Simone Olsiesky dos Santos - Universidade Federal
do Rio Grande Do Sul - UFRGS
Este trabalho tem como principal objetivo problematizar
um artefato cultural específico Malhação, programa
veiculado de 2ª a 6 ª - feira pela Rede Globo de Televisão
- analisarei algumas das representações de adolescência
veiculadas nesta produção a partir das teorizações
Pós-Estruturalistas sustentadas nos Estudos Culturais (EC) articulados
com a Psicanálise lacaniana. Dito isto, vale ressaltar que ao investigar
formas simbólicas como a TV, tão complexas, faz-se necessário
articular uma escolha estratégica, por assim dizer, uma alquimia
analítica, utilizando os conhecimentos retirados de diversos campos,
num exercício de bricolagem, que implica estudos envolvendo representações
e poderes constituídos desde o campo da comunicação,
relacionados com a pedagogia cultural. Nesta direção, os
EC têm sido um fértil terreno para discussão das diferentes
culturas sem estabelecer distinção entre elas (alta cultura,
cultura de massa, cultura popular), importando-se, sim, com os significados
que a cultura, no caso presente em Malhação, está
produzindo, o que está ensinando, sobre ser adolescente e sobre
determinados comportamentos apresentados nesta produção
enquanto comportamentos próprios de adolescentes.
Vale ressaltar o quanto vivemos em um mundo de imagens. Estas adquiriram
um papel hegemônico, por assim dizer, na nossa sociedade a ponto
de basearmos nossas escolhas e alimentarmos nossos desejos a partir das
imagens que estão ao nosso redor, especialmente as que nos são
oferecidas no “Grande Espelho” identificatório ? a
TV. Conforme Ribeiro (2005, p. 131) “[a televisão] é
mídia por excelência, aquela que melhor desempenha o papel
que a própria palavra já indica, o de efetuar as mediações,
o de construir os meios pelos quais as pessoas se comunicam”. No
entanto, nos defrontamos com um outro papel que vem sendo construído
pela TV, ainda que nem sempre de forma intencional, que é o de
produtora de saberes.
Encontramo-nos em um contexto denominado por alguns autores como Modernidade
tardia, no qual a cultura adquiriu uma centralidade abrangente, conseqüência
das inúmeras e rápidas descobertas e transformações
que vivenciamos nos últimos 50 anos, no âmbito científico,
social, político, econômico e tecnológico. Neste período,
até mesmo a escola, local tradicional da produção,
da estrutura e transmissão legitimada do conhecimento já
não pode dar conta da grande diversidade de fenômenos culturais
e sociais que caracterizam um mundo cada vez mais hibridizado.
Autores como Martín-Barbero (2003, p. 70) referem-se às
mudanças que acompanham todo processo de socialização,
que hoje vem mediado pelos meios de comunicação de massa.
Para este autor, “nem a família, nem a escola ? velhos redutos
de ideologia ? são já o espaço chave da socialização
os mentores da nova conduta são os filmes, a televisão,
a publicidade, (...)”, que terminam provocando uma metamorfose nos
aspectos morais mais profundos.
Não é possível nos furtarmos à presença
da mídia ou às representações que nela circulam.
É aí que reside toda sua dimensão social e cultural,
como pontua Silverstone (1999): ela se constitui enquanto dimensão
essencial de nossa experiência contemporânea. O discurso televisual
é repleto de mensagens, linguagens próprias que produzem
uma série de efeitos sobre a subjetividade contemporânea,
discursos que permeiam o ser, o pensar e o sentir. Esta forma de “penetração”
afeta não só os sujeitos adultos, mas, na atualidade, especialmente
os sujeitos-adolescentes e infantis. Como compreender os impactos da textualidade
televisiva sobre o imaginário dos sujeitos? Como se estabelecem
certas representações na TV? De que lugar produções
como Malhação falam? O que falam? A quem? Certamente estas
questões suscitam grandes respostas e admito, não sem pretensão,
que ficarei muito feliz se as análises presentes neste artigo fornecerem
algumas.
