| Voltar | ||
O DISCURSO SOBRE A LEITURA E O LEITOR NO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO NO PERÍODO DE 1986 A 2000 Érica Rodrigues - Universidade Federal do Paraná – UFPR Este trabalho
faz parte do projeto O discurso sobre a leitura e o leitor na mídia
escrita brasileira no período de 1970 a 2000 cujo principal objetivo
é investigar quais conceitos são associados à leitura
e a leitor na revista Veja e nos jornais Folha de São Paulo e Gazeta
do Povo . A ausência do domínio de leitura compreensiva foi possivelmente a causa do desempenho apresentado. Só a leitura superficial e fragmentada pode explicar a opção por alternativas de resposta que revelam leitura de gráficos sem associação com a proposta, escolha de alternativas dissociadas do contexto, dificuldade de estabelecer relações entre linguagens expressas por tabelas, fórmulas e gráficos, escolha de afirmações e argumentos contraditórios e mutuamente excludentes. As justificativas
mais recorrentes (talvez as mais visíveis) para este baixo desempenho
dos estudantes costumam girar em torno de questões como: falta
de investimento do governo, precária infra-estrutura das escolas,
professores mal remunerados e outros aspectos de ordem sócio-econômica.
Sem desprezar estes fatores externos que influenciam (e muito!) o desempenho
dos alunos, gostaríamos de levantar algumas questões sobre
as possíveis “causas internas” deste resultado: como
a leitura vem sendo trabalhada nas escolas? Que tipos de leitores a escola
vem formando? Qual é o discurso sobre leitura e leitor que chega
não apenas às escolas, mas que “circula” na
sociedade através da mídia?
(...) apercebi-me de que não podia definir o enunciado como uma unidade do tipo lingüístico (superior ao fenômeno e à palavra, inferior ao texto); mas que tinha que me ocupar de uma função enunciativa, pondo em jogo unidades diversas (elas podem coincidir às vezes com frases, às vezes com proposições; mas são feitas às vezes de fragmentos de frases, séries ou quadros de signos, jogo de proposições ou formulações equivalentes); e essa função, em vez de dar um “sentido”, a essas unidades, coloca-as em relação com um campo de objetos; em vez de lhes conferir um sujeito, abre-lhes um conjunto de posições subjetivas possíveis; em vez de lhe dar limites, coloca-as em um domínio de coordenação e de coexistência; em vez de lhes determinar a identidade, aloja-as em um espaço em que são consideradas, utilizadas e repetidas. Em suma, o que se descobriu não foi o enunciado atômico – com seu efeito de sentido, sua origem, seus limites e sua individualidade – mas sim o campo de exercício de uma função enunciativa e as condições segundo as quais ela faz aparecerem unidades diversas (que podem ser, mas não necessariamente, de ordem gramatical ou lógica). (FOUCAULT, 1995, p.122) Para Foucault, o enunciado está além da língua, ou seja, não se identifica exclusivamente com uma unidade lingüística e gramatical, mas é antes “uma função que cruza um domínio de estruturas de unidades possíveis e que faz com que apareçam, com conteúdos concretos, no tempo e no espaço” (FOUCAULT, 1995, p. 99). Os enunciados se repetem independentemente dos sujeitos, épocas e lugares em que foram produzidos, mas de acordo com as “leis” da formação discursiva a qual pertencem: Um enunciado pertence a uma formação discursiva, como uma frase pertence a um texto, (...) enquanto a regularidade de uma frase é definida pelas leis de uma língua, (...) a regularidade de um enunciado é definida pela própria formação discursiva. (FOUCAULT, 1995, p. 135) Portanto, discurso é compreendido como: Um conjunto de enunciados, na medida em que se apoiem na mesma formação discursiva (FOUCAULT, 1995, p. 95) Há
discursos sobre os mais variados assuntos, eles constróem representações
da realidade e os sentidos de uma época. Contraditoriamente, o
discurso é objeto de desejo e ao mesmo tempo de temor por aquilo
que o “surgir dos enunciados” podem trazer a tona. Para analisar
os discursos em suas condições de produção
de sentido é preciso “questionar nossa vontade de verdade;
restituir ao discurso seu caráter de acontecimento; suspender ,
enfim, a soberania do significante”. (FOUCAULT, 2004, p. 51). “A maior parte dos jovens brasileiros, entre 16 a 20 anos, de 11 capitais, não leu nenhum livro nos últimos 12 meses, nem para escola. (...) Pelo levantamento, dos 811 entrevistados, 50% não leram nada por lazer ou cultura. E o que é pior, 46% dos garotos e garotas não consumiram nenhuma literatura exigida por professores ou para o vestibular”. (Caderno Teen, 12/08/1996) Questiona-se
a quantidade de livros lidos, como se isso fosse suficiente para considerar
uma pessoa um leitor, ou seja, uma pessoa é ou não leitora
de acordo com o número de livros que lê, se tem ou não
o hábito de leitura de livros. Na pesquisa não se menciona
nem ao menos a leitura de jornais e revistas, que dirá de outros
meios. Além do quantitativo expresso claramente neste trecho, a
jornalista acrescenta que ainda é “pior” o fato de
46% dos entrevistados não terem lido nenhum livro de literatura.
