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RELAÇÃO
ENTRE TEORIA E PRÁTICA NO ENSINO/APRENDIZAGEM DE LE NA ESCOLA
Angela Luisa Santos - Universidade Federal do
Paraná UFPR
1. Introdução
No texto a seguir serão discutidos resultados parciais
de uma pesquisa de mestrado desenvolvida recentemente junto a formandos
de cursos de licenciatura em Letras Habilitações Português/Inglês
(LPI, doravante) do sudoeste paranaense. O interesse por esse público
resulta de um outro interesse: os estudantes da rede pública de
ensino fundamental e médio e suas possibilidades reais de aproveitamento
da LE na escola.
Partiu-se, na pesquisa em questão, da hipótese de que, apesar
dos esforços de todos os envolvidos nas licenciaturas, a formação
teórica, no que se refere à compreensão de como pode
ocorrer a aprendizagem de LE, parece que além de falhar quanto
ao papel de embasadora e de não estimular o espírito de
pesquisa, poderia vir ainda a aprofundar preconceitos e gerar frustração.
A meta principal do estudo então foi a de refletir, partindo do
pensamento dos formandos, quanto a esse assunto, no intuito de fundamentar
e impulsionar um trabalho futuro (tanto com estudantes do fundamental
e médio como com estudantes de LPI) cujo tema fosse voltado para
questões teóricas do ensino/aprendizagem de LE. Além
de almejar tal reflexão, havia a expectativa sobre a reflexão
que aconteceria a partir das leituras de material bibliográfico
específico, o que acabou se tornando o principal meio de fundamentação
teórica para a pesquisa. Tal material foi e tem sido, predominantemente,
algumas obras de pesquisadores brasileiros (Orlandi 1999, Coracini 1998,
Brandão 1995, Bertoldo 2003, Athayde Júnior 2001, Mascia
2003, entre outros) envolvidos com a linha de pesquisa da análise
do discurso de origem francesa (AD, doravante) a qual integra estudos
feitos com base em teorias do discurso, na lingüística e psicanálise.
Os conceitos, propostos na AD, de sujeito (inconsciente e contraditório),
sentido (mutável e incerto), discurso (espaço de constituição
e posicionamento do sujeito), interdiscurso (espaço em que um mesmo
sujeito se posiciona de muitas formas diferentes) são os que direcionam
a interpretação dos fatos observados na pesquisa. Além
desses conceitos de base, também a noção de teoria,
ou melhor, o questionamento do que essa noção representa
para o estudo do universo pesquisado, teve papel decisivo na formulação
da pergunta de pesquisa, pergunta que interroga sobre o papel da teoria
como elemento integrante da formação profissional do licenciado
em LPI. A noção de teoria que interessou foi aquela na qual
teoria é vista não apenas como uma descrição
isenta e isloada de um objeto, mas também como inventora do objeto,
como um discurso que constrói seu próprio objeto conforme
propõe Silva (2001:11), ou seja, teorizar (descrever/explicar)
é acima de tudo criar uma realidade.
Desde o começo não se buscou prioritariamente a confirmação
ou não de hipóteses, tampouco soluções para
remediar ou mesmo modificar situações. O que se buscou mais
que tudo foi uma oportunidade de contato com os formandos em seu contexto
de formação para desenvolver reflexões sobre suas
expectativas quanto à formação teórica relativa
ao ensino/aprendizagem da LE oportunizada na licenciatura e, principalmente,
para deixar surgir outras indagações e reflexões
que ocorreriam somente a partir da experiência da pesquisa de campo,
partindo-se da crença de que “...a construção
do conhecimento nas ciências humanas não pode ser indiferente
ao vivido pelos sujeitos da pesquisa...” (JOBIM e SOUZA,1994: 32).
Assim, nesse caso, para a construção de conhecimento pretendida
no curso de mestrado, um dos requisitos mais relevantes era o contato
com os alunos de LPI, dada a necessidade de conhecer, ainda que sempre
insuficientemente, seus pensamentos quanto à formação
e prática profissional.
Para começo de caminhada foi especialmente importante a seguinte
questão: qual é o papel das teorias científicas de
aprendizagem de LE na formação de quem ensina(rá)
LE? Tal indagação se inspirou na já bem sedimentada
convicção, bastante divulgada dentre os estudantes em cursos
de LPI, de que as teorias de aprendizagem de LE não têm feito
muito sentido, nem dentro das disciplinas em que são ‘vistas’,
nem no estágio, muito menos na ‘realidade’. Portanto,
o esperado e não concretizado é que as teorias servissem
para orientar na prática, para responder questões da prática,
para solucionar e mesmo, antes disso, para motivar e inspirar a prática.
