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ENTRE O OLHO E O ESPÍRITO: COMO AS FOTOGRAFIAS SÃO LIDAS?

Magali Alonso de Lima*

“Entre as peculiaridades mais notáveis da língua grega encontra-se a vinculação que sói oferecer o verbo ver com o ato do conhecimento. Uma das raízes, em nada secundária, do próprio surto da filosofia na Grécia prende-se justamente a tal vinculação. Mais ainda, esse surto da episteme insere-se num processo evolutivo que mostra uma verdadeira educação do ato de ver. Realmente, a visão humana não se deixa elucidar apenas em nível fisiológico, e sequer no psicológico – já são muitos os autores que analisam o seu exercício enquanto indissociável de um sentido instaurador da própria gênese da percepção. De resto, tudo aqui se faz histórico: há uma história do ver que acompanha os marcos mais decisivos do evolver da cultura ocidental.” (grifos meus)

As palavras são utilizadas a partir de “nosso olhar” sem que estejamos atentos às ambigüidades de seus sentidos . Desde o “amor à primeira vista”, ou seja, aquele que nos enreda de imediato ao “mau olhado”, presságio de muitas desventuras, ao “ponto de vista” que cada um tem a respeito de determinado assunto ou questão; o “ser (ou é) evidente”, ou seja, quando algo é considerado efetivamente “verdadeiro”; “ter ou não ter algo a ver”, no que diz respeito às relações entre as coisas, pessoas ou fatos; “veja o que diz”, ou seja, preste atenção às palavras que está dizendo; ou, em outra versão, o “olhe aqui!” querendo fazer relação entre o ver e o escutar, ao invés de ser dito “escute!”; “ver para crer”, ou seja, siga S. Tomé; entretanto, “o que os olhos não vêem o coração não sente”; “visionário” é tanto aquele que vê mais e mais longe, quanto aquele que é um sonhador, ou seja, aquele que nada vê; também “quem olha para dentro de si vê melhor”; quando algo é muito feio ou desagradável, fechamos os olhos para que tenhamos a sensação de que aquele fato não existiu; olhar de(do) poder, os “olhos do rei”; “em terra de cego quem tem um olho é rei”; ou sua outra versão, “em terra de cego quem tem um olho os outros furam”. “Mas também capaz de sinceridade quando, olhos nos olhos, cremos que o olhar expõe no e ao visível nosso íntimo e o de outrem.” Entretanto, com o “olho clínico” fazemos diagnóstico, assim como com os “olhos mágicos”, olhamos através das portas e, através do “olho gordo”, podemos acabar no “olho da rua” .

“Porque cremos que a visão se faz em nós pelo fora e, simultaneamente, se faz de nós para fora, olhar é, ao mesmo tempo, sair de si e trazer o mundo para dentro de si. Porque estamos certos de que a visão depende de nós e se origina em nossos olhos, expondo nosso interior ao exterior, falamos em janela da alma.”

Triste engano, “quem olha, olha de algum lugar” . Essa crença primitiva, denominada por Merleau-Ponty de “fé perceptiva”, ou seja, crença na espontaneidade tácita de ver o mundo, como se fosse de fácil entendimento, objetivo, tem sido objeto de conhecimento em distintos campos, filosófico, epistemológico, antropológico, semiológico, fotográfico, etc., produzindo diferentes “olhares”, portanto distintas perspectivas no ato de conhecer. O conhecer, por sua vez, implica o entendimento dessas categorias que são essencialmente filosóficas.

Para Cardoso , na língua corrente ver e olhar contêm significados diferentes, dependendo da “maior ou menor intervenção e responsabilidade da visão”, o que pode significar até mesmo oposição de sentidos.

“O ver, em geral, conota no vidente uma certa discrição e passividade ou, ao menos, alguma reserva. Nele um olho dócil, quase desatento, parece deslizar sobre as coisas; e as espelha e registra, reflete e grava. Diríamos mesmo que aí o olho se turva e se embaça, concentrando sua vida na película lustrosa da superfície, para fazer-se espelho... Como se renunciasse a sua própria espessura e profundidade para reduzir-se a esta membrana sensível em que o mundo imprime seus relevos. Com o olhar é diferente. Ele remete, de imediato, à atividade e às virtudes do sujeito, e atesta a cada passo nesta ação a espessura da sua interioridade. Ele perscruta e investiga, indaga a partir e para além do visto, e parece originar-se sempre da necessidade de ‘ver de novo’ (ou ver o novo), como intento de ‘olhar bem’. Por isso é sempre direcionado e atento, tenso e alerta no seu impulso inquiridor.” (grifos meus)

Esse deslocamento do ver para o olhar, ou da visão involuntária para o ver deliberado, pode mudar uma maneira de perceber o mundo em que se vive. Acredito que esse seja essencialmente o objetivo da educação: “ver” e em seguida aprender a “olhar” o mundo de outras maneiras, não só no sentido textual imagético, como também no textual escrito e verbal. Pois o “ver” nesse sentido espontâneo “conota ingenuidade no vidente (...) sugerindo contração ou rarefação da subjetividade” . O olhar, que indica intenção, “trai sempre um certo urdimento, algum cálculo ou malícia – as marcas do artifício sublinham a atuação e poderes do sujeito” . No caso específico da fotografia essa distinção torna-se fundamental.

