Leizy Regina Fracasso Stefano (PG/UEM - CESUMAR)
REQUISITOS NECESSÁRIOS À REALIZAÇÃO
DE UMA PESQUISA
O QUESTIONAMENTO
A pesquisa traz, no primeiro momento de sua realização,
um sentimento de insegurança devido à incerteza dos rumos
que ela pode tomar; mas, aos poucos, professor e aluno vão construindo
sua autonomia na medida em que vêem com clareza o desenrolar da
descoberta. Embora pareça contraditório, na opinião
de Frison (2002, p.153), é na autonomia e na insegurança
que “está a essência: fazer, refazer como ato de aprendizagem
e crescimento”. O caminho é traçado e construído
de acordo com o desenvolvimento da própria pesquisa, no decorrer
do processo.
A desenvoltura da prática de pesquisa é adquirida de forma
gradativa, conforme o ritmo e a produtividade de cada grupo ou indivíduo.
“Um trabalho totalmente dirigido e planejado de antemão parece
comunicar mais segurança.” (MORAES, 2002, p. 231), mas a
pesquisa é uma atividade que pode tomar uma direção
diferente daquela inicialmente colocada no projeto, pois não se
sabe com certeza qual o direcionamento que as leituras e reflexões
irão tomar. Isso nos leva a uma questão importante: os momentos
da pesquisa são entremeados pela insegurança, pela necessidade
de optar, tomar decisões e realizar, ao longo do processo, ações
que não puderam ser planejadas anteriormente.
A essência da pesquisa é, então, uma combinação
de planejamento prévio e improvisação. Planejar,
de forma flexível, e improvisar, são atitudes indispensáveis
para produzir um trabalho de qualidade científica, que não
enfatize, meramente, dados quantitativos. A estabilidade, situação
confortável em que se encontram a verdade estabelecida e o indivíduo,
antes do início de pesquisa, é rompida pela dúvida,
provocada por fatores externos ou internos, que desencadeiam o desequilíbrio
do saber no indivíduo, conduzindo-o a uma postura reflexiva de
questionamento e busca por respostas. No auge da pesquisa, ocorre uma
reelaboração do saber, que culmina em nova estabilidade,
decorrente da descoberta, que pode culminar na criação própria.
O desconhecimento do que vai acontecer deve-se à falta de clareza
e de objetividade no estágio inicial da pesquisa. A construção
da autonomia é um exercício de persistência na elaboração
do próprio conhecimento, que implica vivenciar, buscar como se
faz e fazer, participando plenamente como sujeito da ação.
Para tanto, é preciso gostar de desafios, pois o ato de pesquisar
é um desafio constante.
Dessa forma, o questionamento do aluno surge, a partir de sua curiosidade,
de seu interesse ou de um fato ocorrido no meio em que vive. Pode também
ser propiciado pelo professor, por meio de um ambiente de discussão
em que cada aluno argumenta e mostra conhecimentos consolidados ou recém-adquiridos
sobre o tema, em pequenos grupos voltados à busca de respostas
e à coleta de dados ou informações, em livros e outras
fontes. Dessa maneira, o aluno se envolve, adquire um senso crítico
e se assume como responsável por sua aprendizagem, pois
o questionamento é salutar quando reforça
no aluno o desejo de aprender, de buscar as respostas, de ir às
fontes, visando ao reforço da argumentação. É,
neste sentido, que o diálogo deve ser entendido, não como
um pingue-pongue de palavras sem sentidos, mas como uma troca de interpretações
elaboradas (ALMEIDA, 2002, p. 250).
Os conhecimentos daí advindos, além de ajudar
a conhecer melhor o assunto pesquisado, instigam o envolvimento nos processos
de leitura e de escrita. Todo esse processo só pode ser alcançado
em um quotidiano escolar, no qual o questionamento seja a base principal
na formação do professor e do aluno, aquilo que os torna
capazes de intervir e de serem críticos em relação
ao que lêem. Dessa forma, a pesquisa se revela uma estratégia
metodológica particularmente importante para o ensino em geral,
uma vez que propicia o conteúdo do texto a ser produzido bem como
o estudo das formas mais adequadas de relato oral e escrito, objeto principal
das aulas de língua materna.
A utilização da pesquisa em sala de aula, conquanto seja
uma alternativa para uma educação verdadeiramente emancipadora,
pois propicia um crescimento, um aprimoramento de conhecimento, não
é um processo tranqüilo, e faz com que o aluno perceba o pouco
que sabe, que existem infinitas coisas para serem conhecidas e que há
muito que se ler. Se não for motivada, a pesquisa pode desestabilizar
e baixar a auto-estima de quem a realiza, pois ela, como lembra Barreiro
(2002, p.180), não está pronta e precisa ser estruturada
a cada dado novo encontrado. A dúvida, conforme o autor, é
o primeiro passo na busca de novas respostas. “O questionamento
funciona como elo entre o que temos hoje e o que ainda não conhecemos,
mas iremos buscar”. A pesquisa é um elemento rotineiro e
pertinaz no ensino-aprendizagem, e o papel da escola
passa a ser, então, o de instrumentalizar seus
alunos para o estabelecimento de relações entre fatos e
informações, a investir em valores como igualdade social,
espírito crítico, objetividade, criatividade e mediação,
e propiciar condições de novas estratégias de pensamento
(SCHWARTZ, 2002, p.160).
A primeira etapa na realização de uma pesquisa
é a busca de material, e depende de o aluno “ter iniciativa
e procurar os subsídios, ao invés de recebê-los prontos
ou reproduzir o que já existe” (GESSINGER, 2002, p.191),
para poder assumir uma postura ativa. Para que ele tenha condições
de buscar por informações, o ideal é que a escola
seja equipada com, no mínimo, uma biblioteca atualizada e um computador
ligado a uma rede. Na impossibilidade de a escola se conectar à
internet, o professor pode facilitar o acesso ao aluno, trazendo, ele
próprio, diversos materiais de pesquisa gravados em disquete ou
impressos, cabendo ao aluno selecionar os textos que lhe forem úteis
para o desenvolvimento de seu trabalho. A segunda etapa é a construção
do texto científico, com todas suas regras. O eixo principal dessa
etapa do trabalho é a base teórica, que não deve
ser meramente reproduzida, mas discutida. O texto também deve apresentar
um equilíbrio entre teoria e prática, o que exige do professor
uma nova postura, a de querer aprofundar-se em novos conhecimentos através
da leitura, da participação em seminários e encontros,
ou da montagem de uma biblioteca própria, o que possibilitará
produzir textos próprios, assumindo uma postura crítica
e questionadora.
Para que o questionamento se estabeleça, a partir de uma verdade
já conhecida, da vivência anterior ou de uma realidade, é
preciso que haja o envolvimento ativo do professor e do aluno, na construção
de hipóteses fundamentadas numa base teórica adquirida e
formadas por uma diversidade de autores, o que pressupõe ler, concordar
ou divergir das idéias dos autores e explorar as teorias variadas,
para fundamentar os argumentos em construção. Dialogando
com os autores, o aluno questiona o conhecimento, fato que constitui a
essência do comportamento científico e vai muito além
do senso comum ou popular, sendo visto como a verdadeira postura de investigação.
É necessário, segundo Barreiro (2002, p.175), que o aluno
“parta de argumentação refletida e vá edificando
a base dos conhecimentos que estão sendo adquiridos. Não
se pode construir uma verdade senão pelo argumento solidamente
embasado”.
