa dar
forma, formar, fabricar. A informação da notícia,
então, é fabricada, formada, a partir do contexto cultural
determinado socialmente (constituído, principalmente, pelos fatores
político-econômicos). A informação, nesse contexto,
torna-se abrangente graças à revolução tecnológica
que proporciona o surgimento da indústria da informação
que produz a comunicação de massa. Entretanto, o vasto volume
de informações gera, no final do século XX, o fenômeno
da “hipermídia”, provocando uma explosão informacional
que cresce e faz surgir a necessidade da transmissão da notícia
simultaneamente à ocorrência do fato.
Segundo Denise Siqueira (1999: 25), “o papel da informação
na sociedade pós-gerra se torna de tal forma relevante que vem
à luz o termo sociedade da informação. Nela vive-se
cultural, política, científica e, principalmente, economicamente
em torno da circulação de informações”.
Surge a indústria da informação e da cultura, dando
origem ao fenômeno da indústria cultural. A informação
passa a ser um produto quantificado economicamente; quanto maior a quantidade
de informação, maior o lucro.
Inserida nesse contexto, a ciência é transformada em notícia;
a pesquisa torna-se fonte de divulgação científica
para a massa; e, mesmo que ainda em processo de formulação
ou hipótese, é rapidamente divulgada. Contudo, geralmente,
não aparece como processo e nem são apresentados os problemas
e conflitos inerentes à sua produção. Ao contrário,
a pesquisa é divulgada como a descoberta, a criação
já acabada ou como o início de uma descoberta que inexoravelmente
alcançará o seu intento. O receptor, sem o saber, torna-se
consumidor desse tipo de informação.
Na análise empregada nessa pesquisa não se pretende, contudo,
considerar a informação e ou divulgação científica
como algo negativo, uma vez que, em nosso estudo, ela é concebida
enquanto parte da identidade cultural de nossa época e sociedade,
sendo indispensável ao desenvolvimento cultural. Esse fator, entretanto,
não impede a constatação de sua existência
como mercadoria (como exposto acima) e também a sua representação
imaginária que, simultaneamente, atende às necessidades
e objetivos da mídia e provoca uma sensação de “satisfação”
no receptor, provocando nele a sensação de “bem informado”.
Na análise de E. Morin (1990: 37-8), a vasta produção
de informações dos meios de comunicação de
massa provoca um imaginário deturpado à medida que o receptor
recebe a idéia parcializada do real como se esta fosse a realidade
total. Esta imagem de totalidade é o reflexo do receptor como consumidor.
Por isso, a notícia, quando apresentada, fragmenta o real, extraindo-o
de seu contexto mais amplo. Como a parcialidade da realidade total e também
os conflitos, limites e problemas praticamente não são anunciados
pelos meios informantes, a recepção produz o imaginário
de que a informação apresentada refere-se à totalidade
da realidade, condiz a uma verdade inquestionável. Nesta perspectiva
a informação impede que se processe a formação
da consciência cidadã (proposta por Krasilchik e Marandino),
na qual haveria uma interação entre conhecimento científico
e o contexto que o envolve, o que proporcionaria ao indivíduo condições
de analisar os benefícios, malefícios e interesses envoltos
na situação (por exemplo, em que medida o avanço
nas pesquisas com célula-tronco beneficia a sociedade em sua totalidade).
A respeito da problemática que envolve o avanço científico,
o pesquisador da Fapesp André Goffeau, supervisor internacional
do projeto genoma Hylella, declara na revista Pesquisa Fapesp (junho/2000:
9):
o fundamental é que não se pode iludir o público.
Há dez anos que se busca o eqüenciamento do genoma humano.
A fase atual, de deciframento do código genético, levou
dois anos. Serão necessários mais dez anos até que
esses novos conhecimentos se traduzam em novos medicamentos ou curas que,
certamente, serão caros e privilégios dos ricos. Os demais
continuarão a sofrer de desnutrição e de infecções
diversas ainda por várias décadas.
Nos veículos
de comunicação de massa, entretanto, essa questão
é apresentada como uma evolução e resolução
imediata dos problemas. Cada vez que estes veículos produzem uma
informação acerca de alguma descoberta ou criação
científica, como por exemplo o caso do genoma humano, geralmente
omitem grande parte da realidade, principalmente aquela que se refere
aos aspectos políticos, econômicos e sobretudo temporal (tempo
de elaboração da pesquisa)
Um da concepção ingênua que a divulgação
científica pode provocar verifica-se em uma matéria da revista
Superinteressante (Julho/2001: 63-67), a qual se utiliza dos signos da
imortalidade e da ressurreição para a exposição
do problema da clonagem que, embora seja visto sob a ótica da interrogação
acerca de sua eficiência, apresenta a clonagem como a garantia de
superação das perdas, principalmente a perda da vida. A
matéria começa anunciando a vasta e “fracassada”
tentativa de clonagem humana existente desde o “sucesso” obtido
com a ovelha Dolly. Segundo o texto “a meta é trazer ao mundo
um bebê saudável, o que provavelmente daria ao pesquisador
o prêmio nobel pelo nascimento do primeiro clone humano”.
Descreve as várias tentativas de cientistas norte-americanos que
estão empenhados em um trabalho de pesquisa exaustivo e por isso
acreditam que, em breve, poderão obter o sucesso almejado. A questão,
entretanto, segundo o texto, provoca um debate acerca do benefício
que a clonagem poderia trazer à humanidade. E um dos benefícios
citados é o de promover o retorno de pessoas que já morreram.