“A visão – a simples visão –, ainda que modestamente ciente de seus limites e alcance circunscrito, supõe um mundo pleno, inteiro e maciço, e crê no seu acabamento e totalidade.”

O olhar tem outra consistência. É um olhar de estranhamento, do colocar-se no mundo frente a descontinuidades, a coisas inacabadas, olhar que procura, “escava, fixa e fura”, além das aparências, da magia das perspectivas, da opacidade das sombras. É um olhar vertical e não horizontal. Nesse sentido de verticalidade do olhar, do estranhamento necessário ao movimento do conhecimento, Da Matta indica como o pesquisador em campo desconstrói-se ao transformar o exótico no familiar e/ou transformar o familiar em exótico no ato do conhecimento, ou no ato de “olhar”.

“Na segunda transformação [do familiar em exótico], a viagem é como a do xamã: um movimento drástico onde, paradoxalmente, não se sai do lugar. E, de fato, as viagens xamanísticas são viagens verticais (para dentro ou para cima) muito mais do que horizontais, como acontece na viagem clássica dos heróis homéricos. E não é por outra razão que todos aqueles que realizam tais viagens para dentro e para cima são xamãs, curadores, profetas, santos e loucos; ou seja, os que de algum modo se dispuseram a chegar no fundo do poço de sua própria cultura. Como conseqüência, a segunda transformação conduz igualmente a um encontro com o outro e ao estranhamento.”

O olhar, portanto, estranha, “verticalmente” e “pensa” para conhecer. E porque pensa, o indivíduo decodifica de muitas maneiras, inscrevendo-se diferentemente nesse mundo. Entretanto, entre o ver e o olhar há necessidade de um salto, e não de continuidade mais aprofundada na percepção. As palavras gregas e latinas expressam de uma maneira rica, porque complexa, as distintas formas de ver/olhar, principalmente a que diz respeito à teoria do conhecimento – “pois théoria, ação de ver e contemplar, nasce de théorein, contemplar, examinar, observar, meditar, quando nos voltamos para o théorema: o que se pode contemplar, regra, espetáculo e preceito, visto pelo théoros, o espectador.”

“Sem dúvida, a teoria é apenas isso; um ver concentrado e repetido, um ver que sabe ver, que inventa meios para ver cada vez melhor. E é nessa educação do olhar, a partir dela, que se institui toda a filosofia e as ciências do Ocidente, e até mesmo o saber voltado para o prático, como atesta a escola médica de Cós, que calou a boca do feiticeiro e ensinou a estabelecer um diagnóstico a partir de um olhar atento.” (grifos meus)

A comparação entre o olho e o espírito costuma ser tão freqüente em aprendizados escolares que em geral se banaliza essa compreensão . Por que a visão, em detrimento de outros sentidos, como a audição, ocupa os “olhos do espírito”? Entretanto: “será que a comparação ou a metáfora visual exercem realmente a mesma função em todos os autores e em todos os contextos?” . Certamente que não. Isso significa afirmar que, a partir do saber que cada autor constrói, seu “olhar” partirá desse conjunto de elementos por ele recortado; portanto, da educação recebida, seja formal e/ou informal. Daí a complexidade do olhar, ou melhor, do saber, ou, para outros, do conhecimento. O que interessa desvendar nessa construção é exatamente tal pluralidade de percepções que o recurso imagético, a fotografia, necessita para ser compreendida, numa sociedade “pós-moderna”, onde a visualidade ocupa sem dúvida lugar privilegiado, gerando com isso muitos equívocos, contradições e poder (da mídia, por exemplo).