Questionar é o primeiro passo para a produção de
texto com pensamento científico, e, ao proporcionar ao aluno a
oportunidade de escrever, o professor incentiva a capacidade de buscar,
formular, elaborar, produzir, desenvolver a reflexão, enfim, oportuniza-lhe
as atitudes essenciais para a formação do sujeito. A capacidade
de reflexão, segundo Schwartz (2002, p.164), “encontra-se
na posse de seu saber sobre si mesmo e seu mundo”, o que, por um
lado, torna a pesquisa uma construção pessoal e, por outro,
fortalece as relações grupais. Esse questionamento depende
diretamente da leitura e da reflexão sobre idéias de outros
autores, assunto enfocado a seguir.
A LEITURA CRÍTICA
Em nossa sociedade, a escrita é vista como reflexo do saber e caminho
para o sucesso profissional, apresentando-se como aspecto significativo
na emancipação do sujeito. O ato de ler, por sua vez, relaciona
o indivíduo ao mundo que o cerca, cabendo à escola a tarefa
de criar condições favoráveis ao aprendizado da leitura
e fazer com que o aluno venha a perceber-se como participante ativo na
sua aprendizagem, como construtor de seu saber. Para tanto, o professor
deve acreditar na capacidade de aprendizagem do aluno, elaborar e orientar
atividades de ensino que possibilitem torná-lo um leitor crítico
e competente.
Segundo Jolibert (1994, p.14), ensinar a ler não é pré-dirigir,
mas ajudar o aluno em seus próprios processos de aprendizagem,
mostrar-lhe que é importante questionar o que está escrito,
ajudá-lo na busca de sentidos e hipóteses, a partir dos
indícios deixados no texto. Nessa direção, é
importante que o professor proponha textos que coloquem o aluno em relação
com o mundo real, textos capazes de suscitar seu interesse, por estarem
próximos de sua realidade, de sua vivência cultural e lingüística,
facilitando, dessa forma, sua inclusão no processo da leitura.
O hábito de ler decorre do acesso a textos interessantes e cada
vez mais desafiadores, com relação ao conteúdo e
ao vocabulário. Dessa forma, o aluno atribui importância
à leitura porque tem como objetivo assimilar o conteúdo
visto e, principalmente, buscar novas informações que vão
prepará-lo intelectualmente para um posicionamento crítico
diante do texto lido.
Ensinar a ler é, antes de mais nada, confrontar os conhecimentos
sobre a língua escrita que o aluno traz consigo e, sobretudo, propor
a leitura de textos variados,
desde o letreiro do ônibus e os nomes das ruas,
dos bancos, das casas comerciais, fundamentais para a sua sobrevivência
e orientação numa civilização construída
a partir da língua escrita; ler o jornal, que vai relacioná-lo
com o mundo lá fora; ler os poemas, que vão dar concretude,
qualificar e expandir os limites de seus conhecimentos; ler narrativas,
que vão organizar sua relação com a complexidade
da vida social, ler as leis e os regulamentos que regem a sua cidadania,
ler ensaios que apelam à sua racionalidade e a desenvolvem. (GUEDES
& SOUZA, 1999, p. 135)
Alguns procedimentos adotados pelos leitores iniciantes
são apontados por Medeiros (2004, p. 80), como facilitadores da
compreensão do que está sendo lido. São eles:
1) ter uma visão geral do texto, lendo-o sem interrupção,
para conhecer o assunto tratado e a ordem das idéias propostas;
2) elaborar perguntas para formar expectativas despertadas pelo texto,
pois, ao questionar, o leitor começa a atribuir um sentido para
o que está lendo;
3) utilizar o dicionário apenas quando realmente não compreender
o sentido no texto, para ampliar o conhecimento e o uso de palavras novas,
que são elos numa cadeia de idéias e intenções,
interligadas umas às outras por relações de sentido,
ao dissociá-las da frase, afasta-as do seu significado contextual
(GARCIA, 1986); 4) prestar atenção nas linguagens não
verbais, apresentadas no entorno do texto sob forma de ilustrações,
fotos, mapas, quadros, gráficos e tabelas;
5) identificar a essência do texto através das idéias
principais nele contidas, realizando as etapas anteriores. Entender parte
por parte, parágrafo por parágrafo é essencial para
encontrar a idéia central de cada parte, e, comparando-o com outros
textos, o leitor apreende as principais proposições, conhece
os argumentos, identifica a tese e avalia as idéias do autor. Nessa
fase, o leitor poderá sublinhar o texto, analisá-lo, resumi-lo,
o que exige uma compreensão profunda e depende da realização
das etapas anteriores.
Ao utilizar a estratégia de fazer previsões sobre o que
vai ler ou está lendo, o leitor observa os diferentes fatos, compara
o texto com os outros anteriormente lidos e questiona a sua validade como
um todo. Ao instalar essa atitude questionadora, o leitor toma posição
em relação ao texto, a si mesmo e ao seu modo de pensar,
e ocupa a posição de um leitor crítico, pois
se a maneira de questionar, de procurar indícios,
de propor orientações evolui de forma tão espetacular,
é exatamente porque os conhecimentos capitalizados pela memória
não cessam de se enriquecer ao longo da experiências (...)
a “cultura escrita” de cada um evolui. Com o decorrer do tempo,
os indícios que permitem identificar um texto antes de lê-lo
transformam-se em evidências, os procedimentos descobertos em tentativas
tornam-se procedimentos “naturais”, tão inconscientes
que são espontâneos. (CHARTIER; CLESSE, & HÉBRARD,
1996, p.150)
Segundo Faraco (2001, p.42), o leitor toma uma posição
diante do texto, uma vez que “a compreensão não é
mera experiência psicológica da ação dos outros,
mas uma atividade dialógica que diante de um texto, gera outro
(s) texto (s)”. Ler não é um ato passivo, mas, impregnado
de valores e interação cultural, é uma réplica
ao já dito, em outras palavras, é um diálogo entre
autor e leitor, podendo acarretar, como toda relação dialógica,
tanto a convergência, o acordo ou adesão das idéias,
quanto divergências, o questionamento ou a recusa do que foi escrito.
A escola, muitas vezes, na condição de formadora de leitores,
trata o texto como um objeto acabado, com um único significado
e o aluno lê o texto, conforme as perguntas pré-estipuladas
pelo professor ou pelo livro didático, esquecendo a compreensão
da perigrafia, do entorno do texto, o que dificulta sua compreensão
global. Outras vezes, o texto, usado como pretexto para o ensino das regras
gramaticais do código escrito ou para reconhecimento do léxico,
é adaptado e retirado de seu contexto original e perde sua significação,
impossibilitando ao aluno interagir com o texto. Dessa forma, freqüentemente
na escola, além de ser interpretado pela voz adulta e marcado pela
superficialidade escolar, o texto é lido e compreendido num único
sentido, linearmente, a partir de perguntas previamente formuladas e com
predominância de reconstituição da informação.
Tal procedimento acarreta, para o leitor, uma dificuldade em romper com
a seqüência de idéias do texto, pois “uma vez
respondida uma questão referente a uma parte do texto não
se volta mais a ela, não se estabelecendo relações
com outras partes, deixando de lado, assim, seu funcionamento efetivo”
(NERY, 2003, p.91). O maior problema da realização da leitura
linear é afastar o leitor da percepção do texto como
em todo, visto que o ato de ler implica um processo de construção
de sentido, do reconhecimento das formas lingüísticas do texto,
e, sobretudo, da compreensão de seu funcionamento lingüístico
discursivo (NERY, 2003, p. 146).
Para desenvolver e ampliar o desempenho em leitura, faz-se necessário
modificar a metodologia empregada em sua abordagem e revitalizar as bibliotecas
escolares, com a participação de professores de todas as
disciplinas, visando um único objetivo: a emancipação
do aluno através da capacidade de leitura. Isso porque, embora
seja alfabetizado, o aluno, muitas vezes, não chega a ser leiturizado,
comportando-se como um simples decifrador do código lingüístico,
um leitor de palavras e frases. E, dificilmente chegará a ser um
leitor crítico alguém que não ultrapassa a barreira
do reconhecimento, estacionando na compreensão parcial. Grande
parte da dificuldade em ler significativamente advém da prática
comum em que o professor dá o tema, sem que aluno saiba pelo que
procurar nem como procurar. O importante é que, ao invés
de simplesmente reproduzir as informações dadas pelo professor,
o aluno busque-as de forma ativa, envolvido no processo e visando transformações
(GESSINGER, 2002).
