Gloria Maria Anselmo de Souza-(Fundação
Municipal de Educação de Niterói/RJ)
“O projeto de vida dos jovens negros só será
viável dentro de uma política educacional que reconheça
a formação étnica deste país e valorize os
padrões culturais das etnias.”
(Raquel de Oliveira)
O presente artigo, fruto de questionamentos antigos e
diversos, pretende problematizar os encaminhamentos necessários
à prática educativa frente às exigências advindas
da inclusão étnico-racial, incorporada em forma de obrigatoriedade
ao cenário educacional brasileiro neste início de século.
Pensado em três momentos, o texto discute, inicialmente, algumas
abordagens presentes nos textos legais e suas implicações
no contexto social brasileiro, tomando como referência aspectos
históricos do passado e do presente. No segundo momento, debruça-se
sobre as possíveis alternativas para a materialização
das orientações legais, apontando como um dos caminhos o
investimento na formação continuada de professores particularmente,
no que diz respeito o investimento no gosto-compromisso com a leitura
e na pesquisa, como alternativas para a ampliação de saberes
e conhecimentos acerca da questão. Finalmente são apresentados
alguns materiais de leitura, em seu sentido mais diverso, como possibilidade
de argumentos que abrem caminhos para indagações, discussões
e aprendizagens de alunos, professores e comunidades.
A promulgação da lei 10.639, em 09 de janeiro de 2003 e
das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das
Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História
e Cultura Afro-Brasileira e Africana no Ensino Fundamental e Médio,
impõe aos diferentes sistemas de ensino mais uma tarefa, além
daquelas inerentes às suas atribuições: a devida
formação dos profissionais da educação para
a abordagem e tratamento didático dessa questão dentro dos
currículos escolares. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional n.º 9.394/96, desde a sua aprovação, já
apontava nessa direção. Em seu artigo n.º 26, parágrafo
4º, determinava que o ensino de História deveria levar “em
conta as contribuições das diferentes culturas e etnias
para a formação do povo brasileiro, especialmente as matrizes
indígena, africana e européia”, não explicitando
porém, na redação desse artigo quais encaminhamentos
seriam adotados para que tal orientação se concretizasse
no cotidiano escolar.
A exigência de reconhecimento, valorização e respeito
à cultura negra e aos seus descendentes embora fosse parte de uma
luta que atravessou a segunda metade do século XX não era
uma prerrogativa de discussão legal até 2003. Na verdade,
essa busca data ainda do período da escravidão, no Brasil
Colônia, incorporada nos movimentos de resistência dos africanos
e afro-brasileiros escravizados e libertos, em parceria com outros de
origem européia, mas também indignados com a violência
da escravização de pessoas. Ao longo da história
do Brasil, de diversas formas e em diferentes momentos, estes coletivos
articularam táticas (Certeau, 1994) para enfrentamento dos processos
de exploração violenta, preconceito e racismo, em busca
do direito à liberdade e conquista de condições dignas
de vida, apesar dos três séculos de escravidão brasileira.
A assinatura da Lei Áurea, em 1888, pouco contribuiu para mudança
do cenário de exclusão social e racial vivenciada pelos
escravos recém-libertos. Ao contrário, criou uma situação
tão complexa quanto a escravidão. A população
negra e afrodescendente, sem a “tutela” de seus senhores e
despojados de condições materiais e financeiras para reconstruir
autonomamente a própria vida, com raras exceções,
viu-se obrigada a viver em situação de miserabilidade e
indigência pelas ruas ou em habitações precárias,
edificadas nos morros, ao redor dos centros urbanos. Assim foi e ainda
é. Como exemplo, basta olharmos as cidade do Rio de Janeiro, de
São Paulo e municípios circunvizinhos para constatar tal
situação. “O Brasil Colônia, Império
e República, teve historicamente, no aspecto legal, uma postura
ativa e permissiva diante da discriminação do
racismo que atinge a população afrodescendente até
hoje” (Brasil, 2004:07). Desqualificação, preconceito,
silenciamento, falta de oportunidades e exclusão social, representaram
e ainda representam, de forma explícita e dissimulada, a tentativa
de apagamento da memória, da história, da cultura e das
tradições dos africanos e afro-brasileiros.
