Mirian Hisae Yaegashi ZAPPONE (UEM)
Este texto pretende apresentar, a partir de dados retirados
da pesquisa intitulada Retratos da leitura, realizada pela Câmara
Brasileira do Livro, em 2001, como o leitor, diferentemente do que se
costuma pensar, é constituído socialmente, dependendo, portanto,
das formas de sua inserção na sociedade. Os dados a serem
apresentados evidenciam que as relações estabelecidas entre
os indivíduos e os objetos de leitura não são construídas
apenas pelas preferências individuais (de âmbito privado),
mas mediadas por circunstâncias relacionadas ao público,
ou ao como os indivíduos situam-se socialmente. A apresentação
desses dados será relacionada com uma discussão sobre a
importância da leitura ou das práticas de leitura dentro
de um sistema literário, de modo que, a partir dos dados estatísticos
sobre a leitura no Brasil, serão discutidas algumas questões
sobre a importância do leitor na configuração do sistema
literário brasileiro.
De Platão, passando por Aristóteles, resvalando-se em Horácio,
em Quintiliano, Cícero e tantos outros que configuram a poética
antiga e, mais além, chegando a Mme de Staël, Taine, Victor
Hugo, Brunetière, para citar os críticos do século
XIX até os pós-estruturalistas, pós-colonialistas,
feministas etc de hoje, a grande disputa da crítica literária
tem girado em torno de como ler os textos, ou seja, em como atribuir-lhes
um sentido que os faça configurar como textos de valor. De acordo
com cada época e com cada crítico, estabelecem-se modos
de ler que, muito mais em função do lugar social ocupado
pelo crítico do que pelo valor intrínseco do texto, garantem
validade para os dizeres construídos a propósito dos escritos.
E assim, o rol de textos canônicos vão se formando e ajudando
a formatar o que é a literatura.
Embora a voz da crítica exerça um papel preponderante no
processo de construção dos valores literários, ela
não é a única instituição responsável
pela cristalização de um cânone, nem pela seleção
dos autores e obras que podem receber a chancela de literatura. Nas suas
relações com a sociedade, a literatura vai se moldando a
partir de diversos outros elementos e instituições.
Segundo Escarpit (1969:9), todo “fato literário pressupõe
escritores, livros e leitores, ou de uma maneira geral, criadores, obras
e um público”, idéia plenamente ratificada por Candido
(1985) ao propor que estes mesmos elementos – autor, obra e público
– constituam o que este crítico chamou de sistema literário.
Dentro do circuito ou sistema proposto pelos dois autores, a literatura
possui um tripla pertença, aliando-se aos espíritos individuais
dos autores ou produtores dos textos, relacionando-se aos problemas de
estilo, de linguagem e de técnica, em função dos
textos e criando problemas de ordem histórica, política,
social e até econômica em função da coletividade
– público que a ela pode ter acesso.
Ao adotar-se uma perspectiva sociológica para a abordagem do literário,
como o fazem Candido (1985) e Escarpit (1969), pode-se inferir que tal
viés privilegia a literatura enquanto uma prática social
específica de escrita e de leitura que é norteada não
só por questões de estilo e gosto, mas, e sobretudo, por
aspectos sociológicos importantes que abarcam desde a materialidade
do suporte onde os textos podem ser veiculados até os sistemas
jurídicos que regem as transações comerciais dos
mesmos.
Se a literatura existe através de textos, certamente, a leitura
ou os modos através dos quais ela foi e é lida prefiguram
os sentidos que ela teve e pode vir a ter. De forma que, hoje, seria pouco
proveitoso pensar no literário sem considerar sua natureza social
ou os complexos mecanismos que ajudam a construir aquilo que se chama
literatura (Eagleton, 1997; Culler, 2000; Escarpit, 1958).