Isso não ocorrendo, a desilusão é certa, a frustração
garantida e as disciplinas ‘ teóricas’ são lembradas
com desconfiança.
2. AS EXPECTATIVAS DOS FORMANDOS.
Na busca pelos pareceres dos formandos de LPI, buscou-se
contato com um número considerável de alunos para esboçar
um panorama de perspectivas que ajudasse nas reflexões almejadas.
No total se obteve 76 questionários de quatro instituições
universitárias na região citada, cada um tendo vinte e três
questões, vinte delas abertas. Os questionários foram levados
pessoalmente nas turmas (os professores das disciplinas afins ao tema
da pesquisa cederam suas aulas para esses encontros). Além de responderem
por escrito, muitos dos formandos se interessaram em conversar sobre as
questões e ainda apresentaram outras ligadas ao tema. Para a análise
dos dados o recorte foi determinado pela pergunta do questionário
que trata especificamente da formação teórica sobre
aprendizagem de LE, ou seja, a própria pergunta que encaminhou
a pesquisa já desde a fase inicial. Como alguns formandos deixaram
em branco essa pergunta, foram obtidas 71 respostas, as quais formaram
o corpus.
Das primeiras leituras dos dados lingüísticos ou corpus empírico
(leituras guiadas primeiramente pela intuição), surgiu a
necessidade de classificar as respostas em dois grupos (dessa vez buscando
organizar a partir de paráfrases). Em um dos grupos, classificado
como Grupo 1, foram aproximadas as respostas que na superfície
lingüística se relacionavam diretamente com a pergunta (formação
teórica relativa à teorias de aprendizagem de LE) e no outro,
Grupo 2, foram aproximadas as respostas que não tratavam ‘diretamente’
da formação teórica em questão, mas sim sobre
aprender a língua inglesa, por parte dos próprios formandos,
dentro do curso de LPI (a preocupação com o próprio
desempenho lingüístico na LE).
A procura pela brevidade, importante neste texto, conduz a uma necessária
redução na apresentação de parte das interpretações,
assim apenas o Grupo 1 será comentado. Porém, antes é
preciso comentar sobre a escolha da tentativa de paráfrase como
instrumento de tratamento dos dados, ou seja, para a pesquisa em questão
considerou-se a paráfrase levando em conta a proposta de Athayde
Junior (2001). Este autor lembra que para a AD as ‘formações
ideológicas’ (posições específicas nas
relações de poder) são determinantes das ‘formações
discursivas’ (limites do que se diz) e, nesse espaço, a significação
pode ocorrer tanto pela mudança de sentido das mesmas palavras
quando empregadas em formações discursivas diferentes como
pode ocorrer identificação de sentidos através do
uso de palavras diferentes dentro de uma mesma formação
discursiva. É nessa identificação de sentidos, a
qual entendo também como proximidade de sentido, mesmo quando ditos
por palavras aparentemente diferentes, que ocorre processo discursivo.
Nesse processo é que se identifica a paráfrase que, nesse
caso, também se considera como discursiva. Nas situações
de ‘coleta de dados’ ocorridas nesse estudo ainda foi mais
interessante a noção de aproximação de sentidos
já que, apesar do pedido de que preferencialmente não trocassem
idéias antes de responder, não conseguiram evitar a tendência
natural e aos poucos foram formando pequenos grupos que pareciam querer
ser discretos pois se comunicavam em voz baixa com as cabeças próximas
umas das outras.
Diante da pergunta como você analisa sua formação
teórica universitária relativa às teorias de aquisição/aprendizagem
de segunda língua (L2)/língua estrangeira (LE)? os formandos
anotaram o seguinte:
Respostas:
Instituição 1 (23 formandos presentes)
“1) C1- Não muito além do que já havia aprendido.
2) D1- Exaustiva, mas pouco interessante/funcional.
3) E1- Acredito estar preparada para continuar a construção
dessa aprendizagem.
4) F1- Muito precária, justamente pela questão de ser dupla
licenciatura.
5) G1- Sólida, pois não me limitei somente às aulas
em sala, buscando leituras e estudo paralelos.
6) H1- Regular
7) L1- Um pouco vaga.