Cabe dizer que acompanho o “crescimento” da mídia televisiva
ao longo dos anos e isto se deve muito à minha paixão por
esta temática e, em conseqüência, aos estudos que venho
empreendendo desde o Mestrado. Estes estudos têm me possibilitado
seguir observando as mais diversas produções (telenovelas,
especiais, peças publicitárias, comerciais, seriados de
ficção e campanhas desenvolvidas nas diferentes emissoras).
Admito que a TV tem muito a dizer; não apenas inventa conteúdos
e acontecimentos (ainda que também o faça), como também
torna-os perceptíveis, comoventes, potencializando e produzindo
realmente o excesso, a inflação de imagens e um hiper-realismo,
recurso do qual se vale em suas produções.
Isto posto, gostaria de ressaltar que o poder da TV circula e trabalha
em cadeia, atravessado interna e externamente por contrapoderes. Neste
sentido, o funcionamento das produções televisivas preocupa-me,
pois, na pulsão de abarcar e apreender tudo, a TV acaba “substituindo”
a realidade, produzindo uma realidade própria. Para o desenvolvimento
deste estudo, organizei-o da seguinte forma: primeiramente, na seção
O currículo de Malhação, traço um breve histórico
do programa buscando situá-lo no presente, considerando tratar-se
de uma ficção seriada e ainda apresentarei o currículo
alternativo contido no programa. Após, na seção Em
Malhação, o que se ensina sobre sexualidade e transgressão?,
irei me deter em alguns recortes desta fase do programa, as relações
que se estabelecem, especialmente no que refere à sexualidade.
E, na última seção, Descortinando sentidos, nem tão
ocultos assim, proponho algumas reflexões sobre os efeitos de produções
televisivas e as possíveis leituras críticas destas.
O CURRÍCULO DE MALHAÇÃO
Malhação se converteu numa espécie
de “galinha dos ovos de ouro” dentre as produções
exibidas e produzidas pela Rede Globo de Televisão. Emplacando
dez anos de existência em 2005, o programa merece destaque não
apenas por conseguir manter um nível de audiência invejável
(nos melhores momentos, chegou a alcançar 42 pontos no ibope, o
que supera algumas novelas do horário nobre). Seus méritos
se estendem à otimização de recursos, tais como a
repetição seriada, de que se vale o currículo alternativo
da TV, na execução de programas de baixo custo. Isso ocorre
não só em Malhação, mas também nos
reality-shows, ou seja, utilizam-se não só da mesma locação,
mas também, de um núcleo ? elenco fixo, o que resulta significativa
redução de investimentos. Além desse fato, a emissora
tem utilizado o set de Malhação como uma espécie
de “laboratório” para testar atores estreantes, o que
representa economia em salários considerando tratar-se de jovens
atores iniciantes, submetendo-se a quaisquer oportunidades que lhes são
oferecidas. Há também um pequeno núcleo formado por
atores antigos, afastados de novelas do horário nobre, que também
necessitam ser mantidos pela emissora e assim vão sendo incorporados
nesta produção, dando conta de preparar os novatos. Segundo
o diretor de núcleo Ricardo Waddington, o orçamento de cada
capítulo é de sessenta mil reais aparecendo como o maior
custo benefício da Globo. (Cf. VALLADARES, 2005). Outro recurso
do qual Malhação se utiliza é da volatilidade no
tratamento de temas, esses acabam por ser investidos na produção
e seguem sendo tratados em outros contextos da Rede Globo, como no Domingão
do Faustão, Fantástico ou Globo Repórter. No caso
de Malhação, expõem-se ao escrutínio dos espectadores
os temas e decisões relativas ao programa através do site
interativo com o mesmo nome do seriado onde é possível enviar
depoimentos e manifestar opinião em relação a solução
dos problemas abordados. Os temas estão relacionados à problemática
dos jovens e questões sociais. Na atual fase, por exemplo o mote
é a gravidez na adolescência (na trama a personagem grávida
é Jacqueline representada pela atriz Joana Balaguer). É
discutido o uso de preservativo e os relacionamentos amorosos, bem como
a ingestão de anabolisantes, na temporada anterior foi o câncer
de próstata do pai de uma das personagens principais Letícia,
representada pela atriz Juliana Didone. Sabe-se que Malhação
foi produzida para atender a um público jovem, na faixa etária
dos 12 aos 17 anos, inicialmente a trama desenrolava-se numa academia
de ginástica (que originou o nome). Isto se manteve até
1999, quando, após uma pesquisa de audiência, foi identificada
que a veiculação da produção, provavelmente
em função do horário, 17h30min, abrangia uma grande
quantidade de telespectadores adultos. Após esta descoberta, houve
um direcionamento de foco e Malhação foi re-configurada
pela produção passando a tratar de temas que informassem
também os pais e outros adultos sobre o que se passa no universo
adolescente e como lidar com as problemáticas relativas a ele.