( Ilustrada, 25/07/1997) Gostaríamos
de chamar a atenção, principalmente para os dois primeiros
quadrinhos desta tira, em que é interessante observar a conclusão
a que chega a personagem: para ser considerado um “intelectual”
e conseqüentemente obter sucesso com as garotas, Jon conclui que
precisa se especializar em literatura. Não se trata aqui de negar
a importância da leitura de livros de literatura, mas sim de chamar
a atenção para como a leitura é abordada. “Os jovens não lêem. Mas vão a Bienal do Livro, em geral com a escola. É como se, de uma hora para outra, passear por estantes e estandes cheios de livros fosse um programa tão atraente quanto olhar as vitrines dos shoppings e paquerar.” (Folhateen, 24/08/1992) E para não centralizar a questão apenas nos jovens, num encontro realizado pela Folha sobre “Novas Estratégias para conquistar o leitor”, Sérgio Machado fala sobre possíveis causas do distanciamento entre brasileiros e leitura, afirmando que o livro é um veículo de ascensão, mas aqui no Brasil não é valorizado como tal: Tenho observado que as pessoas nascem com o hábito da leitura que depois a gente faz um grande esforço para elas perderem o hábito da leitura. Isso parece que talvez seja uma coisa inconsciente, talvez até da própria tradição da família brasileira, que recebeu uma influência muito grande de uma cultura oral, musical, mas não recebeu uma influência européia que realmente valoriza o livro como fonte do saber e do desenvolvimento. (...) O livro, ao contrário de outras mercadorias, exige um certo estado de espírito para ser consumido e de fato aqui no Brasil nós não temos tido esse estado de espírito muito freqüentemente. (Livros, 28/08/1994) Novamente
a idéia de hábito de leitura e acrescenta Sérgio
Machado que, no Brasil, devido a nossa tradição influenciada
pela cultura oral, não temos esse hábito, não valorizamos
o livro como fonte do saber e não temos o estado de espírito
próprio de consumidores de livros. Fica clara a idéia de
supervalorização do livro. O livro, na maioria das vezes,
está associado a prestígio social.
A tira ironiza
esta obrigação que muitas vezes sentimos de afirmarmos nossa
posição de leitores. Para obter esse prestígio, ser
aceito, não posso assumir a “falha” por não
ter lido determinado livro. Ainda nesse sentido de prestígio social
podemos ler as reportagens sobre os mais variados assuntos, em diferentes
cadernos dos jornais: Esportes, Política, Empregos, Negócios.
Há uma grande recorrência de imagens/fotos da pessoa que
é assunto na reportagem num ambiente cercada de livros, o que lhe
garante um certo ar de “intelectualidade, credibilidade e sucesso”.
“Bienal do Livro de São Paulo abre sua 15ª versão na expectativa de popularizar a leitura no Brasil, oitavo maior produtor de livros do mundo, mas onde o consumo é elitista, as edições são cada vez mais caras e onde cada habitante lê cerca de três vezes menos do que lê um francês” (Mais! 26/04/1998) Além
da referência ao consumo elitista de livros, também nos chama
a atenção a comparação estabelecida entre
a quantidade de leitura de um brasileiro e um francês. Neste trecho,
onde se falou sobre produção e consumo de livros, fica claro
que esse número de leitura do brasileiro (três vezes menor
que a do francês) está relacionado ao número de livros
lidos, desconsiderando assim outras formas de leitura (jornais, revistas,
meios de comunicação, etc). Folha –
Como leitor; quais são suas preferências? Prefere o “Ulisses”
de Homero ou o de Joyce? Deixando
de lado a discussão literária sobre a preferência
do escritor pelo Ulisses de Homero ou de Joyce, é interessante
observar como Peréz-Reverte inicia sua resposta como que legitimando
seu status como leitor, ou seja, além de ler desde menino considera
relevante dizer a quantidade de livros que possui. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FARACO, C.
A .; CASTRO, G. Leitura: uma retrospectiva crítica da década
de 80. Revista Letras, nº 38, p. 5 – 13, 1989. |
||
| Voltar |