Ler é o ato de atribuir sentido a uma mensagem escrita por uma
outra pessoa - o interlocutor, que, ausente e sem possibilidade de prestar
esclarecimentos, deixa pistas do sentido que deseja passar com seu texto.
Cabe ao leitor aprender a atribuir uma significação ao que
lê, recolhendo indícios e informações necessárias
para essa construção. O sentido da escrita é, segundo
Gaté (2001, p.16), de “discernir a natureza dos elos que
ligam o significante ao significado e a que mediações mentais
o sujeito precisa recorrer para estabelecer esses elos”. A leitura
não é um fim em si mesmo, mas um meio de interação
e de comunicação.
Ainda que, aparentemente, o texto pareça acabado, pois se apresenta
com um começo, meio e fim, há vários estágios,
segundo Medeiros (2004), para realizar uma leitura plena de significação:
inicialmente, o leitor pode se ater ao que o autor quis dizer; em seguida,
fazer uma comparação com outros textos, para, enfim, ao
interagir criticamente com o texto, entender o sentido global. Essas três
posturas produzem uma leitura proficiente, considerando que o sentido
não está no texto em si mesmo, mas é elaborado em
função das reações que provoca no universo
mental do leitor, isto é, o sentido é resultado daquilo
que o leitor elabora a partir do que ele seleciona de texto somado ao
seu próprio referencial de vida. Ativo e questionador em relação
ao que lê, o leitor atribui sentidos ao texto, formulando hipóteses
e verificando-as no próprio texto, que é o portador desse
sentido. A leitura concretiza um conhecimento já existente no indivíduo
e abre espaços para outros conhecimentos, despertando para a busca
de muitas verdades.
Pode ser que o leitor leia para entender, para viver melhor, para encontrar
uma verdade, proveniente da leitura de mundo que está em cada um
de nós e é fomentada através de nosso pensamento,
pois a leitura exerce influência sobre os homens. As atividades
que visam estimular o aluno a ler e, posteriormente, a escrever, para
serem válidas, devem ser planejadas, pois a criatividade existente
no ser humano precisa ser ativada, através de um estímulo
vindo de outrem, uma intervenção exterior.
Ler e escrever são atividades que se completam no processo da aquisição
do conhecimento, de criação e de descoberta, de produção
e construção do mundo. Ser leitor é poder estabelecer
relações entre o que se está lendo e o que já
se leu, é poder confrontar as idéias formuladas a partir
do texto lido com as de outro leitor, é poder estabelecer novos
parâmetros entre o que se leu e novas e futuras leituras; é
também poder perceber os diferentes tipos de linguagem que há
entre os mais diferentes textos. Ler é estar aberto para o mundo,
para o texto literário, para a ciência, para a arte, para
a música, para a pintura.
O ensino de leitura pressupõe uma progressão que se reflete
na aquisição de técnicas de pesquisa. As habilidades
para localização, reunião e combinações
das várias fontes encontradas requerem um raciocínio maduro
do aluno, desenvolvido ao longo do ensino fundamental. Formular hipóteses,
delimitar tópicos e definir as informações relevantes
para um trabalho implica um amadurecimento de pesquisa alcançado
processualmente, em especial quando se refere a uma pesquisa científica.
Após ler a si próprio e fundir as idéias do outro
às suas, o aluno se expressa através das palavras, ao produzir
seu próprio texto. Para tornar-se um bom leitor, é preciso
saber contextualizar. Ler é contextualizar, é manter um
diálogo entre as leituras anteriores, a atual e as futuras. É
desvendar os possíveis sentidos do texto, pois, segundo Guedes
& Souza (1999, p.142), “ler para chegar a uma resposta que já
está pronta é o contrário de ler, é o contrário
de produzir sentido”. Ler é conservar e combinar as informações
encontradas sucessivamente, quebrando a linearidade do texto, uma vez
que, para Chartier, Clesse, & Hébrard (1996, p.139), compreender
é “manter junto o que estava separado”, é memorizar
para compreender. Dito de outra forma, é prestar atenção
em como o texto é tratado numa primeira descoberta, e em como ele
pode ser utilizado posteriormente, em que contexto e com que objetivos.
Ao ler, o leitor memoriza o que lhe é pertinente e se prepara para
uma leitura futura, quando poderá ativar esses conhecimentos anteriores
e formular hipóteses sobre o seu conteúdo. A compreensão
é uma forma de diálogo, pois, segundo Bakhtin (2002, p.132),
“a significação não está na palavra
nem na alma do falante, nem na alma do interlocutor, mas é o efeito
da interação do leitor e do receptor”.
Enfim, cabe ao professor dar voz ao aluno, valorizando a sua presença
na escola, e criar condições favoráveis ao seu aprendizado,
auxiliando no desenvolvimento de personalidades que possuam senso de iniciativa,
que sejam capazes de agir, discutir, decidir, realizar e avaliar sua própria
aprendizagem. É também tarefa do professor possibilitar,
por meio da leitura, que o aluno entenda como a língua funciona,
pois
à medida que as crianças fazem observações,
descobrem analogias, diferenças, elas vão descobrindo estruturas
da língua, criando para si referências, mas também
uma atitude de interrogação, a partir da qual instaura-se
um conhecimento, inicialmente intuitivo, que logo se torna racionalizado.
(JOLIBERT, 1994 p. 116 )
Ao formar leitores, a escola encaminha os alunos para duas direções
diferentes e, ao mesmo tempo, complementares: por um lado, para a leitura
lúdica e prazerosa, que dá ao leitor o gosto de ler, por
transmitir a evasão de seu cotidiano e o despertar de seu imaginário;
por outro lado, distanciada das reações afetivas do leitor,
está a leitura para realizar ou adquirir conhecimento, que é
marcada por uma “atividade de raciocínio, de controle e de
seleção de informação, colocando-as a serviço
do objetivo pretendido” (GATÉ, 2001, p.33). Dessa maneira,
no processo da leitura, a criança se coloca diante de uma série
de problemas cujas variações ela vai tentar dominar, em
etapas sucessivas, construindo para si mesma uma representação
do escrito e uma significação do texto, a partir dos elementos
conhecidos por ela.
Um trabalho de pesquisa escolar inicia o aluno, aos poucos, no campo da
ciência, por meio da busca de respostas nas leituras feitas e nos
experimentos, e, em seguida, do relato dos resultados da descoberta. Várias
atividades podem auxiliar o aluno a intensificar suas leituras. Dentre
elas, podem ser enumeradas as atividades literárias, como clubes
de leitura, concursos de poesias, contos ou teatro.
Para compreender um mundo em constante transformação, é
indispensável a mediação da linguagem, marcada por
conceitos e sentidos, que possibilitam revelá-lo e reinventá-lo.
E mesmo com a grande presença dos audiovisuais, a leitura e a escrita
continuam sendo a base dos saberes escolares. Através da leitura
e da escrita, o aluno põe um olhar no mundo e, utilizando-se do
senso crítico desenvolvido ao longo da vida, completa o discurso
do outro, tece e constrói conhecimentos sobre as práticas
sociais do cotidiano. Nesse processo, o aluno acaba por construir-se a
si próprio como ser pensante, ligado ao mundo social pela sua expressão.