O século XX não apresentou um cenário
mais favorável aos afrodescendentes. Apesar do crescimento econômico,
político e cultural que invadiu o país, a situação
da população negra pouco avançou. Subempregos, salários
miseráveis, analfabetismo, inviabilidade de ascensão social
dentre outras, são algumas das marcas evidentes do modelo de desenvolvimento
excludente brasileiro que perpassa a história da negritude. Dados
estatísticos recentes, apresentados nas Diretrizes Curriculares
denunciam que:
pessoas negras têm menor número de anos de
estudos do que pessoas brancas (4,2 anos para negros e 6,2 anos para brancos);
na faixa etária de 14 a 15 anos, o índice de pessoas negras
não alfabetizadas é 12% maior do que o de pessoas brancas
na mesma situação; cerca de 15% das crianças brancas
entre 10 e 14 anos encontram-se no mercado de trabalho, enquanto 40,5
das crianças negras, na mesma faixa etária, não vivem
essa situação.” (Brasil, 2004:09)
Esse quadro, embora desolador, indica a necessidade de
resistência, de lutas e enfrentamentos em nosso país. Não
que elas e não existam, ao contrário, estão vivas
presentes na trajetória do nosso país, como por exemplo
os movimentos sociais organizados, materializados nas iniciativas e reivindicações
do Movimento Negro Brasileiro que, ao longo do século passado fizeram
sobressair ainda mais a necessidade de formulação de políticas
e “projetos empenhados na valorização da história
e cultura dos afro-brasileiros e africanos, assim como comprometidos com
a educação de relações étnico-raciais
positivas, a que tais conteúdos devem conduzir” (Brasil,
2004:09).
Este breve histórico tem como finalidade recuperar um pouco do
contexto histórico nesses 500 anos de história, bem como
levantar algumas questões em torno de um assunto tão delicado
que adentra o currículo escolar do Ensino Fundamental e Médio,
também diz respeito à sociedade enquanto um todo (sistemas
e estabelecimentos de ensino, profissionais da educação,
alunos familiares e todos os cidadãos comprometidos com a educação
dos brasileiros). Como abordar este assunto complexo, multifacetado e
praticamente intocado no cotidiano escolar, se tomarmos como referência
as discussões presentes na grande maioria documentos curriculares
oficiais e livros didáticos produzidos até então?
Como se sentem os/as alunos/as afro-brasileiros e aqueles remanescentes
das comunidades quilombolas diante do preconceito, do racismo e da exclusão
social que apaga paulatinamente os sonhos e as oportunidades de crianças,
adolescentes e jovens, aproximando-os quase sempre da marginalidade? Como
enfrentar a luta contra o tráfico de drogas, sempre a postos para
arrebanhá-los a seu serviço? O que sabem os/as professores/as
da Educação Básica não consultados/as durante
a elaboração das diretrizes norteadoras da discussão
sobre as questões étnico-raciais e o que pensam sobre sua
inclusão no currículo escolar? Que condições
se fazem necessárias para que essa discussão ganhe visibilidade
no cenário educacional, incorporando aos diversos fazeres organizados
no cotidiano das escolas?
