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UMA
VISÃO MUSICAL DE “OS SONHOS NÃO ENVELHECEM”
Liana Arrais Seródio - Colégio de
Aplicação “PIO XII” da PUC - Campinas
UMA VISÃO MUSICAL DA EDUCAÇÃO
Este é o relato da construção de“OS SONHOS
NÃO ENVELHECEM”, o quarto espetáculo musical produzido
e encenado pelo Coral Juvenil “PIO XII”, da PUC-Campinas,
que foi criado em 1996 como coro infantil e se tornou jovem junto com
seus componentes. É uma visão musical, isto é, do
ponto de vista de quem tem seu campo de atuação profissional
na Música: uma visão musical da educação.
Não uma análise estrutural ou formal, ou harmônica,
enfim, não é uma visão técnica ou teórica
especificamente musical. É a abordagem de uma professora de música
que enxerga pelo ângulo da Educação: que pensa que
a Educação trata muito mais do que dos conteúdos
de sua especialidade para atingir seus fins. Que acredita que não
basta dominar o conteúdo que se quer que o aluno se aproprie, mas
pensa que é desejável que os professores de quaisquer áreas
do conhecimento, nos diversos níveis de ensino – infantil,
fundamental, médio ou superior encontrem uma maneira de educar
que toque o aluno, como o faz a a Música, a Arte. Que o toque para
que deseje mais. Como uma criança pequena que acaba de ouvir uma
estória e diz “_...de novo!”
A ARTE DE ENSINAR SE ENTRELAÇA AO ENSINO DA ARTE.
Ser bacharel em Composição e Regência
e me dedicar à Educação me põe numa posição
muito peculiar, na qual a arte de ensinar se entrelaça ao ensino
da arte.
Numa certa fase de minhas reflexões, enquanto um novo espetáculo
era montado, “OS SONHOS...” no qual os alunos foram instigados
a imaginar o que sonhavam para si, no trajeto de suas vidas, alguns rapazes
carregavam o desejo da busca da realização através
da música, viam-se num palco, cantando para milhares de fãs,
como THE BEATLES. Eu, por minha vez, via-me atravessada por melodias,
harmonias e contrapontos, distribuindo-as para as sopranos e contraltos,
os tenores e baixos, buscando de certa forma o mesmo sucesso que eles
desejavam, isto é, que os meus arranjos tocassem a única
platéia que importava naquele instante, meus alunos/cantores Que
através de sua voz a platéia seria alcançada. Sabia
que somente a partir desta busca de qualidade artística isso era
possível, aí reside a força da música. Ao
mesmo tempo que estas reflexões tomavam conta de mim, no GEPEC
me 'encontrei' com Rancière, que havia recuperado os pensamentos
de Jacotot :
A lição emancipadora do artista, oposta
termo a termo à lição embrutecedora do professor,
é de que cada um de nós é artista, na medida em que
adota dois procedimentos: não se contentar em ser homem de um ofício,
mas de pretender fazer de todo o trabalho um meio de expressão;
não se contentar em sentir, mas buscar partilhá-lo
.
Novamente a relação entre educação e arte,
professor e artista. Só que agora trazendo conceito novo: “artista
emancipador”, “professor embrutecedor”. Para ele, o
professor explicador é embrutecedor, em oposição
ao professor emancipador, que acredita e põe-se a verificar a igualdade
das inteligências. O professor emancipador partilha, expressa seus
sentimentos, enquanto o professor explicador quer manter sua posição
de superioridade, onde é invulnerável , é intocável.
Diante destes pensamentos estava refletindo o que sou eu enquanto continuava
com o livro, quando o 'ouço' dizer que a posição
do artista é a do emancipador, (o valor da poesia de Racine)”é
empregar toda a sua potência, toda sua arte em nos mostrar seu poema
como ausência de um outro, cujo conhecimento ele nos concede o crédito
de possuir tão bem quanto ele próprio (...)”. Aí
então me lembrei de uma canção de Milton que diz:
Certas canções que ouço
Cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece
Como não fui eu que fiz(...)
e até me pareceu direito reponder:_ “Cada
um de nós é o autor das canções que nos tocam...pois
foram feitas com o nosso reflexo”. Como a arte foi objeto de estudo
formal, acadêmico, e está constantemente presente nas minhas
reflexões, senti uma sensação de que 'com isso eu
posso concordar' sem dramas de consciência. Cada pessoa que lida
com a criação artística sabe o que é procurar
no outro aquilo pelo que se é igual, com o objetivo de ter seus
mais profundos sentimentos 'telepáticamente' refletidos na sua
audiência, nos seus leitores, na sua platéia. Mesmo que o
faça sem se dar conta.