Incentivar a leitura, segundo Possenti (2000, p.89), é “aumentar
o repertório do aluno, suas possibilidades de contato com mundos
lingüísticos que ele ainda não conhece através
dos livros”. A leitura dará suporte à escrita, através
de um questionamento das várias idéias advindas das fontes
pesquisadas que formularão o argumento de base do texto escrito.
A ESCRITA AUTÔNOMA
Enquanto a leitura é um ato de interação do leitor
com o texto, a escrita é um ato solitário, marcado pela
subjetividade, que, segundo Teberosky (1997, p.63), é reflexo de
“um conhecimento técnico, ligado à prática
dirigida pelo ensino formal e que implica operações diferentes
do mero reconhecimento ou reprodução memorizada de um texto”.
Conseqüentemente, por pressupor regras e convenções
específicas, a escrita requer um ensino sistematizado na escola.
A coordenação entre o ato de ler e o de escrever não
ocorre automaticamente, pois elas não são atividades simplesmente
contrárias, mas procedimentos com habilidades e condições
diferenciadas de aprendizagem, que complementam-se, de modo que, ao ler,
o leitor recebe informações variadas, e, ao escrever, recupera
os conhecimentos adquiridos. Segundo Ednir & Cardoso (1998, p. 93),
quanto maior for a gama de informações disponíveis,
mais oportunidades terá o aluno de selecionar o que lhe for útil
e expressá-lo no momento da produção de texto. Ainda
que saber ler não equivalha a saber escrever, do mesmo modo que,
ao ler, o leitor constrói vários e possíveis sentidos
do texto, desvendado-os através das pistas deixadas pelo autor,
correlacionadas a outras leituras experimentadas e experiências
vividas, para escrever, o aluno deve pensar, primeiramente, na razão
por que está escrevendo.
Deve também considerar que escrever é dialogar com o leitor,
de forma a produzir conhecimento tanto para um quanto para o outro. Nessa
situação mais complexa do que se entende pelo termo diálogo
é que a escola deveria focalizar sua atenção, centrando-se
no questionamento e na busca por respostas, defendida por Faraco (2003)
como uma tensão entre enunciados, do autor e do leitor. O que faz
o leitor crítico senão responder ao discurso do autor, que,
confrontando sua posição ou acolhendo a palavra de outrem,
busca dar o mais profundo sentido ao texto? O mesmo deveria fazer o autor-aprendiz,
ao colocar suas experiências vividas de forma escrita de maneira
a produzir no seu leitor o mesmo questionamento, a formulação
de hipóteses e uma busca de respostas múltiplas. Enfim,
escrever é gerar efeitos deliberados de sentido sobre os possíveis
leitores de um texto; isto porque os enunciados surgem como resposta à
necessidade da busca pela verdade do outro.
Dessa forma, um dos objetivos da aula de português é dar
ao aluno a oportunidade de se pronunciar e, com a orientação
do professor, escrever para produzir - e não apenas para resumir,
parafrasear ou reprisar lugares comuns. Segundo Guedes & Souza (1999,
p.150), escrever serve “para registrar, comunicar, influir, entender,
comover, criar, nada menos do que tudo isso”.
O convívio freqüente com textos de boa qualidade pode transformar
o aluno em usuário da linguagem, isto é, em leitor e escritor,
ampliando suas possibilidades de adquirir conhecimento e firmando-se como
um sujeito que, conforme Ednir & Cardoso (1998, p.17), considere “que
toda resposta é potencialmente incompleta e passível de
transformação”. O professor, ao orientar o aluno a
compreender o texto, faz com que ele perceba os sentidos produzidos pelo
texto. Assim, atividades típicas escolares, como escutar ou ler
e memorizar, depois relatar, escrever deveriam ser direcionadas para a
produção de texto - e não para a redação
ou cópia. Memorizar e recuperar as informações faz
parte da percepção e, principalmente, da compeensão
da linguagem, possibilitando ao aluno tornar-se capaz de organizar um
texto escrito, de acordo com o uso social no qual a língua escrita
está inserida.
No ensino fundamental, período em que o aluno ainda não
está habituado a pesquisar, é freqüente a prática
da mera cópia ou da colagem de várias fontes, sem a preocupação
com o aprimoramento das técnicas e estilos de escrita. Esse processo
ocorre, segundo Demo (2002), devido ao fato de o aluno passar por três
níveis de produção escrita: o primeiro é o
da interpretação reprodutiva, com trabalhos em que ele reproduz
ou sintetiza os autores pesquisados. Este tipo de trabalho parafraseado,
embora pareça limitado, representa o estado inicial no qual o aluno
é desafiado a compreender o texto e sintetizar as idéias
principais do autor.
Aos poucos o aluno começa a se posicionar face aos diferentes textos
lidos e a questionar as idéias dos autores, passando para o segundo
nível, o da interpretação pessoal. Nesse ponto, nas
notas referentes ao material que está lendo, o aluno já
consegue inserir suas próprias idéias, colocando seu ponto
de vista e o resultado da reflexão sobre o que leu; embora faça
sempre uma conexão com as idéias do autor, parte dessas
idéias para poder desenvolver as idéias do autor, acrescentando-lhe
novos sentidos e reafirmando o que leu, com suas próprias palavras.
Já no terceiro nível, que é o da reconstrução,
o aluno inicia-se como pesquisador, uma vez que assume a autoria do texto,
posiciona-se como autor. Diferentemente da etapa anterior ou complementando-a,
embora mantenha as idéias dos autores que cita, o aluno consegue
inserir novos argumentos, tornando sua produção original
e autônoma. Atingir este nível é o objetivo da escola,
enquanto instituição formadora e educadora, ainda que pareça
estar distante ou fora do alcance do ensino fundamental ou médio.
É mais provável que aconteça durante a graduação,
com a iniciação científica, e a pós-graduação.
Na produção escrita que caracteriza um nível elevado
da produção científica, cada aluno coloca sua marca
pessoal, reconhecendo, porém, que o discurso é profundamente
marcado por contribuições de outros. Essa marca pessoal
vai, dessa forma, reformular o pensamento produzido anteriormente. O aluno,
colocando no texto suas reflexões, estará contribuindo para
a formação de conceitos novos, expressos por argumentos
próprios, embora não totalmente originais, e surgidos do
questionamento das idéias dos autores ou das verdades já
estabelecidas, que é a base teórica da pesquisa.
O referencial não é linear, mas, segundo Gessinger (2002,
p.198-199), é “construído ao longo de toda a pesquisa,
ele nunca termina de ser construído”, e está presente
durante todo o processo, dando condições para que o trabalho
avance de forma significativa e dando oportunidade ao aluno de participar
mais ativamente do processo, de questionar, de se posicionar criticamente,
de participar das discussões, contribuindo para o enriquecimento
do grupo”. Durante o processo de desenvolvimento de uma pesquisa,
o papel daquele que está argumentando é buscar as respostas
a suas hipóteses, duvidar, refutar ou aceitar os dados encontrados
e expressar as novas descobertas.