8) Q1- Penso que a formação teórica está a
contento, porém, a prática do ensino pode me colocar em
situações imprevisíveis onde terei de ser criativo.
9) R1- Na verdade foram despejadas umas sobre as outras sem muita demonstração
de como funcionariam na prática. Todas têm algo de útil
e ao professor cabe saber aplicá-las de acordo com o momento e
as necessidades dos alunos.
10) S1- Acho que poderia ser mais aprofundado.
11) T1- Não analiso pois não tenho. É uma piada.
12) U1- Pouco acrescentou no que eu já sabia.
13) V1- Acredito que quando se estuda a lingüística, sua história,
seus teóricos ou o estudo do bilingüismo você já
tem um parâmetro importante para estar estudando a aquisição
da LE.
14) X1- Vi ao longo do curso várias teorias (definições,
conceitos, concepções), mesmo as piores possuem algo que
se aproveite, porém algumas destacando-se de outras com formas
que atingem um melhor aproveitamento, sendo mais interativas, mais reais.
=========0=========
Instituição 2 (18 formandos presentes)
15) A2- Tive uma visão superficial, mas sei onde
me aprofundar quando for necessário.
16) E2- Boas, apesar dessa habilidade ter sido pouco explorada durante
o curso.
17) I2- Adquiri o possível de conhecimentos, repassado pelos professores,
sabendo que devo buscar ainda mais depois que terminar a faculdade.
18) J2- Me ajudou a entender sobre a aquisição de língua
estrangeira.
19) L2- Temos professores ótimos, que se preocupam em repassar
todo o tipo de conhecimentos necessário para a nossa formação
inclusive sobre a aquisição/aprendizagem de segunda língua.
20) M2- Comprovei que a prática vem da vivência de sala de
aula, deve ser inovadora, instigante.
21) N2- Boas, estamos aprendendo agora.
22) O2- Poderia ser melhor se fosse mais trabalhado durante o curso.
23) P2- Acredito que minha bagagem precisa ser aprimorada, pois o que
carrego até aqui ainda não é o suficiente para minha
vida docente. A formação universitária que nos foi
oferecida deveria voltar seu foco exatamente para a “formação
de professores de língua estrangeira”.
24) Q2- A formação poderia ser muito mais rica não
fossem alguns períodos “desperdiçados” sem um
estudo, professor adequado de lingüística. Mas tivemos boa
formação e conhecimento de teorias da aquisição/aprendizagem
de línguas 1 e 2.
25) R2- É fraca porque poderíamos trabalhar teoria e prática,
mas o tempo é pouco para muito conteúdo por isso não
conseguimos na maioria das vezes assimilar tudo.
=========0=========
Instituição 3 (12 formandos presentes)
26) A3- Eu não aprendi muito, ou melhor, aprendi muito, porém,
preciso aperfeiçoar.
27) B3- Regular
28) C3- Acho que o curso poderia ter oferecido muito mais informações.
Não acho que adquiri uma formação teórica
de qualidade.
29) D3- Com algumas deficiências por parte da universidade.
30) F3- Poderia ser melhor se não tivesse existido tantas trocas
de professores no curso, não houve uma seqüência lógica
de tópicos trabalhados em sala de aula; e também houve alguns
professores estagiários não muito aptos a dar aulas.
31) G3- Fraca. Muito pouco explicado sobre o assunto.
32) H3- Apesar de ter tido bom enfoque para as teorias de aquisição
de L2, acho que algumas disciplinas mais específicas ainda seriam
bem vindas.
33) I3- Não atenderam minhas expectativas que seriam conhecer a
teoria e reconhecê-la na prática. Falou-se muito em tradicional
e Abordagem Comunicativa, mas na prática (salas de aula) não
reconheci a Abordagem Comunicativa.
34) J3- Poderiam ter sido melhor aplicadas, pois não tenho conhecimento
suficiente sobre essas teorias.
35) L3- Superficial. Resumiria tudo a esta palavra. Sei que tenho minha
parcela de culpa, pois poderia ter pesquisado ou estudado como autodidata
o assunto. O que a instituição me ofereceu foram apenas
migalhas nesse assunto. Da refeição não percebi nem
o cheiro.
=========0=========
Instituição 4 (24 formandos presentes)
36) B4- Estudamos teorias das quais tentamos tirar algum proveito.
37) G4- Boa, mas ao final do curso algumas, muitas se perdem.