Não é esta atitude de muitos professores? Levar seu aluno
a se sentir autor de sua vida?
ALUNO TAMBÉM FAZ ARTE
Desejo, sonho que cada um de meus alunos possam experimentar
fazer música. Não penso que a técnica tenha importância
em si. O que tento é levar meus alunos a “aprender, repetir,
imitar, traduzir, decompor, recompor”, como diz Jacotot . A partir
da sua própria experiência com a música que fazem,
aprendendo, repetindo, imitando, traduzindo, compondo, recompondo, ouvindo,
tocando ou cantando, improvisando, criando, interpretando, os alunos podem
sentir e compreender a existência da Arte. “O abismo entre
o sentimento e a expressão, entre a linguagem muda da emoção
e o arbitrário da língua”, só terá chances
de ser percebido por aquele que teve acesso à compreensão
e manipulação dos códigos,(...), permitindo que a
música, ou quaisquer das Artes, sejam apreendidas, possuídas,
redirecionadas ou mesmo recriadas. E não vejo outra forma que não
passe pela experiência: “...não se aprende nada a não
ser por uma conquista ativa...” Desenvolver a sensibilidade para
a apreciação da Arte nos alunos, através, por exemplo,
do estímulo à percepção auditiva para re-conhecimento
dos padrões e dos elementos musicais que a constituem é
uma das tarefas de meu ofício para ser possível esperar,
penso eu, em interpretações e criações sensíveis
nas realizações dos alunos como as que existem nas obras
de arte. Para isto trabalho. Para isto eles trabalham.
“Isto não significa: fazer tragédias
iguais àquelas de Racine, mas empregar tanta atenção,
tanta pesquisa da arte para relatar o que sentimos e dá-lo a experimentar
aos outros, por meio do arbitrário da língua ou da resistência
de toda matéria à obra de nossas mãos.(...)
ALÉM DA MÚSICA
Penso que todo o processo de sensibilização
corporal, aquisição de habilidades, desenvolvimento técnico,
construção de conceitos, por um lado, e os exercícios
de solidariedade, reflexão social, compreensão do real valor
da disciplina, vivência lúdica do imaginário, presentes
na construção dos “SONHOS...” terão um
lugar importante na memória de cada um dos/as jovens, e na formação
de seres emancipados. Temas como as drogas, o golpe militar, o medo do
fracasso., a tortura, a morte, estiveram presentes ao lado das revoltas
estudantis, amor e flor dos sonhos e das utopias. Falar sobre tudo isso
é formar ou deformar? Que mudanças ocorrerão?
Desde “LUCAS – um espetáculo musical”, o segundo
da série de teatros musicais que foram montados no Colégio
“PIO XII”, que eu me sinto em estado de paixão pelo
processo todo, desde a concepção, passando pelo desenvolvimento,
à sua finalização em apresentações
públicas, me transformando no processo. E de uma constante pre-pós-ocupação
com a maneira de contribuir com a formação dos alunos. Me
ocupo desses pensamentos e tomo de empréstimo as palavras de Gombrowicz,
ao resumir seu livro, Ferdydurke que (1991, p.82), num ensaio de Jorge
Larrosa: cada vez que aprendemos algo, este algo nos modifica, nos forma,
ou de-forma, deformação que sentimos como mudança:
“(...)se a Forma nos de-forma, portanto (...) ser eu mesmo (...)
é a primeira obrigação moral”, porém(...),
como “ignoro qual é minha forma (...), fico sómente
com a certeza que sofro quando me deformam. Assim, pelo menos sei o que
não sou. Meu “eu” não é senão
uma vontade de ser eu mesmo”. 1991, p.82- citado em Educ. Soc.,
Campinas, vol 24, n. 82, p.294, abril 2003
Nos de-formamos, penso mesmo que ficamos, os participantes
do processo destes anos de montagem destes espetáculos que estou
a falar, todos assim, meio transversais. As diversas incursões
da Música, da Poesia e do Teatro na História, na Sociologia,
na Economia, nas Ciências, na Política, na Química,
na Gramática, etc., mostraram como a vida pode ser: complexa. E
a vivemos sem ter aulas prá isso. Simplesmente. Sinto que podemos
faze-la ainda mais simples em sua complexidade, e mais rica em emoções
e sentidos ao contagiarmos outros, criando outras relações
culturais . A experiência de trabalhar em conjunto com todo o segmento
do Ensino Fundamental I por dois anos consecutivos, podendo ver o envolvimento
e o desejo de participar do processo aumentado de um ano para o outro
me trouxe mais trans-formação.