Para argumentar, é necessária a reconstrução
do conhecimento, haja vista que cada argumento proposto pode ser substituído
pela dúvida. Argumentar é, segundo Ramos (2002, p. 38),
“defender uma opinião e a partir dela persuadir ou convencer
um interlocutor mediante provas ou motivos que estão relacionados
ao objeto da argumentação”. Sendo assim, a prática
da argumentação é um exercício cotidiano,
no qual o aluno ouve, fala, questiona, responde e argumenta. Por isso,
para pesquisar
não basta questionar; é mister reconstruir,
quer dizer, unir teoria e prática, sinalizar inovação
e, sobretudo, a presença de um sujeito capaz de história
própria; o processo reconstrutivo alia pelo menos duas possibilidades:
saber formular ou propor, buscando intervenções alternativas
teoricamente bem fundadas, e tornar-se autor, ao ler outros autores. (DEMO,
2002, p.112)
O escritor, ao argumentar, constrói um novo ponto
de vista sobre o assunto em discussão, não simplesmente
para persuadir ou convencer o leitor sobre essa concepção,
mas, para, juntos, chegarem a um consenso. As produções
escritas se mostram particularmente importantes no contexto da aula com
pesquisa, uma vez que são formas, individuais ou coletivas, de
expressar os resultados da pesquisa, havendo, conseqüentemente, uma
necessidade de submeter a produção a uma crítica
pública. É essencial, além de atentar para o conteúdo
do que é exposto, privilegiar a forma, que não pode, de
maneira alguma, ser desprezada ou esquecida na construção
do texto científico. Ao escrever, professores e alunos propõem-se
a discutir suas idéias com outras pessoas, possibilitando o diálogo
entre os vários interlocutores possíveis.
Por meio da produção escrita, o aluno tem a oportunidade
de se construir como sujeito, pois escrever é um exercício
desafiador em que o aluno, constantemente reescreve, construindo uma argumentação
suficientemente competente para sustentar seus pensamentos e convicções,
não raro permeados de contradições e repetições.
Um diálogo constante entre o professor e o aluno certamente beneficiará
esta produção, pois, ao discutir os pontos que necessitam
ser aprimorados e refeitos, o professor possibilita ao aluno desenvolver
suas competências argumentativas e rever o que tentou anteriormente
esboçar no papel. A pesquisa é uma atividade desafiadora,
pois várias respostas se abrem para um questionamento sobre um
problema verdadeiro.
O texto adequado a um relato científico é o dissertativo,
o qual, nas séries iniciais, é freqüentemente construído
a partir de um esquema, que dá ao aluno uma direção,
facilitando a ordenação das idéias. O esquema sustenta
o texto, estruturando-o em começo, meio e fim, ou seja, distribuído
em partes: introdução, desenvolvimento e conclusão.
Nesse contexto, escrever é dissertar, ação que envolve
um questionamento no qual o aluno expressará seu ponto de vista
e apresentará argumentos que fundamentem sua posição
na autoria.
O DOMÍNIO DO TEXTO CIENTÍFICO
A produção de um texto científico, como a de todos
os outros tipos de textos que compõem o mundo da escrita, pressupõe
o conhecimento de regras gramaticais e sociais. Assim, embora não
seja neutro, o texto científico expurga ao máximo as marcas
da subjetividade do aluno, que visa constituir-se em autor autônomo
de um texto. Para auxiliá-lo nessa tarefa, o professor necessita
lançar mão das diversas formas de ensinar a escrever e não
presumir que o mero contato com o texto escrito tornará o aluno
habilitado a escrever, pois, segundo Britto (1983, p.160), “esta
não é uma relação mecânica, consciente,
mas [...] subjaz à produção de texto escrito uma
interlocução social”. O autor que se pretende formar
é aquele que, com base na presença de um interlocutor real
e com uma razão para escrever, escreve com argumento próprio
e crítico, apresentando-se como responsável por seu texto,
e não como um simples copista.
Segundo Saussuna (2002), o ponto crucial da dificuldade na produção
do texto escolar é o aluno não saber para quem está
escrevendo. A ausência de argumentação decorre dessa
ausência de interlocutor, pois, para que o aluno se constitua como
sujeito de sua linguagem, ele precisa construir uma imagem de quem vai
ler seu texto e, geralmente, o aluno mostra o resultado de sua aprendizagem,
de sua pesquisa e de seu conhecimento para a mesma pessoa que o ensinou
a fazê-lo, seu professor. O resultado é que o texto é
marcado pela artificialidade, já que o aluno estará preocupado,
segundo a autora, com o como dizer e não com o para que dizer.
Dessa forma, professor e a escola são, na opinião de Britto
(1983), os interlocutores privilegiados do aluno e, por isso, decisivos
na estruturação de seu texto. O fato de o aluno realizar
trabalhos de produção ou de reprodução de
textos, cujo único destinatário é o professor é
preocupante, pois resulta, segundo Guedes & Souza (1999, p. 146),
“num texto que o autor (o aluno) não quer escrever e que
o leitor (o professor) não quer ler”.
Outro problema é o de ensinar fórmulas fixas, a utilização
de esquemas. Entretanto, há uma grande diferença entre um
tema ou um roteiro dado pelo professor, a proposta de uma situação–problema
em que o aluno tem um objetivo e uma finalidade para fazer o seu trabalho
de pesquisa e está ciente da relevância do assunto em que
está envolvido, empenhando-se no desenvolvimento do projeto. Aos
poucos, o aluno poderá se apropriar das diversas formas de escrita,
como exercício mais geral, em que ele emprega vários recursos
para expandir suas idéias, sem a utilização de esquemas.
A autonomia propiciada pela pesquisa, implica, além da capacidade
de questionar, de argumentar e relatar, tomar iniciativa frente a sua
aprendizagem. A produção de textos, usada como um dos recursos
para a realização de uma pesquisa, pode ser vista como um
exercício intelectual da reescrita, como forma de revisar o assunto
de que se quer falar e sobre o qual se deseja saber mais. É preciso
que o professor se disponha efetivamente a saber o que seu aluno tem a
dizer sobre o assunto que ele mesmo requisitou. A orientação
do professor na reescrita do textos é importante, visto que
orientar a reesccrita não é apenas adequar
o conteúdo às verdades estabelecidas da ciência nem
a forma do texto ao modo consagrado de escrever nessa área de conhecimento;
é principalmente levar o autor do texto a repensar a pertinência
dos dados com que está lidando, a coerência da tese que apresenta,
a adequação entre dados e tese, a perceber lacunas nas informações
de que dispõe e a perguntar-se para que vai servir o que está
escrevendo. (GUEDES & SOUZA, 1999, p.147)
Como toda atividade humana, o texto necessita satisfazer alguns requisitos
para chegar a um fim. Dessa forma, segundo Koch (2002, p.21), “um
texto é coerente para alguém, em uma dada situação
de comunicação específica”, quando atende a
três aspectos relevantes: a motivação, a finalidade
e a realização. O aluno, com uma proposta clara e objetiva
do que se propõe a fazer e auxiliado pelo professor, precisa colocar-se
em um contexto determinado, sabendo para onde encaminhar seu texto e quem
o lerá, visto que
ler e escrever (...) não são exercícios.
(...) Para se ter uma idéia do que significaria escrever como trabalho,
ou significativamente, ou como se escreve de fato “na vida”,
basta que verifiquemos como escrevem os que escrevem: escritores, jornalistas.
Eles não fazem redações. Eles pesquisam, vão
à rua, ouvem os outros, lêem arquivos, lêem outros
livros. Só depois escrevem, e lêem e relêem, e depois
reescrevem, e mostram para colegas ou chefes, ouvem suas opiniões,
e depois reescrevem de novo. A escola pode muito bem agir dessa forma...
desde que não pense só em listas de conteúdos e em
avaliação “objetiva” (POSSENTI, 1996, p. 49).
Várias orientações podem ser dadas
ao aluno na redação de um texto: nos estágios iniciais
da produção escrita, segundo Pereira (1997), o aluno poderá,
num primeiro momento, transformar o tema dado em uma pergunta; em seguida,
procurará respondê-la, concordando ou discordando do tema
e expor o porquê de seus argumentos e, ao concluir, retomar a pergunta
feita inicialmente.
Para complementar esse pensamento, Booth, Colomb & Williams (2000,
p 54) sugerem uma seqüência de passos a partir de um tópico,
como, por exemplo:
1) Incluir, no espaço em branco, substantivos que podem se convertidos
em um verbo ou adjetivo: Estou aprendendo sobre / trabalhando em / estudando_____________.
