Tem-se observado, informalmente, que pessoas de áreas
do conhecimento não vinculadas à licenciatura ou pedagogia
costumam dizer que profissionais da educação: “falam...falam...
mas não dizem nada”, “perdem tempo com discussões
inúteis” ou ainda, “não conseguem aplicar sua
teorias”. Essas idéias encontram-se implícitas no
conteúdo dos textos científicos da área e no discurso
dos professores.
Neste texto procura-se explicitar o resultado parcial de uma pesquisa
descritivo-exploratória que objetiva investigar possíveis
relações entre a estrutura dos textos lidos durante o processo
de formação inicial do pedagogo e o discurso sobre a prática
docente. Esta pesquisa privilegia, na análise dos dados, o enfoque
qualitativo, tomam-se como referenciais para a análise do objeto
proposto - a pessoa no discurso pedagógico - textos de professores
de diferentes níveis e graus de ensino.
Para o cumprimento desse propósito, criou-se uma categoria de investigação
baseada nos estudos de Fiorin sobre as categorias presentes na enunciação,
e a partir daí procurou-se identificar nos textos investigados
como uma dessas categorias - a de pessoa - se constitui no texto. Por
fim, dos resultados parcialmente obtidos foram levantadas hipóteses
como desdobramentos da pesquisa em questão.
DA ENUNCIAÇÃO À CATEGORIA DE PESSOA
A discurvilização implica uma relação
entre enunciação e enunciado. A enunciação
é o ato produtor do enunciado. “É essa colocação
em funcionamento da língua por um ato individual de utilização”(Benveniste
,1974:80), é um ato da ordem do acontecimento, por isso não
se reproduz idêntica a si mesma. Entretanto, vale ressaltar que
a enunciação constitui um ato singular e como tal, não
pode ser estudada como um objeto científico. O foco do estudo reverte-se
então para o produto desta ação: o enunciado, o qual
carrega em si traços e marcas da atividade enunciativa.
A enunciação, como aponta Fiorim, é o “ato
pelo qual o sujeito faz ser o sentido”,e o enunciado “o objeto
cujo sentido faz ser o sujeito”; ou seja, a enunciação
é uma instância lingüística logicamente pressuposta
pela própria existência do enunciado que comporta seus traços
e marcas, através das operações de catálise
(reconstituir o ato gerador do enunciado).
A enunciação é a instância constitutiva do
enunciado, logo esta é pressuposta pela existência do próprio
enunciado(que comporta seus traços e marcas). O enunciado carrega
em si marcas que nos remetem à instância da enunciação,
como: pronomes pessoais, demonstrativos, possessivos, adjetivos, advérbios,
entre outros - elementos cuja ausência produz em texto enuncivo,
eu seja, sem nenhuma marca de enunciação.
Essas marcas fundamentadas no enunciado através da enunciação
nos remetem as categorias de pessoa, espaço e tempo instauradas
através dos processos de debreagem e embreagem.
Estes processos ocorrem través da discurvilização,
na qual certos termos ligados aos elementos constiuinte do encunciado(pessoa,
espaço e tempo) são projetados para fora da instância
da enunciação; a este processo denominamos debreagem. A
embreagem, porém, é o movimento de retorno à enunciação,
produzido pela neutralização da categoria de pessoa, assim
como pela denegação da instância do enunciado.
Um dos elementos projetados para fora da enunciação é
a categoria de pessoa, essencial para que a linguagem se torne discurso.
Pode-se dizer, ainda, que esta categoria é principal constituinte
do discurso, uma vez que as outras categorias, espaço e tempo,
estão intimamente relacionadas a ela.
Como afirmou Beneviste: “na e pela linguagem que o homem se constitui
como sujeito, uma vez que, na verdade, só a linguagem funda, na
sua realidade, que é a do ser, o conceito de ego” (Beneviste
apud Fiorim 1996:41). Assim, a realidade é fundamentada pela subjetividade,
ou seja, pela capacidade de o locutor pôr-se como sujeito; e esta,
é determinada pelo estatuto lingüístico da pessoa.
A pessoa enuncia num determinado tempo e num determinado espaço,
assim, todo tempo e todo espaço organizam-se em torno do sujeito,
este é o ponto de referência pelo qual se instauram essas
categorias.
A categoria de pessoa demarcada é, inicialmente, a que melhor se
ajusta ao tipo de trabalho desenvolvido por, além das características
abordadas a serem abordadas em seguida, ser uma categoria transparente
e superficial no texto e de identificação precisa. A partir
da identificação e da colocação das diferentes
pessoas no discurso procurar-se-á, preliminarmente, investigar
as possíveis relações entre a categoria estrutural
de sujeito no discurso docente e a sua formação inicial.