Outra produtiva articulação entre literatura e mundo social
é aquela apresentada por Chartier, ao propor uma abordagem histórica
do fato literário. Para ele, a literatura não teria uma
natureza característica, própria, mas seria uma construção
de sentidos propostos para certos textos. A historicização
seria um modo de desvendar os mecanismos de construção do
literário, entre os quais a leitura teria importância preponderante:
Uma história da literatura é então
uma história das diferentes modalidades de apropriação
dos textos. Ela deve considerar que o “mundo do texto”, usando
as palavras de Ricoeur, é um mundo de “performances”
cujos dispositivos e regras possibilitam e restringem a produção
do sentido. (Chartier, 1997b, p.68)
Além da leitura, importa para Chartier a historicização
do literário, ou seja, a verificação de como acontecem
as variações, no tempo e espaço, entre o que é
considerado ou não literário. Em busca dessa historicização
da literatura, ele propõe o estudo de algumas categorias responsáveis
por construir a literariedade:
Decorre daí a definição de domínios
de investigações particulares (o que não quer dizer
próprias a tal ou tal disciplina): assim, por exemplo, a variação
dos critérios que definiram a “literariedade” em diferentes
períodos, os dispositivos que constituíram os repertórios
das obras canônicas; as marcas deixadas nas próprias obras
pela “economia da escrita” em que foram produzidas (segundo
as épocas e as possíveis coerções exercidas
pela instituição, pelo patrocínio ou pelo mercado),
ou, ainda, as categorias que construíram a “instituição
literária” (como as noções de “autor”,
de “obra”, de “livro”, de “escrita”,
de “copyright” etc.) (Chartier, 1997b, p.68-9).
Na mesma direção, Lajolo e Zilberman (1991)
também consideram a literatura como objeto social e argumentam
que a literariedade de um texto não reside em sua própria
fatura, mas em negociações de sentido entre várias
instâncias que acabam por produzir ou criar o sentido de literário
para certos textos. Assim, para as autoras, gera-se um “intercâmbio
entre esferas, instâncias, formações, tecnologias,
saberes, instituições e projetos que integram e delimitam
o campo onde um texto se literaliza ou desliteraliza”. (LAJOLO;
ZILBEMAN, 1991:9).
Entre as várias instâncias que articulam o complexo circuito
que trocas que formata o literário, há três instâncias
fundamentais, a saber, os produtores dos textos (autores), os textos propriamente
ditos (obras) e os leitores ou públicos, sem os quais tal circuito
de trocas não se completa. Entre eles, ou mediando a relação
entre eles, inscrevem-se outros elementos.
Certamente, a existência de práticas letradas numa sociedade
configuram fator imprescindível para que a leitura e a escrita
sejam efetuadas. Consequentemente, a presença de escolas, bem como
de outras formas de letramento de outros espaços sociais, além
dos aspectos políticos que articulam os processos de escolarização
são importantes elementos que fazem mediação entre
o circuito autores/obras/público.
Imprescindível também para a caracterização
do literário é a existência de práticas discursivas,
nem sempre coesas e unânimes em julgar os textos, mas fundamentais
para a legitimação da literatura e para a divulgação
de seus valores junto ao público, como é o caso da crítica
literária. É preciso assinalar que, em tempos de globalização
do mercado editorial, o discurso crítico tem se amplificado. Se
antes estava restrito aos círculos estritamente especializados
e elitizados dos críticos de ofício ou da crítica
universitária, mais recentemente, as vozes mais recorrentemente
ouvidas pelo público ecoam das rápidas resenhas de jornais
e revistas semanais.
A interação autor/texto/leitor exigida como condição
para que a literatura viva como uma manifestação cultural
implica, também, na passagem por caminhos muito práticos
e materiais dentro da sociedade de consumo. Assim, uma outra instância
importante para a caracterização do literário refere-se
às formas de produção, de distribuição,
de compra até, enfim, as formas de acesso e de recepção
de um texto. Assim, pode-se inferir que as práticas de leitura,
entre as quais se pode incluir a leitura de textos literários,
dependem, diretamente, da possibilidade concreta da produção
material de objetos de leitura. Assim, além de manifestação
cultural, como assinala Escarpit (1958, p.12), “não é
indiferente, em suma que a literatura seja – entre outras coisas,
mas de forma incontestável - o ramo da produção da
indústria do livro, do mesmo modo que a leitura é seu ramo
de consumo.” (grifos do autor)
Transformada em um objeto de consumo, a literatura não pode prescindir
de um sistema de produção e comercialização
que abarca desde fábricas de papel, casas editoras, distribuidoras,
livrarias e outros pontos de venda e mesmo instituições
voltadas ao cultivo do livro e da leitura que erijam o livro como um bem
necessário. Ao lado deste sistema, outro, não menos importante,
refere-se ao desenvolvimento de legislação pertinente que
possa regular o funcionamento das diferentes esferas do processo econômico
e material dos textos e que completa o amplo circuito de trocas por meio
do qual se constitui a literatura.