QUERO MAIS
Este caminho, o processo de construção
espetáculos musicais trouxe um 'gosto de quero mais'. Depois do
primeiro, foram produzidos no Colégio mais seis: quatro pelo grupo
Coral Juvenil; dois pelo segmento do Ensino Fundamental I em grandes projetos
multidisciplinares. Em todos eles a Aldiane Dala Costa cuidava da parte
cênica e eu da musical, ora compondo, ora regendo, ora arranjando.
E cada um dos participantes somava com as suas habilidades e idéias
às de todos os outros.
Durante cada um deles o processo se enriquecia com os saberes adquiridos
das experiências anteriores e pelas surpresas das novas, da criação
à finalização. Em ordem cronológica, para
avaliar provisoriamente as marcas deixadas:
1.2001 – “SALTIMBANCOS”, Chico Buarque de Holanda ,
Enriquez e Bardotti, envolveu um grupo instrumental com violão,
contrabaixo, violinos e violas, flautas doces sopranos e contralto, o
Coral Juvenil e o Coral Infantil. Um grupo de alunas encenou os personagens,
ainda sem a Aldiane , que não trabalhava no Colégio.
2.2002 – “LUCAS – um espetáculo musical”
– O “LUCAS” foi criado a partir da letra de uma música
de Geraldo Azevedo em 2002 e já foi trazido para a socialização
numa sala de comunicações do Seminário organizado
pelo GEPEC – UNICAMP, “Outras palavras na escola”.
Naquele momento eu vim contar o meu sentimento a respeito da importância
dos saberes produzidos no processo da experiência. Já havia
lido o texto de Jorge Larrosa a esse respeito e ainda hoje dialogo com
ele, que faz um trajeto a partir dos signifcados da palavra em alguns
países e nos traz uma visão que gostaria de partilhar com
vocês para que meus próprios sentimentos possam ser resgatados,
traduzidos:
A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que
nos toca. Não o que se passa, o que acontece, o que toca. A cada
dia se passam muitas coisas porém, ao mesmo tempo, quase nada nos
acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para
que nada nos aconteça. (...) Nunca se passaram tantas coisas, mas
a experiência é cada vez mais rara. Em primeiro lugar pelo
excesso de informação. A informação não
é experiência. E mais, a informação não
deixa lugar para a experiência, ela é quase o contrário
da experiência, quase uma anti-experiência
e ainda:
A experiência, a possibilidade que que algo nos
aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção,
um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer
parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar,
olhar mais devagar, e escutar mais devagar, parar para sentir, sentir
mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender
o juizo, suspender a vontade, suspender o automatismo de ação,
cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos,
falar sobre o que nos aconteçe, aprender a lentidão, escutar
aos outros cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência
e dar-se tempo e espaço (Larrosa, 2001, Leituras SME, n.04)
Quando falo de experiência digo, com as palavras de Larrosa, “dar
sentido ao que somos e ao que nos acontece”. Permitindo a trans-formação,
através do desenvolvimento das potencialidades de humanos que somos.
O roteiro foi criado pelo Coral Juvenil e tem canções de
diversos autores, como Geraldo Azevedo (LUCAS), Paulo Tatit e Edidth Derdyk
(TRILHARES), Chico Buarque (BREJO DA CRUZ), canções dos
índios Juruna de Matogrosso do Norte (JU PARANA) e dos Suruí
de Rondonia (MEKÔ MEREWÁ), de uma belíssima peça
da renascença espanhola, feita entre os séculos XIII e XIV
(MARIAM MATREM), e mais, todas sem acompanhamento instrumental e com apoio
cênico da Aldiane no último terço do processo. Esta
época marcou o início de dedicação à
minha produção de arranjos corais. Muitos aprendizados...
3.2003 – “MENINO DE OLHO-D'ÁGUA” de José
Paulo Paes e Rubens Matuck, foi um projeto coletivo de todo o EFI, encenado
por cinco crianças da quarta série, com acompanhamento instrumental
(ORFF ) das segundas e quartas séries, com expressão corporal
das primeiras e terceiras séries e canto do Coral Infantil, sob
minha regência. Falo sobre a regência neste momento porque
nos espetáculos Juvenis, não havia regente. Vários
poemas foram musicados e instrumentados por mim. Marcou o começo
de minhas viagens na Composição Musical para a Educação
Musical.