38) H4- Foi ótima. As aulas de prática de ensino foram completas
nesse sentido
39) J4- Minha professora repassou muito bem os conhecimentos sobre aquisição
de língua estrangeira. Acho que tenho uma boa bagagem sobre isso.
40) L4- Acredito que minha formação teórica é
suficiente, não aprofundada.
41) M4- Possuo conhecimentos básicos referentes às teorias
de aquisição e aprendizagem da língua estrangeira.
42) O4- As teorias de aquisição em L2 foram estudadas profundamente
durante os 4 anos e acredito que estou ciente delas.
43) P4- Muito boa.
44) Q4- Minha formação foi boa, mas esse “campo”
precisa ser mais estudado por mim, ao longo de minha carreira, quando
outros teóricos forem apresentando suas idéias.
45) R4- Na faculdade aprendemos o necessário, com o tempo e a prática
vamos aperfeiçoando e testando sua eficácia.
46) S4- Todas as teorias de aquisição/aprendizagem de L2
nos foram ensinadas, tenho conhecimento a cerca de todas.
47) T4- A base destas teorias foi discutida, entretanto, domínio
do conteúdo depende de sua utilização real, não
apenas no ensino do idioma, mas no ensino destes conteúdos teóricos
(para se ensinar é preciso saber).
48) U4- Fraca.
49) V4- Há muito o que melhorar na faculdade neste aspecto.
50) Z4- Ainda tenho muito que aprender. Aprendizagem mesmo acontece através
da prática.”
3. INTERPRETANDO OS PARECERES DOS FORMANDOS
Nesse caso, interpretar o que foi dito pelos formandos
é justamente o que faz surgir o objeto desse estudo, ou seja, as
respostas continuariam sendo dados lingüísticos sem um tratamento
se delas fosse retirado apenas o que têm de mais superficial. Assim,
a busca por paráfrases discursivas foi uma etapa a qual, em parte,
delineou o objeto de análise que no procedimento seguinte se desenhou
melhor. Nesse procedimento buscou-se relacionar os discursos analisados
com outros já bastante ditos e reditos, justamente aqueles que
informam os estudantes ao percorrer a licenciatura em questão.
Como não seria possível nesse artigo expor a totalidade
das interpretações propostas na pesquisa, optou-se por apenas
uma delas, discutida a seguir.
3.1 Papel da teoria
No que se refere ao papel da teoria, ponto que se buscou
ressaltar nesse estudo, observa-se nesses discursos que é o de
motivação e/ou solução da prática.
O trabalho com a teoria, ou seja, a divulgação do conhecimento
teórico, é destinado ao professor de LPI, um repassador
das teorias extraídas dos estudos dos teóricos, cabendo
ao formando a absorção adequada de forma que as teorias
sirvam para a aplicação eficiente na sala de aula. Disso
se entende que a teoria é uma verdade que, sendo apropriada e bem
aplicada, resultará em satisfação, ou seja, a insatisfação
já rotineira da prática nos ensinos fundamental e médio
ocorre principalmente pela aplicação inadequada da teoria,
problemas que pode decorrer, basicamente, ou do ensino ou do aprendizado
das teorias.
Nos discursos analisados o que se espera da teoria e do professor que
a ensina é que expliquem e solucionem realidades, assim, a apresentação
do conceito teórico “é tomado como algo sacralizado”
e a “teoria é sempre apresentada como solucionadora para
os problemas da prática” (Bertoldo, 2003:179). Contudo, numa
constatação de praticamente todos os envolvidos, verifica-se
a impossibilidade de aplicação imediata da teoria, fato
que é visto como conseqüência de alguns fatores como
a incapacidade do professor em repassar a teoria competentemente, falha
de aprendizado da parte do formando, falta de articulação
certa entre teoria e prática, inadequação de uma
teoria inapropriada às condições locais, problemas
no curso e/ou na instituição. A frustração
resultante da constatação da falta de aplicabilidade e da
incapacidade de solução da teoria se apresenta, então,
predominantemente como, insatisfação profissional que toma
as formas da desmotivação, da descrença, do descrédito,
da desvalorização nas atitudes dos envolvidos.
Coracini (1998a) diz que nos “estudos da ciência lingüística,
a oposição teoria vs prática se confunde com a oposição
pesquisa básica vs pesquisa aplicada, a primeira superior à
segunda por lhe ser imputado caráter científico, e, portanto,
neutro e objetivo.” Tal entendimento sobre o caráter neutro
e objetivo para a ciência existe por se pensar que a ciência
está “...à margem das implicações ideológicas,
enfim, de toda e qualquer interferência dos sujeitos, com seus valores
e crenças.” (idem). Além disso, para a autora, também
se acredita que “toda mudança pedagógica corresponde
necessariamente à assimilação de uma dada teoria,
ou seja, que aprender uma teoria implica em mudar a prática...”