As Diretrizes Curriculares defendem que as políticas de reparação
voltadas para a educação dos negros devem oferecer a essa
população garantia de ingresso, permanência e sucesso
na educação escolar.É justa essa reivindicação,
se atentarmos para o fato de que a grande maioria dos/as alunos/as negros
e afro-brasileiros abandonam os estudos antes do tempo estabelecido legalmente,
pelas mais variadas razões que não cabe levantar nos limites
deste trabalho. O mesmo documento reporta-se ainda à necessidade
de valorização do patrimônio histórico cultural
afro-brasileiro, à aquisição de competências
e de conhecimentos tidos como indispensáveis para a continuidade
nos estudos, às condições exigidas para alcançar
todos os requisitos tendo em vista a conclusão de cada um dos níveis
de ensino, questionamentos com os quais concordamos plenamente, acrescentando
ainda a importância de colocar como horizonte a formação
em nível superior para aquelas carreiras tidas como mais nobres
(medicina, engenharia, computação e outras) dos quais os/as
jovens afro-brasileiros têm sido sistematicamente alijados do direito
de inserção nesses espaços formativos. Por outro
lado,
à guisa de curiosidade, se considerarmos as abordagens teórico-metodológicas
e pedagógicas adotadas nos currículos da Educação
Básica, inclusive nos cursos de formação inicial,
em relação aos conhecimentos sobre a história do
Brasil, com especial destaque para as questões étnico-raciais
e para os processos de escravismo criminoso, ou ainda sobre a trajetória
dos africanos e seus descendentes em nosso país, fica mais fácil
compreendermos as atitudes da maioria dos/as professores/as, em seu primeiro
contato com a notícia e com o texto da legislação:
o que fazer? Não sabemos por onde começar!
Esta política, ainda segundo as diretrizes do MEC, implica justiça
e iguais direitos sociais, civis, culturais, econômicos, bem como
valorização da diversidade que compõe a população
brasileira. Uma postura comprometida com tais questões, exige mudanças
dos discursos, das lógicas, dos gestos e dos modos de tratar as
pessoas negras e mestiças. Requer o resgate da história,
da maneira mais fidedigna possível, exige também um questionamento
sobre as relações étnico-raciais baseadas em preconceitos
que desqualificam e salientam estereótipos, palavras e atitudes
depreciativos dissimulada ou explicitamente. Reconhecer, requer valorização,
respeito às pessoas negras e mestiças, à sua ascendência
africana, sua cultura e sua história. Essas são algumas
das determinações que orientam o cumprimento das legislações
em vigor.
Os estabelecimentos de ensino e seus profissionais vêem-se assim
diante do desafio de organizar projetos pedagógicos, planos e posturas
compatíveis com essa diretriz. Mas como? O que fazer? O que dizer
à comunidade escolar se a maioria desses profissionais sente dificuldades
para encaminhar essa discussão. A título ilustrativo, recuperamos
um ensaio de pesquisa iniciado em 2004, realizado com professores/as da
rede pública estadual do estado do Rio de Janeiro e da rede municipal
de São Gonçalo/RJ . Durante um período de quatro
meses, conversamos com cerca de trinta professores/as regentes das séries
iniciais sobre a legislação recém aprovada, procurando
compreender como encaravam a determinação legal. Das entrevistadas,
cinco eram negras, as demais, podem ser consideradas mestiças ou
brancas, tomando como referência as categorias estabelecidas pelo
IBGE para organização do censo. Dentre elas, apenas duas
demonstraram preocupação anterior à legislação
com a questão. As demais se posicionaram diferentemente. Algumas
alegaram ser desnecessária tal abordagem, ressaltando o risco de
acentuação dos preconceitos entre as crianças. Outras,
sequer concordaram em tocar no assunto. Finalmente, o último grupo,
composto por cerca de quinze entrevistadas, demonstrou interesse e preocupação
com o assunto, mas alegavam não possuir ferramentas pedagógicas
ou conhecimentos necessários para encaminhar o trabalho com seus/as
alunos/as. Este movimento informal de pesquisa aponta aspectos que precisam
ser considerados.
Primeiramente, fica evidente a nossa dificuldade de relacionamento com
a questão. Preconceito. Medo. Desconhecimento são sentimentos
que não podem ser desconsiderados, principalmente em função
das identidades e complexidades envolvidas. Para muitas pessoas, a diversidade
impõe desafios, insegurança, confrontos pouco confortáveis.
Reconhecê-las, como afirma Nilma Lino Gomes (1999:03) implica antes
de tudo ter de “romper com preconceitos, superar velhas opiniões
formadas se reflexão, sem o menor contato com a realidade do outro”.