Discussão complexa essa do “olhar”, especialmente na filosofia, uma vez que a indagação fundamental é de fato sobre o que seja o conhecimento. Por isso mesmo é que acredito que o mito ou alegoria da caverna de Platão talvez ilumine ainda hoje movimentos de olhares tão caros à filosofia propriamente dita. A síntese realizada por Lebrun sobre a alegoria da caverna pode ajudar na compreensão entre aparência e realidade, tema extremamente pertinente na compreensão do “olhar fotográfico”, do “olhar” na Antropologia Visual ou na “educação do olhar”:

“(...) O que significa exatamente a saída para fora das trevas? Podemos dividir a história em quatro episódios:
1º) os prisioneiros, acorrentados, imobilizados, sem poder mover a cabeça, observam as sombras das marionetes que desfilam em uma parede. Eles as tomam por seres verdadeiros e crêem ouvi-las falar, quando na realidade ouvem as vozes dos carregadores;
2º) o cativo liberto, deslumbrado pela luz do fogo, é forçado a olhar as marionetes que passam por cima do muro;
3º) tirado para fora do antro, ele é de princípio cegado pela luz, e é incapaz de observar ‘o que agora chamamos de seres reais’. Aos poucos ele vai se acostumando. Observa as sombras e os reflexos, depois os próprios seres que projetam essas sombras.
4º) Seu olhar se eleva em direção ao sol. Ele conclui que esse é que produz a vida e as estações, e que é ‘de alguma forma a causa’ de tudo o que ele via quando estava sentado na caverna – para onde será forçado a retornar.”

Como para Platão a alegoria da caverna diz respeito à educação (paideía), Lebrun adverte que devemos nos colocar desde o início, para o entendimento do olhar que sabe diferenciar aparência e realidade, no lugar do prisioneiro, ou seja, daquele que nada sabe do que se passa por trás de suas costas. O que esse indivíduo vê são sombras, sob forma de marionetes dos indivíduos que passam entre o muro e o fogo. Na realidade, são sombras para quem está do lado de fora da caverna. Para ele são “realidades”. Da mesma maneira, o fogo é para ele a própria luz. Quando se encontra livre (fora da caverna), pode começar a perceber o que eram as sombras e o que é a realidade. Até então aparência e realidade eram a mesma coisa. O conhecimento começa a se dar a partir daí. Entretanto: “Será que ele conhece, nesse terceiro episódio, toda a verdade da situação que vivia até então?” . Deslumbrado com tanta luz por sair das trevas (no sentido da ignorância platônica ou ingenuidade cartesiana), corre o risco de ficar cego nessa reeducação, uma vez que nesse momento ele não sabe ainda distinguir “o que nós agora chamamos de seres reais com suas imagens” . Quando defronta-se diretamente com o sol, percebe “que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam em arremedo” . Quando, a partir daí, não houver mais nenhuma confusão entre aparência e realidade, poder-se-á dizer que ele tomou consciência (diríamos hoje) da situação de trevas em que vivia.

Portanto, é de seu estado de inconsciência que o “prisioneiro”, ao sair da caverna, está tomando conhecimento. Seu saber era um falso saber. O lugar em que agora está tem que ser percebido como outro. É desse outro lugar, ou melhor, desse “outro olhar”, que ele poderá distinguir-se daqueles que lá ficaram aprisionados pela ilusão da imagem como realidade. “No curso desta viagem em direção ao sol, ele precisou, em cada etapa, distinguir a própria coisa daquilo que ele acreditava ser a própria coisa na etapa precedente. Assim, cada ‘experiência’ contém a autocrítica da ‘experiência’ anterior” .

Tema caro à análise epistemológica da fotografia e à Antropologia Social e/ou Visual, o mito da caverna permite perceber que o descentramento, o “olhar vertical” e a mudança relativizada do olhar para o “outro” (no caso, do “outro” nas sombras) devem ser permanentemente exercitados, uma vez que:

“A dinâmica da vida por vezes nos coloca na situação de acorrentados que puderam dar uma olhada para a entrada da caverna. Como cientistas, os antropólogos estão permanentemente a questionar quais imagens dão forma às sombras e quem cria e carrega essas imagens, ou seja, o que está por trás da aparência imediata. O ofício da antropologia é procurar entrar em ‘cavernas allheias’ e lá buscar, nas formas aparentemente evidentes do comportamento do ‘outro’, as razões profundas determinantes da diferença. É através do domínio de diferentes códigos simbólicos que o antropólogo poderá melhor conhecer e interpretar o seu próprio, a fim de prosseguir na tarefa de compreender como um dado grupo social, numa dada época, vê e simboliza o mundo. Só consegue estranhar o outro aquele que primeiro sabe de si.”

O que se pode notar é que, muitas vezes, ingenuidade e ignorância se confundem, equivocadamente, por serem tomadas como coisas iguais. No mundo em que vivemos aparência e realidade estão sendo recebidas como sinônimas. A imagem nunca é o próprio original, seja ela de que natureza for. A fotografia quando interpretada, apresenta-se como simulacro dessa dualidade: “O que é lastimável não é que os homens tenham de se relacionar com imagens: é que não sabem que são imagens. (...) A razão de sua cegueira é mais simples e mais profunda: não pensam ainda por meio da separação ‘aparência/realidade’.”