Ex.: Estou estudando a influência da pesquisa em sala de aula na
construção do conhecimento autônomo.
2) Acrescentar à frase uma pergunta indireta algo que queira saber
ou entender, preenchendo o espaço em branco com um sujeito e um
verbo: porque quero descobrir quem / como / por que_______________.
Ex.: Estou estudando a influência da pesquisa em sala de aula na
construção do conhecimento autônomo porque quero descobrir
como professores e alunos realizam essa atividade.
3) Acrescentar à frase uma segunda pergunta indireta, explicando
o porquê da pergunta e o que se pretende com a resposta: a fim de
entender como / por que /o que / se_________________.
Ex.: Estou estudando a influência da pesquisa em sala de aula na
construção do conhecimento autônomo, porque quero
descobrir como professores e alunos realizam essa atividade, a fim de
entender os benefícios do ato de pesquisar na formação
social de ambos, através da leitura crítica e da produção
escrita autônoma.
Esta última etapa é a mais difícil por ser aquela
que transforma a produção do texto em leitura de interesse
para outros leitores, além do professor. No entanto, mesmo sendo
etapas que podem ser construídas gradativamente, vale retomá-las
ao longo da elaboração do trabalho escrito para “manter-se
informado sobre sua posição atual e concentrar-se no rumo
que precisa tomar” (BOOTH, COLOMB & WILLIAMS, 2000, p 57). Enfim,
é importante lembrar que o objetivo final é explicitar sobre
o que se está escrevendo, o que não se sabe sobre o assunto
e por que é interessante saber sobre ele. Ao escrever, é
essencial verificar se os argumentos estão claros e objetivos,
sendo necessária a releitura do texto para verificar a manutenção
da unidade temática e manter uma progressão das idéias.
Escrever implica tomar decisões em relação ao estilo,
que precisa ser claro e direto.
Quanto à adequação de estilo do texto científico,
Booth, Colomb e Williams (2000) sugerem seguir dois princípios.
Primeiramente, para obter um estilo claro é necessário entender
a noção básica do conceito de sujeito e predicado,
ou seja, os agentes, que podem ser qualquer entidade, real ou abstrata,
enfocado por meio de diversas frases. Segundo os autores, é preciso
fazer dos personagens centrais os sujeitos dos verbos, e usar verbos para
expressar ações decisivas, evitando substantivá-los
em demasia.
O segundo princípio aconselha o aluno a escrever o que é
conhecido e familiar ao leitor, começando as frases pelas informações
fáceis de entender e finalizando-as com informações
novas e complexas e, portanto, mais difíceis de serem entendidas.
Esse procedimento de expor o conhecido antes do novo é apropriado
ao introduzir um termo técnico, uma informação longa
e complexa ou um conceito que se pretende desenvolver na seqüência.
Depois de revisar o estilo, o aluno ainda terá de corrigir os erros
gramaticais, a ortografia, a pontuação e a forma de citações.
Há outros princípios, segundo os autores, que podem ser
observados em qualquer tipo de redação, que tornam os textos
tão legíveis quanto possíveis, como a extensão
das frases, a escolha do vocabulário, a concisão, entre
outros.
Ao escrever um texto dissertativo, o aluno apresentará um juízo
valorativo sobre o fato que pesquisou, e não uma opinião
subjetiva sobre um assunto. Uma característica da argumentação
elaborada na dissertação é a capacidade de questionar;
outra, é a de justificar, de maneira lógica, as afirmações
feitas, ou seja, elaborar hipóteses, colocando-as em dúvida,
para tentar descobrir, a partir de leituras realizadas e de dados coletados,
quais conceitos têm fundamento. Enfim, elaborar uma dissertação
é tomar posição, a partir de escolhas feitas, fundamentando
os motivos dessa tomada de posição.
A seguir, é necessário fazer uma análise, isto é,
interpretar a hipótese e os dados para criticar ou apontar soluções.
Na análise, é importante reconhecer os elementos dissertativos,
as relações que eles mantêm entre si e como estão
organizados; verificar com clareza o tema proposto, a hipótese
levantada e os argumentos que a justificam. Por fim, depois de analisar
o texto dissertativo por partes, é recomendável reconstruí-lo,
integrando os elementos com o todo. Para tanto, os argumentos apresentados
devem apresentar premissas e conclusões verdadeiras dentro de uma
relação coerente e adequada. Essa síntese surge quando
o aluno estabelece uma relação entre os fundamentos, as
justificativas e a posição que tomou ao escrever o texto.
O professor poderá propor, segundo o autor, como exercício
inicial, um debate oral entre os alunos, oferecendo dois argumentos contrários
e polêmicos sobre um assunto de interesse. A discussão proporcionará
aos alunos desenvolver a capacidade de argumentar e expor seus pontos
de vista, refutando os argumentos propostos por seus colegas. Para encaminhar
para a escrita, podem ser desenvolvidas atividades como notas ou fichamentos,
resumos, resenhas, enfim, tudo que auxilie o aluno a fortalecer seus conhecimentos
e suas vivências de leitura e escrita.
Dessa forma, o aluno alcançará certa autonomia intelectual,
elaborando seus próprios questionamentos e desenvolvendo a curiosidade
científica para que haja a formulação do saber, através
de momentos de formação coletiva e individual. Essa autonomia
se alcança aos poucos, e tem início com a leitura de autores,
cujas idéias podem ser usadas sob forma de citações
literais ou não, processo que envolve as palavras do autor do texto
com as do autor de referência, o que será tratado no tópico
a seguir.
A AUTORIA
No ensino fundamental, é difícil para o aluno separar a
sua idéia da do autor, mas com a orientação do professor
e alguns exercícios de escrita, ele, aos poucos, se posiciona com
relativa autonomia. O mais importante é compreender que as respostas
a suas perguntas não vêm unicamente das fontes que leu, mas
de sua reflexão sobre as informações encontradas,
somadas às informações adquiridas em suas experiências
anteriores. Embasados na realidade, os argumentos precisam ser expressos
por escrito para sintetizar, manifestar o resultado do trabalho. É
a comunicação do que foi encontrado de novo, de diferente.
Passível de críticas e de avaliação, essa
produção escrita não está encerrada e nem
é definitiva, mas sujeita a um constante aperfeiçoamento,
uma vez que não há uma versão definitiva, acabada
ou pronta de uma produção escrita.
Não há uma receita a ser seguida para a pesquisa em sala,
mas apresentam-se como relevantes alguns procedimentos que compreendem,
além das técnicas utilizadas pelo professor em sala, a participação
do aluno em situações de diálogo e produções
autônomas e críticas. A compreensão do material selecionado
para leitura pode ser facilitada com a anotação das palavras-chaves
ou idéias que serão utilizadas mais tarde, na esquematização
do texto. Para tanto, num primeiro momento, segundo Medeiros (2004, p.
2), é aconselhável que o aluno faça a leitura integral
do texto de interesse, para, num segundo momento, buscar outras fontes
de informação para compreensão e complementação
do primeiro texto estudado. Depois, numa releitura, ele destacará
o que lhe for desconhecido ou interessante, e, por fim, após ter
compreendido o texto, fará as anotações pertinentes.
A técnica de sublinhar o texto é um recurso usado antes
de começar as anotações para destacar as idéias
essenciais e distingui-las das secundárias. É muito utilizada,
embora freqüentemente de maneira errônea, uma vez que o leitor
já na primeira leitura grifa exageradamente, sem compreender o
que está lendo. Alguns passos metodológicos são indicados
para iniciantes, por Medeiros (2004, p. 25), que recomenda fazer várias
leituras do texto, antes de iniciar o processo. Ao sublinhar, o aluno
ficará atento a esses procedimentos: a) grifar o mínimo,
ressaltando apenas as idéias principais; b) destacar os conectores
que dão a idéia de oposição (mas, porém,
embora, entretanto, contudo etc); c) reestruturar o paragráfo com
as idéias sublinhadas.