Inserida em sociedades de moldes capitalistas, a literatura orquestra
sinuosos caminhos que evidenciam certa sujeição a elementos
regulatórios do sistema capitalista. E assim, deixa de ser um construto
idealmente artístico regido apenas por leis da gratuidade e da
criatividade humana, livre de injunções outras que não
sejam a inspiração e inscreve-se, desse modo, como um bem
de consumo caracterizado por suas relações com o sistema
capitalista.
Dentro desse sistema e considerando-se as instâncias anteriormente
descritas, como se configura, atualmente, a esfera do consumo ou da leitura
do texto literário em nosso país? O que podem nos dizer
os dados sobre leitura no Brasil?
As pesquisas sobre leitura no Brasil são rarefeitas. Entretanto,
algumas pesquisas importantes têm sido realizadas recentemente..
Dentre elas, pode-se citar a amplo mapeamento feito, em 2001, pela Câmara
Brasileira do Livro que rastreou os índices de leitura no Brasil,
bem como dados sobre preferências de leitura, na pesquisa intitulada
Retratos da Leitura. Ao seu lado, outra importante pesquisa foi realizada
pelo Instituto Paulo Montenegro – uma fundação organizada
pelo IBOP- que trabalhou com o INAF – Ïndice Nacional de Alfabetismo
Funcional, também em 2001.
Para fins desse texto, serão utilizados os dados da pesquisa Retratos
da leitura. A pesquisa entrevistou indivíduos alfabetizados com
idade igual ou superior a 14 anos, residentes em 50 localidades de todas
as regiões do país. Considerando a população
brasileira em 2000, a pesquisa permite projeções para um
total estimado de 86 milhões de leitores.
Os dados gerais da pesquisa contrapõem-se contundentemente à
idéia do Brasil como “povo sem leitura”. Dentre o universo
pesquisado (população alfabetizada com mais de 14 anos)
, 62% ou uma população estimada de 53,32 milhões
de pessoas afirmaram realizar leituras habituais, o que inclui, segundo
os organizadores da pesquisa, textos mais simples como placas de rua a
textos mais complexos como jornais e mesmo livros. Essa categoria de leitores
foi nomeada leitores habituais.
Dados sobre esta categoria de leitores foram obtidos mediante questionamento
sobre gêneros que haviam sido consultados, folheados ou lidos e
com os quais os entrevistados tiveram contato no período de 12
meses anteriores à pesquisa. Dentre as opções apresentadas
nos questionários da pesquisa, os índices de leitura dos
gêneros mais presentes na vida dos leitores foram: 85% disseram
ler folhetos de propaganda; 84% apontaram a leitura de placas de rua;
78% disseram ler letreiros de ônibus; 75% afirmaram ler revistas;
68% jornais e 62% livros.
Considerando que a leitura de placas de rua, cartazes e letreiros de ônibus
são bastante elementares e situam-se como leituras pragmáticas,
os índices podem parecer baixos, visto a população
pesquisada ser alfabetizada. Entretanto, quando se olham os índices
relativos à leitura de jornais, revistas e livros, que requisitam
um tipo de leitura mais complexa em função de serem textos
mais amplos, com frases mais longas e exigirem maior necessidade de intelecção
por parte do leitor, os índices passam a ser bastante expressivos.
E, nesse sentido, bastante comprovadores da presença da leitura
no Brasil.
Além dos jornais, revistas e livros, foram também citadas
como leitura dos leitores habituais 26 outras categorias de leituras,
entre as quais se destacaram os religiosos (incluindo a Bíblia)
com 43%, os escolares com 33%, dicionários e enciclopédias
com 29%, culinária ou receitas 22%, quadrinhos 21%, poesias 23%,
livros infantis para crianças 21%, aventura 17%, biografias/história
de pessoas famosa 16%, livros e manuais de informática 17% psicologia
e filosofia 15% outros gêneros com percentuais menores.
A pesquisa traz, ainda, outros dados que reforçam a idéia
de que ler no Brasil não é prática tão esporádica.
Com relação à leitura específica de livros,
a pesquisa considerou como leitores efetivos aqueles que leram ao menos
um livro nos últimos 3 meses anteriores à pesquisa. Esses
leitores corresponderam a 30% dos entrevistados o que equivale a um total
de 26 milhões de pessoas acima de 14 anos. A média de livros
lidos pelo leitor efetivo chega a 3.33 livros no período questionado,
o que equivale à leitura de um livro por mês para cada leitor
efetivo.