Descreve o trabalho da equipe da profª de bioquímica Drª
Brigitte Boisselier, que está empenhada nesse tipo de produção;
“o primeiro ser humano que vamos clonar é um bebê de
dez meses de idade morto em um acidente”; diz que o pai da criança
ajudou a comprar o laboratório onde serão realizadas as
pesquisas. E continua a declaração da professora: “e
nós vamos ajudá-lo a ter o filho de volta”. O texto
expõe várias opiniões de cientistas da área,
contra e a favor. Dentre os concordantes, destacamos o depoimento do médico,
especialista em reprodução artificial, do hospital A. Einstein,
em São Paulo, Roger Abdelmassih:
muitos casais que perdem seus filhos em acidentes me procuram, pedindo
que eu os ajude a ter outro filho. Principalmente as mães em idade
avançada. Se o processo de clonagem já estivesse dominado,
não seria lógico dar àqueles casais uma criança
com as mesmas características do filho morto?
Esse depoimento
pode ser visto somente do ponto de vista lógico. Entretanto, sua
repercussão social remete à concepção da ciência
como a forma de conhecimento que teria poder inclusive de superar a morte,
garantindo a “vida eterna”.
A revista Superinteressante, editada pela editora Abril, conta com uma
tiragem entre 470 e 480 mil exemplares. É destinada à informação
de novidades e curiosidades históricas, culturais e científicas.
Sua ênfase, entretanto, é voltada à temática
científica; daí suas manchetes de capa serem quase que em
sua totalidade voltadas para as descoberta e domínios do conhecimento
científico. Isso leva a crer que seu objetivo maior (sem esquecer
do mercado econômico) é o de divulgação científica.
Uma demonstração disso é a constituição
da capa da revista que traz, invariavelmente, assuntos abrangentes tais
como história, religião, sexo, cultura, entre outros, sempre
recortados em temáticas científicas. Exemplos: a edição
n. 176 (maio/2002): “pedofilia, como a ciência explica o desejo
sexual por crianças?”; edição n. 178 (julho/2002):
“Bíblia, o que é verdade e o que é lenda –
a arqueologia investiga as provas históricas dos relatos bíblicos”;
edição n. 179 (agosto/2002): “maconha, ... como a
ciência aumentou seus efeitos?; edição n. 182 (novembro/2002):
“a ciência de ser saudável, novos estudos mostram que
ter saúde é mais fácil e barato do que você
imagina; edição n. 186 (março/2003): “paranormalidade
existe? Premonição. Clarividência. Telepatia. Telecinese.
O que a ciência diz sobre o que ela não consegue explicar?”;
edição n. 188 (maio/2003): “Matrix. A realidade é
uma ilusão? As duas seqüências do filme revolucionam
o cinema. E sugerem que tudo à nossa volta é uma simulação
de computador. Os cientistas estão intrigados. É que isso
pode ser verdade”; edição n. 189 (junho/2003): “Sexo.
Tudo o que a ciência pode fazer para você sentir (e dar) mais
prazer; edição n. 199 (Abril/2004): “tesouro ou lixo?
A ciência explica porque tanta gente coleciona bugiganga; edição
n. 200 (maio/2004): “Cutucando o nariz, a ciência fareja o
olfato, o mais misterioso dos sentidos; edição n. 206 (novembro/2004):
“Cancer, pela primeira vez na história. Somos mais espertos
que ele. O que os cientistas descobriram sobre como evitar, tratar e curar
esse mal?”; edição n. 207 (dezembro/2004): “estupro,
o que a ciência diz sobre essa violência?
O público-alvo da revista é abrangente e diversificado.
Mas a construção de sua editoração demonstra
claramente que a revista dirige-se à informação de
um público bem jovem, que certamente, freqüenta uma instituição
educacional (tal como escola do ensino médio, cursinho etc). A
revista, já pela capa, e partir da matéria analisada como
exemplo (há vários exemplos que não estão
aqui expostos pelo limite de espaço), emprega o termo ciência
de forma muito genérica e homogeneizada. As próprias “manchetes”
de capa evidenciam uma concepção de ciência que parece
ser neutra e absoluta O termo aparece sempre com um significado aparentemente
homogêneo. Dá-se a impressão que a ciência é
apenas uma e una. Sua identidade configura como um conhecimento que remete
ao imaginário da ciência como “triunfo da razão”
(visão marcadamente moderna).
De acordo com o exposto no início deste texto, fica claro que há
um paradoxo entre as concepções descritas pelos especialistas
educacionais e nos documentos e a divulgação dessas descobertas
e criações quando vão para a mídia e entram
na vida dos receptores (consumidores) que sem o saber, consideram a informação
recebida como um conteúdo pronto e acabado e passam a viver sob
o imaginário ingênuo de que, sob a proteção
científica, todos os problemas podem ou poderão ser resolvidos.
Dessa forma, podemos chegar à conclusão de que, embora no
discurso deva haver uma parceria entre a prática pedagógica
da escola e os meios de comunicação, na realidade há
uma divergência quanto ao conceito de ciência empregado nas
escolas e na mídia. Parece, assim, haver um paradoxo entre as formas
de concepções do termo empregado nos textos e documentos
pedagógicos e aquele exposto na mídia, tal como a revista
Superinteressante.
Os meios de comunicação, ao criarem o imaginário
de que a ciência é uma forma de conhecimento una e absoluta,
capaz de solucionar os problemas, pouco contribuem para a alfabetização
científica proposta pelos pesquisadores ou a conscientização
científica, propostas nos documentos que sugerem os rumos da educação
na última década.
Essa constatação remete à necessidade de se pensar
numa relação mais próxima entre mídia e educação
para poder considerar a mídia uma parceira efetiva na tarefa da
prática pedagógica cotidiana.
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de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Ministério
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