Dessa forma, o aluno reorganiza as idéias e compreende melhor o
texto. Outras maneiras eficazes de destacar o texto, sem sublinhar todo
o parágrafo, são: colocar um traço vertical à
margem do trecho significativo; ao discordar, ter dúvidas ou encontrar
falhas no texto, colocar um ponto de interrogação; e para
expressões tópicas, colocar uma linha dupla. Após
ler e sublinhar, o aluno estará pronto para fazer anotações,
que serão utilizadas posteriormente, na produção
escrita, sem necessidade de reler todo o texto.
Embora as três modalidades aparentem ser independentes, o aluno
só estará pronto para fazer as anotações resumidas
após cumprir as duas etapas anteriores, isto porque, para reumir,
é preciso reconhecer o assunto, o tema proposto e como o texto
está estruturado. O resumo pode ser utilizado como exercício
de escrita, sendo um processo de concentrar as idéias principais
do autor, todo o pensamento de texto, em um único parágrafo.
Assim entendido, é preciso acrescentar que “só consegue
fazer um bom resumo quem realmente assimilou as idéias principais
do texto” (MEDEIROS, 2004, p.25).
Após selecionar e ler o material encontrado, e para que as leituras
não se percam, é interessante que se faça um arquivo
para armazenar essas informações obtidas. O fichamento constitui
um valioso recurso de estudo na produção de um texto, e
o tempo despendido para a feitura de cada ficha garantirá um ganho
de tempo futuro, quando o aluno precisar escrever sobre um determinado
assunto. Em sala de aula, o professor poderá trabalhar com fichas
de leitura de livros de literatura, artigos de revistas e jornais, e de
textos informativos de enciclopédias e livros. O fichamento, feito
em fichas ou no computador, compreende, segundo Medeiros (2004, p. 115-116)
o cabeçalho, que “engloba o título genérico
ou específico, e a letra indicativa da seqüência das
fichas”, as referências bibliográficas, o corpo da
ficha e o local onde se encontra a obra.
Uma das formas mais comuns de fichar um livro é indicar a bibliografia,
informações sobre o autor, resumir, parafrasear ou anotar
citações diretas, com a cópia fiel do texto, e fazer
comentários apreciativos sobre a obra lida. A paráfrase
apresenta-se como uma das melhores técnicas para iniciar o aluno
na produção escrita autônoma, visto que, ao parafrasear,
o aluno explica um texto, pois ela pode variar a sintaxe, enquanto as
idéias principais permanececem iguais às do texto original,
ou seja, é uma substituição das palavras do autor
por outras equivalentes ou mais simples, facilitando sua compreensão.
Em sala de aula, a paráfrase auxilia o aluno a se colocar como
autor, sendo ela um
exercício dos mais proveitosos, pois não
só contribui para o aprimoramento do vocabulário mas também
proporciona inúmeras oportunidades de reestruturação
de frases, sobretudo se ela não se limita [...] a simples substituiçoes
de palavras de um texto A [...] por outras, sinominas num texto B. (GARCIA,
1986, p. 184)
Essa atividade, além de melhorar o desempenho escrito, propicia
que, ao mesmo tempo em que resume, o aluno aprenda e fixe o conteúdo.
Como estrátégia do resumo, resenha ou recenção,
a paráfase é uma recriação do texto feita
através de comentário crítico, avaliativo e apreciativo
do texto original, consistindo na explicação da idéia
original do autor referido, seguida de comentários livres, que
deve explicitar se a argumentação segue ou não a
linha ou o contexto original do autor citado.
A atividade de resumir, fazer a síntese das idéias principais
do autor, é outra atividade útil para uma consulta rápida.
Para orientá-la, o professor pode pedir ao aluno que, a partir
de sua compreensão, sublinhe cada parágrafo do texto, conforme
as etapas já comentadas. Ao organizar as idéias sublinhadas,
o texto é conectado através dos parágrafos que produzem
um sentido global do texto. A resenha, por sua vez, é fundamental
na iniciação à pesquisa e na elaboração
de trabalhos de pesquisa, uma vez que consiste no resumo do assunto e
justificativa das informações do texto. É uma atividade
mais difícil de ser alcançada, principalmente no ensino
fundamental, devido ao seu caráter científico. Dessa forma,
é preciso que o professor trabalhe as formas precedentes para conseguir,
aos poucos, que o aluno resuma, comente e analise um texto estudado.
Ao escrever, ao expor sua opinião, o aluno se baseia em outros
autores, fazendo uso da citação direta, outro procedimento
importante na escrita do texto científico. O pensamento do aluno
é complementado pelo pensamento do autor, e, ao introduzir a citação,
aquele que cita busca dar credibilidade ao texto e colocar os leitores
em contato com o novo discurso, marcado pela originalidade e consciência
verdadeira, pois
aquele que apreende a enunciação de outrem
não é um ser mudo, privado de palavra, mas ao contrário
um ser cheio de palavras interiores. Toda a sua atividade mental, o que
se pode chamar de o “fundo perceptivo”, é mediatizada
para ele pelo discurso interior e é por aí que se opera
a junção com o discurso apreendido do exterior. A palavra
vai à palavra (BAKHTIN, 2002, p.147).
A citação integra-se ao texto do aluno,
fazendo parte do contexto. Contudo, os dois contextos “unem-se por
relações dinâmicas, complexas e tensas” (BAKHTIN,
2002, p.148), refletindo a dinâmica da relação social
entre os homens, através da comunicação na sociedade
em que vivem, uma vez que “o objetivo verdadeiro da pesquisa deve
ser justamente a interação dinâmica dessas duas dimensões,
o discurso a transmitir e aquele que serve para transmiti-lo” (BAKHTIN,
2002, p.148). Segundo o autor, nosso discurso está impregnado de
palavras dos outros, as quais podem ser “misturadas” a nossas
palavras ou cuidadosamente delimitadas, ficando à margem do discurso.
A presença de uma citação no texto depende do objetivo
do autor, pois ela pode ser utilizada para esclarecer, autorizar ou provar
o que se está falando. Na maioria das vezes, o discurso do outro
se encontra tão interiorizado no locutor que ele o sente como seu,
mas há momentos em que ele delimita as palavras do outro e faz
um comentário sobre elas. Pressupõe-se que a realização
de trabalhos de pesquisa, seja profundamente marcada por tais relações.
A aplicação da teoria bakhtiniana na sala de aula do ensino
fundamental demanda uma reflexão, por parte do aluno, sobre o assunto
proposto para a pesquisa; mais que isso, demanda uma incorporação
da leitura às atividades do seu cotidiano. Através de alguns
esquemas lingüísticos indicados ou ensinados pelo professor,
o aluno se torna capaz de distinguir o seu próprio discurso do
discurso alheio e de infiltrar o discurso de outro no seu, conservando,
na medida do possível, a integridade e autenticidade de cada um,
uma vez que,
na escola, deve-se trabalhar para que os alunos apreendam
ferramentas para estar no circuito social com conhecimento das regras
desse jogo e, assim, interferir nesse jogo, criando outras regras. Esse
movimento se constitui basicamente na esfera da linguagem, do discurso,
embora, de forma alguma, esteja restrito a ela. (GOULART, 2003, p. 104)
O discurso de outrem se mescla ao do autor e tem suas
fronteiras atenuadas pela utilização do léxico que
traduz a mesma ideologia. E, embora cada discurso conserve certas características
de seu autor, sua composição se dá na relação
dialógica entre os anunciados que se organizam em torno da relação
do autor com o outro. É importante ressaltar para o aluno que não
se pode alterar o texto transcrito, mas se deve manter as formas originais
do texto com aspas, negrito, itálico, maiúscula e pontuação
adequada. É importante também lembrar que o excesso de citações
deve ser evitado, pois incomoda a leitura e o leitor sente-se desmotivado
para ler.