A pesquisa aponta que o grau de escolaridade tem influência decisiva
sobre a leitura no caso dos leitores efetivos, pois 63% deles possuem
grau de instrução superior, 38% possuem ensino médio,
26% estão no 3o ou 4o ciclo do ensino fundamental (5a a 8a série)
e 16% estão no 1o ou 2o ciclos (1a a 4a séries). Outro fato
que comprova a importância da escolaridade nesse grupo de leitores
é a análise de sua faixa etária: 45% desses leitores
estão na faixa etária entre 14 e 19 anos, 33% possuem entre
20 a 29 anos, 28% possuem de 30 a 39 anos e 24 % possuem mais de 40 anos.
Como se nota, os maiores percentuais de leitores efetivos estão
nas faixas etárias mais baixas, portanto, de idade escolar que
abarcam desde o ensino fundamental até o nível superior.
Com relação ao nível sócio-econômico
dos leitores efetivos, o que se nota é a forte presença
dos estratos de renda mais elevada: 60% dos leitores efetivos são
da classe A, 37% da classe B, 27% da classe C e 21% das classes D/E. Se,
percentualmente, a classe A aponta os maiores índices de leitores
efetivos, estatisticamente ela não representa o maior número
de leitores. Projetados esses percentuais para as quantidades da população
brasileira pertencentes a cada uma dessas classes, os números surpreendem:
a classe A representa 3,6 milhões de leitores; a classe B, 8 milhões;
a classe C, 9 milhões e as classes D/E, juntas, 5,6 milhões.
Do que se conclui que, numericamente, o maior público leitor encontra-se
nas classes B e C, com um total de 17 milhões de leitores efetivos
de livros.
Os índices da leitura efetiva (leitura de livros nos últimos
3 meses anteriores à pesquisa) permitem que se questione a tese
da ausência da leitura no Brasil. Comparados com índices
de leitura efetiva de dois outros países (França e Portugal),
os índices de leitura efetiva no Brasil são bastante representativos.
Em 1989, o Ministério da Cultura e Comunicação da
França realizou pesquisa semelhante à pesquisa Retratos
da Leitura no Brasil intitulada Les Pratiques Culturelles des Français
en 1989 . Na França, os índices de leitura efetiva (últimos
3 meses) apontou um índice de 49% em 1989, o que correspondia,
naquele momento, a um total de 23,5 milhões de leitores franceses.
Em 1995, o Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro de Portugal patrocinou
a pesquisa intitulada Hábitos de leitura: um inquérito à
população portuguesa que identificou um índice de
37% de leitores efetivos, o que correspondeu, em 1995, a um total de 3
milhões de leitores portugueses.
Como se nota, os índices não são tão superiores
ao brasileiro, sobretudo se se considera que as condições
de acesso ao livro, o poder aquisitivo em geral do brasileiro e mesmo
as condições gerais de circulação de bens
culturais no Brasil devem ser mais restritas do que a da França
e a de Portugal, levando-se em conta a posição econômica
desses países em relação ao Brasil. Entretanto, considerados
os números de leitores, o Brasil, com seus 26 milhões de
leitores efetivos representa um mercado editorial altamente atrativo,
pois supera a França em 11% (23,5 milhões) e tem 8,5 vezes
o número de leitores de Portugal (3 milhões de leitores).
Dentro desse universo, a pesquisa detectou também os leitores correntes,
ou seja, aqueles que liam um título no dia da entrevista. Esses
corresponderam a 14% dos entrevistados, o que indica um total de aproximadamente
12 milhões de pessoas. Dentre as leituras apontadas pelos leitores
correntes, 29% declarou estar lendo literatura adulta, 20% religião,
18% Bíblia apenas, 19% Filosofia e psicologia, 11% Ciências
Sociais, 7% Ciências Aplicadas, 6% Generalidades, 6% Geografia e
História, 4% Literatura infanto-juvenil, 3% Línguas, 4%
Ciências puras e, posteriormente, Artes, Lazer e Desportos, Educação
Básica com menores percentuais. 16% dos livros indicados pelos
entrevistados não puderam ser classificados em nenhuma dessas categorias.
A pesquisa aponta que, para todos os tipos de leitores pesquisados (leitor
habitual, leitor efetivo e leitor corrente), os fatores escolaridade e
classe econômica tiveram relação direta com a leitura.