4.2003 – “MORTE E VIDA SEVERINA” – adaptação
do livro de João Cabral de Melo Neto, foi sugestão da professora
de literatura do Colégio. A peça foi quase toda sem acompanhamento
instrumental. Quando surgiu um violão foi para fazer parte da cena
onde aparece uma forma musical presente no Nordeste, o Repente. Usamos
algumas músicas do Chico Buarque compostas para a montagem da década
de sessenta, e outras que julgamos apropriadas, camo Tim Maia (SOSSEGO),
Dorival Caymmi (PESCARIA). Usamos arranjos meus, mas a maioria deles era
de outros arranjadores.
5.2004 – “CANTARIM DE CANTARÁ”, livro de Silvia
Orthoff , adaptado pelo coletivo dos participantes. Este ano, os alunos
da quarta série que quiseram vir para os ensaios das cenas trabalharam
com professores e com a Orientadora Educacional. Todos ensaiaram e se
comprometeram a cantar, dançar, representar, tocar com o mesmo
envolvimento e as mesmas responsabilidades. Foi uma experiência
muito rica. Todas as músicas foram compostas especialmente por
mim. Tinha professora cantora, a solista Pomba Anna-Rola, professora Nádia
no violão, orientadora Cláudia Pássaro-Sol, professor
João-Urubu, Professora Ana Maria-Corifeu e a crianças Borboleta
Azul, Bem-te-vi, Sábia, a Lua, o Pássaro-Fogo, todos em
relação de igualdade, dividindo o espaço e multiplicando
as idéias e propostas.. Mais uma vez, as canções
tiveram que ser compostas com uma função: a de favorecer
o aprendizado confirmando a sensação de capacidade musical.
6.2004 – “OS SONHOS NÃO ENVELHECEM – Histórias
do Clube da Esquina”, é o nome de um livro, no qual
“Milton Nascimento é o personagem central
deste maravilhoso depoimento de Márcio Borges, primeiro parceiro
de Milton. Como num filme delicado e arrebatador, ele reconstrói
com paixão a história do país nos último trinta
anos, a partir das lembranças dos meninos que um dia se encantaram
com a música.(contracapa do livro).
Antes de ser nome de livro, “OS SONHOS...” foi verso de Márcio
e Lô Borges.na canção do Milton.
Um tempo
depois se disse que “o sonho acabou”. Lembram-se de John Lennon?
Por isso mesmo, em 2004, ano que completava 40 anos aquilo que alguns
chamam de revolução, outros de golpe, eu sonhei em recordar
aqueles tempos ao lado dos jovens do Coral Juvenil “PIO XII”
e propor uma reflexão: quais os sonhos dos jovens de hoje?
Contagiei primeiro a Aldiane, quem partilharia comigo cada momento de
ensaio e de trabalho, na escola e nas muitas reuniões onde e quando
fosse preciso, para que fizéssemos um caminho ao lado de qual se
formaria o corpo e a alma do espetáculo: os alunos/personagens/cantores.
Peço que observem, leitores, que este corpo e esta alma se formaria
ao lado de nosso trabalho, de nosso olhar, de nossa escuta, de nossa busca,
de nossos próprios sonhos, mas não por nossas mãos
e olhos e ouvidos e sonhos. Cada um dos meninos e meninas que atuaram
foram constantemente convidados a refletir sobre as dificuldades que enfrentaram
os jovens entre 1960/80 para perseguirem seus sonhos. Quais seriam as
que estão presentes nos jovens de hoje? Quando escolhemos “OS
SONHOS” para falar neste Congresso foi pela riqueza de idéias,
sugestões, provocações e inspirações
que este tema e seu processo de desenvolvimento provocou.
Tanto no campo teatral como no musical e no literário, trabalhando
com as belíssimas melodias e harmonias e as suas letras feitas
pelos rapazes do Clube da Esquina, também no campo das relações
humanas, nas encenações e interpretaões dos jogos
amorosos da juventude, da utopia da igualdade social, do fervilhar das
paixões pela liberdade democrática abafada pela Ditadura
Militar, mesclados aos conflitos dos alunos nos ensaios, atores/cantores
adolescentes pensando a liberdade, a responsabilidade, o respeito pelo
outro e pelo projeto do grupo, instigados a refletir sobre seus próprios
sonhos.
