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CULTURA VISUAL. ESTUDOS DE SEMIÓTICA E ANTROPOLOGIA

Marcos Rizolli - Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUC-Campinas
Universidade Presbiteriana Mackenzie

O presente relato define a parte inicial de projeto de investigação transnacional (Brasil e Portugal) sobre a cultura visual e pretende apresentar a dinâmica dos fenômenos comunicativos próprios da visualidade, presentes no cotidiano, na arte e na mídia. Formas de investigação epistemologicamente calcadas no pragmatismo da teoria semiótica e metodologicamente sustentadas pelas abordagens vivenciais da antropologia visual. O código da visualidade (os elementos visuais, dispostos em semioses), despreendido de sua matriz estruturante e evocado à constituição de campos de significação inscritos na percepção contemporânea – nitidamente escópica.

1. Hipótese

A nossa realidade espaço-temporal nos exige uma percepção instruída, que nos arremesse à compreensão das tessituras sígnicas, continuamente constituídas.

Estamos imersos numa contemporaneidade imagética. Plena de complexidades visuais.

Assim, deveríamos questionar:

Estamos habilitados para lidar com as informações visuais de modo instrumental?
Sabemos extrair valores de visualidade que não coincidam com impressões gerais, sustentadas pelo senso-comum?
Desenvolvemos diálogos competentes com as imagens, numa dimensão estrutural, crítica e criativa?

Ainda:

Somos sujeitos que, embora detentores de dispositivos percepto-cerebrais, não fazemos uso de suas potencialidades. Deveríamos agir como protagonistas das inúmeras extensões da visão: lentes óticas, microscópios, telescópios, fotografia, cinema, televisão, vídeos, holografias, infoimagens...desenhos, pinturas, esculturas...tudo, para desenvolver o olhar!

Uma expressão escópica, instruída pela linguagem. Dimensionada a partir de um Glossário de Linguagem Visual: uma constelação composta de pequenas partes que se encaixam umas nas outras e adquirem sentido quando se iluminam mutuamente...que determinam modos de construção e significação visual – na cultura.

2. Definição de um argumento

O objeto do presente projeto de pesquisa é a linguagem visual. Os elementos constituintes do código da visualidade. Unidades e sistemas de linguagem.
Um a um: todos.

Na qualidade de professor de arte – que num percurso de 20 anos pôde ensinar para todos os níveis do ensino oficial, centrando, nos últimos tempos, meus esforços na formação artística universitária, tanto na graduação quanto na pós-graduação – sempre me deparei com uma carência muito evidente de material analítico-reflexivo que soubesse apresentar a arte em sua estatura de linguagem.

Sempre me preocupou a inexistência de material de referência que pudesse promover o estudo de linguagem não somente como forma autônoma / liberal de expressão e sim como recurso humano de conhecimento sensível. Sempre me interessou a compreensão dos modos operativos das diversas linguagens artísticas – em especial as artes visuais – como estratégia de otimização dos processos de prática e consciência de linguagem. Sempre me ressenti da ausência de uma ampla e geral instrumentalização teórico-prática para o exercício de soluções criativas – quer fosse no cotidiano, nas artes, na educação, na cultura.

Então, percebida a possibilidade institucional de iniciar meus estudos de Pós-Doutorado junto ao Departamento de Antropologia Visual da Universidade Aberta de Portugal – Delegação Norte, em Porto, a idéia de fazer convergir minha formação em Arte e Semiótica – em níveis de graduação, mestrado e doutorado – com o inovador universo teórico e instrumental da Antropologia Visual vislumbra uma significativa potencialização do meu fazer pedagógico.

A linguagem visual, como objeto e método de pesquisa!

3. Delimitação objetiva do argumento

O que se quer é o diálogo meta-criativo entre o conhecimento semiótico, patrimônio anterior e pessoalmente adquirido, e a Antropologia Visual, recurso teórico-metodológico que se destina aos estudos timbrados pela cultura contemporânea, em suas interfaces com a visualidade. Estudar o universal e o constante da linguagem visual – seu código – e as multiplicidades expressivas, técnicas e sígnicas da linguagem visual – enquanto fenômeno exclusivamente humano.

4. Definição do objeto de estudo

O presente projeto de pesquisa abre-se aos estudos de linguagem e comunicação não-verbal na apresentação dos elementos visuais – entidades constituintes da linguagem da arte, com o interesse de expor suas possibilidades abstratas (conceitos meramente mentais), sintáticas (formas aparentes dadas à percepção) e demonstrar suas possibilidades semânticas (formas de expressão e significação). Pretende referir-se a cada elemento visual, determinando algumas informações conceituais básicas e configurando valores imagéticos diversificados. A saber:

Elementos Bidimensionais:

? Gráficos
Ponto
[Entre todos os sinais, o mais sensível que o homem pode determinar é o ponto

Um dos entres primitivos da geometria (onde-localização), o ponto geométrico não tem definição por não apresentar medidas. É nuli-dimensional.