A partir de então, as locações passaram a ocorrer
numa escola ficcional chamada Múltipla Escolha, inclusive nas salas
de aula ou no bar da escola, o Gigabyte. Este contexto de “15 minutos
de fama” estimula os próprios atores jovens, embalados pela
versatilidade do programa, por sua grande audiência, associado às
indefinições típicas da juventude, a lançarem-se
em outros caminhos inspirados na representação desempenhada
na trama. Por exemplo, no programa, Marjorie Estiano, faz o papel de vocalista
da Vagabanda que é uma banda de rock composta por mais três
alunos, todos colegas de colégio. Após sua estréia
na temporada de 2004, como atriz novata na “novelinha adolescente”,
a atriz emplacou carreira solo como cantora valendo-se da fama da própria
Vagabanda. Lançou inclusive o primeiro CD com ampla divulgação
em programas de auditório da mesma emissora tais como: Domingão
do Faustão e Altas Horas. Outra situação que pode
ser comprovada com relativa freqüência e que demonstra o quanto
à ficção pode ultrapassar as fronteiras, misturando-se
com a realidade, no universo adolescente - é o envolvimento amoroso
de atores. Estes se utilizam dos intervalos, nos bastidores para viverem
seus romances, como exemplo cito na temporada 2004 o namoro do ator Bruno
Ferrari e da atriz Graziella Schimitt. Ambos exemplos demonstram os efeitos
do currículo alternativo que não apenas subjetiva e produz
identificação nos telespectadores, como também, afeta
o próprio elenco.
MALHAÇÃO ? O QUE SE ENSINA SOBRE SEXUALIDADE
E TRANSGRESSÃO?
Por perceber a imensa relevância que a investigação
tem no contexto atual do estudo sobre recepção, especificamente
neste trabalho, no que diz respeito ao imaginário adolescente e
como este vem lidando com a sua própria estruturação
a partir do programa Malhação, isto é, como este
vem sendo lido, explorarei algumas das questões que, penso eu,
possam estar afetando a posição-de-sujeito pelo modo de
endereçamento da produção, este “invisível
processo” que parece convocar em sua estrutura o espectador adolescente
ou mesmo o adulto. (Cf. ELLSWORTH, 2001). Considerando que “a recepção
não é uma abstração, ela é construída
discursivamente” (NETO, 2002, p. 194), destaco as relações
de poder, a produção de sentido e a relativização
da transgressão, maneiras discursivas por meio das quais a mídia
televisiva vem se valendo na constituição deste programa.
Trata-se de um discurso que não só afeta, mas, principalmente,
subjetiva tanto adolescentes quanto os adultos.
Primeiramente esclarecerei o significado do termo representação
dentro do referencial dos EC, para a partir destas considerações
analisar alguns recortes de Malhação no que diz respeito
à produção de sentidos sobre adolescência.