A ebulição de sentimentos, de emoções, o processo
de construção do espetáculo fez uma das meninas,
com 11 anos na época, fez esta poesia para mostrar o que sentia:
Sem Título
Talita
Outubro de 2004
Talvez eu
não saiba o rumo,
Talvez eu não queira ser quem sou,
Talvez os meus olhos não enxergam
O que quero ver.
Talvez eu não siga a direção certa,
Mas para onde eu vou?
Nem sequer eu mesma sei!
Chorar adianta alguma coisa?
As lágrimas caem,
Deixam a marca no rosto...
E se esconder, adianta?
Andar sem os pés,
Segurar sem as mãos...
E se culpar, será?
Amar sem querer,
Brigar em vão...
E lutar?
Conseguir chegar,
Objetivos alcançar,
Sonhos, acordar.
Nunca desistir,
Nunca dizer nunca,
Não derramar a água dos sonhos.
Não esquecer a força dos ventos,
Mesmo se embora for...
Não dizer
Adeus.
Durante
todo o processo de construção do espetáculo, através
das experiências vividas , vários saberes se formaram. Já
citei entre os que passaram a me consttituir, a composição
'educacional', a confecção dos arranjos . Eu já tinha
vivido a necessidade de fazer arranjos para coral com data marcada, mas
dessa vez tive que enfrentar a possibilidadede de que todos acabassem
com características semelhantes por serem feitos quase que simultaneamente.
Foi um grande exercício de criatividade e mais um desafio.
7.2005 – “SALTIMBANCOS” – versão para Coral
Juvenil. O pessoal do Coral Juvenil se permitiu brincar e se divertir.
Estreiamos na última semana, dia 30 de junho. Alguns deles já
estão improvisando suas falas e expressões corporais durante
as cenas no momento da apresentação! E eu estou aprendendo
a intervir cada vez menos. Fui uma pessoa formada toda a vida sob a bem
intencionada tutela de excelentes mestres explicadores e muitas vezes,
quando estou no lugar de professora, o modelo do explicador volta e me
envolve como uma pele. Porém como venho me de-formando em minhas
buscas, provocando novas emoções, alterando conceitos e
permitindo encontrar outros sentidos e significados a tal pele nem sempre
acompanha a nova forma, me deixando em paz. Este último espetáculo
me fez sentir esta possibilidade. Tornou concreto outro conceito: o do
mestre emancipador.
PARA (NÃO)
TERMINAR
A letra
desta música de Lô Borges e Milton Nascimento foi feita por
Marcio Borges por insistência da Nana Caymmi Ela é cantora
e queria gravá-la, ... “ e sem letra não dá,
né?” A música foi feita para ser instrumental, então
ninguém conseguiu convencer os dois compositores a colocar letra.
Foi feita à revelia. Só depois é o Bituca, isto é,
o Milton e o Lô “se renderam a evidência: CLUBE DA ESQUINA
2 tinha letra:
Porque se
chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem lembra
se olhou prá trás
Ao primeiro passo, aço, aço, aço,...
Porque se
chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a
tantos gases
Lacrimogeneos ficam calmos, calmos, calmos,...
E lá
se vai mais um dia...
E basta contar
compasso
E basta contar consigo
Que a chama não tem pavio
De tudo se
faz canção e coração
Na curva de um rio, rio, rio,...
Um rio de
asfalto e gente
Entorna pela ladeira
Entope meio fio
Esquina mais
de um milhão
Quero ver então a gente, a gente, a gente,...
E esta letra
traz a essência dos sentimentos que permearam minha vida durante
e depois d'OS SONHOS.
BILBIOGRAFIA
BORGES, Márcio,
Os sonhos não envelhecem- histórias do clube da esquina,
2002, Geração Editorial.
MATURANA, Humberto, Emoções e linguagem na educação
e na política, 2001, Editora UFMG
MATURANA, Humberto e VERDEN-ZÓLLER, Gerda, Amar e Brincar –
fundamentos esquecidos do humano, 2004, Editora Palas Athena
RANCIÈRE, Jacques, O mestre ignorante – cinco lições
sobre a emancipação intelectual
RANCIÈRE, Jacques, Pedagogía y fariseísmo: sobre
la elevación y el rebajamiento en Gombrowicz, Educ.
Soc.Campinas, n.82, p. 289-298, abril 2003, CEDES EDITORA |
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