O aluno, ao ler, responde interiormente ao discurso do outro, e, ao escrever,
expressa valores, pois é “no quadro do discurso interior
que se efetua a apreensão da enunciação de outrem,
sua compreensão e sua apreciação, isto é,
a orientação ativa do falante” (BAKHTIN, 2002, p.
147). Entre a leitura e a escrita encontram-se a formação,
a crítica, a análise do que se recebeu e do que vai ser
concretizado em palavras, que refletem e refratam o mundo e sintetizam
a diversidade de experiências que o indivíduo adquire. Conforme
Amorim (2003, p. 13), “o pluralismo do pensamento bakhtiniano, traduzido
nos conceitos de dialogismo e de polifonia, é lugar de conflito
e tensão, e os lugares sociais de onde se produzem discursos e
sentimentos não são necessariamente simétricos”.
A SOCIALIZAÇÃO DA PESQUISA
Todo pesquisador deseja poder mostrar para a comunidade sua descoberta
e a nova verdade que alcançou, submetendo-a à análise,
crítica e avaliação. No contexto do ensino fundamental,
cabe ao professor proporcionar ao aluno um momento no qual ele possa explicar
suas descobertas aos colegas, ou possibilitar-lhe a exposição
de cartazes e pôsteres, a participação em feiras do
conhecimento, a elaboração de um jornal escolar ou, ainda,
a participação em eventos inter-escolares.
A pesquisa é uma atividade escolar realizada para
construir conhecimentos modernos e argumentados, resultantes
de questionamentos críticos e criativos, capaz de servir de base
para a intervenção na realidade. [...] A capacidade de comunicar
e defender argumentos que fundamentem essas hipóteses caracteriza
o sujeito histórico capaz de elaboração própria
e de assumir seu papel como cidadão participativo e criativo. (Moraes,
2002, p.212)
A finalidade maior da comunicação é
proporcionar ao aluno um momento em que ele possa expor claramente seu
ponto de vista e desenvolver sua capacidade argumentativa, transformando
a realidade já existente. Com a socialização dos
resultados, o conhecimento é elaborado através do discurso
coletivo; este não está pronto e nem pertence àquele
que o descobriu, mas é transformado e re-elaborado de acordo com
que o outro entendeu e exteriorizou. A comunicação proporciona
ao “descobridor” a possibilidade de intervenção
da realidade e, ao mesmo tempo, aos interlocutores a transformação
e a construção de sua forma de pensar e compreender a sua
realidade. A produção de um conhecimento constitui-se um
desafio importante para a vivência, pois resulta de reflexões
e discussões, e possibilita o desenvolvimento da capacidade de
argumentar, participando individual e coletivamente na produção
de um texto.
O currículo atual, praticado nas escolas, não é suficientemente
adequado a essa metodologia e algumas precauções devem ser
observadas, quanto a sua utilização, pois pouco adianta
buscar dados, coletar informações ou ler, se não
houver um questionamento sobre o assunto e a reformulação
desse novo conhecimento, em que cada um tem o seu papel definido. A finalidade
da pesquisa não é saber o que o aluno aprendeu do conteúdo
estudado, mas, basicamente, como está o processo de desenvolvimento
da leitura critica, da reflexão e de sua postura como autor.
Se orientado adequadamente, o aluno não aceita simplesmente o que
recebeu em sala, mas procura por mais informações, argumenta
e desenvolve a habilidade de buscar a reformulação dos conceitos
dados pelo professor. Ele se dispõe a estudar mais e melhor, não
somente para fazer prova ou sair-se bem na avaliação, mas
principalmente, por querer saber mais e reconstruir seu conhecimento,
preparando-se para ser um bom profissional e, conseqüentemente, um
cidadão ético.
Quando o aluno persegue seus interesses e desenvolve sua capacidade de
raciocínio, aprende a duvidar, a propor, a escutar os outros, a
responder, a argumentar em favor de seu ponto de vista, e sustentar o
que diz com a devida fundamentação, ele está aprendendo
a fazer ciência e, principalmente, está construindo sua cidadania,
interferindo na realidade da sociedade em que vive e trabalha, assumindo
uma postura ética, política e econômica, adequadas
ao momento histórico por que passa seu país.
O professor procura, para garantir essa posição no aluno,
ele próprio, ter este “espírito” desbravador,
com caráter inovador. E, então, por sua vez, precisa de
conhecimentos práticos, associados aos teóricos, para se
posicionar como um pesquisador capaz e preparado para desafios inesperados,
e certamente para edificar sua própria formação acadêmico-profissional.
Para ser pesquisador capaz, ele precisa balancear a prática com
a teoria, renovar-se sempre, desenvolver por escrito a inovação
que ele formulou e mostrar aos colegas suas experiências, ao participar
de eventos para expor sua descoberta.
É fundamental, para o desenvolvimento da pesquisa, que o professor
realmente se comprometa com o processo e se posicione como um orientador
presente e exigente. Para o aluno, o apoio adequado é essencial,
no sentido de ajudá-lo a aprender a pesquisar e de possibilitar-lhe
o uso dos vários recursos imprescindíveis para a pesquisa.Avaliar
o processo do ato de pesquisa é focalizar a capacidade construtiva
do aluno, tanto o processo quanto o produto, é refletir sobre a
aprendizagem, com um acompanhamento permanente, durante todo o processo.
O produto, resultado da pesquisa, tem um valor expressivo, para o aluno,
para o professor e para a comunidade.
Entretanto, é vital ressaltar a validade de todas as aprendizagens
paralelas durante o processo da realização da pesquisa,
tais como: aprender a fazer uma pesquisa, compreender a leitura e aumentar
a capacidade de escrever e produzir textos científicos, desenvolver
a capacidade de enfrentar desafios e conquistar a autonomia. A compreensão
do mundo, através da linguagem, marcada por conceitos e sentidos,
conduz o aluno a revelá-lo e inventá-lo, de acordo com sua
visão. A realização de pesquisas é uma estratégia
que permite alcançar estas transformações, uma vez
que
pesquisar é um processo de desencantamento e de
encantamento simultâneos do mundo físico e social. Pesquisar
é também penetrar na intimidade das camadas de leitura que
vão sendo construídas pelo pesquisador através da
sua interação simbólica do mundo. Os meios simbólicos
não cessam de alimentar a compreensão que construímos
das experiências contemporâneas, criando sempre novas possibilidades
de interpretação de uma realidade em permanente mutação.
(JOBIM e SOUZA, 2003, p. 81).
Na realização da pesquisa, através
da leitura e da escrita, o aluno põe um olhar no mundo, e, utilizando-se
do senso crítico desenvolvido durante a vida escolar, completa
o discurso do outro, tece e constrói conhecimentos sobre as práticas
sociais do cotidiano. Nesse processo, o aluno acaba por construir-se a
si próprio como ser pensante, ligado ao mundo social pela sua expressão.
Isso porque “é pela linguagem, na linguagem e com a linguagem
que feixes de sentidos se constroem, dialogam, e disputam espaço,
instaurando-se como signos ideológicos” (GOULART, 2003, p.
105).
Professor e aluno podem constituir, juntos, novas formas de organizar
e entender o mundo. O aluno terá a oportunidade de apropriar-se
dos gêneros discursivos, ao mesmo tempo em que adquire novas idéias
através de textos lidos e das fontes pesquisadas; terá a
possibilidade de concordar com eles ou discordar deles, criticá-los,
discuti-los e avaliá-los, e alcançará, dessa forma,
sua formação como leitor crítico e autor autônomo.
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