Como pontua Silva (1999, p. 47), ainda que existam certas condições
sociais que possibilitem aos diversos grupos se verem como tendo características
em comum ? sexualidade, geografia, etnia, etc. ? ainda assim, é
preciso que estas condições sociais sejam representadas,
produzidas de alguma forma, a partir de imagens, narrativas, símbolos
e/ou memórias. A representação não é
nem um campo neutro, nem tampouco de equilíbrio constante; ela,
ao contrário, é um terreno de tensão onde significados
são produzidos e até mesmo impostos em relação
a outros. Há uma relação de poder que se estabelece
nestes processos de produção de significados. Desta forma,
a maneira como os sujeitos, inclusive os adolescentes, são representados
e as ações destes “mecanismos de representação”
produzidos e/ou difundidos no discurso da TV têm efeitos constitutivos
na subjetividade e na identidade dos espectadores.
Para poder “ler” alguns dos significados contidos nas mensagens
veiculadas em Malhação, faz-se necessário situar
a adolescência. Podemos pensar que a adolescência se sobressai
em relação à infância como um momento no qual
se manifestam algumas semelhanças não somente de ordem física,
biológica, com os adultos, mas também em termos de ideais
e aspirações. Na verdade, o que observamos nos dias de hoje
é uma mudança no ideal social identificatório. Certamente,
como efeito dos avanços tecnológicos, biológicos
e científicos que nos permitem maior longevidade, bem como garantem
um prolongamento, uma “eterna juventude”, rompem-se as fronteiras
entre idade adulta/velhice e adolescência/idade adulta.
Como aponta Calligaris (1999, p. 73), a adolescência foi uma invenção
que prosperou e sua estética tem atravessado todas as idades. Neste
sentido, vale lembrar que o programa foi reformulado para ter um alcance
que abarcasse os telespectadores adultos. Talvez ele não esteja
logrando uma outra forma de endereçamento, no formato para o qual
foi produzido. Quero dizer com isto que é possível que Malhação
esteja despertando grande interesse dos adultos, exatamente por refletir
esta imagem de “juventude” (bela, sarada, descomprometida,
com corpos que gozam de prazeres muito semelhantes aos nossos, porém,
sem tantas obrigações) e não pelo objetivo da produção
do programa que era de preparar e informar os pais sobre as problemáticas
dos adolescentes. Por exemplo: entrando no site do programa cuja idéia
é criar um jeito “fácil” de abordar diferentes
assuntos (muitos destes nem tão fáceis assim), encontraremos
a seção revista. Lá, é possível encontrar
questões como: É possível a amizade entre um homem
e uma mulher? ou, Você perdoaria uma mentira do/a seu/sua namorado/a?
ou, Amor sem preconceitos, pais separados e agora?. A página segue
com outras subdivisões nas seções tais como: bastidores
(onde são fornecidos detalhes da produção), enquete,
brindes (Wallpapers com fotos dos personagens), história, você
na Malhação (depoimentos dos telespectadores/internautas),
além do chat (local para conversa entre internautas fãs
da produção) e o espaço sou fã, no qual é
possível deixar mensagens para serem selecionadas e exibidas no
home da novela. Podemos observar que as questões propostas no site
têm amplo endereçamento, isto é, parece-me que algumas
delas estão muito mais dirigidas a respostas de adultos que de
adolescentes.
Outra questão para se refletir aqui, é que a TV se vale
de interesses privados, como “predileções da esfera
íntima” (BUCCI, p. 127), para temperar sua programação,
elevando, assim os índices de audiência. Este fato por si
só talvez já justifique a escolha de algumas temáticas
em Malhação (inúmeras pesquisas de produções
similares feitas pela UNICEF/UNESCO comprovam esta tentativa de manipulação
de audiência). A questão é que se na TV uma jovem
aparece grávida, como a personagem Jaque de Malhação,
inúmeras jovens talvez resolvam, por identificação,
seguir pelo mesmo caminho como meio e fim para solução de
seus problemas. Pois, se todos estão falando sobre gravidez e ficando
grávidas sem maiores conseqüências ou perdas, eu também
posso ficar grávida. Conforme uma pesquisa realizada nos EUA e
divulgada na revista Veja (2004, p. 73), as cenas de sexo não só
provocam antecipação sexual como também levam adolescentes
a queimar etapas passando dos beijos diretos aos carinhos mais íntimos.