Segundo os dados levantados pela pesquisa, em todos essas categorias de
leitura, a presença de leitores cresce nos estratos de renda mais
elevada e nas faixas de escolaridade mais elevadas. O livro, separadamente
de outros materiais de leitura, é mais valorizado e apreciado por
pessoas com curso superior. 91% dos entrevistados com nível superior
concordam totalmente que o livro é uma forma de transmissão
de pensamento, 80% dizem que o livro é importante forma de atualização,
85% concordam que o é importante ler para os filhos, 74 % gostaria
de ler do que lia na época da entrevista, 75% afirmou que ler era
algo que dava prazer. Os índices percentuais relativos a cada uma
dessas afirmações vão diminuindo de acordo com o
nível de escolaridade dos entrevistados, respectivamente relativos
a ensino médio, 5a a 8a séries e 1a a 4a série. Isso
permite perceber a importância fundamental da escola e, conseqüentemente,
do professor na formação do leitor.
Se escolaridade e poder econômico estão diretamente relacionados
ao perfil dos leitores no Brasil, esses mesmos fatores também se
refletem no perfil daqueles que afirmaram não gostar de ler. Na
pesquisa Retratos de leitura no Brasil, eles são identificados
como não-apreciadores da leitura e somam 15,4 milhões de
pessoas, ou seja, um percentual relativo a 17,9% dos entrevistados e,
inversamente do que acontece com a categoria dos leitores, os maiores
percentuais dos não apreciadores estão nas classes D/E com
22%, classe C com 18%, classe B com 14% e classe A com13%. Como se vê,
conforme as condições econômicas se elevam, menores
são os números dos não-apreciadores.
O mesmo fato é observado com relação à escolaridade:
35% dos não apreciadores possuíam escolaridade entre 1a
a 4a séries, 31% entre 5a e 8a séries, 21% tinham ensino
médio e apenas 8% tinham nível superior. O que se nota,
portanto, é que a escolaridade quebra barreiras contra a leitura,
já que a não apreciação decai conforme os
níveis de escolaridade aumentam.
Observando tais dados, o que se pode concluir é que o leitor brasileiro,
como qualquer outro, é socialmente (questões de gênero,
de classe social, de grau de escolaridade, de faixa etária), historicamente
(passagem da leitura rarefeita para números cada vez maiores de
leitores) e economicamente (classes sociais, acesso a materiais de leitura
etc) configurado.
Ao mesmo tempo, pode-se perceber que a formação ou construção
do leitor depende, portanto, das circunstâncias em que os indivíduos
travam contato e desenvolvem práticas letradas (questões
de letramento). Assim, conclui-se que a leitura, portanto, não
pode ser entendida apenas como uma questão de gosto ou de hábito
que depende exclusivamente das preferências individuais, pessoais
de um indivíduo. A leitura é uma atividade/habilidade que
depende, além dos fatores mencionados (sociais, históricos,
econômicos), das práticas de leitura ensejadas sobretudo
na escola, principal agência de letramento em nossa sociedade.
Outra importante observação que se deve fazer a propósito
desses dados, é que a leitura literária é apenas
uma das práticas de leitura efetuadas em nossa sociedade, e que
depende, sobretudo, de um alto grau de escolarização. Aprende-se
a ler literatura e a valorizá-la em certos contextos, especialmente
o escolar.
Finalmente, a propósito desses dados e das relações
aqui propostas entre literatura e leitura, restam alguns questionamento
sobre os quais pesquisadores da área de educação
literária podem refletir: Quais práticas de leitura escolar
têm patrocinado a leitura literária? Quais as condições
do letramento literário em nossa sociedade? Como ampliar tal letramento
em grau e em número? De que maneira as configurações
do leitor atual reflete-se sobre o sistema literário literalizando/desliteralizando
os textos?
Essas questões evidenciam o quanto o tema da leitura está
diretamente relacionado à construção da literatura
enquanto conjunto de textos de valor e apontam para o fato de que quanto
mais soubermos sobre as práticas de leitura dos brasileiros, mais
poderemos compreender o real impacto da escrita e da leitura em nossa
sociedade o que, certamente, pode resultar em diretrizes para políticas
sociais e educacionais voltadas para a elevação do grau
de letramento de nossa população e consequentemente, para
o incremento da leitura do texto literário.
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