Em segundo lugar, somos vítimas do desconhecimento. Maciçamente
não sabemos por onde começar. Educados/as que fomos a partir
de uma perspectiva eurocêntrica de conceber as relações,
nossa argumentação tornou-se frágil e superficial
frente a tais exigências. Não estamos tratando aqui de culpabilizar
professores/ras, mas de denunciar uma lógica perversa de ocultação
dos outros aspectos e fatores que constituíram a história
de nosso país. Sua marca está presente na organização
escolar e dos currículos que orientaram a educação
brasileira, privilegiando a história oficial, contada a partir
de uma única forma de abordagem. Um modelo hegemônico de
conhecimento pautado exclusivamente nas narrativas do dominador europeu
que inviabilizou a construção de uma mentalidade articulada
com a diversidade humana e cultural brasileira desconsiderando os diferentes
e múltiplos Brasis em que vivemos.
Repensar na formação de professores, seja ela inicial ou
continuada releva que não podemos deixar de considerar ainda alguns
aspectos apontados nas Diretrizes Curriculares. A primeira delas relaciona-se
à complexidade que envolve o processo de construção
da identidade negra em nosso país, “marcada por uma sociedade
que, para discriminar os negros, utiliza-se tanto da desvalorização
da cultura de matriz africana, como dos aspectos físicos herdados
de seus ascendentes” (Brasil, 2004:15). Em seguida, faz-se necessário
esclarecer que ser negro, no Brasil, não se limita às características
físicas, trata-se antes de tudo, de uma postura política
de assim assumir-se. Outro equívoco a ser superado é a afirmação
de que os negros se discriminam entre si e que são racistas também.
Tal engano subjaz às políticas pós-abolicionistas
voltadas para o branqueamento da população, pela eliminação
simbólica e material dos negros/as brasileiros durante todo o século
XX. Influenciados/as pela força discursiva de tais premissas, é
possível que a ideologia presente nas entrelinhas dessas afirmações
contribuíram e ainda contribuem para que os negros reproduzam o
preconceito racial do qual são vítimas. A escola e se/as
professores/as têm uma grande responsabilidade em assegurar não
só o direito a educação, mas também se posicionarem
politicamente contra toda e qualquer forma de discriminação
e preconceito. Diante deste quadro, torna-se necessário pensar
alternativas educativas e pedagógicas que possam, contribuir para
a transformação dos sistemas de ensino no enfrentamento
dessas questões.
As orientações expressas na Lei 10.639/03 e nas Diretrizes
Curriculares apresentam um conjunto de propostas que podem esclarecer
dúvidas e apontar caminhos. Nossa curiosidade e inventividade individuais
e coletivas são também ferramentas potentes.
É evidente também que tais mudanças não se
concretizarão rápida e magicamente. Há um investimento
individual e coletivo a ser feito. Temos como desafio crenças,
valores e concepções enraizados, frutos de uma cultura de
exclusão e racismo que data de longo tempo. Pretender outras mentalidades
implicará em esforço investigação, convencimento
e sensibilização dos atores sociais que integram tal cenário.
Neste caso em particular, os profissionais da Educação Básica
(professores, coordenadores, diretores e demais funcionários, alunos
e responsáveis), sujeitos co-participes desse processo. Embora
os documentos legais mencionem, na maioria das vezes, o Ensino Fundamental
e Médio, consideramos pertinente que a Educação Infantil
esteja também envolvida em igual patamar de importância.