Porém, se enquanto termo não encontra possibilidades de recepção, a construção intelectual humana recorre à traduções e, assim, teremos novos valores: o ponto físico e o ponto gráfico.

O ponto físico é a referência, foco visível da natureza – natural ou não. E, ponto gráfico é marca ou sinal de dimensão mínima que apresenta contraste com a superfície. Se oferece ao interesse da arte e como posição gráfica que representa o imaterial, ao admitir dimensão em relação ao espaço, encontra – imediatamente – a técnica.

Citemos Kandinsky: o ponto é o resultado do primeiro choque da ferramenta com o plano material, com o plano de base. Mediante este primeiro choque o plano básico é fecundado. O papel, a madeira, a tela, o estuque, o metal, podem constituir esse plano básico material. A ferramenta pode ser o lápis, a pena, a agulha, etc.

O ponto gráfico se manifesta como elemento de percepção visual que em possibilidades plurais alcança dimensões e variações, concentrações e espaçamentos, contrastes e tensões. Elemento plástico, opera expressões dinâmicas e significados visuais. Diz-se, então, de ponto compositivo – caracterizado como um dos elementos básicos para a criação artística. Elemento de abstração da realidade.

Sua aplicação pode servir para criar padrões, para expressar ritmos e movimentos ou gerar texturas.]
Linha (reta (horizontal, vertical, inclinada), curva, quebrada, mista)
Luz e Sombra (gradação, alto-contraste)
Textura Gráfica

?Pictóricos.
Forma (mancha, orgânica, configurada, geométrica)
Cor
Textura Pictórica

Elementos Tridimensionais:

Volume (orgânico, configurado, geométrico)
Saliência
Depressão
Vazio
Textura Física

Elementos Relacionais:
Plano
Espaço
Tempo

Sistemas de Linguagem:
Proporção
Perspectiva
Composição

5. Objetivo

O projeto de pesquisa CULTURA VISUAL. ESTUDOS DE SEMIÓTICA E ANTROPOLOGIA pretende despertar interesse instrumental no público universitário – estudantes de arte, publicidade e propaganda, arquitetura, desenho industrial, história, antropologia, pedagogia, psicologia...e o interesse informativo num público mais amplo, interessado em linguagem e arte, comunicação e cultura.

6. Metodologia

A linguagem visual se inscreve no universo dos fenômenos rebeldes a métodos fixos.

Portanto, a definição de um Glossário de Linguagem Visual deverá ocorrer a partir do diálogo entre duas teorias: Semiótica e Antropologia...aproveitando-se os seus escopos teóricos e metodológicos: semiótica visual e antropologia visual...a auto-geratividade da primeira e a auto-instrumentação da segunda.

Assim [qual é a função própria do homem senão a de corporificar idéias gerais em CRIAÇÕES DE ARTE, em VITALIDADES, e sobretudo em COGNIÇÕES TEÓRICAS? (Peirce, CP 6.476)], imersa no universo da linguagem visual, a pesquisa deverá dispensar atenção a todos os níveis e etapas do processo artístico: da gênese criativa que, como um lampejo, apresenta qualidades visuais (sensações formais e/ou cromáticas); das possíveis opções de materiais e técnicas; à crítica consciente que, das razões individuais expande-se ao coletivo.

Vejamos senão:

Em Kandinsky há o privilégio da cor; Mondrian se preocupa com a geometria das formas puras; no Renascimento, o valor classicizante da perspectiva e das proporções; em Caravaggio, o sentido dramático do claro-escuro; no Neo-impressionismo de Seurat, os pontos de cor...Formas infinitas de articulação visual.

Outrosssim, em termo de teorização:

Leonardo dedicou-se a estudar o chiaro-scuro, Piero, por sua vez, disse tudo acerca da perspectiva...Goethe estudou a cor, assim como fez, também, Wittgenstein...Kandinky estudou ponto e linha, enquanto Klee dedicou-se à forma.

Todos, estudos intensos...contudo, parciais!

Este projeto de pesquisa pretende fazer uso de uma metodologia de pesquisa híbrida, que saiba considerar todos os elementos visuais, em termos de autonomia e equivalência. Nos âmbitos de expressão e significação.

Os procedimentos de pesquisa, tal como propostos pela semiótica visual e pela antropologia visual, devem acontecer numa dinâmica auto-ajustável a cada um dos elementos visuais. Para se respeitar as suas peculiaridades percepto-cerebrais.