, no entanto, para essa autora, não há a possibilidade de
uma transposição da teoria para a prática, considerando-se
que
“...toda
teoria, enquanto abstração, é também interpretação
e que toda ‘prática’ já é por si só
interpretação. Ora, interpretar é um ato que não
se encontra sob o controle total (consciente) do interpretante, mas depende
da sua historicidade, dos valores, crenças (socialmente partilhadas),
experiências de toda sorte (afetivas, sociais, intelectuais)...”
(idem).
Portanto,
a expectativa comum de se contar com uma mudança de atitude decorrente
do fato de se aprender uma teoria pode acabar em frustração.
Em outras palavras, as questões de assimilação ou
aprendizado das teorias, bem como as questões de ensino das teorias,
se relacionam com outras questões, ou seja, não é
possível a transmissão de um único sentido já
bem definido para uma teoria, assim como não é possível
a aplicação mecânica de uma dada teoria.
Estudando a fala de um professor (Lingüística Aplicada (LA)),
Bertoldo (2003:185) observa “...um discurso monolítico em
que a teoria é vista como completa, desejável, capaz de
suprir os desafios de toda e qualquer prática pedagógica,
já que se pretende universal, válida para todos os domínios
que adentra.”
No discurso analisado por Bertoldo (2003:185), há uma ênfase
nas teorias,
“...de
modo geral aquelas que explicam os processos de ensino e aprendizagem
de LE, como fundamentais para uma formação profissional
que se quer aperfeiçoada, adequada, eficiente, dentre várias
outras designações pertinentes a uma postura que nos remete
à completude.[...O] discurso da sala de aula de LA se impõe
como um discurso que promete a completude, via domínio de uma teoria
que tudo soluciona.”
Explica o
autor que essa é uma falta teórica que impulsiona uma busca
pela teoria no intuito de completar o vazio teórico, sentido como
indesejável por não permitir a “...articulação
pretendida entre teoria e prática pedagógica.” (idem,
2003:185). Dessa forma, esse discurso cria um vazio teórico e,
conseqüentemente, a necessidade de se completar, de atingir plenamente
o conhecimento da teoria que irá preparar para a prática
como professor de LE. Essa privação e esse anseio integram
essencialmente o imaginário do formando, “... pois constituído
ele é no e pelo discurso da sala de aula de LA, [...] o futuro
professor não detém a teoria, mas a deseja, apesar de não
ter livre acesso a ela.”.(ibidem).
4. CONSIDERAÇÕES
FINAIS
No planejamento
e encaminhamento dessa pesquisa dois objetivos deram o rumo: um era o
de conhecer melhor (ou iniciar uma história de conhecer melhor)
em um sentido amplo os estudantes de LPI da região citada; o outro
era o de conhecer um aspecto bem delimitado da formação
desses estudantes, no caso, suas perspectivas sobre a dimensão
teórica da aprendizagem de LE. Esse último tema foi enfocado
também em decorrência do interesse de trabalhar exatamente
com a questão da formação teórica. E o que
efetivamente ocorreu foi uma aproximação satisfatória
dos contextos e perspectivas do público alvo e também o
aprofundamento do conhecimento teórico na direção
crítica almejada.
Porém, retomando a indagação inicial proposta ainda
no resumo, pode-se dizer que uma possibilidade para refletir ainda mais
sobre as questões ligadas à relação teoria/prática
é essa de se aprofundar o debate sobre a natureza da teoria, no
sentido de rever o poder a ela dado e no sentido de analisar seu caráter
discursivo. No que se refere à prática, como é possível
falar dela sem falar diretamente das questões materiais as quais
ninguém mais se arrisca a camuflar? Porém, mesmo que se
toque no assunto das precariedades decisivas, elas continuam sendo isoladas,
como se fossem quase um detalhe. Assim, como é possível
falar apenas de tendências teóricas de ponta, de métodos
possíveis, de novas descobertas sobre aprendizagem de línguas
e todas essas coisas que tanto nos interessam e contribuem, se a impossibilidade
de realização material mínima é permanente
e debilitante? Sobre essa indagação é que a pesquisa,
a ser continuada, deverá se voltar.
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