Estudos do campo da Psicologia apontam para o fato de que a construção
da identidade inicia-se na primeira infância, razão pela
qual clamamos pelo investimento em políticas e ações
afirmativas a favor de uma auto-imagem positiva e valorizada desde os
primeiros anos de vida, fundadas em representações respeitosas
de todos/as independentemente de sua condição social, religiosidade,
opção sexual ou etnia. Para nós, o que está
em jogo é o acolhimento das diferenças de forma justa e
coerente, sem pieguices ou romantismo inconseqüente, com destaque
para a valorização da diversidade cultural brasileira, cabendo
à escola proporcionar a todos/as os/as alunos/as situações
de aprendizagem que favoreçam tais questões. Desse modo,
temos de concordar com Nilma Lino Gomes, quando a firma que:
uma visão e uma prática pedagógica
que enxergue o outro nas suas semelhanças e diferenças não
condiz com práticas discriminatórias e nem com a crença
em um único padrão de comportamento, de ritmo, de aprendizagem
e de experiência. A idéia de padronização dá
margem ao entendimento das diferenças como desvio, patologia, anormalidade,
deficiência, defasagem, desigualdade. O trato desigual das diferenças
produz práticas intolerantes, arrogantes e autoritárias.
(Gomes, 1999:03)
Lamentavelmente, sejam talvez, essas as razões
que justifiquem os índices de evasão, repetência,
analfabetismo e marginalidade que ronda a vida dos afro-brasileiros. Sujeitos
que, em maioria, ainda não conseguiram enfrentar e superar o preconceito
e a exclusão que assolam sobremaneira suas trajetórias pessoais.
Um dos primeiros passos indispensáveis à materialização
dos preceitos legais não seria, então, um sólido
investimento na formação continuada de professores/as? Defendemos
que este espaço formativo aponta para a necessidade de mobilização
de saberes, conhecimentos, recursos materiais e financeiros destinados
ao desocultamento histórico que nos cerceou por séculos,
para a problematização e enfrentamento de atitudes preconceituosas
e racistas, além da ampliação de nosso universo cultural
sobre a história da África e dos africanos, antes do início
do processo de escravismo criminoso. De nossa parte, enquanto sujeitos
históricos que aprendem enquanto ensinam (Freire, 1996), cabe-nos
assumir um movimento de auto-observação e auto-reflexão
sobre nossas posturas, nossos valores e concepções, a fim
de avançarmos a partir de nossas histórias de vida e de
profissão.
Nós profissionais da educação, somos profissionais
da cultura e não de um único padrão de aluno, currículo,
de conteúdo, de práticas pedagógicas, de atividades
escolares. Somos diferentes em raça/etnia, nacionalidade, sexo,
idade, gênero, crenças, classe. Tudo está presente
na relação professor/aluno/a e entre os próprios
educadores. Nesse sentido, a reflexão sobre a diversidade cultural
nos conduz a um repensar do papel do professor/a. (Gomes, 1999:4)
O processo de formação continuada, articulado
pelos diferentes sistemas de ensino, implicaria em organizar um conjunto
de ações diversificadas que permitisse aos profissionais
uma aproximação com o assunto a partir de uma visão
crítico-reflexiva, visando a construção de conhecimentos
sobre a questão, a fim de fomentar uma rede de informações
e conhecimentos a serem compartilhados e problematizados com os/as alunos/as.
Tais situações teriam como arcabouço um intenso envolvimento
com a leitura em suas inúmeras e diversas possibilidades. Reafirmamos
assim, a importância de projetos de trabalho e de leitura, tanto
para professores, quanto para alunos sobre as diferentes abordagens que
permeiam o tema, como uma das alternativas para ampliar os limites restritos
dos conhecimentos sobre a questão étnico-racial brasileira
em nossa realidade educacional.
Uma das iniciativas possíveis que se apresenta, seria procurar
despertar nos/as professores/as a curiosidade, a sensibilidade e o gosto
pela leitura principalmente, naqueles/as que ainda a ela resistem. Um
movimento de busca de conhecimento implica necessariamente em investimento
pessoal de pesquisa. Importante também que eles/as sejam capazes
de avaliar criticamente situações/informações,
problematizando-as, para articular passado/presente como forma de ressignificar
processos históricos, discutir problemas atuais, na tentativa de
compreender os sutis fios que tecem a trama da história da negritude
brasileira. Desta forma, Rocco (1999) sinaliza a necessidade de compreendermos
e apresentarmos os projetos como alternativa para “pulverizar equívocos
cristalizados pela aceitação não refletida de pré-conceitos
do senso comum, sempre repetidos com exaustão” (p. 113),
ou como nos ditos populares a saber: (negro, quando não suja na
entrada, suja na saída; Ah! Eu sabia. Só podia ser coisa
de negro; preto também é filho de Deus; Ele é um
preto de alma branca e tantas outras máximas que não caberiam
nos reservados limites deste texto).