Os adolescentes, por ainda estarem formando um “superego”,
assimilam e incorporam os valores que lhes são apresentados a partir
de uma identificação com as cenas exibidas.
Se nos detivermos em uma análise das formações de
“tribos” na adolescência, verificaremos que os grupos
sempre servem de referencial e legitimação através
dos quais os adolescentes se amparam. Nestes clãs, encontram a
possibilidade de construir as próprias escolhas e ao mesmo tempo
referendá-las num espelhamento que é constituinte. Na atualidade,
deparamo-nos com diversos grupos compostos por jovens, os dos punks, dos
tatuados, dos Mauricinhos, das Patrícinhas, dos freqüentadores
de festas Rave, etc. Malhação apresenta esta pluralidade
de discursos em sua composição, o que corrobora o reconhecimento
dos adolescentes com o programa. Os telespectadores adolescentes identificam-se
com os alunos, relacionam os professores com os seus, ou simplesmente
reconhecem seus familiares e amigos em alguns dos personagens. É
exatamente neste ponto que Malhação merece uma atenção
mais criteriosa. Calligaris (2000, p. 58) afirma que “cada grupo
impõe facilmente a seus membros uma conformidade bastante definida”
por este motivo se constituem em “consumidores facilmente comercializáveis”.
Neste sentido, a adolescência passa a engendrar uma idealização
comercial.
Observando as temporadas anteriores do programa, foi possível identificar,
por exemplo, que não existe mais que uma representação
consistente de um núcleo familiar e, mesmo assim, a família
retratada evidencia relações de traição entre
os cônjuges ou então apresenta espectro de delinqüência
incorporado por algum dos personagens adolescentes da família.
Para dar conta desta “deficiência” de núcleo
familiar foi criada uma espécie de república, onde alguns
dos alunos/personagens residem (diga-se de passagem, bastante utópica,
enfatizando ainda mais um delírio de autofundação
entre os alunos/adolescentes).
No que diz respeito ao tratamento dado pela produção ao
longo destes “dez anos” às infrações,
no Múltipla Escolha, pode-se afirmar que beira a exaustão.
São inúmeras as tramas envolvendo delitos, infrações
e situações que se enquadrariam em crimes se revistas pelo
código penal. E o mais significativo é que estas representações
de adolescência “transgressora” diferem a cada temporada,
indo dos pequenos furtos de objetos como, por exemplo, CDS de músicas,
ou de CD-ROM, até infrações muito mais graves, tais
como alteração de dados da memória de computadores
ou acidente culposo com colega de aula. Há ainda que se considerar
as omissões e/ou mentiras, e, as delinqüências cometidas
diretamente contra colegas. O currículo de Malhação,
porém, não faz distinção entre as penalidades
graves das menos graves. Assim sendo, uma das leituras possíveis
de serem apreendidas pelos telespectadore/as é que todo e qualquer
delito ocorrido num contexto escolar pode ser resolvido de forma significativamente
“amigável”, com diálogo e punição
disciplinar (impingidas dentro da própria escola como no Múltipla
Escolha).
Agora, podemos perguntar se esta adolescência representada em Malhação
representa a realidade das relações juvenis escolares, especialmente
nas escolas de classe média/alta? Talvez a pergunta possa ser feita
de outra forma, interrogando sobre o quanto os adolescentes da periferia
conseguem filtrar a linguagem da qual Malhação vem se valendo
para compreender como lidar com os esteriótipos ali representados
e reconhecer o que é certo do que é errado, o igual do desigual?
É bem possível que as idéias homogeneizadas e fixadas
através das representações do programa estejam “fabricando”
uma cultura juvenil nacional significativamente distorcida.
Novamente pode-se observar a indústria televisiva dando uma materialidade
efêmera, um tratamento superficial a temas tão importantes.