Faz necessário, portanto explicitar algumas considerações,
de acordo com Fiorin, sobre esta categoria:
- Oposição ele x (eu e tu)
As três pessoas no discurso não têm
o mesmo estatuto; a terceira pessoa goza de uma situação
especial em relação as outras duas. É sempre utilizada
quando não se designa pessoa, quando a produção do
fenômeno não está ligada a qualquer agente ou causa,
é a expessão impessoal. Além disso, o “ele”
pode ser uma infinidade de sujeitos ou então nenhum. Jamais é
actante (categoria da sintagmática narrativa, os personagens podem
atuar como sujeito, objeto, destinador, destinatário, opositor
ou adjuvante) da enunciação. E é única com
que qualquer coisa pode ser predicada verbalmente.
Em contrapartida, a primeira e a segunda pessoas são cada vez mais
singulares e um implica a existência do outro. O eu existe por oposição
ao tu, cada locutor coloca-se como sujeito remetendo a si mesmo como eu
em seu discurso e atribuindo ao outro como tu. “A primeira pessoa,
subjetiva, que se constitui a partir da segunda pessoa, não subjetiva”
(Beneviste apud Fiorim 1996: 60).
- Os significados das pessoas:
A pluralização das pessoas do enunciado
nem sempre significa a idéia de plural propriamente dita, em algumas
pessoas ocorre uma amplificação ante uma simples adição
de sujeitos. Assim, de acordo com Fiorin(1996:60) têm-se:
eu: quem fala, eu é quem diz eu;
tu: aquele com quem se fala, aquele a quem o eu diz tu, que por esse fato
se torna o interlocutor;
ele: substituto pronominal de um grupo nominal, de que tira a referência,
actante do enunciado, aquele de que eu e tu falam.
nós: não é uma multiplicação de objetos
idênticos, mas a junção de um eu com um não-eu.
vós: plural de tu ou junção do tu a ele ou eles
eles: pluralização de ele.
Basicamente três conjuntos de morfemas servem para expressar pessoa:
os pronomes pessoais retos (pessoa em função subjetiva)
ou oblíquos(função complemento); os pronomes possessivos
e as desinências número pessoais dos verbos.
RESULTADOS
Foram investigados cinqüenta textos de professores de diferentes
níveis e graus de ensino. Verificou-se uma considerável
oscilação na categoria de pessoa nos textos; principalmente
entre a terceira pessoa do singular e a primeira pessoa do plural sobretudo
o nós inclusivo. A utilização da terceira pessoa
nos textos remete os discursos a uma impessoalidade do enunciador em relação
ao enunciado. Esta impessoalidade ficou bastante aparente na argumentação
que o enunciador utiliza para tratar da postura, obrigação,dever
da instituição de ensino perante a uma determinada questão.
Isto observa-se em: “A escola deve oferecer métodos de pesquisa
e projetos para que o educador e educando adquiram conhecimentos mais
eficazes.” e ainda: “ A escola deve ter claro qual o objetivo
quer, o que pretende alcançar em relação ao mundo
em que está inserida.”
Em contrapartida, a utilização da primeira pessoa do plural,
na qual o enunciador se inclui e ainda inclui o enunciatário no
discurso, evidencia-se nos textos quando o enunciador se coloca numa atitude
passiva em relação à ação da instituição
escolar, quer seja ela positiva quer seja positiva. Assim, temos: “Somos
herdeiros da sistematização da educação pedagógica.”.
A oscilação entre as pessoas revela, aparentemente, ora
uma inclusão do enunciador sobre algumas questões concernentes
à escola, ora a ausência deste, evidenciada na impessoalidade
do texto.
CONSIDERAÇÕES FINAIS (DESDOBRAMENTOS)
Tendo em vista que a pesquisa ainda está em andamento
preliminarmente, duas hipóteses podem ser levantadas, a partir
desta investigação parcial. A primeira consiste na idéia
de que estas características presentes nos textos produzidos pelos
professores revelam uma possível influência dos textos acadêmicos
no discurso dos docentes. A outra hipótese baseia-se na possibilidade
que estas características parcialmente levantadas são estruturais
do discurso pedagógico como um todo.
Referência bibliográfica
FIORIN, As Astúcias da enunciação:
As categorias de pessoa, espaço e tempo. São Paulo: Ática,
1996.