“Nunca a questão do olhar esteve tão no centro do debate da cultura e das sociedades contemporâneas. Um mundo onde tudo é produzido para ser visto, onde tudo se mostra ao olhar, coloca necessariamente o ver com problema. Aqui não existem mais véus nem mistérios. Vivemos no universo da sobreexposição e da obscenidade, saturado de clichês, onde a banalização e a descartabilidade das coisas e imagens foi levada ao extremo. Como olhar quando tudo ficou indistinguível, quando tudo parece a mesma coisa?”

Acredito que mais do que nunca vive-se enganado pelas sombras platônicas. São simulacros que acabam sendo tomados como realidades. Mas aí cabe indagar: o que é nesse sentido o real? Na sociedade pós-moderna onde a velocidade das mudanças “achata” nosso olhar, fazendo com que as imagens se tornem generalizadas, “o próprio princípio de representação deixa de funcionar” . Ou seja, se no pensamento ocidental o princípio de representação constituía a própria realidade, o que se vê hoje é uma colagem entre aquilo que é real com o que é representação. Real, nesse sentido, é o que os meios de comunicação produzem para sê-lo. Para os jovens em especial que vivem nessa sociedade, outras formas de representação do mundo são construídas a partir de virtualidades que não estão nem no “real”, até então desejado de ser conhecido, nem na representação construída até então pelo “olhar ocidental”. Samain coloca-se diante dessas novas formas de comunicação visual da seguinte forma:

“Há mais de 500 anos que os estudos do homem vivem sob a hegemonia da verbalidade, da escrita em especial. Não tenho a certeza de que os filhos de nossos filhos saberão ler e escrever como sabemos fazê-lo. Eu sei, desde já, que o adolescente informatizado não olha o mundo da mesma maneira como eu o descobria há 40 anos. Uma coisa é certa: os homens de amanhã enunciarão o universo e organizá-lo-ão com base em outros parâmetros lógicos, gerados pelos novos suportes comunicacionais que continuarão esculpindo.” (grifos meus) (Fig. 1)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Onde está o William?...

(Fig. 1) O garoto William Ausenka, 11, que gasta cerca de três horas por dia no computador. Knapp, Eduardo. Folha de São Paulo. 2 de novembro de 2003. Caderno l. Fot. Colorida

Essa é uma discussão necessária e da maior importância hoje nos meios acadêmico e educacional. E, deste modo, o papel da imagem, virtual ou não (agora não mais entendida como simulacro, duplo, etc.,), cria realidade. Será que estamos voltando a um positivismo do olhar, agora, mais do que antes, imagético?

Referências Bibliográficas

ACHUTTI, Luiz Eduardo Robinson. Fotoetnografia: um estudo de antropologia social sobre cotidiano, lixo e trabalho. Porto Alegre: Tomo Editorial; Palmarinca Editora, 1977. 208 p.

ANDRADE, Rosane de. Fotografia e antropologia: olhares fora-dentro. São Paulo: Estação Liberdade: EDUC, 2002. 132 p.

BORNHEIM, Gerd A. As metamorfoses do olhar. In: NOVAES, Adauto (Org.). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, p. 89-93, 1988.

CARDOSO, Sérgio. O olhar viajante (do etnólogo). In: NOVAES, Adauto (Org.). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, p. 347-360, 1988.

CHAUI, Marilena. Janela da alma, espelho do mundo. In: NOVAES, Adauto (Org.). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, p. 31-63, 1988.

DA MATTA, Roberto. O Ofício de Etnólogo, ou com Ter “Anthropological Blues”. In: NUNES, Edson O. (Org.), A Aventura Sociológica. Rio de Janeiro: Zahar Editores, p. 23-35, 1978.

LEBRUN, Gerard. Sombra e luz em Platão. In: NOVAES, Adauto (Org.). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, p. 21-30, 1988.

PEIXOTO, Nelson Brissac. O olhar estrangeiro. In: NOVAES, Adauto (Org.). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, p. 361-365, 1988.

SAMAIN, Etienne. Questões heurísticas em torno do uso das imagens nas Ciências Sociais. In: FELDMAN-BIANCO, Bela e MOREIRA LEITE, Miriam L.(Orgs.). Desafios da imagem: fotografia, iconografia e vídeo nas Ciências Sociais. São Paulo: Papirus, p. 51-62, 1998.

 
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