Durante muito tempo, as produções ligadas à questão
étnico-racial e à diversidade cultural pouco circularam
na mídia e nas ofertas literárias em geral. Atualmente,
estamos diante de um cenário em mudança. Já é
possível identificar uma certa riqueza de materiais que podem informar,
esclarecer e problematizar o assunto. São diferentes tipos e gêneros
textuais que tratam da questão de forma inteligente e refinada.
Livros e textos acadêmicos, exposições, literatura
infanto-juvenil, sites na internet, músicas em CD’s, artigos
de jornais e revistas, exposições de arte, filmes, revistas
pedagógicas, textos legais e muito outros materiais que permitem
uma aproximação interessante e crítica do assunto,
proporcionando aos leitores/as um olhar/sentir diferenciado sobre as relações
raciais no cotidiano escolar e na vida.
Uma leitura fundamental para a orientação dos/as professores/as
é do documento de Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação
das Relações Étnico-Raciais e para o ensino de História
e Cultura Afro-Brasileira, de 10/03/2004, o material contém ainda
os textos da Lei 10.639/03 e da Resolução n.º 1, do
CNE/CP/DF de 17/06/2004. Tais referências informam e esclarecem
sobre a construção dos princípios legais, bem como
de suas finalidades. Apresentam os encaminhamentos necessários,
permitindo ao/à leitor/a apropriar-se de conhecimentos fundamentais
à atuação docente e social. Os interessados em conhecer
um pouco da história da África e recuperar questões
importantes sobre os processos do escravismo criminoso, podem acessar
a pelo menos três fontes valiosas; o filme Amstard, produzido pelo
cineasta Steven Spielberg; Agbalá - um lugar-continente, trata-se
de um clássico da literatura infanto-juvenil e Agadá, título
da literatura acadêmica. Todos, respeitando suas diferentes características,
apresentam aspectos significativos da odisséia africana, descrevendo
suas lutas, suas tradições, valores, enfim suas culturas
de lá e daqui. Aproximar-se de tais leituras, permite um passeio
pelas épocas mais remotas, até os dias atuais. Outro material
importante de ser pesquisado são as revistas Nossa História,
edição de maio/2005 e Revista do Professor em diferentes
dições. Estes materiais reúnem artigos muito interessantes
sobre a história da escravidão no Brasil além de
outros relacionados a fatos históricos importantes que marcaram
a trajetória desse país e ao tratamento pedagógico
da questão na sala de aula. O Araketu, o Rappa o Ilê Ayê
e outros grupos musicais possuem composições e gravações
que se mostram excelentes materiais de leitura e discussão sobre
as relações raciais e a luta que marca a trajetória
dos negros africanos e afro-brasileiros. Além desses, existe hoje,
no mercado editorial, um acervo considerável que pode contribuir
de forma muito significativa para ampliação de nossos saberes
e conhecimentos.
O movimento necessário não pode ser unilateral. Não
basta que os/as professores/as isoladamente se debrucem sobre esse movimento.
Tal isolamento acarretaria no risco de consolidação de estereótipos
e preconceitos. Faz-se necessária uma ação coletiva,
onde pontos de vista sejam confrontados, idéias problematizadas
tornando possível sempre um outro e diferenciado olhar/sentir sobre
a mesma questão. Precisamos de pontos de vista diferentes a fim
de alargarmos nossa compreensão, afirmarmos os discursos, compreendendo
que respeito, acolhimento, diálogo, confrontos de idéias
e conhecimento são fundamentais.
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