Contudo, um mecanismo-padrão de pesquisa deverá ser perseguido. Assim, para apresentar cada elemento visual, teremos:

1) Apresentação de dispositivos demonstrativos (imagens fixas: desenhos, pinturas, esculturas, fotografias...imagens móveis: seqüências fílmicas, holografias, info-imagens) que bem possam apontar a presença proeminente de um determinado elemento visual. Para apresentar o elemento ponto, por exemplo, poderemos utilizar reproduções das pinturas pós-impressionistas de Seurat ou Signac e, também, quadros de Riley, artista representante da arte-op.
2) Apresentação de recursos demonstrativos dos efeitos visuais possíveis de serem alcançados com o uso exclusivo de um determinado elemento visual – ampliando-se a dimensão prática da linguagem.
3) Catalogação criteriosa de estudos, tratados, teorias sobre cada um dos elementos visuais...num processo hierarquizado de frases, citações, depoimentos.
4) Conceituação de cada elemento visual, nas esferas: estruturantes (o código), expressivas (os meios) e significativas (em suas variantes poéticas).
5) Constituição de resultados compartilhados: a) textos parciais em co-autoria; b) texto autoral consolidado; c) resultados de pesquisa apresentados em versão impressa e em hipermídia – para bem aproveitar o programa de tecnologias digitais e antropologia.

Assim, acreditamos estar oferecendo aos estudos da linguagem visual um futuro produto de pesquisa que, através de interseções entre semiótica e antropologia, amplie o diálogo entre linguagem e cultura.

Que se coloque à frente destas questões individuais o trabalho colaborativo entre Brasil e Portugal, na definição comum – e tanto quanto possível, aproximada – de uma cultura visual contemporânea.

7. Relevância

Duas vocações devem ser percebidas neste projeto de pesquisa:

1) o seu caráter geral, que pretende, por manipulação contínua da linguagem visual (que lhe é objeto e método), identificar, contextualizar, categorizar e conceituar todos os elementos visuais.

2) a ambição de sistematização e síntese das mais básicas questões da visualidade contemporânea. Em sua carga instrutiva e niveladora. Definindo-se como um glossário-cartilha.

8. Cronograma

Duração da Pesquisa:
dois anos (2005/2006)

Atividades Iniciais:
Janeiro-Fevereiro/2005

Apresentação do Pesquisador ao Departamento de Antropologia Visual.

Atividades Programadas:

1) Apresentação do Projeto de Pesquisa Cultura Visual. Estudos de Semiótica e Antropologia
Departamento de Antropologia Visual – Universidade Aberta de Portugal – Porto.

2) Apresentação do Projeto de Pesquisa Cultura Visual Estudos de Semiótica e Antropologia
Departamento de Artes – Universidade Aberta de Portugal – Lisboa.

3) Contatos Institucionais de Pesquisa:
Escola de Belas Artes; Centro Português de Fotografia; Museu de Arte Contemporânea; Bienal de Vila Nova de Cerveira – Porto.
Fundação Gulbenkian – Lisboa.

17 a 19/fev – Organização e participação, com apresentação de trabalho, do Seminário Internacional Cultura das Imagens...Imagens da Cultura – Porto.

9. Referências Bibliográficas

Argan, G.C. e Fagiolo, M. (1994) Guia de História da Arte. Lisboa: Estampa.

Arnheim, R. (2000) Arte & Percepção Visual. São Paulo: Pioneira.

Brites, B. e Tessler, E. (Org.) (2002) O Meio como Ponto Zero. Porto Alegre: Editora da UFRGS.

Calabrese, O. (1986) A Linguagem da Arte. Lisboa: Presença.

Cole, A. (1993) Colour. London: Dorling Kindersley.

Dondis. D.A. (1991) Sintaxe da Linguagem Visual. São Paulo: Martins Fontes.

Fontoura, I. (1982) De.composição da Forma. Curitiba: Itaipu.

Kandinsky, W. (2001) Ponto e Linha sobre Plano. São Paulo: Martins Fontes.

Lucie-Smith, E. (1990) Dicionário de Termos de Arte. Lisboa: Dom Quixote.

Malins, F. (1983) Mirar un Cuadro. Madrid: H. Blume.

Monzeglio, É. (1975) Sobre o Tema da Cor. São Paulo: Gráfica FAUUSP.

Rizolli. M. (1999) Artista-Cultura-Linguagem. Um estudo sobre Metodologias Pictóricas. Tese de Doutorado.
São Paulo: PUC.

Santaella, L. (1989) Por uma Classificação da Linguagem Visual. Revista Face V. 2 N. 1. São Paulo: Educ.

Wick, R. (1989) Pedagogia da Bauhaus. São Paulo: Martins Fontes.

Wittgenstein, L. (1977) Anotações sobre as Cores. Lisboa: Edições 70.

Wong, W. (2001) Princípios de Forma e Desenho. São Paulo: Martins Fontes.

Zamboni. S. (2001) A Pesquisa em Arte. Campinas: Autores Associados.

 
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