É preciso que nas lentes dos programas endereçados para
adolescentes os discursos possam ser cada vez mais diversos, plurais escapando
dessa fixidez para realmente se constituírem como discursos maiores
? discurso social e cultural.
DESCORTINANDO SENTIDOS, NEM TÃO OCULTOS ASSIM...
Considerando que na contemporaneidade somos subjetivados
pela cultura televisiva, baseada em uma forma curricular e pedagógica
específica, e que as programações televisivas ocupam
um lugar relevante, julgo imprescindível questionar tais narrativas,
investigando constantemente sua materialidade discursiva e sua produção
de sentidos, pois, como afirma Pinto (1989, p. 25), “os sujeitos
sociais não são causas, não são origem do
discurso, mas são efeitos discursivos”. A questão
não é a de diabolizar a TV, mas de compreender sua estética,
seu currículo e sua eficácia na imposição
de modelos, pois, neste exercício de endereçamento de busca
por atingir diferentes indivíduos, ela exerce uma massificação.
E, somente se cada vez mais pusermos em suspenso o currículo alternativo
midiático, estaremos nos aproximando de uma cultura realmente democrática
que nos possibilite ser os protagonistas de nossas próprias escolhas
e decisões.
Certamente, o “documento” escolhido para análise neste
ensaio possibilitará, a partir de seu “destrinchamento”,
propor novas investigações, dentre as quais, abordar a adolescência,
as representações desta, de forma diferenciada, fugindo
da concepção de adolescência esteriotipada. Nesse
sentido, as análises destes processos de significação
descortinam as relações de poder-saber que estão
imiscuídas nestes. Foi este, pois, o exercício que busquei
realizar neste texto. Contarei com esta potencialidade de ampliação
para empreender uma investigação ainda mais profunda, e
parafraseando Bakhtin pretendo que a pesquisa seja uma ponte entre mim
e os outros, movimentando diferentes saberes, permitindo pensar diferente
sobre as relações de poder e a produção de
sentidos na TV, possibilitando, inventando, reconstruindo relações
entre cultura, adolescência e TV.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ELLSWORTH, Elisabeth. Modos de endereçamento: uma
coisa de cinema uma coisa de educação também. In:
SILVA, Tomaz Tadeu da. Nunca Fomos Humanos. Belo Horizonte: Autêntica,
2001. P. 07-76.
BUCCI, Eugênio, Kehl, Maria Rita. Videologias: ensaios sobre televisão.
São Paulo: Boitempo, 2004.
CALLIGARIS, Contardo. A Adolescência. São Paulo: Publifolha,
2000.
LIÇÕES NA TELINHA. VEJA, São Paulo, nº 37, p.
73,
15 de set. 2004.
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos Meios às Mediações,
Comunicação, Cultura e Hegemonia. 2. ed. Rio de Janeiro:
Editora UFRJ, 2003.
NETO, Fausto Antonio. A deflagração do sentido: estratégias
de produção e de captura da recepção. In:
SOUSA, Mauro Wilton. (Org.). Sujeito, o lado oculto do receptor. São
Paulo: Brasiliense, 2002. P. 189-222.
PINTO, Céli Regina Jardim. Com a palavra o senhor presidente José
Sarney. Porto Alegre: UNISINOS, 1989.
RIBEIRO, Renato Janine. O afeto autoritário: televisão,
ética e democracia. Cotia; SP: Ateliê Editorial, 2004.
SANTOS, Simone Olsiesky dos. No Limite – Pedagogia e currículo
da TV: moldando a subjetividade
contemporânea. Porto Alegre; UFRGS, 2002. 131 f. Dissertação
(Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Educação,
Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, Porto Alegre, 2002.
SILVA, Tomaz Tadeu da. O currículo como fetiche: a poética
e a política do texto curricular.
Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
SILVERSTONE, Roger. Por que estudar a mídia? São Paulo:
Edições Loyola, 2002.
VALLADARES, Ricardo. Um Programa Bem Maduro. VEJA, São Paulo, p.
102-105,
05 de jan. 2005.